quinta-feira, julho 13, 2006

Pós-campeonato

A febre do Mundial afectou tudo e todos, e isso foi particularmente visível aqui no blogue. Olhando para os últimos posts, reparo que quase não falei de assuntos que não tivessem a ver com a competição. Pacheco Pereira por certo ficou chocado, caso tenha aparecido por cá. Por isso, façamos um ponto da situação para encerrar o assunto.

Portugal não teve exibições de uma beleza estonteante (apesar de ter ganho da FIFA o galardão de "equipa mais atractiva"). Mostrou uma equipa com talento, garra, esforço, agressividade q.b., com capacidade para ir à final. Os epítetos que certos comentadores de países adversários lhes lançaram, tendo um fundo de verdade, foram de uma hipocrisia atroz - veja-se as manobras inglesas antes do jogo com Portugal, ou os mergulhos que acalentaram penaltys aos franceses. Safa-se a Alemanha, de que se falará daqui a pouco.

Durante um mês, ouviram-se os profetas da desgraça e aqueles para quem o alvo das atenções constituía a distracção do povinho, a futebolice nacional, etc. Aqueles para quem a condição de ser português é insuportável, e que só o que vem lá de fora tem préstimo. Como se "lá fora" não houvesse a mesma loucura pela bola, até em doses maiores. E tenho pena de não ouvir uma opinião de João Carlos Espada sobre a sua tão amada Albion, terra de gentlemanship e liberdade, no seu acompanhamento aos seus ídolos na Alemanha (hélas, desta vez para perder). Como é evidente, os comentários do tipo "agora que se acabou o futebol, temos o Verão, e lá para Setembro as pessoas dão-se conta desta desgraça" estão na ordem do dia, e são tão previsíveis que deviam constar das aposta da Betandwin. A pseudo-intelectualidade misturada com pessimismo e com um elitismo escondido dá frequentemente resultados assim. Pena que não se alegrem com os exemplos dos jogadores em levarem Portugal tão alto, na sua permanente maledicência, e passem o tempo a desvalorizar o que devia ser regra no país. sim,eu tenho pena que não estejamos nos quartos de final do civismo,etc. Mas já que chegámos a este ponto, porque não comemorar? O futebol serve para isso mesmo, a não ser que"civilização" signifique permanente tristeza, depressão, fleuma, bocejo.

A Alemanha ficou extremamente bem vista com este evento, quer pela organização, como pelo acolhimento, alegria e fair-play que demonstraram. Diz-se que este campeonato pode ser excelente para que a economia italiana volte a crescer. Não há dúvidas que tem sido um meio ano excelente para a península, contando com as derrotas de Berlusconi e a prisão do Capo Provenzano. Mas interessa-me igualmente o futuro da Alemanha. Pode ser uma ilusão, mas quem sabe se, tal como em 1954 a conquista do Mundial da Suíça face aos "invencíveis magiares" deu um alento suplementar à jovem e titubeante RFA, este novo orgulho nacional, esta consciência de que o empreendedorismo germânico pode-se conjugar com entusiasmo e simpatia, não será uma das alavancas para que a Alemanha, com um hipotético despertar italiano, volte a ser o motor da Europa?

E por agora, basta de posts sobre futebol, apesar do Benfica ter voltado aos trabalhos para a nova época. O Mundial já lá vai, embora as polémicas permaneçam. Falemos agora de (outras) "coisas sérias".

2 comentários:

rui disse...

tudo muito bem. mas pouco me importa que se designe como "intelectualite" o facto de uma pessoa já não suportar a histeria colectiva que culminou na manobra idiota do sr. madail com o irs.
A Alemanha é um país poderoso que está numa crise relativa pelo facto de ter conseguido o espantoso milagre de rebocar a "outra" alemanha ao longo de uma década sem que daí tenha resultado uma catástrofe. É nessa crise relativa que tanto alegra a imbecilidade ultra liberal que está a raiz de um outro momento que me envergonhou neste mundial. Ver o boçal Gilberto Madail criticar com arrogância na televisão a "organização alemã" pelo facto de o autocarro da selecção nacional ter sido retido uma hora uma numa autoestrada devido a um desastre.

Anônimo disse...

Best regards from NY! »