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sábado, outubro 21, 2023

O drama esquecido dos arménios "de segunda"

Relembremos, por uns momentos, o que se passa no Nagorno-Karabakh. Com os dramáticos acontecimentos em Israel, mesmo o conflito entre a Ucrânia e a Rússia passou para segundo plano, quanto mais o dos cumes das montanhas do Cáucaso.

E precisamente, o Cáucaso é das regiões a que mais limpezas étnicas tem assistido no último século. Se os Balcãs são de tal maneira divididos e confusos que até emprestaram o seu nome a uma expressão geopolítica, então aquela região montanhosa encravada entre os velhos impérios e actuais potências da Rússia, Turquia e Irão e entre os mares Cáspio e Negro é-o ainda mais. Sob o domínio dos russos coexistem inúmeros povos e línguas, como os chechenos, os circassianos (estes dois, sobretudo o segundo, foram alvo de violentos crimes e até mesmo de tentativa de genocídio por parte dos russos), os tártaros, os ossetas, os calmuques - que vivem na única região de maioria budista na Europa - e tantos outros. Abaixo, as nações independentes: Geórgia (com a Abecásia), Arménia e Azerbaijão).

O que se passou no Nagorno-Karabakh recordou-me este post que aqui escrevi há ano e meio e que relata outra limpeza étnica naquela região que pouca comoção trouxe ao Mundo. Na altura, os georgianos foram mortos ou expulsos da território da Abecásia, onde em certas partes constituíam a maioria. Agora, talvez com menos violência e menos vítimas, os arménios são forçados a deixar aquela região que a tantos combates ferozes tem assistido nas últimas décadas e a extinguir com efeitos a partir de Janeiro a não reconhecida República de Artsakh.

Atribuir "razão" territorial e política a qualquer um dos povos é tarefa complicada. Talvez se tenda, nos países ocidentais, a simpatizar-se mais com os arménios. De facto, a constituição daquele enclave parece ser mais um dos artifícios típicos na URSS para se dividirem povos e territórios e impedir assim a invocação das suas consciências nacionais e que tantos problemas tem causado desde a sua implosão, de que são exemplo as sucessivas guerras no Cáucaso russo e georgiano.

Seja como for, e mesmo não reconhecendo a soberania daquele território, há que reconhecer a limpeza étnica levada a cabo pelo Azerbaijão. Se a Arménia tinha saído vitoriosa nos anos noventa, em 2020 os azeris atacaram de surpresa, bem apetrechados com material do seu vizinho e mentor, a Turquia, sobretudo com drones que foram de grande utilidade e que serviriam de treino para a posterior guerra na Ucrânia, e obtiveram uma vitória rápida e retumbante, que lhes permitiu cercar totalmente o território de Artsakh, a começar pelo corredor de Lachin, que ligava este à Arménia, que ficou a cargo de uma força de paz russa.

Sabe-se o que aconteceu depois: as forças do Azerbaijão lançaram em Setembro deste ano uma ofensiva que rapidamente ocupou aquele território e desarmou as de Artsakh, isoladas e sem a possibilidade de reforços da Arménia. Esta, sem auxílio e sem poder, por sua vez, ajudar os arménios de Artsakh, teve de aceitar um cessar-fogo e as suas consequências. Pelo meio, ainda houve um ataque a uma viatura militar russa, que resultou na morte dos seus ocupantes. A Rússia, principal membro da OSTC, uma organização militar a que também pertence a Arménia, reagiu com apatia e escusou-se a defender a sua correligionária, em grande contraste com o apoio da Turquia ao Azerbaijão.

Nagorno-Karabakh - The Latest News from the UK and Around the World | Sky  News

Desde então, a grande maioria da população arménia do Nagorno-Karabakh/Artsakh abandonou o território, temerosa do novo ocupante. A caravana de cerca de uma centena de milhar de pessoas que fugiu rumo à Arménia recordou as grandes levas de trocas de povos do pós-II Guerra. O Azerbaijão conquistou aquele território e olha agora para o que o separa do seu enclave de Naquichevan, na fronteira com o Irão (e a única parcela de território que confina com a aliada Turquia), com mal disfarçada ambição, o que pode significar novo conflito no horizonte.

Map of the recent developments in the Armenia - Azerbaijan conflict :  r/MapPorn

A Arménia, com pouco apoio no Ocidente, salvo o da França, onde existe uma importante comunidade de arménios, e sobretudo sem o suporte da Rússia, que seria o seu protector mas que não quer entrar em conflito com a Turquia, vê-se assim ameaçada de novo e começa a olhar de soslaio para a UE. E a Turquia de Erdogan marca pontos estratégicos e consegue fazer a Rússia acobardar-se. Esta provou que não só não é de confiança para com os que deveriam ser os seus aliados (um aviso para África?), já que nem os membros da própria organização de defesa podem contar com o seu auxílio, como mostra as suas limitações bélicas. Tão empenhada está na Ucrânia que não se pode estender a outras paragens, a não ser com mercenários.

E assim, no espaço de um mês, voltamos a ver os dois povos que sofreram os piores genocídios do século XX a serem brutalmente atacados ou sujeitos a limpeza étnica por expulsão: os judeus e os arménios. Os ciclos da História repetem-se com arrepiante dramatismo.

sábado, outubro 31, 2020

Travar os turcos


A avaliar por algumas leituras rápidas, o culpado destes casos de terrorismo que ocorreram em França nos últimos dias é de Emmanuel Macron e das suas declarações. Só que Macron não incitou ninguém à violência; limitou se a dizer o que devia ser dito: que aquele país tem regras, que não podem ceder à violência de fanáticos e que quem não gostar de viver naquela sociedade não pode impôr regras e tem de se sujeitar às vigentes, dentro do sistema democrático e da liberdade de expressão que este concede.

 Se há alguém que tem de ser condenado é em primeiro lugar Recep Erdogan, um dos maiores incendiários do nosso tempo. Só este ano já enviou tropas para a Líbia para proteger a sua facção, reconverteu a Santa Sofia, outrora maior igreja da cristandade e nas últimas décadas um museu, em mesquita, apoiou o Azerbaijão na guerra contra a Arménia na questão do Nagorno-Karabakh nvectivando os arménios de forma inaceitável (um chefe de estado turco a dizer coisas semelhantes aos arménios equivale à chanceler alemã a insultar judeus) e agora diz que Macron tem "problemas mentais" e apela ao boicote à França; ou seja, a França é atacada no seu território por extremistas gritando "Alá Akhbar"e ainda recebe ameaças deste fulano. Relembre-se que nos anos anteriors já tinha um extenso currículo com a repressão aos curdos, a participação na guerra da Síria (onde atacou mais os curdos que o Daesh, por vezes até favorecendo este último nos ataques que realizava às YPG), a reacção à tentativa de golpe de estado de 2016 com a prisão de milhares de pessoas, tentou fazer comícios às populações emigrantes turcófonas em países europeus a quem, perante a evidente recusa, acusou de serem "nazis", etc, etc. Por importantes que sejam as relações comerciais com a Turquia, já é tempo de pôr essa sinistra criatura no seu lugar e de chamar os bois pelos nomes. Se assim não for, o sultão de opereta vai continuar a insultar e a incendiar impunemente, aproveitando-se de qualquer fraqueza para estender a sua influência neo-otomana. Agora talvez se perceba porque é que a Grécia tem uma fatia tão grande do PIB reservada à defesa.

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terça-feira, março 14, 2017

O descaramento do pequeno sultão


O sr. Erdogan, que tenta a difícil combinação de sultão com Ataturk, mandou prender recentemente milhares de militares, professores, magistrados e outros cargos supostamente mancomunados com o ex-aliado e actual pior inimigo Gullen, está com ideias de restaurar a pena de morte, persegue os curdos a ponto de poupar o DAESH e procura reforçar ainda mais os seus poderes através de um referendo próximo. Munido deste historial democrático, e para garantir mais votos, encarregou os seus ministros de fazerem uma digressão de propaganda pela Europa para participarem em comícios com as numerosas comunidades turcas que vivem na Alemanha e na Holanda. Como se sabe, os enviados governamentais foram impedidos pelas autoridades locais de fazerem campanhas em países que não o seu próprio, o que levou a veementes protestos por parte da Turquia e a que o próprio presidente apelidasse os holandeses de "racistas", "nazis", "covardes", etc, ao mesmo tempo que exigia pedidos de desculpa e que pedia sanções contra a Holanda. Entretanto, manifestantes turcos protestaram nas ruas de Amsterdão e Roterdão, antes de serem escorraçados pela polícia, o que serviu para novas ameaças de Erdogan.

Um absurdo próprio da época em que vivemos, bem ilustrativo dos já tão famosos "factos alternativos": um presidente prepotente e autoritário, com historial duvidoso no que ao respeito pelas liberdades fundamentais diz respeito, a insultar e ameaçar um país com uma democracia sólida e que se limitou a fazer cumprir as suas regras de forma exemplar (sem precisar de populistas como o sr. Wilders). Para mais, sabe-se que na Turquia não são permitidos comícios políticos feitos por emissários estrangeiros, e que os partidos curdos têm passado por inúmeras dificuldades sob a bota de Erdogan e dos seus sucessivos governos. De resto, um regime que permitiu deliberadamente que o DAESH entrasse nas suas próprias fronteiras a chamar "terroristas" à Alemanha e à Holanda, ou que chama indiscriminadamente "nazis" quanto perpetrou o primeiro genocídio do séc. XX sem que o tenha até agora reconhecido é o cúmulo dos cúmulos do descaramento. Definitivamente, Erdogan julga-se um novo sultão otomano, até na forma como ameaça a Europa ou se permite fazer propaganda agressiva nas ruas  de outros países. Esperemos que não haja Lepantos, cercos a capitais e outras coisas que julgávamos próprias de séculos passados. E os sultões de outrora eram certamente mais diplomáticos do que esta cópia barata.

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sexta-feira, julho 22, 2016

Uma tirania com forma democrática?


Apesar de todos os boatos, custa-me a crer que o putsch na Turquia tenha partido do próprio Erdogan. Se assim fosse, não haveria tantos soldados mortos (só na improvável hipótese de serem todos mártires), além de que golpes protagonizados pelas forças armadas naquele país são relativamente vulgares. A diferença é que desde há muito que as purgas nas cúpulas das forças armadas tinham permitido "limpá-las" dos que se consideravam "guardiões do estado laico", pelo que os postos superiores eram de homens fieis a Erdogan. Assim, foram entidades intermédias ou menos graduadas as responsáveis pelo golpe abortado.
 
Não vale a pena estar a reportar e a debater todos os acontecimentos da tentativa de golpe. Como já disse, com os poucos elementos disponíveis, não acredito na teoria de auto-golpe como pretexto de reforço de poderes. Mas é razoável pensar que Erdogan estivesse a par de planos para uma tentativa e o utilizasse para aumentar posteriormente o controlo do país, como efectivamente acontece. O apelo à população surtiu efeito: perante milhares de civis que apoiavam o presidente, e tendo em conta a sua legitimidade democrática, todos os partidos da oposição e grande parte das potências internacionais apressaram-se a condenar o golpe, o que reforçou a sua posição. Para mais, os revoltosos cometeram erros incomensuráveis, disparando sobre populares, o parlamento e o palácio presidencial, desencadeando ondas de violência e a sua própria derrota. E as memórias de outros golpes (particularmente o de 1960, que acabou com o derrube e morte de um primeiro-ministro eleito) não ajudaram.
 
Com a purga de militares, funcionários públicos, académicos e magistrados em curso (fala-se de mais de 50 mil pessoas afastadas), reforçado pela tentativa violenta de o afastar, Erdogan está a conseguir o que queria: moldar uma Turquia sob o seu jugo. Apesar da constante exaltação da memória do Império Otomano, não parece que estejamos perante perante uma islamização do país ou o fim absoluto do kemalismo. Recorde-se, aliás, que o presidente falou para as câmaras de TV ainda no aeroporto de Istambul, com uma enorme imagem de Kemal Ataturk atrás de si, para lhe conferir toda a legitimidade como líder turco. O mais provável é que seja um projecto de autoritarismo pessoal, aproveitando a dupla herança dos otomanos e do regime criado por Ataturk (que governou sempre com punho de ferro) para reforçar a Turquia como potência regional comandada por ele, um pouco à imagem do que se passa na Rússia de Putin, com aquele híbrido de URSS czarista abençoada pelo metropolita ortodoxo de Moscovo. E a aproximação a esta última, bem como a Israel, enterrando questões recentes, parece apontar nesse sentido (e provocar calafrios à NATO).
 
 
 
Mais inquietante ainda é a vontade de mudar algumas situações que se pensava estarem definitivamente para trás, como a intenção de reintroduzir a pena de morte, e pior, aplica-la retroactivamente. Erdogan clama que se for essa a vontade do povo, então deve ser respeitada. Mas caso aconteça, para além de afastar definitivamente a Turquia da UE, apenas revela que poderá considera-se uma democracia, no sentido bruto do termo, mas nunca um regime liberal. Além de apontar uma vontade popular como fonte única de direito (desde que convirja com os seus propósitos), a aplicação de leis penais de forma retroactiva (particularmente a pena capital), coisa absolutamente interdita em democracias liberais, tornaria a Turquia numa tirania com forma democrática, baseada na vontade popular, que entregaria o poder o chefe supremo, de poderes ilimitados, acima de qualquer norma ou princípio, com os outros órgãos de soberania a cumprir um papel meramente decorativo. Mais do que os perigo imediatos que por ali grassam (tensões militares, terrorismo, etc), essa é que devia ser a principal causa de temor.

quarta-feira, dezembro 02, 2015

O neo-czar e o neo-sultão


Sobre a actual tensão entre a Rússia e a Turquia por causa do abate do avião daquela por esta entre as fronteiras turca e síria, e a morte de um dos pilotos russos, supostamente responsabilidade de uma milícia pró-turca que combate Assad (e por isso a Rússia), para lá das violações de espaço aéreo, de um eventual crime de guerra, da troca de acusações, das sanções russas - que se poderão repercutir no turismo - e dos interesses de cada um dos países no teatro sírio, retém-se sobretudo uma confirmação: Putin e Erdogan são dois autocratas que admitem muito pouca oposição e que têm ambições nacionalistas que pretendem restaurar, na devida medida e com as devidas adaptações, os tempos gloriosos dos antigos impérios russo e otomano. Sem se expandirem territorialmente mas alargando a área de influência. E apoio popular nos respectivos países não lhes falta. O neo-czar há muito que o demonstra, e a crise da Ucrânia é a melhor prova. O neo-sultão, afirmando-se progressivamente como a potência mais sólida no Médio-Oriente, a par do Irão, também tem dado provas sobejas, e o alargamento dos poderes presidenciais deverá ser o próximo passo. Recordar também que a Crimeia, anexada pela Rússia no ano passado, mantém uma importante minoria de tártaros aos quais a Turquia dá um discreto apoio. E que a saída dos russos do Mar Negro passa necessariamente pelo estreito do Bósforo e pela velha Constantinopla. 


terça-feira, outubro 13, 2015

Os cem de Ankara valem menos os 16 de Paris?



Fico pasmado quando, depois de no início do ano os noticiários dedicarem horas e horas aos atentados em Paris, de vários chefes de estado e de governo se juntarem em marchas "pela liberdade de expressão" e de até se inventar o bordão "Je Suis Charlie" (que provavelmente poucos compreenderão a sério), se dê tão pouco tempo de antena aos enormes atentados que houve em Ankara. Estamos a falar de um país importantíssimo, em parte europeu, onde foram mortas quase cem pessoas e várias centenas ficaram feridas. Não é propriamente um acidentezinho doméstico. É um ataque el larga escala à população civil de um estado fulcral entre o Médio Oriente e a Europa. Não devia ser tão noticiado como o que aconteceu em França?

sexta-feira, abril 17, 2015

O Papa e o genocídio dos arménios


 O Papa teve novo "atrevimento": desta vez, ao falar das grandes tragédias humanas do Século XX, referiu os massacres dos arménios pelos turcos entre 1915 e 1917, considerando-os o primeiro genocídio do século, seguido dos resultantes do nazismo e estalinismo e, mais tarde, do Cambodja, Ruanda, Burundi e Bósnia. A Turquia, claro, reagiu logo e chamou a Ankara o embaixador no Vaticano. Outra coisa não seria de esperar num país que não só nega o genocídio como ainda criminaliza quem o afirmar, para mais sob a presidência (e governo) do autoritário e neo-otomanista Erdogan.
O genocídio - assim mesmo, com todas as palavras - do povo arménio, que teve início há cem anos, é uma evidência que só por ignorância, desonestidade intelectual ou profundo filo-turquismo se pode negar. Houve uma autêntica limpeza étnica, com centenas de milhares de mortos (fuzilados, decapitados, enforcados, atirados de abismos ou simplesmente deixados a morrer à fome em zonas inóspitas), de mulheres violadas, e em que os mais afortunados limitaram-se a ser deportados e a perder tudo para conservar a vida. As populações arménias que viviam na Anatólia desapareceram completamente (tal como aconteceria mais tarde aos gregos do Ponto e de outras zonas da actual Turquia, aos assírios, e em boa parte aos curdos).

Muitos dos países que reconhecem o genocídio fazem-no também por questões políticas, como a França, a Rússia. E os que o negam também, como os Estados Unidos, estes sobretudo por razões geo-estratégicas. O Papa não teve qualquer receio em afrontar as autoridades turcas e chamou áquele trágico acontecimento pelo nome que ele realmente tem. Claro que houve logo algumas vozezinhas críticas, que resolveram lembrar que a Igreja teve também alguns esqueletos no armário, como a sempre invocada Inquisição, sem se lembrar no entanto que não só os actos do Santo Ofício estiveram a anos-luz de qualquer genocídio real deste tipo, como a Igreja há muito que o reconheceu e se penitenciou por isso, além de que já tem uns séculos em cima. Para alguns, haver vítimas cristãs parece ser um assunto de somenos, quando não chegam a demonstrar o seu contentamento. Impressiona aliás que ainda se continue a rotular países como a Alemanha, que reconhece o Holocausto, de "nazi", ou a matraquear constantemente com a Inquisição, cujas acções mais nefastas a Igreja não nega, e se trate a Turquia (e em menor grau, a Rússia, cuja herança do estalinismo não é totalmente negada) com imensa cerimónia. Se bem que o Império Otomano, mesmo no seu fim, tenha reconhecido a sua culpa, depois atirada para o lado pelo regime republicano kemalista. Curiosa, também, esta atitude de quem tanto queria aproximar-se do ocidente e cortar amarras com o passado.

A Arménia viria a surgir como um breve estado independente, até ser anexada pela URSS, em 1920, e só voltaria a ser um estado soberano em 1991. Mas ainda hoje boa parte do território que lhes caberia, pelo Tratado de Sévres (que estipulava entre outras coisas uma nação curda, e que nunca chegou a ser respeitado), está na Turquia, como o monte Ararat, a "montanha sagrada" dos arménios, o pouso bíblico da Arca de Noé, que domina o horizonte em Yerevan, mas que ficou do outro lado da fronteira.


terça-feira, janeiro 20, 2015

Contradições republicanas



Depois das "manifestações republicanas" em França, em que todos "foram Charlie", vários foram os reparos ao repentino amor que a França a o regime republicano começaram a demonstrar pela liberdade de expressão, como se fosse um dado adquirido desde tempos imemoriais. No entanto, e tal como em todos os outros países, a liberdade de expressão francesa é em muitos aspectos mais letra morta do que outra coisa.

De notar, desde logo, que se ouviu por mais do que uma vez que "o terrorismo é contrário aos valores da república". Não deixa de ser irónico, já que a palavra "terrorismo" tem a sua origem no Terror que emergiu com a Revolução Francesa e a 1ª República francesa, o bordão "Liberté, egalité, fraternité", o barrete frígio, etc. Um terrorismo de estado, neste caso, que levou milhares para a guilhotina por não serem reconhecidos pelos tribunais revolucionários como "bons cidadãos". Pergunto-me se muitos dos que exaltam a Revolução Francesa contra a inquisição pensarão bem nisto.

A verdade é que há opiniões que em França são consideradas crime. A negação do Holocausto, por exemplo, já levou alguns negacionistas para a prisão, o que significa que não há liberdade para se negar ou omitir o Holocausto. Da mesma forma, a negação do Genocídio Arménio passou a ser crime no hexágono há poucos anos (há quem diga que estas leis são influência das importantes comunidades judias e arménias de França e do seu peso político e social, e porque não, eleitoral).

Já na Turquia, cujo modelo republicano é em grande parte copiado do de França (embora nos últimos anos Erdogan o esteja a modificar, sobretudo no que toca ao laicismo até há pouco característico do regime), há curiosamente uma lei em sentido contrário: é crime declarar-se que existiu um genocídio do povo arménio - pelos turcos, evidentemente. Os valores republicanos chocam de frente na mesma questão.

Ou seja, pode-se proclamar a liberdade de expressão aos quatro ventos e declará-la como "valor republicano", mas a realidade mostra-nos que também nas repúblicas, e em boa medida na republicana França, há um real condicionamento, por muito imbecil que seja a negação de massacres e genocídios que não deixam a menor dúvida. Mas não é mesmo a liberdade de expressão a possibilidade de ofender e dizer disparates sem se temer ir parar à prisão? Être Charlie é afinal uma moda passageira, ou então o reconhecimento do exercício de liberdade de expressão para apenas alguns assuntos.

segunda-feira, março 31, 2014

Já na Turquia as consequências são outras



Na Turquia, também com eleições municipais, decidia-se o futuro do sr. Erdogan. Depois das enormes manifestações antigovernamentais do ano passado em Istambul, dos escândalos de corrupção que afectaram o governo, do envolvimento na guerra da Síria, das ameaças e do autoritarismo do primeiro-ministro, que fizeram com que tentasse bloquear o Twitter e o YouTube, que revelaram indícios de nepotismo que lhe eram prejudiciais, provocando uma chuva de críticas, do Galatasaray ao presidente da república, era grande a expectativa sobre como se aguentaria o partido do poder nas urnas. A resposta não deixou margem para dúvidas: Erdogan e o seu AKP venceram com confortável maioria, suplantando o anterior resultado, e ao que parece venceram nas principais cidades, a capital Ankara e a imperial Istambul. Quase o oposto do que aconteceu a Hollande na França. A partir de agora, e com o seu poder reforçado, Erdogan desafiará ainda mais a oposição interna. Já fora da Turquia, entre as hesitações da UE, a guerra na Síria, o reerguer da Rússia e os desejos independentistas nunca adormecidos dos curdos, terá tendência a querer afirmar ainda mais a influência russa entre o Mediterrâneo e a Ásia e a dar azo ao seu neo-otomanismo, que aliás nunca escondeu. E será interessante saber até que ponto os desejos expansionistas e imperialistas de Erdogan e Putin, dois claros saudosistas do apogeu dos seus países, irão chocar.

segunda-feira, junho 17, 2013

Os telhados de vidro dos herdeiros de Ataturk


Regressado de uns dias a explorar o Sul do país, onde felizmente havia sol, pouco dei pelas actualidades nacionais e internacionais. Entre a greve das professores em dia de exames, a apresentação de Paulo Fonseca como treinador do Porto e as eleições no Irão, parece que o impasse na Turquia continua, embora com algum diálogo à mistura.
 
Falar sobre um país do qual não se tem conhecimento profundo é sempre arriscado. O que eu vi nas enormes manifestações contra Erdogan foram reivindicações aparentementes justas contra a destruição de uma praça ajardinada em Istambul, a agora célebre Praça Thaksim,para a construção de um enorme e kitsch centro comercial, e creio, uma mesquita. A Turquia neo-otomana de Erdogan, próspera e orgulhosa, com pretensões extra-fronteiras, caracteriza-se em boa parte por isso mesmo: centros comerciais espaventosos e mesquitas. Novo-riquismo e religiosidade. São os símbolos da nova burguesia piedosa, proveniente da Anatólia, que apoia maciçamente o partido no poder. Contra eles estão os manifestantes, a tal elite jovem e urbana, devedora do laicismo de Ataturk, e ainda curdos, esquerdistas, anarquistas, comunistas, tudo o que não se revê em Erdogan e o seu partido. Curiosidade maior é ver adeptos dos três grandes clubes de Istambul (Galatasaray, Fenerbahçe e Besiktas) e unirem-se sob a designação de "Istambul United", brandindo os seus símbolos em prol do protesto comum.
 

 Mas o que é irónico é vê-los a protestar contra a falta de democracia, a imposição de algumas normas moralistas, como as que restringem o comércio e consumo público de álcool, e que "se pretendem imiscuir nas vidas privadas". É que a maioria dos manifestantes são "kemalistas", revê-se em Kemal Ataturk; e que se saiba, o antigo líder da nova Turquia, embora a tenha feito dar um enorme salto em frente, não era propriamente um democrata exemplar, bem pelo contrário: era antes um perfeito autocrata, que governou com mão de ferro e teve algumas implicações na matança dos arménios. Além do mais, Ataturk (em português, Pai dos Turcos, nome que adoptou e que mostra bem o seu pendor de "querido líder"), em nome do laicismo e da ocidentalização, proibiu alguns costumes, como o uso do fez e do véu islâmico em público. Também os regimes comunistas dispuseram sempre das vidas de todos aqueles que tiveram a pouca sorte de viver sob eles. Ou seja, aqueles que se queixam de que o governo quer interferir nas suas vidas apoiaram regimes que fizeram isso mesmo. Agora, Erdogan, escudado em sólidas maiorias eleitorais, retribui-lhes com a mesma moeda. Para mais, o perigo "islâmico" não parece fazer muito sentido na Turquia, que cultiva sobretudo o misticismo sufi, pouco dado a extremismos, e que mesmo nos tempos em que era um império e um califado tinha milhões de cristãos e judeus vivendo dentro das duas fronteiras, em harmonia com a maioria muçulmana. Haverá certamente razões para protestar, começando na brutalidade policial, mas os kemalistas e comunistas, que quando puderam dominaram a seu bel-prazer, deveriam ser os últimos a vir para a rua com tais reivindicações.

quinta-feira, outubro 28, 2010

A queda final do Império Romano



Via Delito de Opinião cheguei a este texto pormenorizado, intenso e angustiante, recordando uma dos temas que mais me fascina e me assombra: a queda de Constantinopla às mãos dos Otomanos. Lá encontra-se a magnificência final das cerimónias da igreja oriental e dos Imperadores bizantinos, a defesa desesperada das muralhas pelos seus habitantes, a entrada cataclísmica dos turcos na cidade, perante a qual o Basileus Constantino XI Paleólogo e os seus últimos fieis se atiraram de armas na mão, para perecer juntamente com o império, e todos os massacres, violações, pilhagens e demais atrocidades perpetrados pelos invasores. Para que a leitura ficasse ainda mais completa, aconselharia um texto de Stephan Zweig, incluído numa obra do autor (qualquer coisa como "Momentos Decisivos da Humanidade"), editado recentemente, em que mostra a escassíssima ajuda dos cristãos do ocidente, as técnicas usadas pelos otomanos para ultrapassar a inexpugnável corrente de ferro que fechava o Bósforo e o patético, e autenticamente bizantino descuido que permitiu que os turcos aí entrassem: uma minúscula porta (a Kerkaporta) aberta entre as muralhas, por distracção dos defensores. Assim caiu Constantinopla, e acabou definitivamente o Império Romano, mil anos depois do do ocidente. Uma página negra da história da Europa, que, e por muito que isso desagrade ao senhor Erdogan, convém sempre relembrar.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Velho kemalismo vs neo-otomanismo



Há dias, um artigo de jornal referia a nova mudança estratégica da turca. O rumo que a Turquia tem vindo a tomar não deixa de ser nebuloso. Nos últimos anos, o governo de Erdogan, suportado pela "nova classe média piedosa" (em oposição às elites laicistas), sobreviveu a tentativas de golpes de estado, de proibição do partido, de conspirações, saindo reforçado dos sucessivos actos eleitorais. A tentativa de liberalizar o uso do véu nos espaços públicos terá sido a polémica mais mediática entre as duas grandes facções políticas. O que é certo é que ao crescimento económico do país, ditado pela nova classe de empreendedores, muitos provenientes da Anatólia, nota-se uma tentativa de moderar o laicismo e o poder dos militares, autêntica espada de Dâmocles sobre a cabeça dos governantes que se desviem do Kemalismo, perfeito totem ideológico do país.

O arrefecimento da vontade de entrar na União Europeia, o congelamento das relações com Israel e a aproximação aos vizinhos do Médio Oriente, como a Síria, assim como algum apadrinhamento das regiões balcânicas predominantemente muçulmanas, revela que a Turquia tomou um novo rumo, recuando aos tempos pré-Ataturk, recordando as origens. Pretende ser a potência da sua região, um pouco à imagem da Rússia. A diferença desta é que o seu raio de acção é muito maior, e no pós-comunismo tenta afirmar-se aglutinando a herança dos czares e a da URSS. Na Turquia, o kemalismo permanece, mas junta-se-lhe agora um revivalismo neo-otomano. aliás, não se percebe bem se se quererá fazer uma quadratura do círculo juntando as duas tendências opostas, ou se uma acabará por suplantar a outra.


É aqui que reside o interesse: saber se a Turquia seguirá o caminho dos últimos oitenta anos ou se quer voltar às origens que a tornaram num império colossal e temido. Pode optar pela primeira linha, aquela que tem sido rigorosamente vigiada pelos militares (que para isso já recorreram a golpes de estado, sendo que o último falhou, e os responsáveis está detidos), e tentar um novo rumo externo, tomando a dianteira do bloco do Médio Oriente, mais do que o Irão, com quem sempre teve uma relação conflituosa, e de parte dos Balcãs, coisa que os sempre inimigos gregos não a verão com bons olhos.


Mas pode, para além das relações externas, querer adquirir um velho-novo cunho. Este neo-otomanismo seria o rompimento com o kemalismo que tanto veneram, e o regresso aos valores do império, incluindo os religiosos. Nesse caso, que relações teriam com a UE, em particular com a Grécia? E com os vizinhos? Mudariam a capital de novo para Istambul, em claro desafio ao Ocidente? Reergueriam o estandarte verde? Restaurariam o Califado? Retirariam a imagem de Kemal Ataturk dos locais públicos (ou seja, de toda a parte)? É difícil de dizer e mesmo improvável. Em todo o caso, seria razão para gregos, sírios e árabes se apoquentarem. E passaria a ser o argumento final dos opositores à entrada da Turquia na UE.