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sábado, setembro 10, 2016

Madre Teresa e os seus detractores


Madre Teresa é oficialmente santa. Popularmente já o era. a canonização limitou-se a dar o devido reconhecimento, confirmadas as condições, a alguém cujo halo de santidade já há muito era reconhecido, até em vida. No fundo, juntar as palavras "Madre Teresa" e "santa" acabam por ser uma redundância.

Reparei no entanto que não houve reportagem sobre esta canonização que não trouxesse o "outro lado" de Madre Teresa, ou seja, os aspectos supostamente mais negativos da fundadora da congregação das Missionárias da Caridade. Alguns fariam sentido, outros eram puro preconceito, ou pior, pura birra ideológica. A principal fonte destas críticas é um livro, já com uns vinte anos, da autoria do célebre Christopher Hitchens, intitulado brilhante e provocatoriamente The Missionary Position, citado e exemplificado de forma acrítica e veladamente laudatória. O cronista anglo-americano aparece como um analista imparcial, fidedigno, obrigatório.

Sintomático como a crítica a Madre Teresa contrasta tão flagrantemente com a ausência de críticas a Hitchens, desaparecido em 2011. Mas a resposta não é muito complicada. Hitchens era um jornalista e colunista provocador, que escrevia bem e com verve. As críticas a Madre Teresa a que me refiro acima surgem em órgãos de comunicação social, que, como é óbvio, tenderão a valorizar um "deles", um elemento da classe jornalística, para mais mediático e apreciado pela forma como escrevia. Mesmo muitos daqueles que estão longe das suas ideias o apreciam, como é o caso de Pedro Lomba, que até o guiou num périplo aquando da última vinda do polemista a Portugal. Convém lembrar que Hitchens era um ateísta fanático até à medula (no que era reprovado até pelo seu grande amigo Martin Amis), que considerava que a religião "envenenava tudo" e que o ateísmo e o secularismo "eram urgentes". Por isso mesmo apoiou a invasão ao Iraque em 2003, reiterou essa ideia anos mais tarde mesmo quando o desastre era visível e afirmou mesmo que por ele poderiam fazer o mesmo ao Irão. A razão? Para "espalhar o secularismo" (mas não refere a Coreia do Norte, por exemplo). Aqueles que invocam as cruzadas como exemplo dos males das religiões ficariam certamente confundidos. Daí este ataque cerrado a Madre Teresa e à generalidade das religiões.
 
Apesar disso, ou até devido a isso, Hitchens continuou a ser muito apreciado pelas redacções do mundo fora. A sua verve, mesmo que por vezes fosse inspirada no esvaziamento de uma garrafa de Whisky, como o próprio confessou, a sua condição de enfant terrible, tornavam-no popular, e era considerado "corajoso" (sabe-se lá porquê, já que se fosse despedido de uma qualquer coluna de opinião, o máximo que lhe poderia acontecer, viria logo outra contratá-lo). E para os media, o que é que é mais atractivo? Um tipo talentoso e provocador que escreve para a Vanity Fair e para a The Atlantic, ou uma freira idosa que vive nos bairros miseráveis de Calcutá entre moribundos, doentes e velhos, rodeados de miséria e imundície? Não é preciso ir muito longe para ser perceber qual é o principal objecto de estima.
 
Mas como li num qualquer artigo há não muito tempo, o bem raramente tem uma boa imagem, um cheiro agradável e mais raro ainda é que a sua prática seja algo susceptível de dar um qualquer prazer imediato. Ou seja, contraria grandemente as modas contemporâneas e não é passível de ser atractivo. Não que o ser humano tenha de ser intrinsecamente abjecto, mas praticar o bem é realmente difícil. Por isso, Madre Teresa, mesmo com as suas falhas, dúvidas e pensamentos, merece a canonização: é a imagem da prática do bem de forma gratuita, nas situações e locais mais desaconselháveis. Sim, é tão mais fácil ser-se fashion, lido e estimado na opinião mediática. Mas o caminho do bem é certamente mais pedregoso. Por isso, e por mais fora de moda que o seu exemplo possa estar, Madre Teresa merece infinitamente mais respeito e consideração do que qualquer dos seus detractores.
 
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quinta-feira, novembro 25, 2010

Goa, quinhentos anos


Só mesmo a leitura ao fim do dia das habituais efemérides do suplemento P2 do Público é que me puseram ao corrente do facto histórico do dia: não, não são os 35 anos do 25 de Novembro de 1975, graças ao qual não ficamos sob o domínio de militares de aspecto cubano e gente demasiado excitada. São antes os 500 anos da tomada de Goa por Afonso de Albuquerque. Meio milénio decorrente da entrada do governador português, que já conquistara Ormuz, no território ao qual o seu nome ficaria indelevelmente ligado e que se tornaria no centro político, religioso e comercial da Índia portuguesa. Ali começou verdadeiramente a "conquista, navegação e comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia". Dali partiram as expedições que conquistariam Malaca e chegariam às Molucas, e também dali São Francisco Xavier iniciou a sua peregrinação pela Ásia. Goa cristianizou-se, ganhou traços arquitectónicos portugueses e, graças aos planos de miscigenação entre os indianos e os portugueses levados a cabo por Albuquerque, nasceu um novo sub-povo: os goeses. Goa pertenceu a Portugal até 1961, quando as muito mais numerosas forças da União Indiana ocuparam o território. Foram 450 anos, desde esse 25 de Novembro de 1500. Uma nova era da história de Portugal e do Oriente começou aí.

terça-feira, maio 26, 2009

E os Gandhi sobreviveram aos Tigres


A derrota final dos Tigres Tâmil na semana que passou é a prova de que os mais musculados grupos insurgentes podem ser aniquilados quando pelo seu radicalismo agressivo mergulham no maelstrom do terrorismo. Durante quase três décadas, os Tigres puseram o Sri Lanka a ferro e fogo, fizeram recuar os maioritários cingaleses e humilharam os indianos. Comandados pelo carismático e fanático Velupillai Prabhakaran, os guerrilheiros com a designação oficial de Tigres de Libertação do Tamil Eelam chegaram a ocupar um terço da antiga Taprobana, com o auxílio da sua marinha de lanchas rápidas e da sua força aérea. Apesar da sua organização como uma autêntica força armada convencional, distinguiram-se mais pelos atentados perpetrados por bombistas suicidas, armados com cintos-bomba, os famigerados "Black Tigers", incluindo mulheres, que tanto inspiraram os posteriores terroristas islâmicos. Outra cruel imagem de marca era a cápsula de cianeto, que ingeririam caso fossem cercados ou presos.



O radicalismo de Prabhakaran ia contra qualquer ideia de autonomia, preferindo sempre o confronto à conciliação, e não hesitou em atacar as forças indianas de manutenção da paz na ilha, matando inúmeros soldados. Vale a pena recordar que a Índia prestava até aí algum apoio aos Tâmil. Mas a violência dos Tigres obrigou as autoridades do sub-continente a virar-se para Colombo, e mais ainda quando num atentado suicida assassinaram o primeiro-ministro Rajiv Gandhi. Poucos anos depois, também o presidente cingalês Pramasada sofreu igual destino, com o mesmo modus operandi. Os Tigres continuaram com os seus ataques constantes (incluindo ataques aéreos) e os seus atentados, até ao início do ano, em que uma fortíssima ofensiva cingalesa os acantonou num último reduto, até conseguirem eliminar Prabhakaran, e consequentemente obter a rendição incondicional. O fanático líder acabou por sofrer a sorte habitual dos que colocam a luta armada à frente das negociações e dos acordos e não parecem capazes de viver sem ela, um pouco à imagem do que aconteceu a Savimbi. No fim, nem a cápsula de cianeto conseguiu usar.


O conflito durou largos anos, e só ultimamente voltou a ser notícia nos noticiários do mundo. Apesar de toda a tragédia humana envolvente e dos milhares de civis encurralados entre duas forças, de onde saíram bastantes vítimas, não houve para com estes a mesma atenção e a mesma solidariedade que costuma haver com Gaza, o que prova bem que a importância de um conflito varia conforme as partes envolvidas e o seu grau de mediatismo.


Espera-se que com o fim anunciado dos Tigres, Colombo proceda agora à pacificação da ilha e dê aos Tâmil o necessário grau de autonomia, liberta que está da pressão da guerrilha. O mais irónico, ou mais inesperada lição de moral, é que no mesmo fim-de-semana em que Prabhakaran pereceu, o Partido do Congresso, chefiado por Sonia e Rahul Gandhi, viúva e filho mais velho da mais conhecida vítima dos Tamil, Rajiv Gandhi, e pelo primeiro-ministro Singh, ganharam as eleições na União Indiana e consolidaram o poder do Partido do Congresso.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Freida Pinto


 
 
 
Um dos grandes trunfos de Slumdog Millionaire é a sua protagonista, Freida Pinto. Que é igualmente a prova e um traço do bom trabalho que os portugueses realizaram na Índia, nos últimos séculos.

quinta-feira, novembro 27, 2008

O massacre de Bombaim e o síndrome "Luisinha Carneiro"





Não sei o que hei de pensar: se na violência que grassa desde ontem em Bombaim (que é a palavra portuguesa, e não Mumbai) bem à vista dos olhos, se na indiferença da nossa blogoesfera. Ataques a hospitais, bombas, tiroteios, incêndios em hotéis, dezenas de mortos, centenas de feridos e um número indeterminado de reféns. Um hotel de cinco estrelas está a arder sem que se saiba quantas pessoas estão lá dentro. Um cenário de guerra e de pânico, que deveria colher reacções em toda a parte. Estranhamente, os blogues pouco falam do assunto.



Estou sem televisão e vejo o caso na Net ou nas capas dos jornais. Dá ideia que tudo isso se passa no planeta Marte, e não em Bombaim, a capital económica da índia, cidade com milhões de habitantes que já pertenceu aos portugueses. Lembro-me das reacções e do medo, bem justificado, aquando dos atentados em Madrid e Londres, e das repercussões que isso teve. Será o síndrome "Luisinha Carneiro", do famoso texto de Eça nas Cartas Familiares e Bilhetes de Paris, em que quanto mais longínqua está a desgraça mais indiferente se fica? Ou a ideia que não se diz mas muito sentem, inversa à da culpa do homem branco, que cada ocidental vale por dez ou vinte indígenas, e que não tem grande importância que morram porque "já há lá muitos"? Pois se assim é, fazem mal, fazem pessimamente. É que por acaso não faltam europeus e americanos ali pelo meio (consta que eram os visados), e morreu um eurodeputado húngaro. além disso, a Índia é uma semi super-potência emergente. Tendo Bombaim a importância que tem, os danos sociais e económicos tenderão a agravar-se, já para não falar em nova psicose associada a estes acontecimentos. E se isto acontece numa metrópole desta dimensão, pode muito bem vir a suceder à nossa porta. Que ninguém pense que isto é no outro mundo.