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segunda-feira, janeiro 16, 2017

Interrogações com resposta vaga


Há os desaparecimentos públicos e depois há os que, não sendo de notoriedades, nos são mais próximos. A grande diferença para os primeiros é que não temos um resumo da sua vida, as suas memórias ou as suas imagens ali à mão de semear. E aí temos de ser nós a ir buscá-las, a recordá-las com os outro, a comparar recordações e a trocá-las, como cromos de uma caderneta que no fundo é a biografia do que nos deixou.
As memórias privadas são mais íntimas e mais valiosas, e não apenas por causa do evidente valor de proximidade. São-no porque exigem um trabalho de busca e de rememoração que trabalho jornalístico algum, por mais bem feito e intencionado que seja, nos pode dar.

E que fazer quando o desaparecimento atinge uma pessoa na força da idade, de que se diz que tanto poderia dar ainda e que para mais marca aqueles que a rodeiam? Como é que se reage? Como é que aqueles que estão próximos podem preencher o vazio? Quando morre alguém de idade avançada fica a tristeza do momento, a enumeração das suas virtudes, a saudade. Mas nunca é exactamente visto como uma tragédia. Quando desaparece alguém mais novo, há a sensação natural de que uma missão no Mundo ficou por cumprir, e um enorme e doloroso sentimento de perda. Mesmo para quem crê e que sabe que a morte física é apenas uma passagem para algo de diferente.

O tempo apaga a dores, dizem. E se não apaga atenua-as. As recordações mais preciosas ajudam também. A seguir em frente, na vida de todos os dias. Nunca gostei muito dessa frase tecnocrática e prosaica -  "a vida continua" - mas em parte é verdade, para os que vão ficando. A vida continua amparada na passagem do tempo, nas recordações e na convivência com o(s que nos são) próximo(s). E na crença de algo superior e na sua sagrada promessa de uma existência diferente e melhor, em que mesmo os mais cépticos no fundo crêem. O resto são as interrogações naturais que esta frágil espécie se coloca desde sempre e para sempre, sem chegar a qualquer conclusão material em vida terrena, por muito que a ciência, em vão, o tente. 

segunda-feira, maio 27, 2013

Do apocalipse civilizacional à morte desesperada


O inquietante caso do ensaísta e historiador francês ligado à extrema-direita que se suicidou esta semana em plena Catedral de Notre-Dame tem muito mais que se lhe diga do que uma mera acção espectacular de protesto desesperado contra a aprovação do casamento/adopção gay em França.
Olhando para as suas ideias e para o seu currículo, parece ser o típico militante da extrema-direita identitária e nacionalista, anti-semita e anti-emigração, com poucas ligações ao cristianismo e à mensagem cristã mas que admira a estrutura e autoridade da Igreja Católica, embora neste caso a acuse de "patrocinar a imigração afro-magrebina". Ou seja, um representante contemporâneo da Action Française, que dominou a intelectualidade e os meios universitários com as suas campanhas virulentas nos anos vinte e trinta.
 
 
A escolha de Notre Dame parece ajudar a essa ideia: o templo maior de França, símbolo, juntamente com Chartres e Reims, da cristandade e ao mesmo tempo do poder real centralizado, como guardião dos valores da "velha" França, bastião contra a invasão estrangeira e a degradação dos costumes. O símbolo de uma ideia de ordem e de autoridade, mesmo que depurada da mensagem do Cristianismo, inspiração que já vem desde os tempos de De Maistre e continuou com Maurras e outros ideólogos legitimistas.

O editor de Venner, comentando a sua morte, aludiu ao suicídio de Mishima. Como se sabe, o escritor japonês, também ele defensor dos valores tradicionais japoneses pré-Guerra (e que curiosamente era homossexual, tendo elevado a figura de S. Sebastião martirizado a ícone homoerótico), suicidou-se cometendo sepukku ao falhar um levantamento militar destinado a devolver os poderes de semi-divindade ao Imperador. Para Mishima, o passado glorioso e tradicional do Japão não voltaria, pelo que preferia abandonar o mundo através do terrível e "glorioso" ritual de morte próprio dos samurais. As declarações finais de Venner, prevendo a "substituição" da população francesa, e um novo sistema de valores no qual não se reconhecia de todo, em boa parte contraditório, e o seu suicídio carregado de simbolismo, são em tudo parecidas com a do escritor japonês. Mais do que "um acto tresloucado de ódio", como vi escrito, tratou-se de um fim desesperado, de alguém que já não se reconhecia num mundo emergente (que ninguém sabe dizer qual será), e cujo fim violento e público é consequente com as ideias mais radicais que defendia.
 
 
 
Outro caso similar, provocado também pela ideia angustiante do fim de um certo modelo civilizacional, neste caso muito diferente dos anteriores, é o de Stefan Zweig. O escritor, ensaísta e biógrafo austríaco, quase esquecido durante décadas e hoje de novo editado, suicidou-se no Brasil, em plena Segunda Guerra, assistindo ao segundo suicídio da Europa, crendo que o seu mundo, construído na faiscante Viena dos Habsburgos pré-Grande Guerra, tinha sido esmagado pelo totalitarismo. As suas ideias eram em boa parte opostas às de Mishima e Venner, mas a assunção de que o seu modelo de civilização tinha acabado, que os valores que defendia estavam a ser espezinhados e extintos, é exactamente a mesma. A sensação de fim de uma ideia de mundo, aliada a acontecimentos preocupantes, pode em muitos casos levar ao desespero e a colocar um fim à vida. Sejam quais forem os valores que se defende. e o suicídio tumultuoso de Venner deve ser entendido mais como um último acto de revolta contra um estado de coisas, ainda que tresloucado, do que mera acção radical de propaganda.
A prova infalível de que o francês não era realmente cristão é que atentou contra a própria vida, dádiva de Deus, diante do altar que O celebra.

quarta-feira, março 28, 2012

Verdade e consequência


A busca da verdade é das mais antigas aspirações do Homem, seja através da religião, da ciência das letras, da música e das artes, entre outras. Hoje em dia, a maioria fá-lo-à preferencialmente pela tecnologia, apesar dos seus duvidosos limites. Por isso, quaisquer razões que nos levem na sua busca, ou a pensar em como a avistar, serão sempre proveitosas.
No último fim de semana ouvi vários caminhos para a encontrar. É verdade que o evento que motivou esta busca partiu de uma entidade inspiração religiosa, o que nem por isso retira significado, já que para os cristãos a Verdade é dada pela Revelação de Cristo, mesmo que nem sempre seja muito compreensível à mente humana. Mas também ouvi outras vias: a música e as suas inúmeras interpretações (e outras tantas verdades respectivas), a busca jornalística no apuramento dos factos, a verdade revelada pela caridade e conhecimento dos outros, mesmo quando pareçam insignificantes. Ou ainda descoberta a contrario, quando nos deparamos com o relativismo, o fanatismo e uma busca maquiavélica do poder e sua manutenção, o que será sempre uma distorção da Verdade. E as suas faces, a Aletheia dos gregos, ou o desvelar, a Veritas latina, ou a verdade dos factos, concreta, e a Emunah, a verdade pragmática que estabelece a confiança. Por fim, as suas consequências, como o Amor e a Esperança. Nem sempre fáceis de atingir, porque se alguma coisa aprendi foi que a verdade tem várias dimensões, e quando julgamos lá chegar, temos que continuar a busca, como numa escalada a uma montanha; e quando lá chegamos, nem sempre a reconhecemos, ou queremos reconhecê-la.
Para além de tudo, uma excelente oportunidade de ouvir testemunhos que deveriam forçar os que o ouviram a olhar para as suas próprias misérias comodistas, de conhecer personalidades marcantes (e algo desconcertantes nas suas várias facetas) e de reencontrar outras que inspiraram nos primórdios da blogoesfera.

sexta-feira, novembro 25, 2011

Dúvidas paradoxais


Carvalho da Silva, João Proença, Ana Avoila, Mário Nogueira e outros exercem profissionalmente a actividade de sindicalistas a tempo inteiro, há já longos anos. No entanto, estiveram ontem em frenética actividade profissional, furando a greve geral que eles próprios convocaram e publicitaram. Não haverá um insanável paradoxo entre a profissão de sindicalista e a (não) participação numa greve? Ou em solidariedade para com as colunas de grevistas que comandam de megafone em punho, prescindem do seu vencimento nesse dia?