segunda-feira, outubro 31, 2005

Ventos de esperança da Alemanha

Que a Alemanha mudou bastante após a reunificação é um dado assente. Que nos últimos tempos tenha necessariamente de mudar é outro. Que isso caiba à estranha "grande coligação", em vias de a governar, é outro ponto óbvio (há dúvidas é no sentido). Só que ultimamente as conversas sobre os teutões não primam pela positiva nem pela grandeza.

No centro da ex-Berlim Leste, a dois passos da porta de Brandemburgo e da catedral prussiana, nas margens do rio Spree, existe um edifício moderno, fechado e espelhado em tons laranja com graffitis à mistura. Não prima pela estética, como se imagina, mas aí funcionou, durante mais de dez anos, o parlamento da ex-RDA. Depois da reunificação fechou-se o mamarracho por causa das grandes quantidades de amianto lá contidas (quem sabe se a morte cancerígena de Honecker não se terá devido a isso), até há bem pouco tempo. Ao que parece, as autoridades competentes querem destruí-lo, apesar de alguns saudosistas que pretendem mantê-lo devido ao seu interesse histórico e arquitectónico (por aí não devem ir longe). Convém que se esclareça que o edifício está situado na preciso local onde se erguia outrora o Stadtschloss, o palácio onde os kaisers alemães residiam na capital, danificado durante a guerra e acabado de demolir pelo regime comunista. E é precisamente uma réplica de tal palácio que se quer reconstruir no ponto de origem. A polémica está lançada, como se esperava, porque embora o duvidoso edifício laranja possa ser muito útil como centro de congressos ou de outros eventos (poupando uns bons milhões de euros), arquitectonicamente falando o Stadtschloss é muitíssimo mais belo e bate-o aos pontos. Em princípio, será esta a solução a prevalecer, mas muita água (e tinta) vai ainda correr no Spree até à concretização do que quer que seja.




Mas o que me motivou a escrever este post é outro assunto. Hoje, 30 de Outubro, algo mudou realmente no skyline de uma das mais ilustres e esplendorosas urbes alemãs. E com um significado simbólico muito grande.
O bombardeamento de Dresden é um dos episódios mais conhecidos da recta final da Segunda Guerra, e uma das grandes manchas dos exércitos aliados. A "Florença do Elba" ficou reduzida quase toda ela a escombros em Fevereiro de 1945, e tardou em reerguer-se. Mas conseguiu, mesmo no tempo da RDA, voltar a mostrar os palácios legados pelos reis polacos, como o Zwinger, o seu friso com os duques da Saxónia, no palácio Sachsen, a Ópera, e o imponente "Balcão da Europa". A jóia da coroa, porém, a sumptuosa catedral barroca Frauenkirche, da qual só restava um torreão lateral, continuou em escombros durante cinquenta anos. Até que nos anos 90 recomeçou, lentamente, a sua quase total reconstrução.



No Verão de 1998 passei por Dresden, vindo de Berlim. Apesar do ar de limpeza e do despertar da cidade ainda havia diversas ruínas, provavelmente desde a guerra. Subsistiam também muitos aspectos ligados à RDA, alguns deles conciliadores, como os Trabant (não deixei de tirar umas fotos a uns quantos), ainda que se estivesse claramente a viver uma nova era, mais próspera e exaltante. Pude admirar as obras de reconstrução da Frauenkirche. Embora em fotografia não pareça, é uma obra colossal e majestosa. Mesmo entre tapumes e andaimes (com ar muito mais seguro do que os que se vêm por cá), espantou-me a dimensão e a imponência que se adivinhava por trás.
Até hoje. Porque os alemães, particularmente os de Dresden, puderam ver de novo aberta a sua querida igreja, sessenta anos depois da sua queda. Já há muito que se podia observar o resultado final, mas só hoje é que as suas portas se voltaram a escancarar. Um perfeito exemplo para ilustrar a máxima de Lampedusa : "é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma". Neste caso, o centro de Dresden ficou na mesma, como era antes de Fevereiro de 45. A Florença do Elba recuperou o seu esplendor e exorcizou em definitivo todos os fantasmas da guerra. Um bom motivo para lá voltar, um dia destes. Afinal, da Alemanha actual também chegam boas novas.




PS: li hoje nos jornais que a grande fatia das doações veio de Inglaterra, com o beneplácito do Duque de Kent, e de famílias de antigos prisioneiros de guerra aliados. Um excelente exemplo de reconciliação e concórdia, que ajuda a sarar definitivamente as feridas da guerra.
Aproveito para dizer que depois de ter passado por lá não soube mais notícias dos avanços das obras até ao Euro-2004; isso porque vi durante o campeonato de futebol um alemão com camisola do Dínamo de Dresden (a vender bandeiras da Grécia!) e não resisti a perguntar-lhe em que ponto é que ia a reconstrução; ele ficou vivamente surpreendido por encontrar portugueses a par das obras da catedral e interessados no seu avanço, e respondeu-me que este ano estaria pronta. E tinha razão.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Notas do dia
Num jogo difícil lá conseguimos ultrapassar o Leixões, equipa aguerrida apoiada pela claque "Mafia Vermelha", mas que a meu ver usou e abusou do anti-jogo. O capitão Simão encarregou-se da passagem da eliminatória, fazendo o que melhor sabe: marcar golos, por sinal espectaculares, fazendo justiça ao resultado. O do Leixões também é bem metido, mas os de Simão são qualquer coisa...hesito em escolher o melhor, talvez o segundo. O público, esse, acorreu em massa. Apesar do vermelho ser a cor comum, hesito em dizer que talvez o Benfica estivesse um pouco mais representado, apesar da barulheira dos matosinhenses.


Há neste momento vários filmes franceses nos ecrãs lusos. O que chama mais a atenção é provavelmente "Les Poupées Russes" (que no Verão, em França, já tinha sido visto por dois milhões de espectadores, segundo anunciavam), a sequela de "A Residência Espanhola", aquele filme de Erasmus que teve tanto sucesso e onde o mundo descobriu Romain Duris. Mas duvido que seja melhor que "Anthonny Zimmer", um thriller bem estruturado, com a habitual mistura entre falsários, polícias locais e tipos de Leste. Um tipo normal apanhado numa maquinação secreta, uma irresistível femme fatale (e logo Sophie Marceau), de nome Chiara (está visto que as Chiaras são indubitavelmente irresistíveis), uma troca de identidades, tudo entre TGVs, modernas vivendas camufladas no maquis, salas herméticas próprias para interrogatórios e o glamour da Côte d´Azur (há cenas passadas nos hoteis Carlton, em Cannes, e Negresco, bem como na Promenade des Anglais, em Nice). Tudo até às revelações (ou não) finais da trama, incluindo a da personagem que dá nome ao filme. Muito aconselhável, apesar de não estar em muitas salas. Se puderem, não o percam.

segunda-feira, outubro 24, 2005

A questão que se (me) impõe

Quando um portuense visita a capital, e vice-versa, já sabe que quando chegar a ocasião de pedir um "fino" terá de trocar o termo por "imperial". Não tem nada que saber. O problema coloca-se noutras latitudes, nomeadamente em terras equidistantes de tripeiros e alfacinhas.
Em Coimbra, por exemplo, o que usar? O pedido não deve ser raro na cidade dos estudantes, que não são propriamente indiferentes à beberagem (e agora com a Latada ainda menos). Mas já ouvi perguntar de duas formas: alguém pediu um fino, e perante o olhar de dúvida da menina que servia, alterou o pedido para "uma cerveja", ao que a dita moçoila acedeu, respondendo "uma Imperial, não é?". Pouco depois, numa tabela de bebidas num local de culto para a estudantada, já vinha o nosso Fino, e até em diferentes tamanhos. Ainda pensei que fosse a expressão "vinho fino", que se usa em Coimbra com o diminutivo fino, mas não, era mesmo a cerveja. Mais confuso se fica. Afinal, que expressão se usa em Coimbra? Serão ambas aceitáveis e oficiais, dado a quantidade de pessoas/estudantes que lá aflui? Ou andarão os beirões a enganar o resto do país enquanto procuram uma fórmula intermédia? Impõe-se uma resposta clara antes que se instale o caos (ou pelo menos um ligeiro qui pro quo à volta de copos).

segunda-feira, outubro 17, 2005

Para lembrar e relembrar



O jogo de ontem (que fui acompanhando sem ver, e do qual perdi o segundo golo) é sem dúvida histórico: pela matança do borrego de 14 anos e que vinha crescendo a cada nova época (com estagnação já no ano passado); pela passagem de testemunho de César Brito para Nuno Gomes, com os mesmos dois golos, ambos marcados com poucos minutos de intervalo, na segunda parte, na baliza do mesmo lado e até perante o mesmo guarda-redes (bonita idade, Vítor, mas com poucos motivos para comemorar); por marcar novo triunfo de Ronald Koeman, que também já marcou a Baía, sobre o seu patrício do "futebol de ataque"; e por simbolizar enfim a ideia de que os tempos negros do Benfica, neste campeonato e não só, ficaram para trás, e tão cedo aqueles terríveis onze anos não se voltarão a repetir. Mesmo que o SLB não seja campeão, mesmo que a Liga dos campeões não corra lá muito bem, certo é que temos mesmo equipa, com união e espírito de sacrifício, e ao que parece temos também um treinador competente e conhecedor do ofício, ao contrário do que chegou a parecer.

Claro que a equipa contrária, em especial a sua deplorável defesa, deram uma ajuda preciosa. Mas as lesões de Miccoli e a má forma de Karagounis também foram problemas acrescidos. Por isso se pode dizer que o triunfo no reduto do adversário é inteiramente merecido, graças a uma defesa sólida, um guarda-redes seguro, um meio-campo operário e um ataque desiquilibrador e oportunista. E bonitos os gestos do matador Nuno (sete golos em sete jogos!), tanto o de relembrar que era o campeão nacional que ali jogava como a dedicar os golos à antiga glória José Torres, vítima de uma doença degenerativa.



Agradecimentos ao sl-benfica.com pelas fotos, sobretudo a Isabel Cutileiro

PS: estava a folhear um jornal de 13 de Setembro e reparei em algumas das frases daquela secção que mostra o que se disse no dia anterior, noutras publicações. Por exemplo: "o Benfica está outra vez em crise" ou "Koeman está a seguir por caminhos já antes trilhados na Luz por Manuel José e Jupp Heynkes". Passou-se apenas um mês. Faz-me lembrar o PS depois das autárquicas. Parece que para além dos ciclos políticos, também os futebolísticos se estão a encurtar.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Jornais, declarações e substituições

Se há jornais que estão em franca decadência, ou que desiludem se comparados com o que eram na altura do seu surgimento, o Independente é seguramente um deles. Já se sabia que de independente tem muito pouco, ainda que assumido o espaço político em que se move. Mas pedir a Luís Filipe Meneses que fosse o opinion-maker do destaque do jornal, a dois dias das autárquicas, é um bocadinho demais. Se se acrescentar que este senhor é um autarca com ambições distritais/nacionais e provavelmente a figura política mais incoerente do PSD, então estamos conversados. É que na sua coluna (link indisponível, creio), o autarca do lado de lá prevê a total hecatombe do PS, com derrotas esmagadoras no distrito do Porto (que só ocorreram em Felgueiras), a perda de câmaras de Braga, Vila do Conde, (onde ganhou com maioria) etc, além de outras previsões que, pese a pesada derrota socialista do passado domingo, ficaram bastante aquém dos seus augúrios. Mas do sr.presidente da margem sul pouco mais haveria a esperar.
Pior do que isso só a conversa da sua directora, Inês Serra Lopes, que extrordinariamente declarou que "os casos de Gondomar e Felgueiras são diferentes de Oeiras, porque são bastante mais pequenos que o concelho onde Isaltino ganhou"; isso perante o ar impávido e sereno dos parceiros de mesa. Extraordinariamente porque a senhora sem dúvida ignora que Felgueiras é um dos concelhos mais industriais do distrito do Porto, e, pior do que isso, que Gondomar fica às portas da Invicta, tem mais de 150.000 habitantes e uma área muito extensa, ao contrário da exígua Oeiras. Claro que são concelhos entre o suburbano e o rural, mas daí a serem pequenos vai um passo que a despreocupada e pouco esclarecida directora do Indy certamente não dará.

E já que falamos em jornais, apercebi-me de que as críticas cinematográficas do Público se suavizaram de forma notória. A razão é simples. Saíu Kathleen Gomes e entrou Jorge Mourinha. Pessoalmente não era um adepto do seu estilo, das suas críticas amargas a tudo quanto era um pouco mais "comercial", das suas bolas pretas, só ocasionalmente trocadas por um punhado de estrelas a uma intelectualidade qualquer do novo cinema do Kazaquistão, enfim dos seus ataques sibilinos e ríspidos a 90% da produção cinematográfica e musical - embora não fosse razão para insultar.
Assim, o ingresso do ex-jornalista do Blitz não só enriquece o diário e demais suplementos - leia-se "Y" - como lhe dá um estilo mais leve, menos carregado, mas nem por isso menos profundo. É uma boa notícia saber que o terei como objecto de leitura no comboio de Sexta-Feira.

terça-feira, outubro 11, 2005

Rescaldo

Vitórias. Derrotas. Declarações mais ou menso grandiloquentes. Conquistas. Surpresas. Os ingredientes de umas quaisquer eleições autárquicas.

Leituras nacionais: o PSD é o principal vencedor, mantendo e reforçando a supremacia autárquica obtida em 2001, e engolindo o CDS. Marques Mendes sai também reforçado, apesar das perdas de algumas câmaras importantes e do igual reforço de alguns rivais, como Menezes.
O PS tem uma derrota em toda a linha, talvez a maior de que há memória a nível local, no mesmo ano em que obtém o seu maior triunfo de sempre. É pouco crível que o governo vá mudar o que quer que seja, dado o carácter local do evento (não se vota no excelso presidente da junta de freguesia de Mouçós para castigar as políticas socráticas). Mas de qualquer maneira, é uma derrota para o seu líder, Sócrates, e talvez marque o fim de uma era: a de Jorge Coelho como líder do aparelho PS.
CDU: outro grande vencedor. Inesperadamente, a coligação vermelha e verde (grande eufemismo) não só trava a contínua sangria de cãmaras que se verificava há já alguns anos como ganha novo fulgor, ao tomar o antigo feudo da marinha Grande, Peniche, alguns concelhos alentejanos e principalmente quase toda a margem sul do Tejo, o que lhes permitiu reconquistar a liderança da Junta Metropolitana de Lisboa. Se não fossem autárquicas, diria que é o efeito Jerónimo...
CDS-PP: as coligações com o PSD permitiram disfarçar o inabalável facto de que a nível local já não representam quase nada. Resiste o fiel e imutável bastião de Ponte de Lima, mas é tudo. O Marco caiu, o domínio que chegaram a ter em Aveiro desapareceu, e não lograram conquistar alguns concelhos que lhes dariam novo alento, como Mirandela. Ribeiro e Castro tem todo um trabalho de reorganização e aproximação local à sua espera.
BE: a estagnação. O Bloco mostra que é definitivamente um movimento urbano de protesto, não um partido para governar ou administrar o que quer que seja. E no Porto nem isso lhes valeu.
O resto dos partidos: irrelevantes, como sempre. Nem os irmãos Câmara Pereira conseguiram o que quer que fosse para aquilo a que eles chamam "PPM". curioso é verificar que um partido que julgava extinto, o PSN, ainda se apresentou a uma autarquia, já não sei qual.

Quanto às minhas escolhas pessoais para os resultados...bem...

O melhor: as derrotas de Ferreira Torres, Carrilho e José Raúl dos Santos (Ourique). As vitórias de Moita Flores, Manuel Moreira (Marco), Fernando Seara e Daniel Campelo, em Ponte de Lima.


O pior: derrotas de Alberto Souto em Aveiro (por causa de uma conjugação de votos entre PSD e CDS) e Maria José Azevedo em Valongo; as vitórias de Valentim, Fátima Felgueiras e Isaltino; a continuidade de Mário de Almeida (Vila do Conde), Mesquita Machado (Braga) , Manuel Martins (Vila Real) , Jaime Soares (Poiares) e Isabel Damasceno, em Leiria, a maioria absoluta de Rui Rio no Porto (preparem-se para a terraplanagem da Avenida dos Aliados), e, claro, o pleno de Alberto João nas onze câmaras da Madeira, com todas as inaugurações, intimidações e imensos fundos de campanha.

Pior discurso: ex aequo os de Fátima Felgueiras, Valentim (espanta como é que não lhe deu uma apoplexia), MM Carrilho (patético) e Rui Rio, num estilo demagógico e arrogante que não prenuncia nada de bom.
A maior alegria da noite: ver Ferreira Torres e as suas palavras ressabiadas contra "a comunicação social e a Mota-Engil", justificando "que tinha pena pelos amarantinos", enquanto Armindo Abreu festejava radiante entre um mar de gente aliviada.
Teria pena dos amarantinos, sim, se esse símbolo do pior que o poder local criou chegasse à presidência da "Princesa do Tâmega"; e ver o amigo dos empreiteiros atirar-se ás empresas de construção civil é grotesco e caricato, ao mesmo tempo. É provavelmente o fim da carreira do indivíduo, já que o ex-governador-civil do Porto, Manuel Moreira, conquistou o Marco de Canaveses e derrubou definitivamente o domínio avelinista.

A Manuel Moreira (até pela difícil herança) e sobretudo a Armindo Abreu envio aquele abraço e o desejo de felicidades nas respectivas autarquias.

sexta-feira, outubro 07, 2005

Autárquicas

São já daqui a poucos dias, as minhas eleições favoritas. Favoritas não apenas pelo teor das questões locais, que sempre me interessaram, principalmente as ligadas ao urbanismo (a construção de uma cidade é qualquer coisa de fascinante), mas pelas centenas de actos eleitorais e respectivas campanhas, que, pela boçalidade aliada à capacidade de imaginação e de improviso tão genuinamente português, são as mais divertidas que temos. Pena é que se realizem em Outubro, e não em Dezembro, como era regra, já próximas da quadra natalícia (o que propiciava novas e bizarras situações). De qualquer forma, para se ter uma ideia de conjunto, basta ver os vários blogues especialmente feitos para mostrar os melhores outdoors. Esses grandes apelos ao voto eram uma raridade apenas existentes nas grandes cidades hámeia dúzia de anos; hoje, a mais recôndtia freguesia não os dispensa, demonstrando que o tradicional cartaz colado na parede não passa de uma raridade e de uma recordação.
O que marca desde já este acto eleitoral são as famosas e muito mediáticas campanhas dos arguidos Valentim, Isaltino, Fátima Felgueiras e Avelino - este último talvez o caso mais chocante. Todos gostaríamos de os ver derrotados, como é óbvio. O problema é que os que restam são exactamente a maioria votante nos respectivos concelhos, pelo que a questão de os derrotar se transforma num bico de obra. Assim, se só um deles perder (preferência para Avelino), já não é mau.
Outro ponto que devia ficar resolvido era o dos dinossauros, tanto a nível pessoal como partidário. Pessoal, por causa dos que se eternizam no cago desde os anos 7o, casos de Narciso Miranda (que finalmente se retira), Mesquita Machado, ou jaime Soares, de Vila Nova de Poiares, que ocupa a cadeira desde 25 de Abril...de 1974. Partidário porque há agrupamentos que dominam as respectivas câmaras desde os primeiros escrutínios mesmo que pontualmente alterem o cabeça de lista (Vila Real, Vila do Conde, Viseu, a maioria das câmaras da Madeira, etc). Por minha vontade, todos estes municípios mudavam de cor no dia 9. Resta saber qual a vontade de mudança dos autóctones.
Não posso falar de muitas candidaturas, porque francamente não conheço bem os problemas e as "soluções" dadas pelos candidatos; tenho uma vaga ideia do que prometem para Lisboa, por exemplo, além dos patéticos debates Carrilho/Carmona, ou do que se passa em Vila Real e Matosinhos, mas pouco mais. As minhas eleições são no Porto.

Rui Rio, o vencedor surpresa de 2001, recandidata-se agora como favorito à vitória. Escudado numa imagem de candidato impoluto e anti-grupos de interesses, esta empalideceu com a surpreendente saída de Paulo Morais das listas para a CMP (e as suas posteriores declarações). Tem a seu favor a imagem de gestor austero, das tentativas de reabilitação dos bairros sociais e da desertificada zona histórica, e de ter concluído algumas obras paradas, como os arranjos da praça Carlos Alberto ou o Túnel de Ceuta - imbróglio não terminado. Contra si tem o nulo investimento na cultura, algumas quezílias inúteis e escusadas, um subtil e leve populismo e uma certa arrogância e sobranceria no tratamento de determinadas questões sociais (por exemplo, ainda não se percebeu se há menos arrumadores ou não).
Francisco Assis, ao contrário do que disseram, não pode ser considerado à partida um perdedor: presidente da câmara de Amarante aos 24 anos, líder do grupo parlamentar do PS aos 32, tendo tido a proeza de derrubar a todo-poderosa distrital socialista do Porto, de Narciso Miranda e de enfrentar populares irados em Felgueiras, não goza contudo de grande carisma nem é uma figura com forte ligação à cidade. Cultiva um certo afastamento do aparelho partidário e goza de credibilidade, tendo o apoio dos agentes culturais e de todos os outros que em geral se queixam de Rio; não especifica contudo qual vai ser a sua política de urbanismo, de atração do investimento (um dos seus cavalos de batalha) ou da "devolução ao Porto da importância que merece".
Rui Sá é uma espécie de "one-man-show" da CDU, tal como era Ilda Figueiredo, e como a agora eurodeputada consegue transmitir uma certa imagem de trabalho e competência. Tendo muitas vezes suportado a maioria na Câmara, não consegue afastar uma certa ambiguidade, além da importância que dá ao confronto directo com o BE. O seu trabalho de safra parece, no entanto, ser reconhecido.
Pelo bloco de Esquerda recandidata-se João Teixeira Lopes, sociólogo (como 70% dos bloquistas) e deputado. Tem algumas hipóteses de chegar a vereador, aposta na cultura e aos assuntos sociais, sobretudo no que toca às ilhas e bairros camarários (o tema mais batido da campanha), mas as suas ideias parecem algo vazias e minimalistas. A excessiva confrontação com as outras candidaturas também não o favorece.
Por último, o estimado advogado João Garrett candidata-se pela Nova Democracia/PPM, mas a sua candidatura parece ter passado ao lado dos eleitores, não se conhecendo os seus projectos nem a sua equipa por falta de informação. O cartaz , enigmático e populista, também não ajuda nada à festa, como se pode ver:



Cortesia do Fumaças

Resta-nos assim esperar pelas confirmações e surpresas de Domingo, que a televisão exaustivamente nos revelará, para não falar nos habituais paineis de entendidos, representantes partidários e jornalistas. O zapping será constante, como sempre. Mas até lá, nas poucas horas que nos restam, ainda temos os últimos cartuchos de um conjunto de centenas de campanhas que vale a pena acompanhar (aqui, por exemplo), sem que faltem os eternos bombos, bandeiras, slogans e comícios jantares/almoços, consoante a hora. A política portuguesa vive inevitavelmente de gastronomia e fanfarra, o que dá outra piada à coisa. E, sinceramente, já não podemos passar sem isso.

sábado, outubro 01, 2005

Inglório



É óbvio que fiquei fulo com a derrota em Manchester. Perder a cinco minutos do fim depois de um jogo tão equilibrado é doloroso e dá aquela famosa sensação da morte na praia. Provavelmente haveria uma sensação de menor frustração se a derrota tivesse sido por outros números. Mas depois desta exibição exige-se mais ao Benfica e pricipalmente a Koeman. Não vale a pena repetir as mesmas críticas e dizer que devia ter tirado o elemento nulo em campo (Beto, cujo lugar não é decididamente nas alas) e conservado Miccoli, para não "convidar a equipa contrária a atacar". Agora há que olhar em frente, com outra confiança, para preparar os próximos embates no campeonato e os restantes jogos europeus. Com alguma sorte, ainda nos desforramos da equipa do sr. Glazer quando vierem à Luz, com ou sem Rooney, Keane e companhia.

De qualquer forma, antes a nossa derrota que os três a dois que tanto Porto como Sporting sofreram em casa por parte de adversários modestos e tecnicamente inferiores. Um problema para os nossos rivais irem reflectindo seriamente.
O Vitória de Guimarães, nosso próximo adversário, está de parabéns pelo triunfo obtido na Polónia. O outro Vitória, o sadino, saíu de cabeça erguida do confronto com a Doria, o famoso segundo clube de Génova (daqui a uns dias explico-lhes porquê). Sem avançados, o Braga caíu na armadilha do golo sofrido em casa perante o velho Estrela Vermelha. E assim se findou a jornada portuguesa na UEFA, sem grandes motivos para rir, excepto em Guimarães.

Como prémio de consolação, deixo-lhes esta imagem de A Praia e o respectivo post do Ivan Nunes. Não é novidade nenhuma que o Benfica tem adeptos em todo o mundo, mas é sempre reconfortante encontrar mais um.

terça-feira, setembro 27, 2005

O adeus às armas




O terrorismo também tem fim

sexta-feira, setembro 23, 2005

A esperança encarnada renasce

O ano começou mal, é verdade, mas depois das últimas vitaminas até já podemos dizer, com um sorriso trocista, que demos oito pontos de avanço aos adversário e que já os apanhámos.

O ídolo do momento é o minorca Miccoli, jogador que não conhecia mas que promete momentos fabulosos de bola nos pés (ou na cabeça, como já mostrou).
Atenção a Karagounis: o grego tem arrancadas explosivas e remates fulminantes. Não se impressionem apenas com o que viram no EURO 2004.
Leo, outro minorca, mostrou ter velocidade e consistência defensiva. Quando ganhar ritmo vai ser um caso sério junto de Simão.
Andersson surpreendeu-me pela colocação, destreza e classe no desarme. Precisa de melhorar no jogo aéreo, porque no resto é simplesmente impecável.
Beto tem desiludido mais, depois de uma excelente pré-época. Não se podia esperar grandes milagres de um médio proveniente do Beira-Mar que custou trezentos mil euros, mas ainda assim acho que, na sua posição original, será um bom e raçudo suplente de Petit e Manuel Fernandes (que até nem têm jogado grande coisa).
Kariaka não teve tempo para se mostrar muito, mas revelou alguns bons pormenores técnicos. Pode ser uma boa alternativa ao capitão, na esquerda, assim como o jovem mas promissor Hélio Roque.
Nelson é uma autêntica revelação. Até costumo acompanhar os vizinhos do Bessa, e ainda há tempos um juvenil dos axadrezados, que torce pelo Porto me tinha garantido que ele seria um novo Miguel; na altura desconfiei; agora, dissiparam-se-me as dúvidas.
Já agora, fica aqui uma pequena nota relativa, num blog recomendável (apesar do nome), não só ao novo e explosivo lateral canhoto mas também ás outras contratações:

Os adeptos do Boavista ficaram desolados com a sua saída. Mais, consideram que o preço pago pelo Benfica foi "ridículo". Também acho. Vender Miguel e Alex, comprar Nélson e ganhar, no fim, 8,5 milhões de Euros, é um negócio da China.
O Veiga terá estado mal?
PS - já agora, se lhe juntarmos um Leo, um Anderson, um Karagounis e um Miccoli, praticamente sem gastar um tostão...


Esperemos que as coisas se confirmem em Penafiel, cujo golo solitário na antepenúltima jornada de Maio passado, que tantos nervos me criou, ainda me está atravessado. Quanto ao teste mais duro, Old Trafford, terá de ser encarado como isso mesmo: um teste à capacidade deste benfica de koeman. Não se esperem milagres, mas ambição e realismo.

domingo, setembro 18, 2005

O fim do Verão

Oficialmente o Verão acaba lá para 21 de Setembro e algumas horas. Para muitos, o término da estação é no regresso das férias (se calharem nessa altura) e nem mais um dia. E há quem trace o limite com as vindimas.
Para os que frequentam as Feiras Novas de Ponte de Lima, em meados do mês, esse é o ponto exacto em que o Verão, o bronze, as conversas até tarde cá fora, etc, têm o seu termo. As tradicionais festas da terra de Campelo são o último suspiro estival, particulamente para quem está na fase de estudo e vê o primeiro dia de aulas chegar (e para os outros também). Naquele caos de pó, frango a fritar, vinho verde, chapéus de palha e entre a praça (e o seu típico chafariz do Alto Minho), a alameda e o rio Lima, com a ponte e as inúmeras igrejas como cenário de fundo, a comunhão entre gente de proveniência absolutamente distinta é já uma tradição que se vai perdendo nos tempos. Comunhão que não evita por vezes cenas de pancadaria entre locais e forasteiros, nomeio das barracas de pano cru e a multidão que ou aplaude ou foge, como é típico nestas situações. Se houver feirantes de varapau é pior.
Certo é que entre viras e chulas (agora com umas resmas de techno pelo meio), que fazem as delícias das novas gerações que invadem as festas todos os anos(não demasiado novas, apesar de tudo), e ao lado dos cavalos que passam a caminho da feira, despedimo-nos do Verão prontos para enfrentar as agruras ou os prazeres de um novo Outono. Até ao amanhecer, raros são os que não ficam, de preferência com um copo na mão, ou comendo um caldo verde à laia de ceia, num banco corrido, com o chapéu pousado ao lado, recordando os acontecimentos da noite e do Verão que terminam.



A todos os que ainda tiverem oportunidade de ir às Feiras Novas, que decorrem em Ponte de Lima até terça-feira, aconselho-os a ir lá, sobretudo aos que não conhecem. Eu já tive a minha conta de 2005. O Verão segue para o ano.

terça-feira, setembro 13, 2005

Post populista-sério (ou "os políticos são todos iguais")

O Bloco de Esquerda candidata Louçã para "impedir a ascensão da direita". O PCP e o "Secretário-Geral camarada Jerónimo de Sousa " idem aspas. Mário Soares avança depois da confiança mostrada pelo PS. Os "notáveis" do PSD e as bases apelam à candidatura de Cavaco para "derrotar a esquerda" e particularmente Soares. Ribeiro e Castro fala na necessidade de "impedir a esquerda de ficar com a maioria das autaquias".
Para quem tinha a menor dúvida de que os partidos e respectivos aparelhos (com as jotas à frente, bem entendido) são actualmente o maior cancro da vida política pode tirar daqui as devidas conclusões. Os grandes objectivos são impedir "os outros", a esquerda ou a direita, de ganhar. Ideias construtivas é que nem vê-las.
Não é à toa que o PS não manifesta dúvidas quanto à OTA ou ao TGV, que Campos e cunha saíu do Governo ou que Vara está na Administração da CGD e Gomes na da GALP. Ou ainda que os barões do PSD recusaram a lei da limitação de mandatos. é tudo claro como à água. Pelo menos à superfície. O fundo, esse, deve ser escuríssimo.

segunda-feira, setembro 12, 2005

Pixies alive


Enquanto muito sonhavam ver Bono e os habituais óculos escuros, ladeado por The Edge de chapéu texano, Clayton e Mullen sob holofotes e neons, cantando o Vertigo entre os azulejos amarelos e verdes de Alvalade, o meu pensamento ia para aquela banda meio esquizofrénico, meio masoquista, proveniente de Boston, e que se tinha voltado a juntar após demasidos anos de separação. Isso mesmo: os Pixies.
 
Esse grupo, chefiado por um alucinado de mais de cem kilos com o estranho nome artístico de Black Francis/Frank Black, e por uma senhora com ar de dona de casa e voz estridente chamada Kim Deal, acompanhados pelo guitarrista filipino Joey Santiago e pelo baterista David Lovering, mudou a face do rock dos anos oitenta/noventa, com o seu noise (menor que o dos Sonic Youth, apesar de tudo) melódico, que influenciou gente como Kurt Cobain - ainda que este nunca lhes tenha chegado aos calcanhares. Músicas cantadas (ou berradas) ora em inglês, ora em espanhol, sobre OVNIs, praias portoriquenhas, mentes a explodir ou bastardias avulsas eram o mote deste quarteto. Claro que a dita influência não se notou assim tão bem a olho nu, já que os seus discos não rebentavam com as platinas da época, e muito injustamente, diga-se (veja-se esta notícia, se ainda estiver online). O que é certo é que a banda espalhou os pós que haveriam de criar o grunge e depois dissolveu-se, por decisão unilateral do seu líder que queria enveredar por uma carreira a solo.
A vida de Franck black não melhorou com isso; Kim Deal conseguiu alguma notoriedade com as suas Breeders; mas sabiam que a sua carreira se devia à mítica banda que fora a sua.
 
Há alguns anos atrás, também eu punha os Pixies como um dos três ou quatro grupos que mais gostaria de ver ao vivo, mas acrescentava sempre um desconsolado "mas isso é impossível, porque eles não se vão voltar a juntar", enquanto ouvia o seu álbum live.
Oh, homem de pouca fé que eu era! Algures no ano passado, os agora distintos quarentões decidiram-se juntar-se e fazer umas tournées, sem esquecer a Ocidental Praia Lusitana. Para meu infortúnio, não pude comparecer na comissão de boas vindas dos Pixies a Portugal, vulgo público do Superbock Superock, e, vésperas do EURO. Prometi a mim próprio que se me fosse dada mais uma oportunidade, não a perderia por (quase) nada. E assim sucedeu. Aí em Maio soube que voltavam para actuar no festival de Paredes de Coura. a 17 de Agosto. Essa data não mais me saiu da memória, até porque sabia que nessa altura ia estar igualmente no Alto Minho. Chegado o grande dia, e mesmo com problemas de óleo no carro (e mais de trinta kms pela frente), ainda sem bilhete e com os meus companheiros de romaria courense a cortar-se à última do hora, rumei ao local escolhido. Curvas e mais curvas depois, ao som do Death to the Pixies no discman da viatura, consegui deixá-la num qualquer campo convertido em parque por uma quantia exagerada. Tal como era a que se pagava pelo bilhete. Mas deu tempo para inspecionar o local, ( hélas, demasiado tarde para ver os Arcade Fire), comer e beber alguma coisa e dar uma vista de olhos à Blitz (a única coisa grátis em toda aquela noite). As rádios e TVs "jovens" andavam todas por lá, mas infelizmente não vislumbrei a Rita Andrade.
O sítio, novo para mim (Paredes de Coura era mesmo o único concelho do Alto Minho que desconhecia), é bastante acidentado, com numerosos altos e baixos e um anfiteatro natural, inclinado para o palco, com o rio Coura - ali quase um ribeiro - atrás. Devo dizer que o seu primo mais velho de Vilar de Mouros é bem mais confortável e menos poeirento, além da proximidade e acessibilidades.
O que é certo é que ainda assisti aos Queen of Stone Age, bem cá atrás, não fosse ser acometido de uma surdez crónica, tal era o som e a potência da banda, mas não desgostei. Com o hiato da praxe, aproveitei para me chegar umas centenas de metros à frente, até que, quase inesperadamente, sem nada que os anunciasse, os Pixies fizeram a sua entrada em palco. Carecas todos, menos a senhora. Frank Black ainda mais gordo e com ar de sono (Kim Deal também ganhou uns kilos), envergando roupas banais, nada de blusões de couro, óculos escuros ou chapéus de texano. O que é certo é desde o início atacaram os clássicos: Wave of Mutilation, Where is my Mind, Here comes your Man, tudo seguido, para pôr o público efervescente, muito embora algumas estátuas de cera no meio dessem a impressão de nunca ter ouvido tal coisa na vida. Estas figuras irritam-me particularmente, quase tanto como aqueles que no seu frenesim musical quase que agridem as pessoas ao lado à cabeçada involuntária.
Claro que depois de semelhantes temas, vieram as menos conhecidas, pontuadas sempre com um ou outro clássico a meio (como a soberba Gouge Away, óptima para se ouvir à noite, perfeita quando tocada sob o luar). Houve um encore e a oportunidade de ver Mrs Deal balbuciar coisas em português, na sua simpatia contagiante, antes de encerrar com o seu Gigantic. Sem grandes rasgos, foram 25 músicas em hora e vinte de espectáculo, mas é sabido que as canções do grupo de Boston não primam pela sua longa duração. Não sendo o concerto da minha vida, a coisa teve a sua piada e dei-me por satisfeito. Embora tivesse sabido a pouco, os lendários Pixies ficaram vistos ao vivo e a cores; mais um para a colecção; mas se voltarem a este torrão ibérico num futuro não muito longínquo, e se tiver uma oportunidade clara, não deixarei de os rever. Porque apesar de tudo julgo que ainda me devem algo; se assim for, considerarei sempre um tal evento como a segunda parte do concerto do qual estive à espera tempos a fio. Caso contrário, não será por isso que me vou chatear com eles.

PS: para provar a minha boa vontade, no regresso vim o caminho todo a ouvir a segunda parte do Death to the Pixies: um concerto ao vivo dado pelos mesmos em Utreque, por volta de 1990. Exactamente o que tinha ouvido antes, só que com mais voz e um pouco mais de "loucura".


quarta-feira, setembro 07, 2005

Com o fim da saison balnear, das respectivas nortadas e brumas (e uma carga enorme de constipação por causa disso) e o regresso definitivo à rotina de todos os dias, confirmo com pesar que o Fora do Mundo , o Aviz e o Jaquinzinhos se acabaram mesmo. É o render da guarda, mas é sempre penoso.
Em relação ao primeiro, sabendo que FJV a uma quantidade de blogs sobre literatura brasileira, e que Pedro Lomba anda arredado da escrita online, só posso concluír que Pedro Mexia se cansou das bloguices durante uns tempos, e, aproveitando a quase ausência dos outros dois companheiros, resolveu parar e consequentemente encerrar o blogue. A questão é saber quanto tempo é que vai estar afastado, mas suspeito que não será tanto como isso. Entretanto, Viegas, apesar deste duplo desaparecimento, já tratou de se estabelecer no seu novo Origem das Espécies. Ainda não sei bem como será, mas é crível que entre outras coisas o seus autor fale de literatura, charutos, cerveja e actualidade brasileira.
No caso do blogue algarvio, sportinguista e liberal, acredito que o fim da sua caminhada se deva ao facto de ter blogado incansavelmente durante mais de dois anos, coisa que, parecendo que não, acaba por fartar. Embora na maior parte das ocasiões tenha discordado de JCD, encontravam-se lá posts - e fotografias - magníficos. Relembro como um dos mais felizes a enorme texto sobre a constituição do Ministério da Agricultura. Já um dos mais indefensáveis talvez tenha sido aquele em que fazia a apologia de Roman Abramovitch e da origem da sua sinuosa fortuna.
Como tudo o resto, os blogues não são eternos nem imutáveis; por cada blogue que acaba, há mais dez a ser criados num qualquer enter. Mas também neste mundo em expansão há referências, e os blogues que agora chegaram ao fim da linha eram-no incontestavelmente. Agora só espero que este volte rapidamente de férias.
E por ora é tudo. Os incêndio continuam a lavrar - ainda estamos em Setembro - e nos últimos dias pude ver bem os seus estragos, em sítios como o alto Minho, Trás-os-Montes, Coimbra, Douro Litoral (Valongo ficou quase totalmente cercada pelas chamas, e por um triz não ardia a biblioteca municipal), etc. Felizmente, a chuva resolveu aparecer. Louvada seja.

É claro que ja voltei de férias há uns dias, mas à excepção do post sobre o solidariedade, não tenho tido grande oportunidade de blogar. Espero agora ter mais disponibilidae para voltar às descrições mediterrânicas.

quinta-feira, setembro 01, 2005

Um quarto de século



quinta-feira, agosto 25, 2005

Há fumo...

Não me lembro de um ano tão chamuscante como este, mas com a seca que tivemos, não era de esperar outra coisa. Por toda a parte se vêm colunas de fumo e até labaredas, que se transformam em sinistros clarões atrás dos montes quando cai a noite. Em todas as localidades das imediações, Cerveira, Valença, Vilar de Mouros, Caminha, Viana, os sinais de devastação são bem visíveis; as matas queimadas, ainda a fumegar, estão aí, a poucos passos. Na capital do distrito por pouco não evacuaram o hospital central, e as festas da Senhora da Agonia, habitualmente tão afamadas, foram ensombradas por uma sinistra nuvem de fumo que subia do monte de Santa Luzia, em labaredas.
A única névoa que se vê é precisamente a do "smog" incendiário: nem sinal de humidade no horizonte. Pelos media vejo que a situação não é melhor no centro e em Trás-os-Montes, onde numa aldeia cujo nome prefiro não divulgar a populção ficou embasbacada a olhar para os fogos dos vizinhos, antes de voltar para a sua festarola e para o respectivo lançamento de fogo de artifício - apesar da expressa proibição do governador civil, a quem ia dando um ataque. Depois, claro, a culpa é toda dos governantes e dos político, a quem se pedincha subsídios quando o mal está feito.
Acho que hoje completo mais um ano, mas sinceramente nem me lembro muito disso. E depois, o dia de hoje devia ser feriado, por razões evidentemente extra-pessoais : a lembrança da Revolução Liberal de 24 de Agosto de 1820, no Porto, célula embrionária do regime constitucional. Poucos se lembram disso, injustamente. É mais fácil lembrar um banal aniversário através de um telefonema ou de um sms. De qualquer maneira, fica uma pontinha de orgulho por ter nascido em tão importante efeméride.
A continuação do post anterior e das diversas localidades mediterrânicas continua em breve.

sexta-feira, agosto 05, 2005

Um novo dia no Mediterraneo

O primeiro jornal que tiro da banca, La Gazzetto del Sport; anima-me logo o inicio do dia: segundo os transalpinos, a Juve quer mesmo Miguel, apesar dos disparates. Se isto se confirmasse é que era...
Falando ainda em futebol, a noticia desportiva aqui é mesmo a do regresso de Zizou à equipa francesa; escrevo sem todos os acentos porque estou precisamente na cidade que descobriu esse grande jogador para o futebol: Cannes. Mas como é evidente, as atracçoes aqui estao longe de se relaccionarem com o futebol. A Croisette, ladeada pelo Palàcio dos Festivais e as marcas digitais das estrelas de cinema, pelo Vieu Port e pelos Carltons e Hiltons da enseada, impressiona pelo requinte e beleza.
Por estranho que pareça, nem era minha intençao parar em Cannes, mas um incendio perto de Marselha cortou as comunicaçoes e obrigou-me a passar aqui a noite. Em boa hora. De qualquer forma, o problema parece resolvido, e seguirei ainda hoje para a Provença.
Resumindo, venho de Nice, e antes disso de Génova (proveniente de Milao). Tem sido um percurso interessante ao longo da Riviera e da Cote d Azur, apesar do sol impiedoso. Sigo agora para Oeste, e tentarei dar noticias sempre que possivel.

segunda-feira, agosto 01, 2005

Adeus?

A pior notícia possível para a imprensa portuguesa tornou-se realidade: O Comércio do Porto (o mais antigo periódico ibérico, nascido em 1854) e A Capital fecharam as portas.
Como repararam, não coloquei os respectivos links. Não vale a pena. É que as edições online já não estão disponíveis. Infelizmente, as contigências de um mercado que se desinteressa da diversidade jornalística e da longa história e tradição de autênticas instituições levam a resultados destes.
Não era leitor assíduo de nehum dos dois, mas lembro-me bem de ver o Comércio em cima da mesa metálica da sala do meu avô, um sólido e empedernido portuense (apesar de bastante conservador e pouco republicano), que não o dispensava por nada, e que, julgo eu, terá passado até por um dos seus orgãos de direcção. A Capital conhecia-o menos, talvez por se restringir mais à área de Lisboa, mas lembro-me de ler e reler um número especial sobre o festival de Vilar de Mouros de 1996, e de descobrir com emoção o relato dos concertos a que eu também tinha assistido (os meus primeiros).
Um texto do Barnabé já com uns meses largos tinha um carácter vagamente premonitório. Querem ver que daqui a pouco é o Primeiro de Janeiro? Ao menos, deixem-nos ficar com as ruas (para quem não sabe, há na cidade do Porto ruas com o nome dos três jornais: a do Comércio fica atrás da Bolsa, a do Primeiro é onde está o Bessa, e a do JN, ao contrário do que muitos pensam, fica em Aldoar).
Esperemos é que estas abruptas interrupções sejam apenas um intervalo e que as duas publicações voltem às impressoras.

PS: amanhã parto para férias, para um destino ainda nebuloso antes dos costumeiros dias de praia numa conhecida localidade do Alto Minho. Tentarei escrever dentro do possível, mas sempre com irregularidade. Boas férias, a quem as gozar agora.

domingo, julho 31, 2005

Farto

Há uma coisa de que sinceramente estou farto: dos constantes e eternos pessimismos com que dia a dia nos martirizam os tímpanos. Sempre que abro a secção "Diz-se" do Público, por exemplo, apanho logo com meia dúzia de queixumes e afirmações semi-apocalípticas: Portugal não tem emenda, o país é inviável, caminhamos para o fim (ou para o desastre), etc, etc, etc. Já ouvi mesmo alguns colunistas dizer que "Portugal atravessa a maior crise da sua história" - fazendo tábua rasa de oitocentos anos em que tivemos reconquistas, interregnos, revoluções, guerras civis, terramotos e até perdas temporárias da independência.
Seria muito fácil exemplificar logo com Vasco Pulido Valente, mas nem é preciso ir tão longe. Um dos culpados disto é Pacheco Pereira; começou a usar a expressão "pobre país o nosso" e logo um monte de seguidores passou a usá-la como lema. Dos mais insistente saliento um comentador do Blasfémias, que assina anti-comuna, e que depois de umas quantas linhas a verberar o poder político (quase sempre o actual governo, mas justificando o de Santana) e a concordar com cada palavra escrita pelo campeão liberal João Miranda, acaba sempre com o mesmo lamento :"pobre país o nosso! Quem nos acode, quem nos acode?". Há muitos outros, como é óbvio, mas este é um dos mais flagrantes exemplos do choradinho-pessimista nacional; o caso é tanto mais estranho se pensarmos que se está a defender a total iniciativa privada no início, e logo a seguir se começa a pedir socorro a um qualquer salvador imaginário.
Se há defeito que os portugueses têm, mais do que qualquer outro, é o de passarem o tempo a criticar o país. Ora, se o país é criticável, deve-se aos próprios críticos, e a mais ninguém. Mas desde os tempos do nosso Eça e da "choldra"(pelo menos, porque esse hábito já deve vir mais de trás) que é de bom tom bater no país.
Não sou sociólogo e muito menos economista, mas suspeito que haja razões históricas por trás de tanta frustração. A memória da gloriosa saga dos descobrimentos continua sempre presente. Só que considerar Portugal uma superpotência é não ter a noção das coisas. Passa-se o tempo a fazer comparações com os outros, começando por Espanha e acabando na Grécia. Para quem não se deu conta, Espanha tem o quáduplo da população, o quíntuplo do território e uma fronteira com França, o que sempre a torna menos periférica. Sim, eu sei que estamos na cauda da Europa em quase todos os índices de desenvolvimento humano. Mas isso não é razão para se dizer que estamos no "Terceiro Mundo". Temos um povo na sua maioria iletrado e sem qualificações, uma classe política duvidosa, uma administração pública pesada e uma economia dependente. Mas quase todos têm telemóvel, casa própria e automóvel (eu por acaso não). Claro que podemos falar sempre no excessivo recurso ao crédito, mas isso é outra história. E não temos guerras, nem fome generalizada, epidemias graves ou uma criminalidade assustadora. Alguém que chegue do Níger, do Bangladesh ou do Afeganistão e ouça um dos comentadores do costume dizer que "somos um país do Terceiro Mundo" (onde com certeza nunca esteve) tem todas as razões para se sentir ofendido e aviltado. O nosso défice pode estar num nível alto, mas a água é potável e não faltam hospitais, escolas e auto-estradas. Nem telemóveis.
É por isso que estou francamente farto de torpes comentários dos pífios críticos que nos cercam. Tanto queixume é doentio, e se o país não é melhor e há falta de iniciativa também se deve a eles. Portugal pode estar estagnado, acomodado, ultrapassado, mas não é por isso que vai acabar, por muito que seja essa a opinião dos seguidores de Pulido Valente & Cia. E aposto que há muito de financeiro e económico por aí: se a nossa economia crescesse um bocadinho mais, e as finanças estivessem na milagreira linha dos 3%, já as lamúria seriam mais suaves. E daí talvez não. Não faltariam carpideiras (como o anacrónico e estafado Camilo de Oliveira) a falar da "crise", nem que isso significasse a subida do preço do Kilo da hortaliça.

(Para desanuviar um pouco, fica aqui a seguinte questão: porque será que o PS, para a câmara da Póvoa do Varzim, terá resolvido candidatar o apresentador José Carlos Malato?



Eis uma questão a pôr ao MFC)

terça-feira, julho 26, 2005

A herança terrorista

O terrorismo continua a ser o assunto mais discutido a nível internacional. Tivemos a quasi repetição dos atentados de Londres duas semanas depois, o caso do infeliz brasileiro baleado pela polícia (mas quem é que o mandou vestir-se daquela forma?), as bombas em Sharm-el-Sheik, e, claro, a matança diária do Iraque, cujos habitantes são autênticos mártires às mãos dos bárbaros locais. A pergunta que mais se faz é: qual será o alvo seguinte? Ou então, e talvez mais pertinente: deve a nossa liberdade ser parcialmente posta em causa em nome da segurança?
De qualquer forma, o fenómeno não é de maneira nenhuma novo. Mesmo a versão fanática islâmica já se tinha manifestado por diversas vezes nos anos 80, com o enigmático Abu Nidal, ou os incitamentos de Muammar Khadafi (hoje um autêntico cordeiro). Mais atrás tivemos o "terror vermelho", das Brigate Rossi e dos Baader-Meinhof, ou dos grupos fascistas que mandaram pelos ares a estação de Bolonha. As doutrinas dos extremos, particularmente as anarquistas, já utilizavam o terror há largas décadas.
Prova disso mesmo é o nosso inevitável Eça, que invocamos sempre que queremos fazer uma comparação entre o Séc. XIX e os nossos dias. Também aqui o então cônsul em Paris nos deixou notas preciosas para percebermos como a violência do terrorismo já na época obedecia a uma lógica impiedosa e fanática. Eis alguns exemplos que encontrei na biografia do escritor, da autoria de Maria Filomena Mónica:
"o propósito de aplicar a doutrina de seita, que tendo condenado a sociedade burguesa e capitalista como único impedimento à definitiva felicidade dos proletários, decretou a destruição desses proletários (razão dada para a colocação de uma bomba no interior do Parlamento) (...) durante um momento, à força de buscas, de prisões, a seita fica desorganizada, desconjuntada; mas para imediatamente se reorganizar além, mais numerosa, mais fanatizada, por isso que vem de padecer mais uma perseguição (...)Tornava-se necessário atirar indiscriminadamente a bomba redentora contra as classes exploradoras, contra a cidade onde se realiza a exploração, contra as próprias crianças que nascem, porque elas já trazem em si o vírus da submissão explorável (...) Se é anarquista, se lançou a bomba, é dele a fama universal, que nem sempre conseguem os santos e os génios." Filomena Mónica dá-nos ainda conta dasduas razões que Eça considerava fundamentais para a divulgação da doutrina: "uma das raízes do entusiasmo pelo anarquista, a boa, viria da comiseração que naturalmente qualquer pessoa sente por quem sofre; mas havia outra, a perniciosa, que derivava do doentio entusiasmo por tudo quanto era monstruoso (...) A culpabilidade dos ricos levava-os ao êxtase do gesto bombista" (Maria Filomena Mónica, Eça de Queirós, Quetzal Editores). Para além disto, Eça faz ainda algumas considerações acerca da estranha atracção de alguns elementos das classes mais altas pela doutrina da seita.
Notório é que muitas das características do terrorismo da altura sejam tão semelhantes ao que deriva do islamismo: a vontade de matar indiscriminadamente, o ódio a uma sociedade inteira, o dogmatismo e a crença na sua missão assassina (e em grande parte suicida, já que os anarquistas sabiam que estas acções provavelmente lhes custariam a vida), um certo sentimento de exploração ou marginalização que deriva para um letal desejo de vingança. Sim, ontem como hoje as razões e as consequências são as mesmas. As novas tecnologias e a globalização tendem a modificar-lhes os métodos, mas o islamismo radical é na sua vertente mais violenta herdeiro directo do anarquismo oitocentista. Que páginas dedicaria Eça ao assunto se vivesse nos nossos dias?