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quarta-feira, março 25, 2020

Uderzo, o traço de Astérix



Sobre Albert Uderzo, que nos deixou ontem, lembre-se que o Astérix gráfico - os desenhos, as expressões, tudo - eram dele, mas Goscinny, o criador dos "irredutíveis gauleses", é que era o criador das histórias. Uderzo continuou a obra depois da morte do companheiro, mas sem a mesma genialidade ao nível do argumento. Mas não é por isso que deixará de ficar como figura de primeiríssima linha da história da BD e da cultura contemporânea.
(E neste tempo de mais silêncio, até o bardo Assurancetourix gostava de ouvir).


Nenhuma descrição de foto disponível.

terça-feira, março 22, 2016

Bruxelas, agora


Quando ouvi de manhã na rádio a notícia dos atentados de Bruxelas fiquei preocupado, mas não espantado. Era quase certo que mais dia menos dia haveria algo do género na sede das instituições europeias e capital do país que mais jiadistas enviou percentualmente para o Médio Oriente. A ameaça era latente, há poucas semanas Bruxelas tinha passado por um quase estado de sítio, depois dos atentados em Paris, e a prisão do seu orquestrador fazia pensar que as diversas células não iriam quedar-se no marasmo.
Mas fiquei particularmente incomodado porque ainda ontem à noite tinha estado a rever curiosidades e obras da BD fraco-belga, há muito um dos meus interesses, e a pensar que se fosse a Bruxelas, que não conheço, não seria para ver a Comissão Europeia, o Manneken Piss ou o Atomium, nem por causa dos chocolates (de que também sou fã), das moules frites ou dos jogos do Anderlecht, mas para ir ao museu de BD e às livrarias especailizadas. Na senda de Hergé, E.P. Jacobs, Bob de Moor, Morris e de tantos outros, um universo que em Portugal pode-se quando muito encontrar em alfarrabistas e antigas coleccções particulares e que se tornou na maior exportação e num dos cartões de visita da Bélgica. De tal forma que hoje, para exprimir o "luto", muitos cartoons inspiram-se em Tintin, provavelmente e ainda o "belga" mais conhecido.



PS: já que fazemos campanhas de solidariedade em cada atentado na Europa, que tal pensar na Turquia? Em duas semanas sofreram dois nas principais cidades, Istambul e Ankara, fora os dos meses anteriores.

quarta-feira, dezembro 18, 2013

As personagens reais que inspiraram Hugo Pratt


Mais de dois anos depois do fim oficial da guerra civil na Líbia, que começou com o levantamento da população de Bengazi, em Fevereiro de 2011, da morte do até aí todo-poderoso Muammar Kadhafi e da desintegração do regime "verde", o país permanece num caos, dividido entre milícias várias e grupos de jihadistas que não hesitam em atacar embaixadas e raptar membros do frágil governo vigente. É difícil adivinhar o futuro para esta imensa extensão de areia com uma costa habitável, dividida em três regiões naturais sobre enormes jazidas de petróleo.
 
Mas em tempos da 2ª grande Guerra, quando aquele território estava sob o domínio da Itália de Mussolini, houve alguém que se atreveu a "profetizar" o futuro daquela região. Escrevo entre aspas porque a "profecia", na realidade, datava do pós-guerra, e o "áugure" era o desenhador Hugo Pratt, criador do célebre Corto Maltese.
 
Numa outra série que assinou, Os Escorpiões do Deserto, Pratt narra as peripécias de um oficial polaco pouco ortodoxo, Koinsky, e a sua luta para minar as forças do Eixo no norte de África. A sua equipa, os tais Escorpiões que davam nome à série, era um grupo heterogéneo que juntava agentes sionistas judias, espiões gregos e beduínos da Cirenaica. 
É exactamente nesta região da actual Líbia que se dá um dos primeiros episódios, Nada a assinalar em Djaraboub. A cidade do título é um afrancesamento da al-Jaghbūb árabe, ou da Giarabub italiana (que inspirou mesmo um filme glorificando a presença dos transalpinos naquelas paragens), que se situa num oásis em pleno deserto líbio, e que era, e o álbum de Pratt refere isso mesmo, a cidade santa dos senússios, uma ordem muçulmana com ligações ao sufismo e que daria origem à dinastia dos Al Senussi, que reinou na Líbia até ao golpe de estado de Kadhafi, em 1969.
 
A propósito, no álbum, o líder espiritual dos senússios, Omar el Muchtar, que se revelará bem diferente do que parecia, tem o nome "emprestado" de Omar al Mukhtar, principal resistente líbio ao domínio italiano, que acabaria executado por estes, e cuja fotografia Kadhafi exibiu, colada ao uniforme, numa visita a Itália, para o recordar aos antigos algozes. Mas se repararmos bem, a personagem do livro lembra antes o verdadeiro líder da Ordem de Senussi à época, que se tornaria no Rei Idris, o primeiro soberano da Líbia unida, e também o último, porque seria destronado por um golpe de estado em 1969. Ou seja, Pratt resolveu fundir o resistente mártir e o líder espiritual e temporal, sem a menor sombra de dúvida, para criar uma personagem com fundamento que se visse.
                                                       Na foto de baixo, o Rei Idris da Líbia.
Mas o mais interessante é a personagem de Hassan el-Muchtar, de quem Pratt nos diz, na apresentação da personagem, o seguinte: "Hassan - sobrinho de Omar el-Muchtar, chefe espiritual da Senússia. Este beduíno representa para o seu povo a continuação da revolução dos senússios (Líbia)....Não se atreve a ser revolucionário, provavelmente por causa da sua formação. Mas Pratt garante-nos que o encontraremos mais arde, desemenhando um papel político mais vincado, no quadro da ideologia do seu país."
 
Hassan é um rebelde ambicioso mas precipitado, mais interessado no poder do que nos ensinamentos do Corão. Mas a menção de Pratt, a tal "profecia" do papel político mais vincado é curiosa. Em que grau se dará essa relevância política?
 
Olhando bem para a imagem, parece-me que adivinho: sim, isso mesmo, Hassan el-Muchtar não é outro senão...Muammar Kadhafi. O seu papel político será indubitavelmente vincado, mas a ideologia do país mudaria radicalmente para um regime de culto pessoal, misto de pan-arabismo, socialismo e islamismo. E a certeza confirma-se ao saber que os Escorpiões do Deserto tiveram a sua primeira edição em 1969, precisamente o ano da subida ao poder do então jovem coronel. Hugo Pratt daria portanto ao novel ditador honras de personagem numa das suas obras.

Não sei se seria uma demonstração de simpatia por Kadhafi e o novo regime, e de antipatia pelo velho rei Idris, cuja "inspiração" não fica bem na fotografia, ou neste caso, nos quadradinhos do álbum. O autor italiano era um rebelde, à boa maneira das suas personagens, e um iconoclasta, muito embora fosse simpatizante de ordens maçónicas. Certo é que que tanto Al Mukhtar, como Idris e Kadhafi passaram à história, e a eles sucedeu uma posição caótica cujo fim ninguém pode prever. Se fosse vivo, será que o desenhador italiano alteraria alguma coisa nos Escorpiões do Deserto? E a quem  - ou a que grupo, entre liberais, monárquicos, islamitas e "verdes" saudosistas de Kadhafi - atribuiria um futuro "papel político mais vincado"?
 

quarta-feira, março 07, 2012

Les Aventures de Tintin d´après Spielberg





Falei há dias dos filmes do ano passado. Um dos mais aguardados era a adaptação de Tintin ao grande ecrã por Steven Spielberg, e que teve uma nomeação discreta nos últimos Óscares, se excluirmos a rábula de Billy Crystal, disfarçado de Tintin numa cena da sua costumeira apresentação dos filmes.


Já vão uns tempos desde que o vi, mas voltei a recordá-lo a propósito dos filmes do ano passado. O grande projecto de Spielberg de levar ao grande ecrã uma adaptação do herói belga que se visse era um enorme desafio. A ideia já existia há mais de trinta anos, desde que o realizador americano conheceu Hergé, mas com a morte do desenhador belga o projecto ficou na gaveta durante décadas. Até que, depois de árduo trabalho e muito marketing, saltou para as telas.


Convenhamos que não é fácil adaptar BD ao cinema (a maioria das experiências é deplorável), quanto mais uma personagem com a carga mítica de Tintin, tão europeu, por americanos. Entendeu pegar-se em dois álbuns que se completam, O Segredo do Licorne e O Tesouro de Rachkam, o Vermelho (provavelmente os que conseguem aliar menor carga ideológica a maior dose de aventura), e acrescentar O Caranguejo das Tenazes de Ouro. Talvez fosse a abordagem mais correcta, por muito que gostasse de ver O Ceptro de Ottokar adaptado. Misturou-se tudo, criaram-se cenas novas, alterou-se o carácter de algumas personagens e filmou-se em motion-capture, com os actores a gesticular e a falar antes de serem revestidos pela imagem das personagens.

O resultado é satisfatório, confesso. As imagens da primeira parte no filme recriam uma Bruxelas fiel à época pós-Segunda Guerra (e aos álbuns), visível nos pequenos mercados de rua, na arquitectura e nos automóveis. Há ritmo, humor e aventura q.b. Os efeitos especiais são eficazes e a técnica encontrada para não pôr em cena personagens em carne e osso que eventualmente desvirtuassem os originais.


Mas à parte isto, devo dizer que vi mais o dedo de Spielberg que de Hergé. Até assisti a uma sessão dobrada em português e sem recurso a 3-D, para evitar uma visão mais "americanizada". Mas Spielberg, apesar de todos os esforços em contrário (ou não), estava quase sempre lá. Não sei se será propositado ou não. Mas Hergé parece ser o mero e longínquo inspirador das aventuras do filme e das suas personagens, como se tudo o resto fosse uma adaptação livre de um qualquer romance esquecido e jamais reeditado. Estamos a falar de um mundo muito europeu, que partiu de uma inspiração católica e desconfiada do Novo Mundo, e para um americano não será tão fácil de reproduzir. Apesar dos esforços, ainda não é o Tintin dos álbuns, se é que isso é possível. É um Tintin de Spielberg, e provavelmente continuará a ser em próximas sequelas. Hergé ficou nos quadradinhos. O encontro entre a banda desenhada e o cinema é das empresas mais difíceis e constrangedoras da existência humana dos últimos cem anos. Quando alguém o consegue, merece uma coroa de louros. Spielberg esteve lá perto, mas usou uns esboços já existentes para construir uma obra sua. Talvez se aproximasse mais se tivesse utilizado a banda sonora mais fiel às aventuras do repórter belga.




Já houve outras tentativas de levar Tintin ao cinema. Esta adaptação do Caranguejo das Tenazes de Ouro, de 1947, em bonecos de trapo, é a primeira, e provavelmente a mais terna.



segunda-feira, setembro 05, 2011

Estrunfes, Smurfs e a sua utopia estalinista



A silly season deste ano justificou amplamente o nome. Fosse porque era preciso abstrair da crise, fosse porque o executivo mudou, houve discussões que circularam entre o disparate e o humor. A medida da ministra Assunção Cristas, por exemplo, de dispensar os funcionários de levar gravatas durante o verão para os ministérios que tutela, exceptuando situações mais formais, levou a uma intensa discussão sobre se a gravata estava na moda, se estaria em declínio, ou se era um símbolo fálico que anunciava uma decadente masculinidade. Aproveitando este último mote, houve mesmo uma ex-secretária de estado da "igualdade" que aproveitou a deixa para exprimir o desejo que aquelas simples orientações se traduzissem "na emergência de novas masculinidades", que seriam "fundamentais para mudar de paradigma" e para uma "nova civilização", para além das "diferenças reprodutivas e biológicas". Que alguém que ache que entre homens e mulheres não deva haver diferenças (ou que se transformem em seres hermafroditas) chegou ao governo provoca alguns arrepios. Espero que não tenha muitas seguidoras, ou veremos nova vaga de feminismo radical, e do histérico.


Um dos casos mais curiosos da estação foi a indignação, seguida de uma vaga de saudosismo, com a estreia do filme Os Smurfs. Devo dizer que partilho de ambos, ou não tivesse tido uma imensa dificuldade em escrever o nome dos duendes azuis com aquela designação anglo-saxónica, usada também no Brasil, tão longe do original, e que ao que parece se deve ao facto dos detentores dos direitos dos bonecos quererem "uniformizar" os nomes em cada língua, o que significa que em Espanha eles têm mais do que uma designação, como nos conta Ricardo Araújo Pereira . Por azar, impingiram-nos a designação que os brasileiros usam, como se já não bastasse o famigerado Acordo Ortográfico, em lugar de fazer o contrário, isto é, pôr os brasileiros a usar o nosso Estrumpfe, que ao fim e ao cabo segue o original francês Schtroumpfs. Chamemos-lhes estrunfes, já que ainda podemos usar a nossa língua.


A afronta pode-se medir pela quantidade de artigos em jornais (além do supracitado do RAP) reclamando contra a nova designação e sobretudo contra o ataque à infância de toda uma geração, que por acaso também é a minha. Confesso: ver os estrunfes de sempre serem agora apelidados de smurfs revolve-me as vísceras. Seria como mudarem-me o nome de João para Jeremias. Se alguém acha o exemplo exagerado, pode sempre imaginar os nomes de Tintin, Astérix ou Lucky Luke alterados e ver a diferença. Ou ver o cómico exemplo da Estrunfina, agora chamada...Smurfina.


Mas a polémica desta nova versão é apenas mais uma num ano atribulado para as criaturas azuis. Não sei se por coincidência ou por estranho golpe publicitário em ano de filme, em Junho surgiu um pitoresco estudo de um ensaísta francês, de seu nome Antoine Buéno,que concluía que os bonecos azuis representavam uma "utopia estalinista e totalitária", além de exprimirem "anti-semitismo". Tudo porque "cada um se veste da mesma maneira, tem uma casa igual à do seu vizinho, e exerce a profissão mais adequada às suas habilidades, não sendo conhecidos pelo seu nome mas sim pela sua função na sociedade. Eis o velho jargão de Marx "de cada um as suas capacidades..." usado para caracterizar a aldeia dos estrunfes, juntamente com a homogenia arquitectónica e das vestes. Sempre pensei que as casas-cogumelos fossem um delicioso pormenor da série, mas afinal há quem pense que não. Assim como seria complicado desenhar as criaturas de forma diferente (é verdade que eles nem se distinguem), mas apanhar nomes para cada um deles seria tarefa complicada e desnecessária. A única coisa que noto vagamente aparentado com o marxismo é algum utilitarismo.

Outras comparações que o estudioso faz é a do Grande Estrunfe (com as suas barbas e o seu barrete vermelho) com Estaline, ou a dos Estrunfe dos Óculos com Trotsky. Aqui, a pressa é visível: o Grande Estrunfe é tudo menos um tirano, apesar da sua autoridade e dos seus poderes alquímicos, e o dos Óculos está longe de ser um opositor, sendo antes um seguidor até ao limite do primeiro da aldeia, seguindo à risca (e de forma particularmente graxista) as suas ordens. A ausência de propriedade e de iniciativa privada, bem como de "mercados", é outra coisa que não faz espécie à maior parte dos mortais, mas alguém se lembrou disso, como se os autores não tivessem mais nada que fazer.

As acusações de anti-semitismo são mais compreensíveis. O inimigo mortal dos estrunfes, Gargamel (na antiga versão, Gasganete), tem nome e fisionomia judias, com o típico nariz adunco, e o seu malvado gato chama-se Azrael. Poderiam ser reminiscências sub-conscientes do anti-semitismo que atravessou a Europa até aos anos quarenta? É possível. Hergé também sofreu acusações semelhantes. Mas nunca, na minha infância, ao ver os seus desenhos animados e os álbuns dos estrunfes, essa ideia se me introduziu no espírito. Já as acusações de racismo e colonialismo por causa do álbum Os Estrunfes Negros é mais palha para alimentar a discussão do que outra razão qualquer. Numa história centrada numa epidemia com elementos vampíricos (ou da mosca tsé-tsé), teria o mesmo impacto se se tornassem brancos? Ou vermelhos? A juntar a isso, a pobre da Estrunfina leva por tabela, por ser loura, ou seja um modelo "ariano". Em criaturas azuis, convenhamos que louro sobressai mais. Uma estrunfina morena jamais teria semelhante impacto.



O filho de Peyo, o criador belga dos bonecos, já veio desdramatizar a polémica. Ao que parece, o pai nunca esteve ligado à política, nem demonstrou grande interesse. Mas os editores com quem trabalhava, em especial o co-autor Yvan Delporte, tinham algumas simpatias anarquistas, que como se sabe nunca se deram bem com a disciplina estalinista (vide a Guerra de Espanha). Em todo o caso, o livro colheu alguma polémica, que poderá até ser um veículo para o filme. Mas pensar que os estrunfes seguiam aquele modelo de sociedade e que Peyo tinha secretas intenções de construir na BD a sua utopia colectivista e totalitária já parece demasiado rebuscado. Lembra aquelas desconfianças em relação a Vasco Granja, de que ele estaria a doutrinar as criancinhas com os seus bonecos do Leste. Bom seria retirar essa hipotética (e absurda) carga ideológica e as teorias da conspiração que se levantaram e considerá-los os bonecos divertidos e desastrados que sempre foram. Se quiserem, atribuam-nas aos "smurfs". Mas nunca aos estrunfes.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Hergé e os judeus



Embora conheça todos os álbuns de Tintin (excepto o incompleto Alph Art, por essa mesma razão), uma das coisas que mais gostava de fazer era de lê-los a todos nas versões originais, isto é, a preto e branco, com aquele traço a carvão que ficou para sempre nesse magnífico Au pays des Soviets. Sei que pelo menos quatro deles são vendidos nessas versões, mas ignoro se houve mais edições. Abriu recentemente uma loja do herói belga em Lisboa, na Avenida de Roma, por isso talvez tenha sorte.


Nessas edições notam-se diferenças em relação aos coloridos, ou porque estão datados, ou por razões de conveniência, muitas vezes política. Como se sabe, Tintin nasceu como repórter do Petit Vintième, suplemento juvenil do jornal onde o seu criador trabalhava e que era dirigido pelo padre Wallez, um sacerdote ultratradicionalista com admiração por Mussolini e que iria apoiar o movimento Rexista de Leon Degrelle (de resto também ele amigo de Hergé, e segundo o próprio, inspiração física de Tintin). Por causa disso, muitas vezes o conotaram com posições pró-fascistas, anti-semitas e pró-nazis, tendo como base alguns dos livros originais.


Um dos casos é A Estrela Misteriosa, que data de 1941, época em que a Bélgica estava ocupada pela Alemanha nazi. No livro, com um cenário inicial apocalíptico, uma expedição europeia, em que participam Tintin e Haddock, vai em busca de um metal caído do espaço, e é constituída exclusivamente por cientistas de países do Eixo ou neutros (entre os quais um português). A expedição rival é americana, usa em vão todos os truques para chegar primeiro, e é financiada por um banqueiro judeu, com todos os traços inerentes.


Mais tarde, Hergé mudaria nomes e o carácter do financiador, mas também um interessante quadradinho que surge quase no início. Aí, dois judeus caricaturados falam um com o outro, perante a eminência da colisão da Terra com uma estrela, e um deles afirma que seria bom porque assim não teria de devolver o dinheiro que devia aos fornecedores.


Em tempos de ocupação, ficava sempre bem atribuir aos hebreus um carácter perverso e pecaminoso. É conhecida a extensa propaganda anti-semita feita pelos meios culturais do Reich, como o filme Jud Suss, à qual também a BD não escapou, coisa que seria ainda menos fácil numa publicação como o Vingtième Siécle. Mais tarde, na primeira versão de No País do Ouro Negro, concebido ainda durante a ocupação, Tintin é raptado por elementos do Irgun, o movimento terrorista que lutava contra o Mandato britânico da Palestina. Na versão moderna, os raptores são árabes.
Apesar das simpatias políticas de Hergé e do seu anti-comunismo, duvido que se possa considerar o autor como um pró-fascista ou sequer ou colaboracionista dos nazis. A negá-lo estão as obras anteriores à Guerra, em especial O Ceptro de Ottokar, em que se faz uma violenta sátira contra o Anchluss, e em que o repórter impede que o reino balcânico da Sildávia seja anexado pela Bordúria, um estado totalitário onde pontifica a Guarda de Aço (clara inspiração na Guarda de Ferro romena, de Codreanu), chefiada por Musstler - um anagrama de Hitler e Mussolini.
Mas já as referências pouco abonatórias aos judeus fazem pensar que haveria um certo sentimento se antipatia. Hergé, que pôs Tintin a defender os índios, os negros, os chineses e os ciganos, é bem menos condescendente nas suas primeiras obras face aos hebreus, e também aos americanos. Mais do que acompanhar uma moda de hostilidades de uma certa época, Hergé parece devotar também muito pouca simpatia pelo capitalismo e pelo grande mercado, representado exactamente por estes povos. É um sentimento muito europeu (do Centro e Sul), particularmente católico, de repulsa do capitalismo e da vida moderna, contrapondo a amizade, a coragem e a abnegação. Tintin é por excelência um herói do Velho Mundo, sem super-poderes nem armas, que apesar de se inscrever numa determinada era, nem por isso o público o considera datado. Tanto que os anunciados filmes de Steven Spielberg baseados no repórter aí vêm. Enorme ironia: será um judeu americano a fazer de Tintin um produto para as grandes massas no novo Mundo; tudo aquilo que Hergé criticava vai-se apropriar assim da sua maior criação. Desejá-lo-ia o autor? A adaptação ao cinema já era um plano do seu conhecimento, e a sua Fundação deu o aval. No fundo, o capitalismo americano reinante conseguiu atrair um dos seus adversários, sem o considerar um Cavalo de Tróia. E ao que parece, os judeus não se importaram muito com as primeiras versões.

terça-feira, novembro 17, 2009

The Israel Sketchbook



No festival da BD da Amadora tive também oportunidade de conhecer uma obra tão interessante quanto recente, acabada de lançar. Ricardo Cabral, desenhador de BD, viajou por Israel em 2007, e montando base em Tel Aviv, partiu para o resto do país, percorrendo-o do Mar Morto a Eilat, passando por Jerusalém, o Neguev e Gaza (só ficou mesmo a faltar Haifa). Registou cada cidade ou cenário digno de nota, através de desenhos nos vários moleskines que levou consigo. Os mais impressivos são sem dúvida as do Mar Morto, pela alucinante paisagem de um vale de sal, água e rocha, e de Jerusalém, a Cidade Santa, sobretudo o friso onde se misturam soldados a cavaquear, turistas de mochilas e máquinas fotográficas a tiracolo, vendedores ambulantes árabes e frades de mais do que uma ordem. Todo esse trabalho ficou registado no álbum The Israel Sketchbook, obra de grafismo interessante e realista, num percurso que permite ir conhecendo o país do litoral para o interior, e das cidades para o deserto. Uma boa surpresa. O legado dos mestres da BD portuguesa está assegurado.

terça-feira, novembro 10, 2009

A diversidade da Nona Arte


Acabou no último fim de semana o Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. Lá me desloquei ao certame, tal como já tinha feito no ano passado, embora com o risco de me perder no meio daquelas fieiras de prédios todos iguais. O pretexto eram os cinquenta anos de Astérix; a razão era a minha velha mas controlada paixão por BD.


Sobre o herói gaulês esperava mais. Uma única sala com memorabilia, os álbuns todos da colecção, e um ou outro autógrafo de Uderzo, mais dois simpáticos sósias de Astérix e Obélix a cumprimentar as pessoas e a animar a miudagem era manifestamente pouco para a importância que os gauleses tiveram para a BD. Se a cultura francesa está em declínio, os "irredutíveis" são a excepção mais óbvia. Tornaram-se personagens conhecidas no mundo inteiro, os seus álbuns deram origem a filmes (animados e não só), o Parc Astérix rivaliza com a Eurodisney. Não admira que o general De Gaulle gostasse tanto do pequeno guerreiro.

Fui e sou um fã de Astérix desde miúdo, quando lia os álbuns que os meus pais compravam, em francês e português (aprendi em grande parte a ler em francês graças à banda desenhada). Os meus preferidos serão talvez o Astérix entre os Godos, Astérix entre os Bretões (o mais hilariante, influência do "british humour"?), A Zaragata, e Astérix Legionário. Todos absolutamente brilhantes, com aqueles anacronismos propositados, como os capacetes dos godos, a lembrar os pickelhaubes alemães da 1ª Guerra, os hábitos dos bretões, as vendettas dos corsos e o modo de falar dos belgas. Com a morte de Gosciny, Uderzo tomou o argumento em mãos. A série tornou-se mais desvairada mas perdeu a subtileza e o brilho anteriores.



Mas havia mais para além de Astérix no certame. De novos talentos a homenagens a Maurício de Sousa (da "Turma da Mónica"), havia de tudo. Gostei acima de tudo das recordações de outras edições anteriores e de outros mestres da BD portuguesa. Não faltavam exemplares do Mosquito e entrevistas gravadas a desenhadores como José Garcês e José Ruy.


Mas acima de tudo gostei de ver a memória de Eduardo Teixeira Coelho, um dos maiores autores de sempre da Nona Arte portuguesa, senhor de uma farta bigodaça que faria inveja a Dali e a Nietzsche e que ganharia com certeza o concurso da modalidade. Era açoriano, de Angra, mudou-se para Lisboa nos anos trinta, trabalhou como ilustrador, tornou-se conhecido no Mosquito e, mais tarde, no Mundo de Aventuras. Viveu em Espanha, em Inglaterra e em França (com o pseudónimo Martin Sièvre), até se mudar para Florença, onde morreu em 2005.



As suas obras eram acima de tudo de aventuras ou acontecimentos históricos, com um traço limpo e simples. O Caminho do Oriente, dos anos quarenta, com textos sem balões, é um dos melhores exemplos disso. A viagem de Vasco da Gama vista pelos olhos de um endiabrado grumete, Simão Infante, contada em banda desenhada a preto e branco. Tenho os seis álbuns da obra, oferecidos num Natal já muito longínquo, teria os meus nove, dez anos. Para se conhecer a obra de Eduardo Teixeira Coelho, é uma óptima iniciação. Reflecte bem o talento do autor em mergulhar o seu leitor num universo de aventuras de outros tempos, e numa dimensão histórica que de outra forma, excepto no cinema e em rara literatura, é quase impossível de recriar. Para além do inevitável escape, a capacidade didáctica e cultural da Nona Arte, num mundo tão tecnológico como o que vemos hoje, consegue sempre surpreender.

segunda-feira, julho 20, 2009

40 anos


Eis um daqueles acontecimentos que gostaria de ter presenciado no momento. Não há muitos assim, mas lamentavelmente nem sequer era nascido. É por essas e por outras que as gerações anteriores, nomeadamente a dos anos sessenta, recordam e elogiam constantemente o "seu tempo".
Embora, segundo alguns, como Hergé, já outros tivessem chegado antes de Armstrong, Aldrin & Ciª.

segunda-feira, maio 04, 2009

Vasco Granja


Morreu esta noite Vasco Granja, aos 83 anos de idade. Para quem passou a infância nos anos oitenta, é uma figura incontornável. Deu a conhecer a toda uma geração desenhos animados do mundo inteiro e dinamizou o gosto pela "BD" (expressão por si cunhada) em Portugal. A caricatura e a recordação que dele fazem são desenhos animados dos países então do outro lado da Cortina de Ferro. Curiosamente não me lembro tão bem desses como dos mais conhecidos Hanna-Barbera e Warner Bross, que também passavam pelo seu programa; ficou-me sobretudo na memória o Gribouille, um simpático monstro francês de esponja que desenhava. Uma parte da memória da minha infância devo-a a Vasco Granja, que só me recordo de ver pessoalmente numa entrevista a Morris, o criador de Lucky Luke, há muitos anos, no Salão Internacional de Banda Desenhada do Mercado Ferreira Borges. Que descanse em paz, ou se não for possível, na confusão eterna do seu mundo fantástico.


Adenda: o Gribouille