terça-feira, fevereiro 21, 2006

Em má altura

O confronto com o Liverpool não podia vir em pior altura. Nem qualquer um dos outros, aliás. Com os jogadores desmotivados, a defesa surpreendentemente frágil, o capitão Simão rabugento e Nuno Gomes perdulário, além dos reforços que pouco reforçaram e da lesão de Geovanni, logo agora que ele estava em forma, apanhar o Guimarães em crescendo com o apoio de toda a sua cidade e o Porto já com Quaresma e sem ausências de maior é tarefa que dispensava nesta altura.
Mas é o calendário que temos, e não adianta fingir que são confrontos "normais". O de hoje, contra uma equipa em plena forma, sem ser o mais importante para efeitos de época, pode no entanto servir como motivação extra se a exibição ou o resultado forem satisfatórios (se não forem, pouco se perde, também). Por ser já uma eliminatória da liga dos Campeões, que há muito não se via na Luz; porque se adivinha outro inferno, com o estádio esgotado; e porque traz à memória outros confrontos, com sabor a anos oitenta, de novo contra o campeão europeu em título, um Liverpool enfim renascido na sua glória. Nunca nos demos bem contra este clube, mas também jamais tínhamos vencido o Manchester United, e afinal...

Sim, não adianta disfarçar. No campo, só vai valer o esforço e a sorte. Defender bem e atacar com cabeça e em velocidade. Que a Luz seja o inferno de sempre para os visitantes. E que o "You´ll never walk alone" seja abafado, e que se ouçam muitos mais "SLB, SLB, Glorioso SLB, Glorioso SLB".



Nota: revendo os confrontos nos anos, oitenta, reparei que em84/85 só não eliminamos os ingleses por um golo. Caso tivéssemos ganho na Luz por 2-0, ou perdido em Anfield Road por 3-2, tínhamos seguido em frente. E aquela horrível e trágica final em Heysel jamais teria acontecido.
Cem mil não é para qualquer um

Tomara eu números assim. Parabéns à Zona Franca. Com essa quantidade, já dá para fazer umas tantas OPAs blogoesféricas.

domingo, fevereiro 19, 2006

Prossegue a reestruturação cíclica da blogoesfera e as sucessivas passagens de testemunho. Agora, foram a Janela Para o Rio e o Fumaças a encerrar a respectiva actividade. Dois blogues já veteranos que não resistiram à falta de tempo e à rotina ligados a este meio, e que merecem a nota, por todas as razões, e também por terem sido os primeiros a linkarem (ligarem?) A Ágora.

Uns acabam, outros começam. E outros não tinham ainda sido referidos. Casos da Insustentável Leveza, do Touch of Evil (apesar das incursões zombeteiras ao excelente Diário de um Adepto Benfiquista), do Metablog e do Amigo do Povo, marcando o regresso do Bruno Cardoso Reis ao meio. Parece aliás que todos os ex-Barnabés resolveram voltar à carga, de forma fragmentada: além do Daniel Oliveira, que ingressou no Aspirina B - juntamente com o Rodrigo Moita de Deus - podemos encontrar outros ex-companheiros de blogue aqui, aqui e aqui.
Para terminar, dois blogues "temáticos": Noite Americana, em cinema (por muito que o entendimento sobre Match Point seja muito diferente do que atrás se expôs), e aTerra da Alegria, que nos recorda regularmente a esperança da Boa Nova. E os Quase Famosos, no pop/rock (destes já tinha falado, mas convém sempre recordá-los).

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Composição de artes

Pode uma obra cinematográfica ser constituída por outras formas de arte? Vejamos: junta-se um punhado de literatura, da clássica (Dostoievsky, no caso); uma excelsa fotografia em tons cinzentos, com raros espaços luminosos; uns pozinhos de pintura (a exposta na Tate Modern); escultura, certamente, exprimida pelas esculturais actrizes que povoam as cenas; arquitectura talvez, com a contraposição das várias faces de Londres (a nova morada do jovem casal, por exemplo, com as largas vidraças mostrando Westminster), ou a típica Country House; teatro, evidentemente, não só de forma directa, com a apresentação do último musical de Andrew Lloyd Weber, mas sobretudo com o desenrolar da tragédia clássica; o adultério e a paixão desenfreada como Hybris, a situação da gravidez na mulher errada como o Pathos, o sofrimento crescente, o Destino previsto em alguns pormenores (a leitura da desdita do jovem Raskolnikov, que está escarrapachada), e o Clímax, onde se dá a catástrofe, ou seja, o crime hediondo, restando muito pouco de Catarse; tragédia essa temperada pela música, criando o necessário ambiente, interpretadana ópera do sublime e sentido Enrico Caruso.
O resultado é Match Point, grande obra da Sétima Arte da autoria de um dos seus maiores criadores: Woody Allen. E mais poder-lhe-ia acrescentar, se me viesse à memória.



Ps: entretanto também vi Munich, uma das obras mais aguardadas dos últimos meses. À parte as quase três horas e a incompleta vendeta dos protagonistas, a única coisa que para já posso dizer é repetir o título de um jornal: um filme desconfortável.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Acção-reacção

As caricaturas dinamarquesas e, principalmente, as suas repercussões, continuam a ser o assunto de discussão na blogesfera e tema de abertura nos noticiários.
Disse há dias que tudo já se tinha dito sobre a questão, mas enganei-me redondamente: muito havia para dizer, incluíndo os maiores disparates. Para começar, as sempiternas acusações à Europa "acobardada" e "sem saber o que fazer", em comparação com os EUA. O "acobardamento" é uma acusação gasta, com as inevitáveis cenários de destruição. Já a indecisão quanto ao que há a fazer é real, mas face a um problema desta complexidade e magnitude é difícil ter ideias claras. Os EUA também não serão o melhor exemplo do momento: não só foram os primeiros a criticar as caricaturas, como as últimas acções no Médio Oriente não lhes dão grande legitimidade para se afirmarem como paladinos na "guerra civilizacional". Que é outro dos grandes equívocos da torrente de declarações que se tem ouvido. Sem querer contrariar as razões de preocupação de todos os fanáticos e radicais que incendeiam embaixadas e bandeiras (ou de quem o permite) e clamam que "isto é tudo uma conspiração sionista", como ainda ontem o fez o Ayattolah Kamenei, começo a ficar farto daqueles que vêm não só com declarações grandiloquentes sobre a "guerra que já começou", ou a impossibilidade de acreditarmos que no Islão são todos terroristas, sem excepção. Além de Pacheco Pereira, que adora abrir as hostilidades, temos este texto, que é um bom exemplo do que falo, e ainda uma enorme quantidade de neo-defensores da liberdade de imprensa e de admiradores de Hutington, à esquerda como à direita. Além de estranhos revisionismos, tentando provar que "o Al-Andaluz é um mito", mais pelas razões políticas que pelas socio-culturais.

Como sempre, surge aquela expressão cada vez mais vazia de sentido e de que todo e qualquer ser opinativo se arroga: o "politicamente correcto". Esta semana, vi no Acidental uma troca de palavras em que duas pessoas se acusavam mutuamente de promover o seu oposto, o"politicamente correcto": um, em relação à falta de respeito dos cartoonistas perante os muçulmanos; outro, sob a temeridade em condenar as violentas recções contra a Dinamarca. ao que parece, somos todos muito "politicamente incorrectos", quer sustentemos uma opinião ou outra, ou o seu contrário.

Depois, claro, o "choque de civilizações", a deles contra a nossa. A ideia, além de ser demasiado generalista e simplista, (embora em relação a outras ameaças, como o aquecimento global, as preocupações destes opinantes caiam sem estrondo), é perigosa. Basta pensar que a civilização "deles" não abrange, no caso concreto, apenas os países árabes, mas também o Irão, um dos mais metidos ao barulho, o Paquistão, vastas populações da Índia, ou a Indonésia. Um panorama demasiado vasto para declaraçõezinhas de guerra pelos jornais. E a Bósnia, ou a Albânia, maioritariamente muçulmanas, bombardeiam-se?

Os partidários desta não tão novel ideia fazem constantes referências a Chamberlain e à sua política de apaziguamento frente aos nazis. A invocação, normalmente necessária, tende a ser saturada pelas excessivas comparações. É que se houve uma ameaça nazi, ela deveu-se à humilhação que os adversários da Alemanha lhe impuseram. Pela lógica das ideias, para se expurgar a ameaça não se pode apenas recorrer ao rearmamento: há que primeiro pensar se os muçulmanos, ou os árabes, ao menos, não se sentirão humilhados, e se não será isso que atrai o radicalismo. Não faltam causas, desde a absurda e inútil guerra do Iraque, aos apoios dúbios dos países ocidentais a ditaduras do Médio Oriente quando isso lhes convinha. Evidentamente, votam em extremistas como o Hamas de forma democrática, como possível desforra, ou porque não vêm outras alternativas credíveis.

Tudo isso não obsta a que operações militares possam ter lugar se necessário, como no Golfo em 1991, ou no Afeganistão. A hipótese de um ataque cirúrgico ao Irão não pode ser liminarmente afastada, pese embora a sua extrema dificuldade. Mas há que fazê-lo, se não houver alternativas, de forma a não não cometer os erros do Iraque, com uma ocupação mal disfarçada de "libertação", e a não provocar uma reacção tempestuosa do mundo muçulmano (já imaginaram a aliança improvável dos sunitas com os xiitas numa luta comum contra "o Grande Satã"?). O problema é que se vê aqui uma sede de guerra preocupante sobretudo pelo facto dos seus defensores não serem extremistas ou lunáticos. E também porque sabemos que uma escalada de um lado leva à radicalização do outro. era bom, já que se invoca o apaziguamento, que se lessem as páginas do seu grande adversário, o nunca demais lembrado Winston Churchill, sobre a forma como os derrotados da 1ª Guerra foram tratados. É que a paz a todo o custo pode ser uma cobardia e uma tontice, mas a guerra a todo o custo é uma monstruosidade.

Ah, e sobre o Profeta Maomé (ou Muhamad, no original), uma vez que ele deixou vasta prole no mundo árabe, e que esta também se espalhou pela Península Ibérica, quantos descendentes seus haverá em Portugal?

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

A imagem por que todos esperavam





Scarlett Johansson e Keira Knightley na capa da Vanity Fair . Assim mesmo. Suponho que a revista vá esgotar a sua edição.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Liberdade e civilização

Sobre a crise dos cartoons publicados em vários países europeus que desagradaram aos muçulmanos e incendiaram os ânimos dos mais radicais, como o clube de fãs de Ahmadinejad, já quase tudo se disse. Ainda assim, vou deixar algums notas sobre o que penso, muito embora não acrescente absolutamente nada de novo. É só para ficarem a saber o que se pensa aqui n ´A Ágora.

- Liberdade de expressão? Um princípio inalienável numa sociedade livre, democrática e tolerante, de que a dinamarca é um dos exemplos mais perfeitos.

- Limites? Evidentamente. Como é sabido, liberdade alguma é absoluta. Por isso mesmo, a nossa lei penal consagra certas situações em que manifestações dessa liberdade podem ser objecto da sanções legais. Alguns casos são exemplificados, embora como sempre não se possa dispensar a interpretação das autoridades judiciais.

- As religiões, tal como as ideias políticas, são igualmente satirizáveis. Pelo seu sentido transcendente, tendem a provocar mais fúria do que o comum das caricaturas.

- Diz-se que as caricaturas em questão são perfeitamente normais, e que a sua repetição nos últimos dias é apenas uma demonstração da força da liberdade de imprensa nas sociedades ocidentais. Discordo plenamente. Os cartoons não eram parciais ou mero gozo: pretenderam tratar os muçulmanos no seu conjunto, como sendo seguidores de uma religião ela própria de terroristas. Pode-se considerar isto como uma manifestação de xenofobia e racismo (se segundo o que ouvi dizer dos antecedentes do jornal, provavelmente foram-no mesmo). Para isso, os ofendidos deviam ter recorrido aos meios de direito, atrás descritos.

- As reacções em países como o Irão, Síria, Líbano e afins acirraram os ânimos dos fanáticos locais e foram aproveitados pelos respectivos regimes (ou facções, no caso do Líbano) para continuar a sua campanha contra "o Grande Satã"; a Israel e EUA junta-se agora a Europa. Tudo o que é "Ocidental" cabe no mesmo prato. Não é um exclusivo da outra margem do Mediterrâneo: por cá, há muito que vêm os muçulmanos como seres de barba espessa e cimitarra à cintura, de nome "Mustapha" (que é um nome turco, mas que já vi apontado como dominante entre quem professa o credo de Maomé).

- As reacções dos fanáticos não são de espantar. Numa posição mais incómoda ficaram os muçulmanos mais moderados, a que a maioria dos media pouca cobertura deu.

- As reacções internacionais divergiram: cautelosos como os EUA, mais impulsivos, como a Alemanha, todos tiveram alguma razão.

- Se eu fosse os cartoonistas ou os responsáveis pelas publicações, poria a mão na consciência e não repetiria a graça, que é em si mesmo inutilmente provocatória e ofensiva. Os respectivos governos nada têm que ver com as opiniões e actos dos seus cidadãos, que os responsabilizam somente a eles. A liberdade, como se sabe, implica igual responsabilidade (mesmo que esta, para José Vítor Malheiros, do Público, não seja chamada a este caso, o que eu discordo).

- Se os governos nada tinham que justificar, então agora, com os ataques às respectivas embaixadas e representações, ainda menos. E o facto de queimarem sucessivas bandeiras dinamarquesas, e não só, o que por si só prova a bestialidade e a ignorância dessa gente, é uma ofensa tão grande ou maior que os famosos cartoons.

-O que dizem sobre a não reciprocidade de acções em países ocidentais se tais graças fossem aplicadas a símbolos cristãos ou judeus não é de todo verdadeira: é sabido que mesmo estes credos têm os seus intransigentes defensores, como é o caso de alguns grupos radicais evangélicos dos EUA.

- A Civilização ocidental é Superior? Neste contexto e nesta época, sim, é, pela liberdade, bem-estar material e respeito que dá aos seus cidadãos, e que são a causa para que tantos muçulmanos imigrem para a Europa, EUA ou Canadá. Embora estas razões possam mudar com o tempo e as circunstâncias: há mil anos, Granada e Córdova eram sem dúvida superiores em civilização ao vetusto reino da Dinamarca. Hoje, contudo, o país de Andersen, da Lego e de Kierkegaard é o modelo perfeito da superioridade actual da nossa civilização, com o qual gostaríamos muito de nos parecer.
A superioridade das civilizações não se deve confundir porém com a "superioridade dos povos", um conceito perigoso e distorcido, que há mais de sessenta anos levou aos resultados catastróficos que se conhecem (e a Dinamarca, aliás, também os sentiu).

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Tristes recriminações

Manuel Alegre voltou ao seu lugar na AR. A meu ver, faz bem. Por muito que a boa vontade e o um milhão e tal de votos ajudem, pouco poderia fazer sem algum peso institucional. E o lugar de deputado (não sei se também vice-presidente da AR) terá a sua influência nas questões que pretende abordar, seja na interrupção da IVG, onde não poderá contar certamente com o meu apoio, seja na discussão sobre desertificação e despovoamento do interior (aqui merece sólida concordância).
Entretanto, o seu papel nas presidenciais voltou a ser apupado por alguns comentadores de nova geração. Depois da malta da Geração de 70 (como Pedro Mexia), ainda temos de aturar os dois cantos do Expresso. O Daniel Oliveira veio dizer que os votantes em Alegre só o tinham feito por duas ou três razões (ódio ao soarismo, esquerda romântica e porque não sabiam em quem deviam votar, salvo erro). Esqueceu-se de dezenas de outras, como a de que Alegre era o único que mostrava grande amor a pátria sem os complexos típicos da esquerda radical e dos neoliberais, e ou que não estava embrulhado em máquinas partidárias, como a do seu candidato, Francisco Louçã, ou muitas outras que pertencerão a quem nele votou. A nova admiração de Daniel por Soares deu-lhe para desancar no poeta por dá cá aquela palha.
Outro que se divertiu a zurzir em Alegre foi (além de Vasco Pulido Valente, recém-chegado à sua tão criticada blogoesfera) João Pereira Coutinho, alegando a sua "iliteracia política" e o seu "delírio". É típico do ex-Infame: qualquer indivíduo que tenha ideias diferentes das suas é logo apelidado de ser portador de "insanidade", de o fazer "rebolar de riso", ou de tomar parte numa "trupe ideológica". Isto claro, se não o tratar de "mau-carácter" ou "verme", como já aconteceu ao dito Daniel Oliveira.
O problema é que o mesmo Pereira Coutinho disse há meses, quando Alegre não se candidatou ao primeiro impulso, que o deputado teria tido um acto de dignidade se o tivesse feito. Assim que Alegre decidiu mesmo avançar, começaram as zombarias e as desclassificações da parte do colunista. Só prova que a tal iliteracia política de que fala o toca muito mais a ele do que a pessoas que já andavam em sessões legislativas quando ainda se debatia no berço. E que se não sofre de delírio, há pelo menos naquela mente uma boa dose de amnésia em relação às opiniões expressas escasso tempo antes

terça-feira, janeiro 31, 2006

Sobre o fim de semana que passou

Inesperadamente, a equipa que perdeu em casa com o Halmstad conseguiu vencer no imenso reduto de outra que voga na Liga dos Campeões, no jogo conhecido como "Derby português". Por obra e graça de um brasileiro esguio que ainda na semana passada tinha falhado golos que até eu, que raramente acerto numa bola, conseguia faturar. E ainda por um veterano, cujo hobbie é desatar ao estalo a seleccionadores, que há uma eternidade não marcava um penalty. É merecido, mas chato, e ainda tivemos de ouvir os remoques da lagartada, escondidos desde o trágico (para eles) mês de Maio passado. Um simples acidente de percurso, que talvez tenha a utilidade de acordar mentes acomodadas.

Os noticiários de Domingo anunciaram que "nevava por todo o país, de Norte a Sul". Em certas regiões a neve era quase novidade, mas do Mondego para cima, nem vê-la, excepto talvez no Nordeste transmontano. O frio apertava, mas o céu continuou limpo como uma rua suíça. Essa coisa de "todo o país" tinha umas certas falhas geográficas que pouco contemplavam o litoral norte (e até cidades como Viseu e Vila Real) e não abonavam muito a favor dos seus autores.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

250 anos com três dias de atraso



Pois é. Os duzentos e cinquenta anos do nascimento de "Woferl" na principesca Salzburgo foram referidos por tudo quanto é orgão de informação, blogoesfera incluída. Não sendo um conhecedor profundo da sua obra musical (apesar da sua curta vida me ter despertado o interesse em tempos remotos), sei o suficiente para reconhecer o carácter Divino que manifestamente a inspirava.
Como não podia deixar de ser, Amadeus, de Milos Forman, passou nos ecrãs nacionais, pouco depois da série de um seu contemporâneo ainda mais libertino, Bocage. Já tinha escrito sobre o filme e as consequências ainda hoje visíveis do anátema de Salieri. Constança Cunha e Sá (invocando Mario de Sá Carneiro num dos seus melhores poemas) e João Gonçalves foram mais além e mencionaram "o talento do fracasso". É justo. Se não servir para reabilitar o Salieri compositor, como o Scalla tentou fazer na sua reabertura, ao menos que reabilite o Salieri reconhecedor da influência Divina pelo milagre da música.

E um conselho: os jovens austríacos, nos seus momentos de boémia, têm o costume de ingerir de um trago uma bebida extremamente alcoólica, parecida com brandy, flamejante como um crepe flambée, com um chocolate Mozart no fundo, justamente chamada Burning Mozart. Pode ser outra forma de homenagear o génio na sua faceta mais estroina, mas deglutir toda aquela massa agridoce em brasa é tarefa complicada e sufocante.

sábado, janeiro 28, 2006

Interioridade



Num certo fim-de-semana de tempo mais agreste, Bragança ficou isolada. O único limpa-neves disponível estava avariado. Limpezas, só mais tarde e apenas no IP-4. Aldeias no Montesinho e localidades como Vinhais tiveram de esperar que o ciclo da água fizesse o seu trabalho, convertendo a neve e o gelo ao estado líquido. Entrar no distrito, só até Macedo. Nem a comitiva do Dr. Mário Soares conseguiu fazer as acções de campanha previstas em Bragança (pelo que se vingaram atacando os covilhetes da pastelaria Gomes, em Vila Real).
Atrás deste cenário de brancura imaculada e de crianças brincando com bolas de neve está uma terrível realidade conhecida como "interior profundo". As picardias regionais costumam ficar-se entre Lisboa e Porto, Coimbra e Aveiro/Viseu, Alentejo e Algarve, etc. Mera lana caprina. A autêntica divisão está entre o litoral, sobrecarregado, desenvolvido, habitado, e o interior desertificado, envelhecido, sem emprego nem oportunidades.

As regiões mais esquecidas são Trás-os-Montes e a Beira interior. O Alentejo, com os projectos turísticos e de regadio que tem recebido, está numa situação bem mais confortável, apesar de tudo, e o mesmo vale para o Minho. Mas outros distritos, como Bragança e Guarda, não só têm uma gritante falta de infra-estruturas e equipamentos como ainda lhes querem retirar parte dos seus serviços.A situação não é nova: em Chaves, na altura dos governos de Guterres, quando se pretendia tirar um contigente da polícia local, sem que tivesse sido instalado um pólo universitário já prometido, a população saíu à rua em protesto, promovendo boicotes e cortando estradas. O governo voltou atrás e ainda acedeu a outras exigências dos flavienses.

Passa-se uma situação semelhante no nordeste transmontano, ali perto: a ideia é tirar determinados serviços de saúde e de polícia de Mirandela, Bragança e Macedo, para redistribuição territorial e corte de despesas. Como se aquelas terras não tivessem já falta deles. É certo que a população é escassa e há que redistribuír as coisas pelos locais onde há mais densidade populacional. Mas entramos aí num círculo vicioso: se se retira num sítio, as pessoas deslocam-se para latitudes onde tenha maior acesso aos bens. Mais despovoamento, menos meios, a situação piora, e é precisamente isso que se passa com o interior português.

Para estes dias está programada uma manifestação nas ruas de Mirandela, um pouco à imagem do que aconteceu em Chaves. No IP-4, no ponto de entrada do distrito de Bragança, foram colocados cartazes com a inscrição "Aqui termina o Portugal da igualdade de oportunidades" e "Daqui a 70 quilómetros, Espanha". Não sei se os habitantes da terra quente transmontana irão empunhar bandeiras espanholas, como se chegou a fazer em Bragança, em tempos do Estado Novo (o que só demonstra grande coragem), noutra prova de desagrado quanto à condição a que estavam votados. Não sei qual será a máxima reivindicação - se ficar com a polícia, a maternidade, a Direcção Regional de Agricultura, essas coisas que quase todo o resto do país tem. Mas se quiserem atemorizar, usem mesmo o pendão do vizinho castelhano. Talvez assim as nossas autoridades centrais se assustem e pensem que o interior desertificado merece mais do que auto-estradas e IPs a caminho de Espanha. E que também aí existe a soberania do estado português. Que um país macrocéfalo e sobrecarregado no litoral não é viável. A não ser que reserve o interior para deserto oficial, com meia dúzia de cidades no meio, para servir de oásis a deconhecedores turistas, ávidos de ver uma espécie de so typical vazio lusitano.
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segunda-feira, janeiro 23, 2006

Resultados

A coisa ficou confirmada ainda antes das dez da noite: Cavaco ganhou mesmo à primeira volta, com os mesmos 50.6% que obteve em 91. Ainda assim, ficou abaixo de Sampaio, quando o derrotou há dez anos. e não se livrou de um breve susto. por uns momentos, estava aver que teríamos segunda volta, mas os resultados acabaram por estagnar lá pelas nove e meia.

Cavaco será o novo Presidente a partir de Março. Seria talvez um excelente pretexto para se voltar a discutir a questão monarquia-república, mas neste momento talvez me interesse mais pensar que tipo de relação terá com o governo: complementar e de cumplicidade? Quezilenta e belicosa? Irá chocar com Sócrates, com óbvias parecenças consigo mesmo, ou pelo contrário, completar-se-ão? A partir de dia 9 de Março sabê-lo-emos. Será curioso ver como será o Presidente Cavaco silva: austero e autoritário como há dez anos, ou mais humilde e aberto (ainda que mudo) como agora.

O dia marca ainda o mais que provável fim do poder do clã Soares. O velho patriarca sofreu uma derrota estrondosa, ele que venceu sempre os seus combates mais difíceis. Uma queda da qual não se recomporá eleitoralmente, até porque a idade pesa sempre, mesmo que não o admitamos. Serviu para provar que não há titulares de cargos políticos e que mesmo aquele que consegue 70% numas eleições pode à vontade perder mais de 50% do total nacional em condições diferentes. Desconfio porém que daqui a uma ou duas semanas Soares já se terá esquecido dos resultados. Desconfio mesmo que a razão pela qual se candidatou terá sido a de fazer nova e prolongada campanha eleitoral, onde se sente como peixe na água. Como está assegurado o seu lugar na história, que se encarregará de fazer esquecer esta derrota, não tem muito com que se preocupar.

Jerónimo de Sousa é um fenómeno curioso cujo sucesso nenhum dos nossos analistas, habitualmente tão visionários, conseguiu prever. Num ano em que sucederam os acontecimentos que fatalmente acelerariam a derrocada do PC (a morte de Cunhal e e eleição de um ortodoxo, Jerónimo himself, para o lugar de Carvalhas), não só conseguiu estancar a hemorragia de votos contínua como ainda pôs o partido de novo em 3º lugar e subiu nas autárquicas, tendo mesmo reconquistado a junta metropolitana de Lisboa. Agora tem este resultado muito razoável e bem acima de Louçã. É uma derrota tendo em conta que Cavaco ganhou logo à primeira; mas não é um mau resultado comparado com os índices eleitorais da CDU, e com as amorfas campanhas presidenciais que protagonizaram no passado, quando era sempre para desistir ou para ficar pouco acima dos 5%.

Louçã teve um resultado aquém do esperado (por ele) e abaixo do que o seu BE teve há menos de um ano. Será talvez um indicador dos limites do seu movimento, que se estendeu demasiado nas legislativas. Conseguiu passar a barreira dos 5% por pouco, o que o salvou de algumas contas mais pesadas, e no duelo com Jerónimo perdeu claramente a partida; já devia saber antes que o PC tem uma organização velha mas bem oleada, com a qual o Bloco não pode competir. Não será, apesar de tudo, o princípio do fim de Louçã, como ouço para aí dizer. Mas dificilmente conseguirá atingir votações muito mais altas.

Garcia Pereira eclipsou-se: depois de quase 2% há cinco anos, teve uma votação marginal, abaixo mesmo do normal no velhinho MRPP - caso espantoso, sabendo que o advogado é maior que o seu partido. Consequência directa da divisão da esquerda em inúmeras candidaturas e da escassa mediatização da sua campanha. Provavelmente o único com razões para se queixar da comunicação social.

Alegre: o meu candidato. Como era previsível, ficou em segundo, a distância considerável de Soares. Não conseguiu porém atingir o objectivo principal, a segunda volta, que poderia hipoteticamente dar-lhe a vitória a 12 de Fevereiro. Ainda que não tenha ganho, é um dos vencedores da noite. Sem figuras gradas da política, sem grandes fundos ou máquinas partidárias, obteve um milhão de votos e suplantou as candidaturas de esquerda. Sussura-se que no PS prepara-se já a contagem de espingardas. Outros, pelo contrário, dão como certo que os votos de pouco servirão a Alegre e que Sócrates tem o partido na mão. Não estou tão certo nem de uma coisa nem de outra. Parece-me é que o poeta de Águeda tem os pensamentos noutra dimensão, abstraída do PS, e que se prepara para voltar a novas batalhas neste novo formato, mais independente. Pode até voltar à AR, da qual é vice-presidente. Mas com certo distanciamento do partido, depois da forma como o puseram de parte. Seria bom se expusesse novas ideias, novas soluções para uma maior participação cívica. Ficou muito por dizer nesta campanha, em que por vezes a emoção e o sentimento toldaram a razão. Mas não terá sido exactamente por isso que tantos eleitores não só puseram a sua cruz, como apostaram, literalmente, no seu Quadrado?

Outras curiosidades: a interrupção da declaração de Alegre por Sócrates, com o primeiro-ministro a vir mais tarde defender-se porque "não sabia que Alegre estava a falar no momento da sua declaração". Está-se mesmo a ver...

Pensamento de terror: Maria Cavaco Silva vai ser a primeira-dama provavelmente nos próximos dez anos.

Supra-partidária: com o surgimento das projecções, o aparecimento de Cavaco e o seu discurso de vitória deixou de valer a pena vir com o estafado discurso do "supra-partidarismo". Quase não se viam bandeiras da candidatura; o que se via era um mar laranja, com as setas do PSD, e algumas do CDS à mistura. Parecia um comício da AD. Nem faltaram os gritos de "PSD, PSD", até alguém vir oportunamente mandá-los substituir a palavra de ordem.

Todos dizem que pela primeira vez a direita chega à presidência da República em trinta anos. Mas fico com uma dúvida: como hão de justificar que o novo presidente seja alguém que se define como um...social-democrata? Uma boa questão para todos os conservadores, liberais e demais gentes de direita que nele votaram. No Acidental já se percebeu isso mesmo.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Vou votar em...

Falei apenas uma vez, com mais profundidade, sobre as actuais presidenciais, expondo os meus pontos de vista, as minhas causas de (des)interesse, e explicando porque razão votava sendo monárquico. Olhando bem, e na véspera do escrutínio, houve alguns pontos que mudaram ligeiramente.
O mais importante será sem dúvida quem gostaria que ganhasse. Soares não, pelas razões expostas. O mesmo para Jerónimo e Louçã, e Garcia Pereira apenas se candidata por uma questão de intervenção (embora a minha cruzinha há cinco anos tivesse sido precisamente para o juslaboralista do MRPP). Quanto a Cavaco, nada a opôr, mas para além de não ser cavaquista e de me lembrar de alguns aspectos mais negativos daquele a quem muitos vêem como um salvador, não acho que a sua candidatura seja particularmente entusiasmante (sim, os silêncios do candidato que parece não se comprometer com nada contribuem para isso).

E Alegre? No início, tinha apenas uma vaga simpatia pelo candidato sem tropas e pela confusão que trouxe a estas eleições, não permitindo que cada partido se identificasse com um candidato. A sua campanha não decorreu da melhor forma, fosse pela ausência de meios e de fundos ou pelo temor reverencial que muitos militantes socialistas demonstraram se o apoiassem abertamente.
Contudo, as sondagens começaram a ser-lhe favoráveis e a sua candidatura passou a ser levada a sério. Várias razões justificam esta simpatia emergente: além da posse marialva e quase única do candidato, o seu afastamento dos apoios partidários, da forma como disparou sobre todos sem fazer ataques pessoais e de uma basta coerência com os seus princípios, há um certo lirismo pueril e um sentimento patriótico que veria com agrado um poeta em Belém. E o patriotismo levantado por Alegre não é menos apelativo: entre os radicais da esquerda com medo do "Antigamente" que se dizem "cidadãos do mundo" e uma direita sem ideologia e memória para quem os sentimentos patrióticos "são coisa do passado" e que só responde perante o mercado, a pátria surge como um valor de importância maior, numa época de globalização e encontro de raças e povos, sem a carga xenófoba que tantas vezes lhe atribuem.
"E a diversidade, o cosmopolitismo?" perguntarão alguns, lembrando os perigos que o desejo de pureza nacionalista representa. Sim, tudo isso é louvável, mas que interesse há em falar de diversidade cosmopolita se não houver identificação de cada povo ou cultura? E afinal, qual é o perigo de se clamar pela pátria quando desde o início dos sentimentos patrióticos que grande parte dos combates pela liberdade passa por aí? Um mundo globalizado terá de ser uma salada russa sem identificação nem causas?
Por mim, podem dizer que Alegre está ultrapassado, é um lírico pseudo-nacionalista, não vive neste mundo, etc. Eu já escolhi. Estou farto dos argumentos a favor da "experiência", do "relançamento da economia", de "homens providenciais ou que sabem unir", de tudo o que se tem ouvido das outras campanhas. Não escolhi viver em República, não acho que as competências do Presidente sejam determinantes nem decisivas, como se quer fazer crer, exceptuando a da dissolução do Parlamento. Assim sendo, porque não um presidente-poeta? Medo do ridículo, ausência de exemplos? Temos o de Vaclav Havel, um dramaturgo, com quem os checos se deram muito bem, como já lembrou o Blasfémias (que também usaram o argumento da "superioridade estética"). Chefe Supremo das Forças Armadas? Não lhe falta coragem nem experiência militar. E quanto à questão da representação do Estado, a função não podia ficar mais bem entregue do que um poeta que invoca a pátria. Querem melhor representação de Portugal do que esta? Procurem-na. Se a poeisa é a alma deste povo tão particular, quem a cria e compreende é indubitavelmente o mais habilitado a representá-lo.

Por isso, e por outras razões mais, eu, monárquico e católico, vou votar em Manuel Alegre, um republicano agnóstico, no próximo dia 22.



PS: não é razão para isso, mas inspirado nesta campanha decidi-me finalmente a ler Alma, a autobiografia de infância de Alegre. O livro é magnífico e absolutamente cativante, como também o afirma esta já longínqua recensão. Encontrem-no e devorem-no, mas tentem não o fazer em transportes públicos durante o fim-de-semana, não vão sofrer acusações de "violação do dever de reflexão" iguais aquelas que recaíram sobre Mário Soares há pouco tempo.

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Lembrei-me há pouco




Este blogue faz hoje dois anos. Nunca pensei que durasse tanto. Já pensei em parar, mas não consigo. Por isso, este espaço vai continuar, para infelicidade de quem cá vem. A esses, o meu agradecimento pela resistência. O essencial disse-o há um ano, e os estatutos continuam actualizados.

domingo, janeiro 15, 2006

Histórias de sondagens

Uma reportagem televisiva de ontem recordou-me tempos passados a calcorrear montes e vales, de manhã cedo até altas horas da noite, com incómoda cargas às costas, e em difíceis contactos com as populações locais. Pensarão de imediato: será que ele era carteiro? Almocreve? Caixeiro-viajante? Vendedor de enciclopédias?

Nada disso, caros (eventuais) leitores. O que eu fazia, nos meus tempos de estudante da eterna UCP, era o trabalho prático, de campo, para as famosas sondagens RTP/Universidade Católica/ Público. Eu e mais uns quantos, que acorriam ao "recrutamento" como gato a bofe, porque o trabalho, ainda que fisicamente exigente, era monetariamente compensador para as nossas modestas carteiras de mancebos de vinte anos.
Onde se lê "trabalho de campo" deve-se entender, muitas vezes, em sentido literal. Porque ao contrário do que é corrente, os estudos não eram feitos por via telefónica, com voz metálica e robotizada, perguntando pelo dono da casa. Íamos directamente ao cerne da questão, à soleira das casas dos entrevistados, pedir-lhe a sua opinião, oral ou escrita, se fosse o voto. Para tal, usávamos os nossos boletins e uma urna eleitoral, presa ao ombro, que nos arranhava a carne, embora nem fosse tão pesada quanto isso. Fazíamos o clássico porta-a-porta, mas tínhamos de estabelecer um intervalo entre casas, ou andares, se fosse num prédio, dependendo da particular concentração populacional nas diferentes localidades que visitávamos.

Como éramos da UCP Porto, fazíamos a metade norte do país, até ao mondego. Os sítios para onde nos deslocávamos eram do mais contrastante possível. Iam do centro do Porto à mais remota aldeia da Serra da Peneda. no meu caso, lembro-me de ter andado pela Foz do Douro, a poucos passos da faculdade, mas de ter ido igualmente a Ermesinde, Ançã (Cantanhede), São João da Madeira, Marco de Canaveses, Nelas, Pinhel e, na minha estreia, a Almalaguês.

Esta localidade é, para quem não sabe, uma freguesia do concelho de Coimbra, a uns quinze kilómetros da cidade dos estudantes, mas com recantos de uma ruralidade inimaginável. Dispersa em meia dúzia de lugares, nem sempre era fácil percorrer a freguesia. Algumas pessoas recebiam-nos com desconfiança, pensando que íamos fazer um peditório ou propaganda a uma qualquer seita. Outros, pelo contrário, demoravam-nos e faziam-nos perder tempo precioso, falando da estrada em más condições, dos horários da carreira, dos impostos, de todo o tipo de mazelas, como se conhecêssemos perfeitamente a terra e os seus problemas.

Uma das regras básicas e obrigatórias neste tipo de sondagens é o de entrevistar a última pessoa a ter feito anos naquela casa. Não sabia exactamente porquê, mas aquilo era sagrado, por razões de fiabilidade estatística. Acontecia por vezes termos alguém predisposto a responder, com toda a boa vontade, na única casa em centenas de metros, mas... a última pessoa do algomerado que tinha feito anos há menos tempo estava ausente. Desapontadíssimos, tínhamos de agradecer com um sorriso amarelo e partir para outra tentativa. E, digo-vos, era duro, até porque, como já disse atrás, raras vezes as recepções eram calorosas.
Outro dos efeitos da regra dos aniversários revelou curiosas situações de patriarcado: numa garagem, a família encontrava-se toda reunida, e a pessoa habilitada pelo nosso método a responder era a dona da casa. Mas sempre que punha as questões do inquérito, era sempre o marido que respondia; quando me dirigia directamente à senhora para que fose ele a responder, ela levantava a cabeça do fogão onde cozinhava e retorquia: "é assim como o meu marido diz".

O desconhecimento sobre a política nacional e os seus protagonistas era também grande noutras terras esquecidas, como numa dos distrito da Guarda, onde um idoso me disse que por ele "era do CDS do Professor Freitas do Amaral"; mais adiante, um casal afirmava-se "pelo PS do Mário Soares". Só faltaram mesmo invocações de Sá Carneiro, Cavaco ou Cunhal. O inquérito, note-se, era para a regionalização. Também se verificava a tendência em votar em quem já ocupava o lugar; certa inquirida, depois de considerar que a sua autarquia estava má em todos os aspectos, acabava por confessar que votaria no mesmo presidente, porque gostava muito dele. E até pude assistir à caricaturada e espremida confusão entre cultura e agricultura!

Encontravam-se pessoas de todo o tipo nestas viagens, desde rapariguinhas com menos de vinte anos já casadas até idosos que ficavam sem perceber bem as nossas intenções, mesmo depois de acabado o inquérito, ou ainda outras pessoas que receavam ficar com o nome na polícia ou aparecer na televisão (os inquéritos eram rigorosamente anónimos). O "Portugal profundo" estava ali, vendo os dias passar com o mesmo vagar de sempre, indiferente à política nacional e aos acontecimentos do mundo, mais preocupado consigo mesmo, com a família e os problemas locais do dia-a-dia, desconfiado dos forasteiros e dos que lhe quebrassem a pacatez habitual. A experiência das sondagens permitiu-me isso, entre outras coisas. Também me deu a possibilidade de conhecer os meus companheiros de trabalho, pessoas que às vezes mal conhecia de vista da faculdade, como um ex-colega meu que mais tarde venceu um reality-show televisivo e agora entre num programa de humor da mesma estação.

Por isso, se alguma vez um estudante de urna ás costas, com o crachá do Centro de Sondagens da Universidade Católica, lhes perguntar para responder às suas perguntas, não o enxotem de pronto, e se não tiverem nada ao lume, respondam às suas peguntas. Há duas boas razões para isso: a primeira é que o inquiridor agradece imenso qualquer inquérito feito, até porque o seu trabalho só acaba quando todos estiverem preenchidos, excepto por razões de força maior; não se pode voltar com folhas em branco para a base. A segunda é que estas sondagens são realmente fiáveis, como já se pôde comprovar, e são as que mais se aproximam dos resultados finais. Muito mais do que se fossem feitas por telefone, com toda a probabilidade. São razões de sobre para não tratar o inquiridor como um intruso inoportuno. É ele que calcorreia o país para que se fique com ideia de quem vencerá os escrutínios, e para que os jornais tenham matéria de sobra com que dissertar.

Ah: podem informar-se melhor aqui, e já agora dar-lhe os parabéns pelo primeiro aniversário.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Os nomes dos blogues

Como já disse num post passado, as eleições presidenciais são uma coisa que pouco interesse me desperta. Só mesmo a campanha, uma coisa que aterroriza Vasco Pulido Valente e semelhantes, é que me sugerem uns sorrisos de ocasião, ao ver Soares nas suas sete quintas a dançar nos mercados, o embaraço de Alegre só atenuado em Coimbra, os abraços a que Cavaco está sujeito, as aventuras de Jerónimo e Louçã por terras da margem sul do Tejo (e não só: nesta campanha, já vi pessoalmente o líder bloquista duas vezes, na Baixa do Porto) e as visitas de Garcia Pereira a terras de Basto, com a sua comitiva enfiada num Mercedes dos tempos da RDA.

Tenho também prestado uma curta atenção a alguns blogues "não oficiais". O conteúdo, como cá fora, serve em 80% dos casos para atacar aquele que se pensa ser o adversário directo. Mas a concepção e os participantes têm o seu valor, assim como as denominações. Mas, neste campo, quero fazer uma ressalva: Pulo do Lobo, Super Mário e O Quadrado são nomes bem achados e que fazem uma subtil ligação aos candidatos respectivos. Todavia, nem todos se recordarão dos fins de semana do Professor no "Portugal profundo", nem das personagens dos jogos da Nintendo, ou menos ainda de algumas colectâneas de contos recém saídas do prelo. Assim, e de nada valendo nesta altura do campeonato, darei apenas o meu contributo moral: proporia alternativa e respectivamente os nomes de O Bolo Rei, O Bochecas, ou A Mim Ninguém me Cala. Garanto que os candidatos ficariam imediatamente identificados pelo português comum. Eu sei, já é tarde, mas vale a intenção, lamentavelmente atrasada.

domingo, janeiro 08, 2006

As novas Sete Maravilhas

Leio no jornal que já são apenas vinte e um os candidatos a "novas Sete Maravilhas do Mundo". Parece que a escolha final vai ser feita pelo público - o que me deixaria apreensivo, não fosse a lista bastante razoável - via telefone (não me perguntem os custos das chamadas, que serão certamente embaraçosos).
Mentalmente já tenho algumas ideias. Para começar, a Pirâmide de Keops, por inerência, como representante única das Sete Maravilhas da Antiguidade. Depois, claro, a Acrópole de Atenas, um dos monumentos que visualmente (e não só) me fascinou mais, no sopé da qual fica o espaço que deu nome a este blog. O romântico e afamado Taj Mahal seria outro digno representante, assim como o enigmático e solitário Stonehenge, outra construção que na altura me espantou. Do Novo Mundo, a Estátua da Liberdade, como legítima descendente do Colosso de Rodes; que me desculpe o Cristo Redentor, do Rio, mas Miss Liberty fisicamente é mais parecida com Apolo, e se um simbolizava a luz do sol, a outra representa a luz da Liberdade.
Temos portanto dois lugares vagos. Entre a Torre Eiffel, o Castelo de Neuschwanstein e a Grande Muralha, opto pela longa obra dos súbditos do Filho do Céu, que não só não tinha propósitos meramente estéticos como deve ter dado muito mais trabalho. E no fim? Escolhas não faltam, como as já referidas, ou ainda o Alhambra, Angkor Vat ou o representante da Roma Imperial, o Coliseu. Mas, retirando todo o simbolismo ou carga histórica, resgataria, se possível, uma lamentável ausência da lista dos vinte e um por razões puramente visuais. E seria ainda no Extremo-Oriente. Sim, a Sétima Maravilha seria o palácio do Potala, em Lhassa, antiga morada dos Dalai Lama.
Agora, podem escolher a oitava, se quiserem. Mas é complicado. Já ouvi milhares de vezes referências à "oitava maravilha", e eram sempre radicalmente diferentes umas das outras.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Tristezas de diferente grau

Decididamente o ano não está a começar bem. Espero é que seja apenas uma fase pior e não uma antevisão dos próximos doze meses.

Para começar, a Tasca da Cultura fechou as portas. Digam o que disserem, para mim era um blogue de referência, um dos primeiros que comecei a seguir, intrigado pelas suas "histórias de uma família sem metáforas". Aliás, "fecho" não é o termo correcto. Houve sim um trespasse (provavelmente a primeira operação do gênero entre blogues, embora eu duvide que tenha obedecido às regras da legislação comercial), por parte do Bom Selvagem, esse mito da blogoesfera, cuja saída implica na prática o fim da Tasca como a conhecíamos; o trespassário dá pelo sigla de DEF, acolitado por uma companhia com iniciais MDB. A ver vamos...

A catrefada de jogadores que chegaram ao SLB também não é de molde a animar as hostes. Moretto chegou envolvido numa confusão com estalos à mistura, rufias, amizades quebradas e supostas tentativas de desvio por parte do Porto. Cá para mim, trazia-se de volta Yannick Quesnel do Marselha (que já não precisa dele) e a vaga ficava preenchida.
Marco Ferreira é outro mistério que não se percebe, só mesmo por gula. Fonte será eventualmente para acautelar o futuro. Manduca é um jogador interessante, que veio a baixo custo, embora eu pessoalmente não tivesse mandado Bruno Aguiar definitivamente embora. Ainda nos vamos arrepender largamente. Mas pior do que isso é a vinda de Laurent Robert. Não é que o francês faça má figura ou seja caro, mas para além dos trinta aninhos, a sua vinda só demonstra uma coisa: que simão está mesmo de saída. Luís Filipe Vieira refutou essa hipótese? Ah, pois, ainda deve estar a negociar se vende o passe por dezasseis ou dezoito milhões de euros. Vão por mim.

Mas má notícia a sério é o desaparecimento de Carlos Cáceres Monteiro, jornalista da primeira linha dos acontecimentos, quantas vezes perigosos, antigo responsável de O Jornal, até ao fim director da Visão. Deixou-nos neste início de 2006, com apenas 57 anos. A descrição da sua vida profissional, como jornalista acompanhando as mudanças no mundo, é simplesmente fabulosa. Pudesse eu escolher e seria esta a minha actividade, para a qual, diga-se, precisaria de coragem e perseverança, a mesma que Cáceres Monteiro tinha a rodos.

terça-feira, janeiro 03, 2006

2006

Sob o frio e a humidade, lá entramos em 2006. Depois do habitual convívio familiar, tive um resto de primeira noite de Janeiro algo tonitruante, ou, como diriam os cabeças de cartaz do evento onde me encontrava, "um tanto ou quanto atarantado". O dia seguinte - ou a continuação do mesmo - serve, logicamente, para a recuperação do corpo e do espírito, mesmo que desta vez tenham falhado os tradicionais Concertos de Ano Novo da saudosa Viena.

Uma notícia triste, para começar, a ensombrar o já deprimido panorama cinematográfico portuense: como já temia, o cinema Nun Álvares fechou as portas. A último sala de bairro da cidade (se não contarmos com o teatro do Campo Alegre e o"alternativo" Passos Manuel) acabou. O cinema mais próximo de minha casa, o mais acolhedor; a sala onde assisti aos primeiros filmes no grande ecrã, aí com cinco ou seis anos. Nessa tela vi coisas como 24 Hours Party People, Diários de Che Guevara, O Delfim, Gosford Park (ainda com muito público), e muitos outros. ainda me lembro, há coisa de doze anos, de haver centenas de pessoas a acotovelar-se para ver Jurassic Park.Mas nos últimos tempos era visível a falta de público, e dá-se agora o inevitável fecho, já prevista no blog Hoolywood neste post em tom de lamento. Como se tivesse um mau pressentimento, estive lá no último dia, a ver Oliver Twist, de Polansky (a penúltima vez fora pouco antes, a seguir à vitória do Benfica sobre o United, para ver a Marcha dos Pinguins e assim acalmar-me um pouco da emoção do jogo) . No dia seguinte encerrava-se o Nun´Álvares.



Restam-nos agora os multiplex e os centros comerciais. Os filmes podem ser os mesmos (no caso do Nun Álvares não são com certeza), mas as salas e o ambiente, como todos sabem, nem por sombras. Alguns dir-me-ão sempre, como já vi escrito, que "são as regras do mercado", que estas lamúrias são típicas dos portugueses, que "é por atitudes destas que somos um país de pedintes", etc. Mas eu, se não se importam, estou-me a borrifar para o que dizem as leis do mercado em casos destes e agradecia que me deixassem as minhas próprias lamúrias em paz.

Lamentos à parte, vamos ver o que nos reserva 2006.

sábado, dezembro 31, 2005

Minoria boa - minoria má

O Reino Unido está a mudar. Depois dos casamentos homossexuais, as adopções por casais do mesmo sexo. Se os primeiros, mesmo que causem dúvidas pelas contradições inerentes e pelo folclore "pós-moderno", ainda se aceitam, posto que constituem um contrato entre duas pessoas sem interferência de terceiros, a segunda ideia já revela que os direitos de um determinado casal possam sobrepôr-se aos de uma criança, sem o equilíbrio natural pai-mãe. Já sei que há resmas de psicólogos que dizem que tal acto é perfeitamente normal, mas eu, desculpem lá, ou por ser uma mente tacanha e reaccionária, ou por achar que desde tempos imemoriais, por acção da natureza das coisas, as pessoas têm pai e mãe, e não dois pais ou duas mães, acho tal ideia perfeitamente estapafúrdia.

Uma lei que, como sabemos, já tinha sido aprovada em Espanha. Ora acontece que no país vizinho, a partir de amanhã, passa a vigorar uma norma que proíbe terminantemente que as pessoas fumem em praticamente todo o espaço fechado que não seja a própria casa, e que não prevê mesmo redutos para não-fumadores. Destina-se, parece, a "diminuir o número de fumadores", e também "a proteger os não-fumadores dessa minoria". A lei é mesmo o que parece: um violento ataque aos fumadores, incorporando uma moda que nasceu nos Estados Unidos, atravessou o Atlântico, e se tem vindo a espalhar por diversos países deste lado, tratando os fumadores como pessoas de segunda, agentes imundos que transportam o mal.

Não sou fumador no dia-a-dia, apenas mundano (como em noites como aquela que se aproxima, por exemplo), nem percebo como é que se consegue fumar de manhã. Mas recuso esta perseguição ao fumador e à intromissão na vida privada. Claro que há locais em que compreensivelmente não se deve fumar, como hospitais, escolas, autocarros, e outros. Mas proibir espaços para fumadores é uma prepotência; aposto que o objectivo último desta campanha será um dia interditar definitivamente o tabaco, uma ideia que ocorreu ao cabo austríaco de nome Adolf, e paralela às leis secas que só beneficiaram o tráfico ilegal. O que é paradoxal nos tempos que correm: pretende-se proteger algumas minorias atribuíndo-se mesmo mais direitos do que às maiorias, mas a outras subtrai-se pura e simplesmente o motivo de serem minoritárias. Uma quadratura do círculo que não fica bem aos responsáveis por estas lindas perseguições, sejam eles quem forem. Espero é que não sejam as ideias de criar um mundo saudavelmente perfeito que alguns inconscientes têm de vez em quando. E que são inofensivas até alcançarem o poder.

Alguns posts sobre o velho ano em preparação falharam. Esta semana espero poder deixar mais umas palavras. Até lá...bom ano 2006 para todos!

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Obras públicas

Uma vez que nesta inútil e secante "campanha presidencial" se anda a acusar os candidatos de não revelarem as suas ideias sobre a OTA e o TGV, eu deixo aqui as minhas impressõezinhas sobre o assunto, para não me acusarem de inércia bloguística.

Com pompa e circunstância, o governo anunciou o faraónico aeroporto de Lisboa, a ser construído na Ota, ao que parece com grandes "investimentos privados".
Como a esmagadora maioria das pessoas, desconfio muito de tais projectos, e ainda mais da necessidade real do novo aeroporto. Os investimentos anunciados, privados ou não, assustam qualquer um que more num país com grave défice orçamental. Isto, claro, se não contarmos com as inevitáveis derrapagens orçamentais, tão certas como Cavaco Silva ir ganhar as presidenciais. A única razão plausível, e que até há pouco equilibrava a minha opinião, é a da segurança da zona urbana. É verdade que a Portela entra pela cidade dentro, e que um eventual acidente teria efeitos nefastos. Mas não é menos se pensarmos que mesmo que com o aeroporto a 40 quilómetros, a possibilidade prática de tão trágico acontecimento numa zona urbana adjacente permanece real.
Depois vêm as perguntas que ilustres personalidades como Rui Moreira colocam: com o novo "aeroporto nacional", de que servirão os investimentos feitos em Pedras Rubras? Tornar-se-à num mero aeródromo para low-costs? E não terá pensado o governo em soluções mitigadas em lugar de uma concentração de voos no mesmo espaço? E com a ligação entre os dois aeroportos por TGV, de que valerão os voos inter-cidades?

Eis-nos chegados a outra megalomania: o TGV. Um comboio próprio para países mais extensos, de um conforto extremo, como já pude comprovar. Mas ridículo se posto entre Porto e Lisboa, e caríssimo sem necessidade para tal (também para os utentes). As não sei quantas paragens entre as duas cidades, mesmo que não se efectuem em todas as viagens, também não convencem. E as estações próprias para este tipo de comboio, situar-se-ão onde? E as restantes linhas férreas, abandonam-se? E os preços incomportáveis para os clientes, a ser geridos por uma qualquer companhia monopolista (provavelmente os tais "investimentos privados"), nomeadamente quem queira ir para a Ota? Umas respostas poderiam causar sérios embaraços aos promotores destes novos brinquedos.

Um dos mais veementes apoiantes foi o representante de uma grande construtora civil, que se queixou amargamente da falta de obras públicas e das dificuldades por que passa o sector. Quer dizer que não bastaram os estádios do Euro, faraonices como o CCB, dezenas de aldeamentos turísticos, milhares de aberrações arquitectónicas permitidas pelas autarquias, e ainda querem mais! Quem lucrou nos últimos anos com este tipo de "indústria" é afinal que menos pudor tem.

Não sou um expert em engenharia nem em economia. Mas pelo que tenho lido e visto formei a minha própria "opinião construtiva" nos últimos tempos, a saber: não devia ser construído qualquer novo aeroporto de raiz (e caso isso aconteça, antes a Ota que Rio Frio); a Portela devia e podia sofrer reestruturações, e apostar-se-ia mais em Pedras Rubras e Faro, bem como na expansão das estruturas existentes em Bragança e Beja; TGV, só para Espanha, por Salamanca ou Badajoz, a que servisse melhor; entre Porto e Lisboa a via devia ser TOTALMENTE adaptada para pendular (de certeza que com um pouco mais de competência os custos enunciados pelo ministro Mário Lino seriam bem inferiores), assim como a linha Porto-Vigo. E que o metro de Lisboa chegasse enfim à Portela. Ficávamos com mais um par de obras públicas para entreter construtoras, com menos custos, maior rentabilidade e mais descentralizados. Mas o responsável pelas obras públicas no nosso país não sou eu.

terça-feira, dezembro 27, 2005

Magos húngaros

Morreu Lajos Baroti, o nonagenário treinador húngaro de futebol que passou pelo Benfica e pela selecção do seu país. A Federação magiar da modalidade declarou que desaparecera "o maior treinador húngaro de sempre". Não sou que vou contradizer os dirigentes em questão, até porque tenho escassos conhecimentos do futebol do país de Puskas e Feher. Mas convinha lembrar que houve um Mago, de seu nome Bella Gutman, que teve em comum com Baroti a nacionalidade e sucesso no Glorioso. Além do mais, julgo ter sido o único treinador na história do futebol que ganhou a Taça dos Campeões Europeus (ainda por cima como bicampeão) e aTaça dos Libertadores, da América do Sul. Pormenores não irrelevantes da hora de tecer os devidos e justos elogios aos mortos. Ou será que também houve alguma maldição de Guttman sobre a Federação Húngara de Futebol? Talvez isso explique o desaparecimento dos magiares das grandes decisões dos relvados, para aí desde os anos sessenta.



sábado, dezembro 24, 2005

Natal 2005

Estava aqui com um par de posts mais ácidos, pessimistas e críticos sobre algumas actualidades. Mas o espírito da época pesou mais e decidi adiá-los para o período anterior ao ano novo.

Já no ano passado disse que esta época perde o seu encanto a cada ano que passa. O consumismo excessivo, os anúncios sem fim na televisão, os gastos sumptuosos, enfim, tudo um enfado. Além do mais, a gastronomia natalícia não é muito do meu agrado. E também não ajuda viver no mais aborrecido país da europa no que ao clima da quadra diz respeito: os países do Atlântico mais a norte têm neve; os do Mediterrâneo também; e nós andamos aqui neste limbo, num Dezembro ora húmido, ora frio, mas neve, só mesmo nas terras altas, e de quando em quando.
Os Natais da minha infância mudaram igualmente: a crença do Menino Jesus (jamais no Pai Natal), o sapatinho debaixo da chaminé, o convívio em Vila Real (agora única mas imutavelmente na Páscoa), tudo isso o tempo levou. O Porto e a minha casa são agora o centro dos festejos do nascimento do Menino Deus.
Ainda assim, são épocas que têm também uma réstia de serenidade, convívio familiar e boa-vontade. Um Santo e feliz Natal para todos, da melhor forma possível.

terça-feira, dezembro 20, 2005

Estranhas observações ou nem por isso?

Tenho José Ribeiro e Castro como um democrata-cristão de ideias moderadas, que suavizou (ou soporiferizou) o PP de Paulo Portas com umas pitadas de CDS. Por isso só posso estranhar as suas declarações no congresso da Juventude Popular, em Bragança, ao falar do "Império mediático da esquerda, responsável pelos grandes males deste mundo, como o terrorismo", e de "afirmar que todas as ditaduras hoje são de esquerda".
Em relação a este último ponto, fico a pensar se Ribeiro e Castro, qual seguidor de Bernardino Soares, tem dúvidas quanto a regimes como o Irão, a Arábia Saudita ou a Birmânia. É que pensar apenas em Cuba ou na Coreia do Norte não basta. A China, segundo uma das poucas tiradas totalmente certeiras de Soares nos últimos tempos, é um regime de um autoritarismo comunista-maoísta que utiliza o capitalismo mais selvagem. O Zimbabwe é de difícil catalogação. A Líbia é nominalmente socialista, mas com um estranho rótulo de "democracia directa" (belo eufemismo do coronel local). A Indochina está a saír do comunismo mas não dos regimes ditatoriais. E quanto ao resto, são vagamente socialistas, vagamente fascistas-militares.
O mesmo se pode dizer do terrorismo. Se inicialmente o terrorismo surgiu com os movimentos anarquistas do Séc. XIX, que tiveram os seus sucessores nas Brigate Rossi de cada país (a nós calharam-nos as FP-25), não é menos verdade que os movimentos fascistas não lhes ficaram atrás, na Europa e na América Latina. Duvido seriamente que a Al-Qaeda seja propriamente "de esquerda", na sua fúria teocrática, e o mesmo se aplica a casos como o de Timothy McVeigh.

Não se compreende mesmo esta deriva maniqueísta e pouco pluralista do o líder "azul e amarelo". São declarações próprias de um desses estranhos "filósofos" que agora há no Brasil, ou de reaças sem remédio, para quem o pluralismo numa sociedade democrática é uma ameaça. Não de um político europeísta e próximo do centro.
A única explicação que encontro é que Ribeiro e Castro quis empolgar o auditório dos jotinhas populares, ainda com a fresca memória de Paulo Portas na cabeça. É preciso não esquecer que essa importantíssima agremiação de imberbes (mais por opção) tem deixado em cuidado o país pelo facto de não apoiar nenhum candidato presidencial. Muito apropriadamente acaba de reeleger como líder - sem oposição - esse portento das novas gerações parlamentares, o inimitável João Almeida, famoso membro de uma claque do Restelo e cumpridor discípulo Lapalissiano. O grande plano, agora, é o de "conquistar a geração que vê os Morangos com Açúcar e que saca músicas da Internet". Estranho ou redundante? É que ia jurar que a maioria dos JPs se identificava com essas características geracionais.

Ainda a ver: a fantástica sátira ao último Eixo do Mal no Esplanar. E podem crer que grande parte daquelas frases não são invenção nenhuma, em particular as tiradas da autobiografada do momento.

domingo, dezembro 18, 2005

Duas despedidas

Tal como estava anunciado, José António Saraiva escreveu hoje no Expresso o seu último "Política à Portuguesa", depois de vinte e um anos de crónicas. Um texto ao seu estilo e à sua medida, não só pelos infindáveis parágrafos mas principalmente pela aparente convicção de que é o supra sumo dos cronistas portugueses. As palavras não deixam dúvidas:"(a minha coluna tornou-se) uma das mais lidas, influentes e carismáticas de sempre da imprensa portuguesa. E a mais atacada(...) Nunca respondi. Sempre pensei que é o fraco quem ataca o forte". JAS é pois uma vítima de crueis ataques à sua pessoa por causa do seu carisma e influência. Atenção: de ataques, não de críticas.
Outra grande característica é a do visionário - ou áugure - Saraiva: "neste espaço houve sempre uma visão de futuro - e muitas vezes antecipou-se o futuro(...) A história confirmou grande parte do que aqui se escreveu e previu". A lista é longa: para JAS, tudo o que aconteceu em Portugal já ele o tinha previsto. A confirmar.
O "Mourinho dos cronistas" e "forte candidato a Nobel", segundo o próprio, "procurou ser claro, rigoroso, etc - no sentido de lhe dar (ao leitor) semanalmente a melhor opinião da imprensa portuguesa". Tudo com a modéstia e desprendimento a que nos habituou. Provavelmente acredita que só não atingiu o céu porque não quis.
Deixemos o arquitecto e os seus planos em paz. Houve outre despedida, este fim de semana, e sem anúncio prévio, de uma das crónicas de opinião mais dos jornais: a de Miguel Sousa Tavares, no Público. De repente, anunciou o fim de uma colaboração de quatorze anos no diário, com um breve enunciado das ideias e causas que defendeu. Isso é facilmente comprovável pelas suas colectâneas "Um Nómada no Oásis" e "Anos Perdidos". Pensei logo que estivesse a dedicar-se à fase mais crucial e trabalhosa de um novo romance, de resto já anunciado. Puro engano: é uma mera troca de periódicos. Sai o Arquitecto Saraiva, entre Sousa Tavares. Em Janeiro lá o teremos ao Sábado, no Expresso.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Notas da semana

- O orçamento da UE para os próximos sete anos continua num impasse, devido à posição inglesa de querer reduzir os fundos de apoio aos membros recentes sem uma correspondente descida do "cheque britânico". Só a antiga colónia de Malta é que concorda com Blair, Brown, Straw e afins. Como é óbvio. Depois não se venham queixar dos fundos da PAC e da não-progressão da economia europeia. Ao que parece, os senhores comentadores e bloggers que normalmente se atiram à França por qualquer razão (às vezes de forma bem pertinente) deixaram passar em branco esta atitude egoísta e mesquinha. O brilho da Velha Albion continua a cintilar. Quanto a Blair, tinha toda a razão e perdeu-a com este disparate de soberba.

- A revista Cais, de que guardo alguns números interessantes, faz dez anos: parabéns!
Os hipermercados em Portugal fazem vinte: enfim...parabéns, também, até porque não esqueço que o primordial Continente de Matosinhos (o "gigantão") era uma das minhas grandes referências de meninice. As horas que eu passava lá a ler BD no sector da mesma, enquanto esperava que a minha mãe terminasse as compras...

- O primeiro-ministro chinês esteve em Portugal, tendo sido recebido com pompa e circunstância pelo governo em peso, horas antes de Sócrates se encontar com Fernando Ruas no congresso da ANMP (a diferença não seria grande). Mugabe e Fidel não se atrevem a entrar na Europa. Pinochet já sabe o que lhe acontece, e nem na sua terra lhe dão descanso. Mas aos chineses, aquela amável gente que promove o aborto e executa os condenados com um tiro na nuca antes de enviarem a conta da bola à familía têm passadeira vermelha. Percebo que a dimensão do país e as questões comerciais e económicas mereçam um tratamento não dispiciendo. Mas impõe-se um mínimo de decoro. E as manifestações do contra, onde estão elas quando são necessárias?

- DVD musical/álbum ao vivo do momento? O dos No Smoking Orchestra, a frenética e impagável banda de Emir Kusturika ao vivo em Buenos Aires (uma hipótese de sonho: na capital das Pampas com um concerto deste nível). É certo que estou um pouco amuado com esses senhores, já que em duas deslocações este ano a Portugal não se dignaram a fazer um tour pelo Porto. Nada que não se perdoe com uma boa audição. E um desvio aqui pela Invicta em épocas vindouras, de preferência quando eu cá estiver e sem ocupações inadiáveis.

sábado, dezembro 10, 2005

Acalmados os ânimos

Provou-se: o fantasma de Best já não mora aqui. Dedicatória especial a Eusébio, que mereceu a desforra, quase tanto como o miúdo Ronaldo mereceu perder.

Parabéns a todos, aos jogadores, com especial dedicatória a Beto e a Geovanni, que tanto precisavam deste tónico e tanto fizeram para o merecer; a Koeman, que esteve impecável a armar a equipa com os jogadores que tinha à disposição; e ao público, graças ao qual se viu de novo o temido "Inferno da Luz".

Veremos quem nos cai na rifa em Fevereiro. Mas os mínimos já foram amplamente suplantados.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Exorcizing the Best ghost



George Best teve direito à sua última morada este fim de semana, numa cerimónia em Belfast acompanhada por dezenas de milhares de pessoas. Por ironia do destino, o clube em que se notabilizou, o Manchester United, tem um jogo decisivo daqui a poucos dias no preciso local onde o "quinto Beatle" assinou a sua melhor exibição de sempre, em 1966: o Estádio da Luz; onde, segundo o próprio, "parecia que as bandeiras dos adeptos benfiquistas atingiam o céu". Ainda mais irónico é pensar que Best conquistou o mais importante título da sua vida contra o Benfica, na final da Taça dos Campeões de 1968, igualmente por números expressivos.
Na quarta-feira, os dois clubes, desfalcados de jogadores-chave, voltarão a medir forças no esplendoroso anfiteatro da Luz. Estão obrigados a ganhar se quiserem seguir em frente na prova. Será então a divina oportunidade de saber se o Benfica consegue enfim vencer o MU, como uma suprema vingança, ou se o fantasma de Best ainda paira sobre os ambientes carregados de vermelho, ajudando os Red Devils do outro lado da Mancha.
Face às ausências, estou muito céptico. Mas também não acredito em fantasmas. Nem mesmo nos do futebol.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

A verdadeira iliteracia

Uma noite destas estava a ver um popular concurso da RTP. A concorrente, com algum acaso e interessantes conhecimentos, conseguiu não só chegar à última etapa da prova mas também à pergunta final, sacramental, crucial, para aceder ao prémio de 50.000 €uros. O tema podia ser escolhido; como era formada em letras, e, parece-me, também em românicas, não tenho a certeza, escolheu literatura portuguesa. A pergunta era quem tinha ganho o Prémio Camões de 2004. Por acaso lembrava-me, até porque estou a acabar de ler um livro desse mesmo autor*. Mas a senhora fartou-se de enumerar escritores portugueses até o tempo acabar. Perdeu-se a oportunidade de ganhar a tal quantia. A pergunta, convinhamos, não era fácil. A resposta? Mário Cláudio. Mas a concorrente reagiu desta forma ao saber o nome do premiado: "nunca ouvi falar desse homem". Uma pessoa com formação em letras jamais tinha ouvido falar do escritor Mário Cláudio.
Antes de procurarem a iliteracia entre os jogadores de futebol, as manicures e os economistas, talvez fosse útil fazê-lo nas universidades, em particular nas que se dedicam ao fenómeno e à forma de o expurgar.

*Peregrinação de Barnabé às Índias. Custou-me muito a pegar nele, abandonei-o a meio, e só agora, no fim, é que vejo a qualidade e a beleza da obra.

terça-feira, novembro 29, 2005

Acordar (da mesma forma)

Esta senhora está sempre a acordar de todas as formas possíveis e imagináveis. Este cavalheiro segue-a de perto. Eu não vario assim tanto. Acordo quase sempre da mesma maneira, e com a mesma disposição.



Bom, talvez tenha exagerado. As minhas manhãs serão antes assim:



Digamos que as manhãs não são a minha parte do dia favorita, sobretudo quando não durmo bem (isto é, quase sempre). No Inverno, então, acho que deviam ser suprimidas - para mais no nosso Inverno português, ameno mas sem neve. Devia haver uma lei que proibisse tais horas, pouco católicas e propícias a constipações. Não estarão os senhores candidatos às presidenciais interessados em debater o assunto? O Dr. Soares, por exemplo, é capaz de estar.

Em relação ao primeiro blog linkado encontrei lá um post curioso e familiar. Apenas discordo que Cabo Sounion seja o início: ali, mais do que tudo, a Ática acaba onde o reino de Poseidon começa. Por isso mesmo o veneravam no seu templo, e é exactamente dali que o mar Egeu deve o seu nome, atribuído, como quase tudo na Grécia, pela sua omnipresente mitologia.
Também não concordo que seja quase desconhecido: nos cartazes turísticos helénicos só encontra rival na Acrópole, e na ocasião em que lá estive, que nem sequer era no Verão, os turistas eram aos montes (até portugueses) . Falei certa vez do Cabo Sounion, aqui, no quinto parágrafo, e vejo agora que deixei uma promessa por cumprir: tenho de voltar em força a falar deste lugar mágico. Desta vez, a promessa não será vã.

sexta-feira, novembro 25, 2005

Assim vão os blogs

Definitivamente, a opinião em Portugal passa cada vez mais pelos blogs. Mais uma figura do jornalismo (?) português decidiu escrever fora de um orgão de imprensa. Já não temos de esperar pela sua habitual prosa semanal contra "os terroristas dos palestinianos", "a esquerdalhada", o "governo estatista" ou "este sítio muito mal frequentado": temo-lo aí, diário e pontual. Sim, é verdade: António Ribeiro Ferreira escreve agora no Estado do Sítio, a bélica designação que já utilizava na sua coluna do DN. Não há que enganar: a truculência e o estilo rasteiro são os mesmos.

Se uns chegam, outros partem: o BdE, uma das grandes referências da blogoesfera, que já existia nesta segunda versão há dois anos e que nasceu há quase três, está a fazer as despedidas. Não me revendo politicamente no "estatuto" do blog, é justo reconhecer que a sua paragem representa o fim da primeira geração de blogs (se não contarmos com o Abrupto). Uma saudação aos seus elementos, em especial aos irmãos Silva, inexcedíveis e brilhantes.

Rui Albuquerque e o meu estimado Rodrigo Adão da Fonseca saíram do Blasfémias e decidiram iniciar uma carreira a solo (no caso do primeiro é antes um retorno ao modelo individual, como bom liberal que se preza), com os novíssimos Portugal Contemporâneo e Blue Lounge. Dois projectos a seguir.

Por último: já alguma vez falei deste blog? Talvez valha a visita, sobretudo dos cinéfilos.

PS: estamos a 25 de novembro de 2005. Se os blogs existem, deve-se também a este dia.

PS 2: como seria de esperar, os ex-BdEs não são pessoas para ficar paradas. Vai daí, já arranjaram novos espaços, juntamente com outros parceiros. Aspirina B e a Invenção de Morel (penas de JMS) são os seus nomes. Os escribas são por demais conhecidos.

segunda-feira, novembro 21, 2005

Elogio à Coimbra dos futricas

Fazendo horas para apanhar o comboio que viria de Lisboa recolher-me para me trazer de volta ao Porto, pensava que era simplesmente indecente nunca antes ter entrado no ilustre café Santa Cruz, pegado à Igreja do mesmo nome (onde respousam os restos mortais do nosso primeiro rei e do seu filho Sancho, o Povoador), na Praça 8 de Maio, em Coimbra. Isso porque já tinha passado algumas vezes em frente ao dito estabelecimento, parado à porta, rondado pela praça e entrado na vizinha igreja, mas nunca tinha sido seu consumidor ocasional. Mas no Sábado vinguei tal afronta, instalando-me nas suas cadeiras de couro austero, tomando um café enquanto mirava o DN e lia a reportagem da GR sobre um outro conhecido blogger, embora com óbvio exagero, como se fosse uma das vozes mais influentes da pátria.
O café, é preciso que se diga, é mais do que um simples "Majestic" ou "Brasileira" conimbricense. Uma pequena relíquia, num espaço anexo à Igreja vizinha, de que já foi parte integrante; era notoriamente uma capela, tendo conservado (e bem) o seu tecto em ogiva, e outros discretos aspectos que denunciam as suas antigas utilidades litúrgicas e clericais. confesso que não conheço bem a história nem os motivos que levaram a que o antigo templo (ou parte dele) tivesse sido convertido em ponto de encontro social. Ainda assim, a junção de algum ambiente sacro, embora dissimulado, com o ambiente de café clássico, o seu mobiliário escuro, os vitrais, os lustres, produz um resultado nobre e encantador, sem deixar de ser sóbrio.
À saída, o ambiente da praça mostra que está em paz com o mundo: o chão está ainda molhado das chuvas, mas o céu apresenta-se de um cinzento suave e metalizado; inúmeros traseuntes cruzam o espaço; uma anciã vende castanhas, e o fumo que sai do fogão ambulante espalha-se pela praça provocando um efeito outonal singelo e reconfortante, embora já se note um certo ar invernal, provocado também pelas (muito precoces) iluminações de Natal. O momento da semana em que mais me senti em paz com o mundo, antes de, em passo acelerado, atravessar a "Baixinha", com as suas ruelas labirínticas, lojas e lojecas vendendo de tudo um pouco, e apanhar a ligação para Coimbra-b.

Praça 8 De Maio, com a igreja de Santa Cruz
ao centro, a câmara municipal à esquerda (com tapumes) e o café Santa Cruz à direita.

Nota: a paz antecedeu a viagem de comboio, em que tive de ficar ao lado de um casal hippie (ela) e sorna (ele), e que volta e meia se punha aos beijos a dez centímetros de mim, com uma indiscrição que por certo teria enfurecido Miguel Sousa Tavares e José António Saraiva. Isso para lá de outros passageiros que ora ostentavam o cabelo do João Pereira (para pior), ora dirigiam aos outros olhares enigmáticos, entre as suas vestes góticas, punham-se a entoar versos em voz alta, como aquele senhor de idade perante o ar enfiado da mulher, ou ainda aqueles que arrastavam pesadas mochilas de interrail, sem grande espaço onde as colocar; pior do que isso, só mesmo aperceber-me da presença no comboio do meu antigo professor de Obrigações (não tanto por causa dele, mas sim das Obrigações).
Para acabar de forma indelével com a tarde que tão bem tinha começado, poucas horas depois o Benfica perdia em Braga no último minuto, num golo em fora de jogo.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Ufff (vencemos os helvéticos)!

O jogo não era a feijões, como o da Selecção-A, e por isso todo o esforço era pouco. Sem manuel Fernandes, a coisa era mais complicada. Os helvéticos, diga-se, entraram a todo o gás, o que, alido à sua maior pujança física, provocou os estragos consequentes que se verificavam no fim da 1ª parte. O juíz da partida, é certo, resolveu chatear um bocadinho a partir dos 30´.
Segunda parte, alterações nas Quinas, os alpinos perdem força, o ataque ganha poder de fogo, e dois oportunos golos põem as Esperanças no europeu da classe, que doravante se realizará no nosso país. O público, garanto-vos (até porque também eu era uma componente), jamais deixou de apoiar os rapazes, ainda que a temperatura exterior não fosse a melhor. E a equipa correspondeu. Almeida aplicou uma valente cabeçada no sítio certo, e Varela, o Didier Drogba português, aguentou-se bem à bronca e carimbou o acesso ao campeonato.
Mandava a mais elementar das lógicas, conjugada com a mais pura das justiças, que uma equipa que em onze jogos ganhou...onze jogos, não ficasse pelo caminho precisamente no último e mais decisivo embate. Que acabou por ser superado. E morrer na praia perdendo contra os suíços, o povo mais desinteressante, moralista e usurário da Europa, se me permitem, seria francamente mau. O destino, se é que o há, jogou do lado certo.

terça-feira, novembro 15, 2005

The Constant Gardener

Eis um forte concorrente a filme do ano: The Constant Gardener, O Fiel Jardineiro, obra de John Le Carré agora adoptada ao cinema por Fernando Meirelles, realizador que ganhou o reconhecimento internacional com o muito aclamado Cidade de Deus. Já o esperava há umas semanas, e o que vi há dias não me decepcionou.
Talvez tenha sido antes surpreendido pela crueza de certas situações. Não é, evidentemente, um filme para relaxar, nem para se levar a avó ou o filho de dez anos. Não. A violência, a pobreza extrema, a tremenda desigualdade social, a corrupção a nível governamental tudo o que caracteriza a miséria de África está lá. Uma miséria que não dispensa todavia a cor e a abnegação, mas que é acentuada pelas maquinações que dão origem à trama.
A história, é já conhecida: o pacato diplomata que se dedica à jardinagem, a sua incansável mulher e a sua militância contra as experiências farmacéuticas, o que lhe custa a vida ( e a do seu amigo médico), a revolta que assalta o marido apanhado de surpresa, etc. A mudança brusca no carácter do protagonista Justin Quayle converte-o num novo homem, capaz de interrogar tudo e todos, de se deslocar entre Nairobi e Londres, Berlim e o Sudão (já não os Estados Unidos, como no livro) para descobrir os reais motivos que levaram à morte da sua mulher. Por trás da história de espionagem/interesses obscuros tão comum em Le Carré surge também uma história de amor, de um amor quase póstumo e deseperado.
O Travelling de Meirelles é constante. Não há muitos momentos para respirar durante o filme. a fotografia, essa, é pouco menos que fabulosa. Em relação às interpretações, só tenho a dizer que de Ralph Fiennes, um dos meus actores favoritos e um dos grandes representantes da arte de representar britânica, espero sempre o melhor, e mais uma vez não me desiludiu. Como disse uma qualquer crítica da imprensa, no seu olhar imóvel quando toma conhecimento da morte de Tessa, perpassa uma quantidade enorme de sentimentos em catadupa, quase ao mesmo tempo. Rachel Weisz surpreendeu-me muito, com um registo mais maduro do que o habitual com bastante sobriedade, o que é notável para quem está na pele de uma activista particularmente emotiva e algo desbocada.
Por razões compreensíveis, o filme lembra-me outras duas opus : o já referido Cidade de Deus e O Paciente Inglês, provavelmente por rever Fiennes, com ar perdido, apaixonado e desorientado, errando pelo deserto. Até ao terrível mas comovente epílogo, na paisagem desolada mas irreal do lago Turkana.
O filme continua em exibição. Vão ver, se não estiverem numa de relaxar, pensando que embora não se retrate uma situação real, coisas daquelas deverão suceder com toda a certeza em África. E não desviem os olhos do ecrã. Admirem uma obra arrojada, dramática, tortuosa. E belíssima.

sexta-feira, novembro 11, 2005

A coincidência a 10 de Novembro

Soube por este meio que o grande capitão Águas, o "Capitão dos Campeões", como lhe chamaram, faria hoje 75 anos se fosse vivo. Não fazia a menor ideia, mas deixo aqui o facto. O mais curioso é que, também neste dia, o meu avô materno, que infelizmente nunca conheci, faria cem anos. Curioso porque há uma relação com o facto de eu ser benfiquista.
Apesar do meu avô não ter sido exactamente um grande desportista nem um particular adepto do futebol (ainda que tivesse tido a chatice de presidir a uma colectividade desportiva transmontana por aclamação), tinha uma característica singular: não gostava do Porto nem de nada que estivesse relaccionado com a cidade. Embora esse meu avô seja uma referência para mim - pelo seu espírito livre, apesar de ter sido um conservador à moda antiga, e pela sua convicção na monarquia - neste aspecto eu jamais poderia concordar com ele, visto que nasci e sempre vivi na Invicta. Contudo, o seu passado em Lisboa (depois de uns tempos de diletantismo em Coimbra) acabou por fazê-lo preferir o Glorioso quando se tratava de fazer a (já na altura) sacramental pergunta sobre o clube a que se pertencia. A minha mãe, muito embora sendo do maioritário grupo feminino a quem o futebol nada diz, adoptou a mesma escolha encarnada. Por isso, por influência materna, tornei-me benfiquista, graças aos céus, não tendo seguido as preferências mais esverdeadas do meu pai (apesar de nunca termos tido discussões sobre bola demasiado sérias, além daquele jogo em que o SLB venceu em Alvalade com um golaço de Geovanni e em que os meninos da Juve Leo resolveram passear no relvado).

Ao meu avô materno(morto pouco antes do 25 de Abril, que nada o teria surpreendido) devo assim, não só a minha crença na monarquia e num conjunto de princípios e valores essenciais, como a eterna paixão pelo Benfica. Afinal, se acreditasse nos astros, tudo isto teria uma razão facilmente explicável: nasceu 25 anos antes do imortal Águas (e já agora, cinquenta antes de uma sua sobrinha). Uma coincidência espantosa e feliz. Não querendo, por razões de reserva, postar aqui uma imagem do meu avô, deixo a imagem do Capitão levantando a Tça dos campeões de 1961, se exeptuarmos a Taça Latina o primeiro troféu internacional ganho por um clube português, depois de um jogo épico contra o Barcelona, onde também ele marcou na vitória por 3-2.

quarta-feira, novembro 09, 2005

La France en flammes

É o assunto de que todos falam: a revolta dos adolescentes dos guettos parisienses (e não só), em especial da zona norte, de longe a mais degradada, o ódio à solta, a destruição de veículos, os ataques a cidadãos vizinhos e à polícia, a contestação a Sarkozy, enfim, todo o caldo de violência que invadiu o hexágono. Uma situação parecida com a do Maio de 68, mas sem o romantismo e o espírito livre inerentes aos soixante-huitards.
Pessoalmente não conheço muito bem o fundo da situação, nem os bairros em questão, a não ser alguns a sul de Orly, onde não há nem de longe nem de perto a degradação suburbana nem o clima de violência que se fazem sentir (e o mapa dos distúrbios mostra bem que esta zona foi bem mais poupada). Mas já passei por Saint Denis, em trânsito do Charles de Gaulle, e não fiquei com uma imagem muito positiva do lugar nem da gente que o habita. Mas como disse, não posso escrever muito até haver uma acalmia, e aí sim, se fará o rescaldo e consequente reflexão sobre o que se está a passar. Entretanto, bloggers e comentadores de todas as tendências continuarão a dissertar sobre o modelo social francês, as palavras de Sarkozy, o silêncio de Villepin, a não integração dos emigrantes, a degradação suburbana, o radicalismo islâmico, a arrogância dos franceses, etc.
Aconselho a todos estes textos de Henrique Raposo, no Acidental, ou os do Bom Selvagem, com o seu proverbial optimismo. Em sentido oposto, os do Insurgente, com o habitual wishfull think do "fim do estado social" perante o "superior estado liberal", e uma quase euforia por ver em que estado está a França, são absolutamente de fugir, a não ser para ver até que ponto vai a arrogância ultraliberal.
Até lá, deixemos o sr. Sarkozy actuar. Porque a onda vai necessariamente passar. Só à vista dos escombros é que se poderá relançar o debate e tirar as justas conclusões.

segunda-feira, novembro 07, 2005

O regresso do MFA

Só para completar o post anterior: quem der uma volta por Coimbra, ali para os lados do Penedo da Saudade, com excelsa vista para o Calhabé, ou perto do Jardim Botânico, encontra inúmeras inscrições nas paredes com a sigla MFA. Não se assustem: os militares não decidiram revoltar-se uma vez mais, como prometem regularmente todos os 25 de Abril. Por baixo da sigla pode-se ler o seu significado: Movimento Força Alegre. Há pois uma força silenciosa na Lusa Atenas que, muito apropriadamente, apoia o poeta-deputado. Desde que não usem blindados, acho muito bem.

sexta-feira, novembro 04, 2005

Candidatos, regressos e razões

Passadas as autárquicas, o assunto de que se fala são, inevitavelmente, as presidenciais, em especial o fim longo do tabu (mais um) do professor Cavaco, em confronto com as inúmeras candidaturas de esquerda. Bem sei que não devia falar muito do assunto, uma vez que, para quem leu o pequeno texto ali no cabeçalho, saberá que a minha vontade seria fazer referência a El-Rei de Portugal e não ao Sr. Presidente da República. Mas é neste regime que vivemos, e como o regresso da monarquia ainda não é para já, detenhamo-nos para falar um pouco dos senhores que vão ocupar a chefia de Estado nos próximos anos.

Antes de mais, esclareço: ao contrário da maioria dos monárquicos, eu voto nas presidenciais. Por uma questão cívica mas também pelo simples facto de que não há actualmente bases - populares, leia-se - para haver monarquia em Portugal; assim sendo, e como não quero ver isto entregue aos bichos, voto para que seja escolhido o representante da Nação e da (argh) República, apesar de não deixar de compreender aqueles que se abstêm de ir às urnas.

Como já é tradição acontecer, os partidos mais afastados da função governativa (e mais nas margens do regime democrático) apresentaram os seus candidatos, ou seja, os respectivos líderes, para lhes emprestar uma maior áurea de seriedade. A tarefa não parece colher muito êxito, quer pelas forma despudorada com que fazem a colagem candidato/partido (veja-se a apresentação de Jerónimo de Sousa, em que o próprio anunciou a sua cabdidatura como se de um terceiro se tratasse), quer pelo objectivo único a que se propõem, que é o de "impedir a direita de conquistar a presidência". Outro fim poderia passar por uma desistência para beneficiar um candidato de esquerda melhor posicionado; como ambos recusam esse cenário, fica-se com a impressão de que não concorrem para muito mais e que os seus votos virão do núcleo duro do seu eleitorado. O mesmo se pode dizer de Garcia Pereira, com menos atenções que há cinco anos, embora tenha uma postura mais rebelde e menos "aparelhística". A luta, poré, é a mesma, e o lema é, como sempre, "ousar lutar, ousar vencer".

Agora sim, os pesos pesados. Soares é o que se sabe: "pai do regime", conhece os cantos à casa de Belém como nenhum outro e continua a respirar política. Os argumentos relativos à sua "provecta idade" são um disparate pegado, típico de gente que ainda não aprendeu que Soares é a última pessoa que se deve substimar. Mas será razoável pensar-se que alguém que já ocupou todos os cargos políticos relevantes devia deixar definitivamente lugar a novas pessoas, e por consequência, a novas ideias. A eterna figura de "Pai da Nação" não o favorece desta vez, e além do mais o país é bem diferente do que era em 85. Agitar o fantasma da direita revanchista não leva a lado nenhum, até porque candidato algum pertence a esse segmento político. Atacar esses mesmos candidatos é um tiro pela culatra que atingirá inevitavelmente o pé, sobretudo pela forma desabrida com que o fazem, como de resto é bem visível pelos textos destes senhores, que se lembram de falar de toda a gente envolvida nestas eleições menos do candidato que apoiam. Esta candidatura, em suma, é mais um reflexo do ego de Soares e da infinita admiração que alguns lhe têm do que um movimento de grande necessidade ou rasgo, como em 85, ou de pacífica consagração, como em 91. Soares avança porque se vê como um político imprescindível, porque não confia em Cavaco nem na sua falta de "humanismo", porque apesar de toda a sua astúcia e instinto ainda não entrou realmente no Séc. XXI.

Manuel Alegre é um caso bastante diferente. O nosso vate favorito, com aquela pose meio aristocrática meio republicano de 1910 (no fundo é um cruzamento dos dois), resolveu fazer meia-volta e mergulhar de cabeça nas presidenciais, sem grandes apoios nem partidos embevecidos, proque "é republicano". Confesso que apesar desta última razão quase dei um salto ao ouvirem directo a declaração de candidatura de Alegre, em Águeda, fazendo justiça à sua proverbial frontalidade. Para aumentar a confusão presidencial temos agora um candidato sem grandes tropas mas também sem os costumeiros aparelhos partidários atrás. É o mesmo que dizer que traz uma lufada de ar fresco (quando fizerem a comparação com Zenha, lembrem-se que ele tinha atrás de si o PRD e o PCP) à batalha eleitoral.

Po fim, Cavaco Silva, o professor regressado que acabou enfim com outro tabu, porventura o mais longo. A sua eleição é um dado quase adquirido (embora, como em todos os casos, merecesse alguma prudência, que eu penso que o professor tem). As sondagens atribuem-lh largo favoritismo, a imprensa está com ele, a esquerda moderada adoptou-o, o PSD rejubila, a direita resigna-se ao que há. Parece ser o sucessor mais óbvio de Sampaio. E não admira, não só pela restante oferta como pela maneira messiânica e simultaneamente conciliadora e apaziguadora com que se apresenta, numa estratégia em que nada parece ter sido deixado ao acaso. Entusiastas não lhe faltam, desde aqueles que julgam que Cavaco irá logo dissolver a AR por causa "do governo ilegítimo" e da "armadilha de Sampaio", como é o caso do semper-cavaquista Vasco Graça Moura ( e muito surpreendentemente por Miguel Veiga, a avaliar pelas suas declarações recentes), até aos que acham que será um complemento perfeito do governo de Sócrates, e um garante de estabilidade, caso de Belmiro de Azevedo, entre outros. Espera-se pela clarificação das ideias de fundo da candidatura, das quais até agora só houve um ligeiro esboço.

Os dados estão lançados, e à excepção do muito provável vencedor, tudo o resto (quer dizer, os pontos secundários) será avaliado em Janeiro. Como eu gostaria que isto acabasse? Sim, como os demais, com Cavaco eleito. Mas só à segunda volta, com Manuel Alegre como adversário directo.
Agora espero não voltar a falar deste assunto até ao ano que vem.

Só para completar o que acima disse de Soares: apesar de considerar essa candidatura como o seu maior disparate político de sempre (como aliás lho disseram alguns dos seus fieis amigos de outras tendências), não é por isso que me esqueço que se vivemos em Democracia e temos eleições, a ele se deve, assim como o facto de pertencermos à União Europeia, e tantas outras coisas (como a importância e utilidade do Bloco Central, o governo mais injustamente sub-valorizado de sempre). E também não é nenhum senil nem nenhum pobre velhinho, como alguns pseudo-comentadores de fraca sabedoria andam para aí a ronronar. São atitudes que consigo conceber vindas da extrema-esquerda otelista ou do PC, ou da extrema-direita saudosista do 24 de Abril, mas nunca de sectores pretensamente democráticos. Assim, temos de ouvir incongruências dessa irrelevância política que é Nuno Morais Sarmento, ou daquele lunático fossilizado que volta e meia escreve no DN coisas dignas de uma novela mexicana, um não sei quantas Mendia, admirador confesso da época colonial, para quem "Soares é muito pior que Pinochet". É pena que a memória seja curta, a ignorância tão vasta e a mediocridade tão consentida. Mas é o preço a pagar por vivermos num regime livre, o mesmo que Soares ajudou a construír.