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quarta-feira, fevereiro 26, 2014

Mário Coluna


Eusébio partiu em Janeiro. Fiel à promessa que fizera à sua mãe, dona Elisa, de que cuidaria do "miúdo", Mário Coluna, o mítico capitão do Benfica e dos "Magriços" seguiu-o pouco tempo depois.


Os Monstros também morrem, mesmo os Sagrados.



quinta-feira, janeiro 31, 2013

Jaime Neves, o homem certo na altura certa



O artigo do Público de 30/01, da autoria de Paulo Moura, sobre Jaime Neves, é o mais corrosivo que vi sobre o militar que agora nos deixou (descontando os comentários dos saudosistas do PREC, que o detestavam). Entre os louvores dos Comandos e dos muitos que lhe dão graças por ter provocado o estertor final dos que queriam fazer de Portugal um regime de loucos, e os insultos dos apoiantes desse projecto, refere-se a bravura do militar mas também as suas atitudes impetuosas e o seu carácter violento, nomeadamente na guerra em África, além de uma faceta conhecida: a de boémio, que surge aliás no antetítulo da sua recente biografia, de Rui Azevedo Teixeira (consta que na noite de 24 para 25 de abril de 1974 estava no cabaré Maxime, em Lisboa).
Como em todas as histórias com heróis, as proezas são sempre mitificadas e não se olha a defeitos. Jaime Neves, que comandava regimento dos Comandos, era trasmontano, como a maioria dos Comandos, gente resistente e habituada às contrariedades naturais, de São Martinho da Anta (também a aldeia de Miguel Torga), oficial duro, corajoso, impetuoso, a quem os seus homens seguiam sem hesitar. O homem certo no lugar certo. Na tentação de eliminar os inimigos, que tinham espalhado o caos pelo país, conseguiu controlar o desejo de sangue dos seus "boinas vermelhas". Obteve a rendição da Polícia Militar, guarda pretoriana da extrema-esquerda - se é que não é um contrasenso - e acabou assim com o PREC.

Depois disso, manteve-se nos Comandos, passou à reserva, e mais tarde receberia as mais altas condecorações militares e o posto de General, o que causou muito burburinho. Aí podem-se encontrar claras distinções com Salgueiro Maia. Mas no essencial, teve bastantes semelhanças com o mítico "Capitão de Abril". Tal como Maia, também Jaime Neves, ele próprio um dos militares de Abril, comandou os homens no terreno onde tudo se decidia, deu o peito às balas e tornou-se um símbolo da democracia. Podia não ser um homem de mil virtudes ou despojado, ou um político hábil, mas era um militar bravo, eficaz e competente. E isso era tudo o que no momento concreto se lhe exigia. Audaces Fortuna Juvat, como diz o lema dos seus Comandos. À sua audácia e dos seus "boinas vermelhas" devemos a nossa liberdade. Que descanse em paz.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Homenagem a uma Senhora



Falando ainda de senhoras pertencentes a famílias reais, a história de D. Adelaide de Bragança merece toda a atenção. Ao contrário de Isabel II, nunca reinou, e durante muitos anos nem sequer pôde pisar solo português, já que pertencia ao ramo miguelista banido pela Convenção de Évora Monte. Neta de D. Miguel, D. Adelaide cresceu em Viena e assistiu ao Anchluss. Trabalhou como enfermeira durante a guerra, integrou a resistência ao nazismo com o nome de código "Mafalda" e foi por isso condenada à morte e salva pela intervenção de Oliveira Salazar. Voltou à resistência, e a ser condenada à pena capital, e aí salvou-a a intervenção dos soviéticos, que por pouco não a enviaram para a Sibéria, só a libertando depois de descobrirem que ajudaram resistentes comunistas. Depois de tantas atribulações, conseguiu enfim ir para Portugal, extinta a Lei do Banimento, e instalou-se em Almada. Aí deparou-se com a miséria material da população e criou a Fundação Nun´Álvares Pereira, de apoio aos mais carenciados,em especial crianças e mulheres grávidas, fazendo disso o seu modo de vida, enquanto o marido, o médico holandês Nicolaas Van Uden, participava na criação do Instituto Gulbenkian de ciência.


Esta senhora notável recebeu do Presidente Cavaco Silva a Ordem de Mérito Civil a 31 de Janeiro último, dia em que completava cem anos, perfeitamente lúcida e rodeada de inúmeros familiares e admiradores. Quando tantas condecorações se tornam inúteis e corriqueiras, e vão parar a gente de pouco préstimo, é reconfortante saber que ainda há quem as mereça e seja lembrado, ainda que para isso tenha de chegar ao estado de centenário. Mas sobretudo o que me alegra é saber que há quem tenha tido vidas extraordinárias, passado por grandes tormentos e se tenha dedicado a cuidar dos outros, em especial dos mais carentes, e que esse exemplo e testemunho sejam reconhecidos antes que fosse tarde demais. Dona Adelaide teve uma vida extraordinária e exemplar, de que muito poucos, mesmo na literatura, se podem gabar.


domingo, abril 26, 2009

Santo Condestável



A história portuguesa não tem tão poucos heróis como por vezes se pensa ou se quer fazer crer. Tem os suficientes para que um pequeno país nascido no Séc. XII e que consolidou as suas fronteiras actuais cem anos depois continue a existir e tenha dado um contributo enorme para a História Universal, deixando como traços a língua, os monumentos e arquitectura e os povos miscigenados, além de um sem número de memórias e relações diplomáticas com antigos parceiros e colónias. Entre esses heróis, ocupa lugar de destaque Nun ´Álvares Pereira.


Fazendo ontem arrumação à casa, saiu-me às mãos um pequeno livro de história da minha infância, daquela colecção da ASA, de cor laranja, muito em voga nos anos oitenta. Tive pela primeira vez contacto com a figura do Condestável, e ao longo dos tempos fui conhecendo a sua obra, a sua coragem e lealdade para com o Mestre de Aviz e a causa de Portugal, o seu génio militar, a sua religiosidade e o deu desapego das coisas terrenas no fim da vida. É possível que os seus feitos tenham sido um pouco mitificados e que a falta de documentação além dos escritos do cronista Fernão Lopes não nos mostre de forma mais transparente a vida do Condestável. Mas há coisas que não se podem desmentir: Nun´Álvares foi uma figura fulcral na luta pela independência, venceu os Atoleiros, Valverde e Aljubarrota contra exércitos muito maiores em número graças à sua determinação e à aplicação das tácticas com que a Inglaterra vinha coleccionando vitórias na Guerra dos Cem Anos, participou na incursão a Ceuta, início da grande aventura dos Descobrimentos, e mandou edificar o Convento do Carmo, onde passou os últimos anos numa vida monástica e despojada. Teve ainda outras ocasiões de demonstrar a sua piedade, distribuindo cereais pelo povo faminto em anos de fome, e o seu heroísmo, como na campanha do Minho, reconquistando para a causa de Aviz as praças e castelos que apoiavam D. Beatriz.


É por isso que a canonização de Nuno de Santa Maria deve encher os portugueses e o Estado Português de orgulho. O reconhecimento da sua santidade é a melhor homenagem que podiam fazer aos valores cristãos que sempre o nortearam. Sim, houve outros heróis portugueses, e na sua época, felizmente, eles não faltaram (começando pelo Mestre de Aviz, e prosseguindo com Álvaro Pais, João das Regras, Rui Pereira, sobrinho do Condestável, e tantos outros, conhecidos e anónimos). Mas há algo de diferente, de mais místico, de mais puro, uma aura de cavaleiro medieval que combate em prol dos seus ideais - não por acaso chamaram-lhe o "Galaad português - que tornam o agora São Nuno de Santa Maria uma figura incontornável da mitologia e da História de Portugal.