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terça-feira, abril 23, 2024

José Maria Brito (1976-2024)

Muitas coisas poderia dizer e recordar do José Maria Brito, com quem raramente estive nos últimos anos, dada a dinâmica da sua vida, embora recorde o livro sobre o Conde de Lippe que ele e o Luís me deram há um ano, da autoria do seu tio António Pedro Brito, infelizmente também já desaparecido, numa comemoração do Ponto SJ, de que o Zé tinha sido fundador.

Mas o que considero que pode ficar como legado é a última frase que ele deixou na sua página de FB: "Abnegar-se é também não permitir à dor que tenha a última palavra".
Parece terrivelmente premonitório vinda de quem vem, mas é ao mesmo tempo uma frase de resistência, de esperança e obviamente de abnegação. Além de todo o trabalho, acções, exemplos e recordações que o Zé Maria Brito nos deixou, que esta frase nos fique em momentos em que a dor parece sobrepor-se a tudo, como este. E que sirva acima de tudo de amparo e força à sua Mãe e ao seu Irmão.
Abnegar-se é também não permitir à dor que tenha a última palavra...





sábado, dezembro 07, 2013

O legado de Nelson

 
O dia fatal tinha de chegar, há muito anunciado por internamentos e notícias da sua saúde extremamente debilitada. Não há muito mais que se possa dizer da vida e obra de Nelson Mandela. As edições especiais dos jornais, os louvores das redes sociais e as inúmeras imagens televisivas encarregaram-se de tudo. Não faltou sequer o habitual oportunismo político, que desenterrou uma velha questão de 1987, e que lançou à pressa a notícia de que Portugal votara contra a libertação de Mandela, só informando mais tarde que nessa resolução estava explícita a invocação de violência e luta armada (num país com centenas de milhares de portugueses e luso-descendentes)e que a representação portuguesa também votou a favor de outra que apelava, tout court, à libertação incondicional do então prisioneiro de Robben Island.
O endeusamento de mortais é uma coisa que me convence muito pouco. E no entanto Mandela é dos que mais merece. Não que não tivesse cometido os seus erros ou actuado erradamente noutros tempos. Mas um homem que depois de 27 anos numa cela exígua, encarcerado por um regime racista e segregacionista, se esquece de quaisquer sentimentos de vingança e se esforça por promover a paz e a concórdia, a reconciliação e a união - mesmo depois de ser eleito presidente e de obter uma maioria esmagadora em eleições parlamentares - numa quase quimérica "nação arco-íris", só se encontra num em cem milhões.
 
 
É este o grande exemplo de Nelson Mandela: se erros cometeu (como a luta armada contra o Apartheid, de certa forma compreensível), pagou-os no cativeiro. Entretanto, redimiu-se e conseguiu evitar o pior. Não aproveitou para revanches sobre os seus carcereiros, não: aproximou-se deles, apertou-lhes a mão e disse-lhes que aquele país, doravante, seria de todos: impediu muito provavelmente banhos de sangue e a deriva para um regime racista de sinal contrário. Mesmo que a África do Sul esteja corroída por corrupção, desigualdades, pobreza, SIDA, criminalidade, etc, e que haja imbecis, como Julius Malema, que preferem o modelo do lunático vizinho Mugabe. Mas isso já são tarefas dos sucessores.
 
É essa a grande lição de Mandela: o perdão, a reconciliação, o reconhecimento do Outro, afinal virtudes tão cristãs. O único receio é que enquanto viveu, esses valores ainda eram evocados. E agora que desapareceu, conseguirão os sucessores manter a ordem e uma união mínima naquele país tão complexo? O desafio que têm pela frente será a melhor homenagem que farão a Mandela, para além de todos os louvores ou memoriais que lhe dediquem.
 
 

terça-feira, outubro 22, 2013

Novo Porto ou nova esperança?


Hoje tomaram posse os novos órgãos da câmara municipal do Porto, presidida por Rui Moreira, e da Assembleia municipal do Porto, que terá muito provavelmente à sua frente Daniel Bessa. No seu discurso de entronização como novo Presidente da CM do Porto, moreira não esqueceu Rui Rio (nem António Costa), afirmou querer combater o centralismo com a afirmação municipal, sem contudo revestir-se de um Porto-centrismo igualmente centralista, e vincou a aposta na coesão social na cultura e na economia, de forma a combater o desemprego, ao mesmo tempo que se comprometeu a não desbaratar o capital de rigor deixado por Rio. 
 
 
O acordo feito com o PS de Manuel Pizarro, que garante uma maioria estável, é um óptimo presságio para o futuro e mostra como é possível colocar as cidades - e por extensão, o país - em primeiro lugar, saíndo da esfera limitada dos partidos. Para além disso, deixou em desespero de causa os velhos aparelhos partidários do bloco central portuense, o que só demonstra a pertinência do acordo. Os verdadeiros derrotados das autárquicas portuenses (os partido-dependentes do PS e PSD, mas também a esquerda da eterna reclamação e nenhuma responsabilidade) tardam em engolir o murro da noite de 29 de Setembro. Haverá dissensões, discussões, desacordos, claro, mas nenhuma vereação é homogénea, e ainda menos numa cidade como o  Porto. Não se esperem milagres, mas há esperança nos próximos anos, com as contas "moda do Porto" da gestão de doze anos de Rui Rio.
 
Por coincidência, o título da Time Out-Porto deste mês é "O novo Porto". Claro que não é nenhuma referência à ascensão de Rui Moreira ao edifício dos Aliados, apenas alguns locais de referência novos e que previsivelmente entrarão na moda (Bom Sucesso, Rua das Flores e Largo de S. Domingos, etc), mas tendo aparecido dois dias depois da vitória da lista independente, quase parece de propósito. E também a Visão dedicou na semana passada um artigo de capa ao "novo Porto" e ao "Recorde de turistas e estudantes, vida cultural e artística impressionante, uma movida noturna nunca vista, gastronomia de top, prémios e distinções".
 

Não sei se o Porto está na moda ou se há "um novo Porto". Não está com certeza a caminho de uma era de ouro ou de "leite e mel", porque os tempos não estão para euforias desmedidas e o estado do país (e da Europa, já agora) é inquietante. Mas é lícito que tenhamos alguma esperança nos próximos quatro anos. Há um grupo de pessoas, à frente dos destinos municipais da segunda cidade do país, sem varinhas mágicas mas com energia, bom senso e seriedade. Esperemos que levem a nau a bom Porto e que tenham o maior êxito na difícil empresa que os espera. E que se o tiverem, "contaminem" o resto do país. Os olhos dos portugueses estão postos nos responsáveis portuenses.

segunda-feira, setembro 30, 2013

Rescaldo autárquico: a vitória anunciada de Rui Moreira

 
Ainda a contas com défice de sono depois da extraordinária noite de ontem, faço finalmente o balanço das Autárquicas. Mas devagar, porque muito há a dizer e a temperança é uma virtude cristã. Por isso, vou-me cingir para já ao que se passou no Porto, e noutro post falarei dos outros resultados.
 
A vitória de Rui Moreira apanhou muitos desprevenidos. Havia quem começasse a acreditar que podia acontecer a partir do momento em que foram divulgadas as sondagens da Universidade Católica que lhe davam um curto triunfo. Mas a maioria caiu de quatro: quase todas as sondagens previam a vitória de Menezes, e os analistas de TV iam atrás desses números. Rui Moreira era um outsider simpático, mas pouco mais.
 
Mas quem seguia, e sobretudo, quem participava na campanha fazia outro tipo de previsões. O exemplo da vitória de Rio sobre Fernando Gomes, em 2001, estava na memória de todos. Os contactos de rua também eram animadores. Além disso, os excessos de campanha, numa altura em que se pede contenção e austeridade, eram contraproducentes. Desde o início, a apresentação no Ferreira Borges, que mais e mais gente se começou a entusiasmar com a candidatura independente. O CDS-PP, horrorizado com a hipótese de Menezes atravessar a ponte, deu o seu apoio a Moreira. Alguns militantes do PSD, como Miguel Veiga, também. Na altura, aí por Abril, em que entrei nas primeiras acções de campanha, lembro-me de nos cálculos que fazia com pessoas amigas, em que apostava que Moreira conseguiria mais de 15% dos votos, O vencedor seria Menezes, com todo o seu CV de autarca e o séquito laranja, ou Manuel Pizarro, confiante na força do PS portuense e na divisão de votos. Mas o tempo passou, e chegado o Verão, já se acreditava que a campanha rua a rua, porta a porta, e a persistência trariam um combate mais interessante. Há poucas semanas, convenci-me finalmente que a vitória era realmente possível. As últimas sondagens não me espantaram nada mesmo (até porque sabia que o JN estava descaradamente com Menezes). Espantou-me, sim, a dimensão da vitória de Rui Moreira, e a derrota clamorosa e humilhante de Luís Filipe Menezes, que muitos consideravam que daria um passeio de uma margem à outra do rio.
 
Digam o que disserem, Moreira é o grande vencedor destas autárquicas. António Costa era um vencedor anunciado e os seus opositores estenderam-lhe uma passadeira vermelha. Pela primeira vez, uma candidatura independente ganha uma grande câmara no país. O rótulo de "candidato de Rio e do CDS" é redutor e ignorante. Moreira, que presidiu até há pouco à Associação Comercial do Porto, é um digno representante da burguesia liberal portuense, e os habitantes da cidade reconheceram-no. Ganhou contra aparelhos partidários, jornais e analistas televisivos, sondagens, bloggers, campanhas bojudas e com meios sem fim, troças e remoques; só não se pode dizer que ganhou "contra tudo e contra todos" porque seria injusto: ganhou COM  uma larga fatia dos portuenses. É uma vitória que prescinde de caciques, ajudas líderes partidários nacionais, aparelhos eleitorais e até, como confirmei hoje, da tradicional visita ao Bolhão (cuja reabilitação, de resto, está contemplada no programa eleitoral de RM). Não precisou de nada disso para obter uma vitória seguríssima, que se estende à conquista da Assembleia Municipal e de 5 das sete (novas) freguesias da cidade. É o novo Presidente da Câmara Municipal do Porto com todo o mérito.

 
 Do lado dos adversários, Pizarro, que terá algo a dizer na nova vereação camarária, saudou a vitória de Moreira com visível alívio, já que não só impediu a tomada do poder por parte de Menezes como ainda conseguiu um honroso segundo lugar. Já o ex-autarca de Gaia teve até um discurso invulgarmente digno e tranquilo, envolvido num ambiente sepulcral. O mesmo não se pode dizer de alguns dos seus apoiantes, que aparentemente, não perceberam nada. Não perceberam que o "politiquez" que se usa nos aparelhos partidários nada diz às pessoas, que a política das prendas e dos grandes gastos de campanha, das promessas de tudo e mais alguma coisa já nada garantem, e que sobretudo essa mania de falar aos eleitores como se eles fossem pobres patetas é chão que deu uvas. Acabou. Rui moreira demonstrou isso mesmo. Mas os derrotados desta noite devem aproveitar para meditar e perceber os seus erros, e não atirar as culpas para cima dos eleitores, que "preferem ser enganados". Neste rol meto também alguns bloguistas que compensam o seu patético despeito pré-eleitoral com análises tão estapafúrdias na sua evidentíssima azia que nem ao menos disfarçam um bocadinho que seja. Nestes casos, a desonestidade intelectual paga tornando-se puro objecto de gozo, como os respectivos comentários atestam.
 
Moreira ganhou, e ganhou bem, não porque tinha o apoio do CDS, de Rio ou de Veiga e demais "históricos do PSD", mas porque soube conquistar os portuenses, que viram nele um digno representante sem passado de dirigismo partidário. É uma enorme lição e uma oportunidade que o país deve aproveitar. Se não o fizer, o aparelhismo partidário acabará (ou será substituído) de maneira mais dolorosa. Mas no Porto, a hora é de esperança e de orgulho. Terei saudades desta campanha renhida mas alegre, em que se gritava "o meu partido é o Porto". Mas nesta cidade, confiança não falta.
 
 

terça-feira, dezembro 21, 2010

A Esperança encontra-se até nas filas à chuva

Como em tudo na vida, há momentos de azar. Estar na bilheteira do estádio a apanhar chuva e perder dois golos dos nossos é um exemplo entre milhões de outros. Mas conseguir ainda ver outros cinco (três dos quais dos nossos) já é uma reviravolta da sorte, sobretudo se o bilhete estiver a preço reduzido. Não sei se isto contribui para a esperança do leitor destas linhas, mas a intenção também era essa. Afinal, estamos no Natal, e os sentimentos cristãos, como a Fé e a Esperança no Advento, são para ser invocados nestas alturas.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Corazon Aquino



1933 - 2009
Desapareceu uma mulher corajosa, lutadora e generosa, que combateu a ditadura das Filipinas por meios pacíficos e que nunca usou o seu cargo presidencial para enriquecer, numa região em que a corrupção é um estado de espírito. Que descanse em paz.

terça-feira, maio 19, 2009

Ir onde estão os mais fracos
Pode-se falar do "esboroamento do cristianismo", ou que "cada vez mais as pessoas se fastam da Igreja", mas não há dúvidas que na última semana o catolicismo marcou pontos. A nível externo, com a visita do Papa à Terra Santa, onde visitou todos os locais de relevo por onde o Nazareno espalhou a sua Palavra, e em que sem declarações incendiárias e com a devida prudência, não deixou de condenar por igual o Holocausto e o muro da Cisjordânia, apelando emocionada mente ao fim das hostilidades. Claro que houve críticas, dos descontentes e fundamentalistas de sempre, numa terra devastada por fanatismos de toda a ordem.
Por cá, Nossa Senhora de Fátima saiu da capelinha e juntou-se às comemorações dos cinquenta anos do Cristo-Rei. Ouvir um responsável camarário de Almada dizer que nunca na cidade da outra banda tinha havido tal ajuntamento de pessoas (embora haja quem diga que há cinquenta anos houve mais) tem o seu significado. E muito embora não seja um grande devoto de Fátima, pelo clima quase pagão que por vezes lhes está subjacente, gostei de ver a singela figura da Senhora circular por entre hospitais e zonas socialmente degradadas, como o Intendente, e onde parece que Deus está ausente. Porque era precisamente para estas almas falhas de esperança e no fundo da vida que Maria deu à luz o Seu Filho.

quarta-feira, janeiro 21, 2009



President Obama and Secretary of State Rodham Clinton


Não pude ver a tomada de posse de Barack Obama, o seu discurso e a enorme multidão que assistiu à cerimónia, no frio de Washington. Para alguma coisa me há de servir o Youtube. Noto apenas que toda a cobertura mediática é proporcional ao entusiasmo que o novo presidente americano despertou nos últimos meses. O seu carisma e vontade de mudança são razões plausíveis, mas o facto simbólico de não ser branco também ajuda e muito. O grande problema será estar à altura das enormíssimas expectativas que criou, ora pela desastrada comissão de Bush, ora pelo discurso renovador que trouxe à política americana, ou ainda pelos exageros do costume, aos quais Obama é alheio. Certo é que não começou a chover mel e que daqui a uns tempos começará a colher ódios (aliás já começou). A decisão primeira de começar a fechar Guntánamo é de louvar, mas bem maiores serão os problemas a partir daqui.



Fico também com curiosidade de ver o papel espinhoso de Hillary Clinton como Secretária de Estado, como sucessora de Condoleeza Rice (e de outra democrata que decerto conheceu bem, Madeleine Albright). Há um ano, é bom recordá-lo, quase todos a viam como futura chefe de estado americana. Não conseguiu atingir esse objectivo que durante anos almejou, mas responsabilidades não lhe faltam. Falhada a presidência, Hillary não deixará de tentar deixar a sua marca na história noutras funções.

quinta-feira, julho 03, 2008

Enfim livre

Seis anos de cativeiro é muito tempo, mesmo para uma mulher de armas como Ingrid Betancourt. Mas é igualmente reconfortante ver como grupos paramilitares de traficantes de droga transvestidos de "movimentos ideológicos" estão verdadeiramente debilitados.

segunda-feira, março 17, 2008

Esperança

O Portugal dos Pequeninos aborrece-me de morte muitas vezes, pelo pessimismo quase doentio, pelo desencanto, pela fúria sem razão (ou pelas razões que só o autor conhece) que adquiriu a dado momento, o que faz com que frequentemente o deixe passar ao lado. Mas às vezes vogo por lá. E encontro preciosidades comoventes e admiráveis como esta. afinal,também por lá se encontra Esperança.

Quando Bento XVI esteve na Turquia, deslocou-se ao meio do mato para celebrar uma missa para pouco mais de centena e meia de pessoas. A Ratzinger não interessa o "número" mas antes a qualidade dos fiéis. Este Papa não é impressionável pela multidão e não concebe o seu magistério com um gigantesco e permanente "talk show". Nem tão pouco entende ser essa a missão da Igreja nos dias que correm. Os dois volumes da longa entrevista que concedeu ao jornalista alemão Peter Seewald - "O Sal da Terra" e "Deus e o Mundo" -, ainda como cardeal, explicam a Igreja do futuro Papa Bento. No texto de Vasco Pulido Valente no Público de sábado (sem link), reflecte-se sobre a vitória de Zapatero e a "consagração" de um "novo mundo", aparentemente definitivo, que "derrotou" a Igreja. Passarão por Espanha e pela Terra dezenas de Zapateros e a Igreja do Ressuscitado, erguida sobre a pedra bruta que derrotou o mundo, permanecerá. O verdadeiro cristão é aquele que não omite a Cruz na sua vida. Como o mais pequeno grão de trigo que cai no solo, morre e só assim dá fruto, também a Igreja representada por Ratzinger não vem para "rasurar" nenhuma "memória histórica" ou impor-se como uma "ideologia". Pelo contrário. O Igreja vela contra "a prepotência da ideologia e dos seus órgãos políticos", na defesa de uma "nova liberdade" que não é mais do que a "consciência da nova «substância» que nos foi dada" por aqueles que, ao longo da história do homem, com o seu martírio e com a sua morte, "renovaram o mundo" (Carta Encíclica Spe Salvi). Não são os Zapateros desta vida videirinha quem nos "salva". A esperança, o outro nome da fé, é a única resposta contra o "homem precário" que governa no mundo.