terça-feira, janeiro 13, 2009

Nem tudo funciona mal em Portugal

A lamúria nacional atinge todos os sectores da nossa sociedade, quer seja na política, na cultura, na famosa "mentalidade", no desporto (ver posta anterior) e nos serviços públicos na sua generalidade. Nestes últimos, costuma-se criticar amiúde a educação, a justiça, a segurança e a saúde. Se nos três primeiros até concordo com muita coisa - e por alguma razão coloquei a justiça em primeiro lugar, que me parece a mais vilipendiada - já na saúde vejo um bota-abaixismo de proporções exageradas. O nosso sistema, com base no estado social nascido em 76, mas já com antecedentes importantes no marcelismo e herdeiro das misericórdias, não é perfeito, como nenhum é. Há por vezes falhas graves do pessoal médico, insuficiência de meios de transporte e de pessoal, cortes sem fundamento nos orçamentos, problemas que atingem sobretudo o interior e as povoações mais isoladas, como se vê pela demora em criar os Serviços de Urgência Básica (SUBs) por esse país fora.


Contudo, ao lermos nos fóruns e espaços de comentários que abundam sobre todos os assuntos, encontra-se sempre a mesma coisa. "a saúde é uma vergonha", "O governo tem de ir para a rua", "isto nos países civilizados não acontece", etc. A comparação é sempre feita ao nível dos tais "países civilizados", como se ali jorrasse mel e os hospitais funcionassem de forma perfeita, o atendimento fosse perfeito e os doentes ficassem todos em quartos individuais com cama de dossel, flores na mesinha de cabeceira e ecrã plasma com leitor de DVDs.
Quem passou pelos estabelecimentos de saúde "lá de fora" desejou voltar a Portugal o mais rápido possível. Em crónicas recentes directamente escritas do hospital onde estava, Miguel Esteves Cardoso perguntava-se onde é que os hospitais ingleses eram melhores que os portugueses (recordar que o Reino Unido foi pioneiro num sistema de saúde público). As filas de espera na Grã-Bretanha e em França conseguem piores que as nossas. Nos Estados Unidos, conhecidos meus tiveram o desprazer de terem de se deslocar a um hospital público americano, de onde saíram horrorizados; recorreram a um privado, e mais horrorizados ficaram com os custos. E na Noruega, sei igualmente de quem teve experiências traumáticas em Hospitais, a nível do atendimento e de administração de medicamentos e injecções.
No último fim de semana a minha Avó teve de ser hospitalizada no Hospital Distrital de Vila Real, com problemas respiratórios. Nas primeiras horas havia alguma angústia pelo que estaria a passar, e que tivesse de passar a noite no corredor, esquecida numa qualquer maca, dada a enorme afluência de gente neste tempo gelado. Com a neve e o gelo a cortar as estradas, era praticamente impossível chegar à cidade por estrada. Mas com um simples telefonema, soube-se que estava numa enfermaria, devidamente tratada, como andava o respectivo estado de saúde e quais os sintomas. tudo isso em dois minutos. No dia seguinte conseguimos mesmo falar pelo telefone, e pela voz parecia-me satisfeita. Finalmente, quando as estradas abriram de novo, pôde-se lá ir e comprovar o tratamento cuidadoso e a boa organização que nos tinha permitido ficar informados quase de imediato, sem qualquer traço de negligência nem de impaciência.


Tudo isto num hospital distrital do interior, num fim de semana mais frio do ano, com os acessos bloqueados pela neve, e com uma afluência monstra às urgências. Não constituiu, para mim, uma revelação, antes uma confirmação daquilo a que já tinha podido assistir: que o sistema de saúde português é bom, muito melhor do que o que se diz na rua e na net, apesar das falhas e das negligências que por vezes ocorrem, e já ficou, creio, classificado em 12º a nível mundial. E quando recorrei aos hospitais, tive de esperar bastante tempo por se tratar de casos de pouca monta, enquanto que as prioridades passavam à frente. Por isso, quando vejo as tais comparações que nos rebaixam perante "os países civilizados", rio-me ou passo à frente, na impossibilidade de responder à retórica dos engraçadinhos. Fico com a certeza de que tais pessoas nada, ou muito residualmente, conhecem dessas tais "civilizações", e que se há alguma coisa em que Portugal está cá para baixo, é no amor-próprio.