Mostrando postagens com marcador Bancos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bancos. Mostrar todas as postagens

domingo, março 31, 2019

As amnésias de Constâncio


Só hoje vi melhor as figuras de Vítor Constâncio nas suas respostas à comissão parlamentar sobre as suas responsabilidades nos anos em que exerceu o cargo de presidente do Banco de Portugal. Constâncio não tem qualquer memória da sua actividade de dez anos naquela cadeira e nem tem memória dos aviso que recebeu e das pessoas com quem falou de assuntos delicados. A mesma atitude de "não me lembro de nada" e "não tenho ideia" que já tínhamos visto a Zeinal Bava e Ricardo Salgado, e já agora, ao ainda titular Carlos Costa. A conclusão a que chego é que aquelas salas têm uma propensão para a amnésia. É melhor fazerem as audições noutro lado.

É bom recordar que Constâncio, tido como "genial" e "brilhante" (se vivesse 100 anos antes seria a inspiração directa para o "talentoso Pacheco", de A Correspondência de Fradique Mendes, de Eça), era líder do PS em 1987. Cavaco Silva ganhou as legislativas desse ano com 50% dos votos. O PS, liderado pela ex-Presidente do BdP, teve 22%, e a CDU de Álvaro Cunhal, já sem o MDP-CDE, ligeiramente mais de 12%. Ramalho Eanes e Adriano Moreira, respectivamente à frente do PRD e do CDS, e hoje tidos como referências morais da política portuguesa, não chegaram em conjunto aos 10%. Antes de estarmos sempre a verberar os políticos, que não caem do céu nem surgem por magia, podíamos antes questionar as escolhas dos eleitores portugueses. 

Resultado de imagem para vitor constancio

terça-feira, julho 29, 2014

Dinastias que passam



À volta da derrocada do império Espírito Santo e do seu grupo fala-se também no que acontecerá à própria família, numerosa e com importantes ligações ao grupo. É certo que nem todos os elementos precisam dos rendimentos que provinham do grupo económico, e fizeram a sua vida com meios próprios e autónomos. Mas é curioso pensar como o nome da família, que transmitia logo uma aura de poder e propriedade, e, como muitos ousam recordar, abria as portas a qualquer negócio fosse em Portugal ou fora, corre o risco de a perder de um ano para o outro. Nada que espante: já tivemos os Quintela, com o magnânimo conde de Farrobo a marcar o seu apogeu, os Burnay, os Mello, os Champalimaud. Nomes que com o passar do tempo e a mudança da propriedade e do poder de direcção das figuras carismáticas que iniciaram os seus grupos económicos e dinastias correspondentes, foram passando e deixaram de ser sinónimo de domínio da economia nacional. Da mesma forma, a prestigiada família Espírito Santo vai em pouco tempo tornar-se um apelido como qualquer outro (até porque há outras famílias Espírito Santo sem qualquer ligação com a do BES). Até ser substituída por outro clã. Ou talvez não, que a globalização e o mercado livre já não permitem tão facilmente a ascensão de grandes grupos familiares.

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Tesouros inesperados


As histórias de descobertas de tesouros inesperados sempre me interessaram, pelo acaso da Fortuna poder estar ao virar da esquina, pela natureza dos objectos encontrados, e evidentemente, a parte glamourosa na novidade.
O famoso cozinheiro britânico Jamie Oliver encontrou na cave de um antigo banco que estava em obras de restauro para se transformar em restaurante, em Manchester, vários cofres, datados de 1935, com armas, jóias, dinheiro, e, mais importante, cassetes com gravações raras dos Joy Division e da sua metamorfose electrónica, os New Order. A descoberta levanta várias interrogações: a quem pertencem os bens ali guardados? Porque é que nunca os levantaram, quando o edifício mudou de funções? Qual a recompensa que caberá a Oliver? Os New Order farão ideia do material que ali estava? E a pergunta que mais pessoas farão, as cassetes estarão ainda em bom estado, de forma a que ainda se possa ouvir a voz de Ian Curtis em canções inéditas?
Nunca ninguém disse que um cozinheiro não podia ser editor de música.

terça-feira, maio 27, 2008

A faraónica sede da Caixa


Uma das evidências do que falei no post dos bancos e urbanismo é a sede da CGD, em Lisboa. Tive oportunidade, há pouco tempo, de observar mais atentamente o ciclópico edifício entre o Campo Pequeno, o Arco do Cego e a Avenida de Roma. Da autoria do Arquitecto Arsénio Cordeiro, e terminado em 1993, é um expoente do novo-riquismo Cavaquista da altura, bem expresso noutros sinais exteriores de "riqueza" (contemporâneo da CGD são o CCB e a Torre do Tombo, do mesmo autor). Quem der alguns passos ao lado da construção não pode deixar de ficar espantado com as suas dimensões hiperbólicas, o comprimento desmesurado, o volume esmagador, recordando as obras totalitárias da URSS, da Itália de Mussolini e da Roménia de Ceausescu, e que certamente seria do agrado de Duarte Pacheco. Aliás, outra comparação pode ser feita com as loucuras romenas: o edifício, aquando do início da sua utilização para que aí funcionassem todos os serviços centrais da Caixa, estava subocupado, tal como ainda acontece com o "Palácio do Povo" de Bucareste. De forma a explorar melhor toda aquela massa enorme e conseguir alguma rentabilidade, Rui Vilar criou a Culturgest, uma empresa de gestão de espaços culturais dependente do banco, da qual ressalta o grande auditório, com 700 lugares. Foi a solução encontrada para de alguma forma humanizar aquele elefante branco, meio soviético, meio neoclássico, com entradas formadas por uma espécie de cúpulas em estilo neobizantino fashion (quanto é que essas cúpulas não terão custado, Deus meu!), que esmaga e domina toda a área vizinha. O bairro do Arco do Cego fica ali todo acanhado. Meia Avenida João XXI pertence-lhe. E a praça de touros do Campo Pequeno perde o protagonismo de zona que lhe caberia. Em suma, toda uma vasta área pertence ao monolito cor de creme.


A sede da CGD podia até ser parecida com a actual, mas em dimensões mais suaves e diminutas, (e sem as horríveis cúpulas). Não seria difícil juntar os serviços centrais e a Culturgest numa obra um tudo de nada mais modesta. Mas não. Tinha de ser em grande, como qualquer obra de relevo em Portugal. Os nossos governantes, especialmente os que têm a tutela das obras públicas, e os gestores de empresas estatais julgam-se certamente reencarnações dos faraós. Mas a sede do maior banco português não é apenas um monumento visível ao desperdício de fundos (pelas empresas públicas) ou um dos maiores edifícios comerciais da Europa: é também mais um exemplo de como os bancos alteram e dominam o skyline de uma cidade, ou parte dela, e de como o simbolismo do seu poder se torna tão incomodamente concreto e visível.

segunda-feira, maio 19, 2008

Os bancos, inimigos das cidades?
Tornou-se um lugar comum dizer que o capitalismo de hoje em dia é financeiro e especulativo, e não produtivo; que os bancos ganham lucros fabulosos por via dessa especulação; ou que a dada altura começaram a abrir agências bancárias como cogumelos.

Só que muitas vezes os lugares-comuns são a representação fiel da realidade, e os casos de cima seguem essa mesma regra. O capitalismo é muito mais especulativo, como se pode ver por estas subidas vertiginosas dos preços do petróleo e de bens alimentares, ou por alguns estranhos humores da bolsa. Poucas esquinas haverá sem a sua pequena agência bancária, anunciando as melhores taxas do mercado.

Essa mudança dos padrões económicos manifestou-se em diversas áreas, entre as quais uma certa imagem das cidades. Quem estiver atento verificará que os bancos, tirando as suas sedes históricas, funcionam normalmente em prédios modernos, sobretudo em mamarrachos revestidos a vidros fumados, castanhos ou pretos, construídos nos lugares onde antes havia edifícios da Belle Époque. Em Lisboa, nas Avenidas Novas, há inúmeros exemplos disso. Muitas vezes entalam-se entre pequenas pérolas arquitectónicas de há várias décadas, seriamente ameaçadas de demolição. Noutros casos, descaracterizam-se gravemente os edifícios. O exemplo que me vem à cabeça é o do Palácio Atlântico, no Porto, na Praça D. João I, outrora um dos mais elevados prédios do país, em belo mármore castanho, e hoje coberto por placas de cor creme. Felizmente, restaram as pinturas do pórtico e da entrada.
Depois, há os casos bem conhecidos de cafés de renome, palcos de tertúlias, discussões ou longos almoços de cavaqueira das "elites" locais, com as compridas salas de bilhar e vidraças para as movimentadas ruas da respectiva localidade, que ao longo do tempo foram desaparecendo para dar origem a mais uma agência com as tabuletas rosa, laranja, verde e todas as outras cores de que as instituições de crédito se quiseram munir para criar um efeito visual mais poderoso mas nem por isso mais atractivo. Tantas são que poder-se-ia atribuir a cada um dos principais partidos portugueses um banco diferente: ao PS caberia o BCP (na prática não anda muito longe disso), ao PSD o BPI, o PCP ver-se-ia convertido à classe dos capitalistas financeiros com o Santander Totta, o CDS arrebataria a estatal CGD, Os Verdes ficariam com o BES, e, tendo em conta o novo lilás que o BANIF adoptou, deixar-se-ia o banco madeirense aos cuidados do BE (além de que o Centauro que faz parte do novo símbolo é uma minoria que urge proteger).
Dessa poluição visual não sofrerá A Brasileira do Porto, se se tiver em conta as promessas de Artur Santos Silva. O edifício onde funciona o histórico café pertence ao BPI, e os actuais locatários, incluindo o Café di Roma, têm ordem de saída, apenas adiada por interposição de uma acção de suspensão. Seja como for, e mesmo crendo na palavra de Santos Silva, é um bom exemplo de como os bancos modelam, controlam e gerem as mudanças da vida urbana, condicionando as suas instituições e até o seu modelo de urbanismo. Estranhamente, o crescimento das agências é inversamente proporcional ao do número de bancos, com todas as fusões e aquisições que se verificaram nos últimos anos (apesar da entrada de bancos estrangeiros), que deram origem aos grupos actuais. Mas não haja dúvida: os letreiros berrantes são mesmo mais numerosos e ocuparam o seu próprio espaço, seja em blocos espelhados e desenhados à pressa, seja em edifícios de traça mais clássica que em tempos albergaram outras instituições, menos dadas a créditos e débitos, mas com outra relevância cívica e social. Era bom que pensássemos mais nisso ao dar de caras com mais um inestético anúncio bancário, ente mais uma dúzia num raio de 50 metros.