sexta-feira, julho 22, 2005

Primeira saída

Não li o artigo de Campos e Cunha no Público de Domingo, por isso, contrariamente aos entendidos, fui apanhado de surpresa pela demissão do (Ex)titular da pasta das finanças. O gesto é preocupante, e deixa adivinhar um conjunto de questões não resolvidas entre Campos e Cunha e José Sócrates (ou, pior do que isso, o inefável aparelho do PS). As opções do investimento público, como o discutível projecto da OTA, e o discutibilíssimo TGV, que ora parecem obras necessárias para o avanço do país ora nos soam como meras brincadeiras de novos-ricos, serão talvez a chave do problema, o que não parece ser novidade para ninguém. Adivinhas à parte, a saída de alguém que parecia rigoroso e competente (apesar da rocambolesca história das pensões), ao fim de quatro meses no seu posto, não deixará de causar apreensão. Não conheço Fernando Teixeira dos Santos, não duvido da sua preparação, mas temo que não tenha muita corda. De qualquer forma, é possível que com este desaire, Sócrates perceba que não pode pisar o risco muitas vezes de aqui em diante. E que não são umas "meras" autárquicas que farão com que o seu executivo se aguente.

E a propósito: já ouço umas bocas a dizer que "isto é o início do fim", "este governo não dura muito mais", etc. Era bom que as pessoas, sejam quais forem as suas preferências político-ideológicas, tivessem um pouco mais de senso: desde 99 que não temos um governo que cumpra os quatro anos de legislatura. Tivemos dois primeiros-ministros que se demitiram e outro que nunca devia ter sido nomeado. Não podemos andar sempre a brincar aos governos conforme a disposição das analistas, sejam os da TV ou do café. As mudanças custam caro e atrasam ainda mais o já derrapado crescimento do país. E em relação à dissolução da AR por Sampaio, já aqui dei a minha opinião, mas posso voltar a repeti-la: o PR tinha toda a legitimidade para o fazer. Toda. O governo de Santana Lopes era de iniciativa presidencial (e não legitimada em eleições que só formalmente são para escolher o poder legislativo), e além disso havia uma condição base: o novo executivo deveria seguir a mesma política económica levada a cabo até aí por Manuela Ferreira Leite. Tendo seguido a via oposta (com os delirantes "a recessão acabou"), deram a Sampaio a oportunidade para acabar com a legislatura. Perante as confusões que se sucediam, ele não hesitou. Convinha agora um pouco da serenidade que Sua Exª nos pede regularmente. Sobretudo ao governo, que bem tem de pensar no seu rumo daqui para a frente.

PS: o inafastável dinossauro de Braga, Mesquita Machado, amante do betão e da edificação vertical, exprimiu a sua enorme "satisfação e alegria" com a remodelação governamental, já que entendia que Campos e Cunha fora "um autêntico desastre" e que "não tinha sensibilidade para os problemas das pessoas" (em linguagem de autarca deve querer dizer que não beneficiava patos-bravos e urbanizações desregradas). Eis um sinal realmente preocupante do que está a suceder. Espero é que Mesquita Machado tenha razões para ficar igualmente desiludido com o novo titular da pasta. Isto é, se os bracarenses não se fartarem de vez e o puserem a andar do cargo a que se agarra como uma lapa.

terça-feira, julho 19, 2005

Recuperar o atraso

Tento recuperar o atraso de quase uma semana sem posts, por uma mistura de impossibilidade e de inércia. Não é fácil. Mais vale sintetizar.



Lamentavelmente só agora faço menção ao Café Blasfémias. Os nossos liberais portuenses (e portistas, na sua esmagadora maioria) organizaram a sua tertúlia no Café Guarany, em plenos Aliados, com o tema "porque é que a direita quando chega ao poder não é liberal?". Não sendo tão "liberal" como os caros blasfemos, também por lá passei, uns quarenta minutos no início, tendo saído depois por inadiáveis compromissos, e, lamentavelmente, apenas assisti depois aos cinco minutos finais, comprometidos por problemas audio-técnicos. Não pude assim apanhar toda a discussão que se seguiu, versada sobre o estatismo do povo português - contra mim falo, que me reconheço prioritariamente socil-democrata - e um certo reaccionarismo da direita portuguesa, embrulhada em décadas de salazarismo. O grosso dos tópicos da discussão pôde ser visto no próprio blog (sobretudo nos posts do dia treze de Julho). De qualquer forma, compensei a perda do debate com uma interessante conversa com vários blasfemos, sobretudo o LR e o PMF.
(foto da tertúlia no Vilacondense)

Três dias particularmente tumultuosos para o Benfica. No Sábado, balde de água fria, com o quase contratado Tomasson a preferir assinar pelo Estugarda, que lhe oferecia melhores condições financeiras. No Domingo, jogo grande com o Chelsea de Mourinho, e aoportunidade de mostrar o plantel. Apesar do resultado adverso, deu para ver que o SLB tem mais soluções no plantel, além de alguns jovens promissores da cantera. só no ataque é que se nota a mesma debilidade finalizadora. E nesta altura não será fácil encontrar um artilheiro disponível. Se Nuno Gomes ao menos regressasse aos seus tempos pré-Fiorentina...
Já na Segunda veio a notícia da rescisão unilateral de Miguel. Motivo? Estar no início do período experimental do contrato de trabalho. Porque, alega o representante do jogador, trata-se de um novo contrato, não de uma prorrogação do anterior. Mas, se assim é, porque é que Miguel ganhava os salários correspondentes a este contrato desde a sua assinatura? E o período experimental dá-se na altura de adaptação mútua do trabalhador e da entidade patronal (por isso mesmo é que é experimental), não com anos ao serviço dessa mesma entidade, contrato renovado ou não. E Miguel já está no SLB há cinco anos.
Trata-se de mais uma manobra de "chico-espertice" do célebre Dias Ferreira, ao que parece jurista, e senhor de anti-benfiquismo doentio, bastante superior ao seu sportinguismo. Depois de afirmar, a 4 de Julho, que o contrato de Miguel não era válido, e que o anterior tinha caducado a 30 de junho - estranho como é que ninguém o contratou logo - e depois que o jogador não tinha "condições psicológicas para continuar no Benfica", surge agora com esta autêntica história da Carochinha do período experimental. Imagine-se: um jogador que há cinco anos está no clube invocar tal facto incorre em absurdo total, já que, mesmo que no extremo a tese pudesse estar certa, Miguel nem sequer se apresentou aos trabalhos, logo não houve sequer hipótese de adaptação.
Por causa disto, o Benfica poderá receber menos do que pedia pelo jogador, e só daqui a uns tempos, já que com certeza jamais voltará a equipar de águia ao peito. Não sei bem como vai acabar esta história, mas desconfio que não vai acabar a favor de Miguel.

Lance Armstrong vencerá pela sétima (!!!) vez consecutiva o Tour? É assustador, mas parece que é o que vai acontecer.

sexta-feira, julho 15, 2005

Post politicamente incorrecto

Eu gosto do povo francês

Poucos acontecimentos foram tão importantes para a civilização como a Revolução Francesa (digo isto apesar de ser monárquico).

O lema "Liberté, Egalité, Fraternité" é uma das frases-chave da sociedade ocidental.

terça-feira, julho 12, 2005

Two days at the races



Autênticas relíquias com motor




É assim que se corre agora (imagens retiradas da Zona Franca)

Os bólides voltaram à Avenida da Boavista, cinco décadas depois. Carros de F1 da altura (anos50/60), carros de rali, preciosidades da década de trinta, todos aceleraram no improvisado circuito. Já tinha visto coisas semelhantes em Vila Real, em tempos idos, mas desta vez a diversidade imperou.
O calor apertava, é certo, os escapes dos carros não ajudavam, nem tão pouco o pó e o sol reflectido no asfalto; mas ainda assim o público afluiu em peso - mais no pião do que nas bancadas, onde se pagava couro e cabelo, e que estavam bem aquém da lotação (a não ser no fim, quando as abriram). Sem ser um espectáculo transcendente, deu uma vivacidade e um travo de nostalgia ao triângulo Boavista - Castelo do Queijo - Circunvalação. Não faltaram sequer disputas entre Porshes e FIATS 600, com a esperada supremacia dos primeiros, claro. Daí a piada do evento. A repetir em forma de bienal. Desde que (e esperemos que sim) o metro na Avenida fique no papel. Se assim for, daqui a dois anos temos as corridas de volta ao circuito.

segunda-feira, julho 11, 2005

Ainda sobre terrorismo

Sobre os graves acontecimentos descritos no post anterior haveria ainda muit a dizer. Fora, claro, dos comentários do costume quando atentados como este se sucedem (o que infelizmente, começa a ser uma estranha normalidade): o Islão, a América, o Iraque, o diálogo com os terrosristas, a guerra contra os estádios-pária, os comentários de Mário Soares, etc.
A propósito das declarações deste último, ouvi as mais díspares opiniões: que ele está louco, que está senil, ou que não deviam permitir que dissesse todos aqueles disparates; disparates ou não, o certo é que essas opiniões só têm lugar porque vivemos num regime livre graças ao mesmíssimo "louco", Mário Soares. Como ao contrário de alguns indivíduos mais revanchistas ou com oportuna falta de memória não o considero nenhum lunático, bem pelo contrário, terei somente de criticar uma certa leviandade com que falou nos diálogos com o terrorismo. Já a questão da pobreza me parece bem mais pertinente: não obstante muitos dos cérebros e financiadores destas células serem bem abonados, a verdade é que é da miséria, da marginalidade e da exclusão que vêm inúmeros jihadistas prontos a amarrar uma bomba à cintura. É em climas de raiva e pobreza que os cabecilhas islâmicos atraem os seus novos seguidores, virando-os contra todos os valores que considerem "inimigos do Islão", na sua visão fanática e deturpada. Por isso, bem podem bradar que "não há razões para o terrorismo, é preciso é reagir". Sim, não há razões válidas ou racionais. E precisamente, o que é necessário é saber porque é que tantos são atraídos para essas trevas de irracionalidade e morte. Aí sim, há que reagir sabiamente, sem meras vinganças a quente, que poderão ser nefastas para a verdadeira guerra ao terrorismo: aquela que não se esgota na cada vez mais ultrapassada via militar, mas que se realiza nas suas vertentes policiais, sociais e políticas. Não ver isto é atirar gasolina para a fogueira do ódio.

Absolutamente aconselháveis os artigos de Jorge Almeida Fernandes e Timothy Garton Ash no Público de hoje. Quem o tiver comprado que os leia.

Ah, já me esquecia: mesmo que já tenha vinte anos, a música que melhor descreve os acontecimentos dos últimos dias no Reino Unido é Panic, dos Smiths, oportunamente recordada pela Cibertúlia. Reparem que até se fala de Birmingham, também com suspeitas de bombas. Morrissey era um visonário, está visto.

sexta-feira, julho 08, 2005

London under attack





E o inevitável aconteceu: a capital britânica sofreu ataques terroristas nos seus pontos mais vulneráveis, mas, um pouco paradoxalmente, mais esperados: os transportes públicos, aqueles que diariamente transportam milhões de traseuntes ao longo da imensa metrópole.
Verdade seja dita que estes atentados não foram propriamente uma surpresa. De certa forma, eram uma horrível invitabilidade, como Jack Straw já o tinha reconhecido aqui há tempos. Pela sua dimensão, importância e cosmopolitismo, pelo facto de ter sido um dos principais intervinientes no Iraque ( o que me parece ser apenas um pretexto), pela cimeira do G8 se realizar em Edimbrugo, e, quem sabe, pela escolha da cidade para acolher os jogos Olímpicos de 2012, - apesar da demora que deve dar elaborar um plano homicida como este - Londres era talvez o alvo mais previsível dos fundamentalistas islâmicos.
O futuro? Provavelmente reserva-nos mais atentados, mas também, como demonstrou Tony Blair, a convicção firme de que o terrorismo islamita está condenado ao fracasso, como todas as tentativas totalitárias de submeter a civilização desde o aparecimento das ágoras. Até lá, há que manter um combate determinado mas inteligente, sem contemplações mas também sem espalhar ódios inúteis, através da coordenação internacional entre os serviços secretos, o fim das mesquitas e madrassas escondidas dos olhares do mundo, e a fiscalização de certos arsenais militares (como os da Ex-URSS), entre outras coisas.
E, claro, prosseguir com o processo de paz no Médio Oriente.

(Para uma descrição na primeira pessoa dos acontecimentos aconselho a leitura dos posts de Fernando Albino, no Quinto dos Impérios).

PS: ao que parece, a Al-Qaeda terá assassinado o embaixador egípcio no Iraque. Um dia proveitosos para facínoras, portanto.

quarta-feira, julho 06, 2005

O que é que tinha que era diferente?

É oficial: o Barnabé encerrou actividades. O fim já se anunciava há uns tempos, com os posts tensos trocados entre o seu mais mediático (e original membro), Daniel Oliveira, conhecido pelo seu humor corrosivo e por representar as opiniões mais arreigadamente BEs, movimento no qual tem assumido um papel de destaque, e o membro "derivado" e recente, Bruno Cardoso Reis, ex-autor do excelente Cartas de Londres, adepto de uma esquerda menos condicionada pelos ideais revolucionários dos bloquistas (e de inspiração cristã). Muito embora o último se tivesse desviado bastante das premissas mais caras a Oliveira e a Rui Tavares (mas não tanto a outros membros do blog, como Celso Martins, André Belo e Pedro Oliveira), a reacção do primeiro foi insensata e despropositada, como se viu no alegórico post da mosca no mel. Acabou por caír na mema armadilha em que já tinha tombado João Pereira Coutinho, por via de uma piada inóqua do próprio Daniel, e que acabou com a coluna Infame.
Tenho pena. Gostava bastante do Barnabé, e era seu comentador habitual, até instalarem o TypeKey (onde, sabe-se lá porquê, nunca me consegui registar). Gostava particularmente das suas inovações, do seu álbum fotográfico, das suas BDs circunstanciais e do seu sentido de humor. Muitas vezes me irritei, em particular nos posts claramente anti-católicos, muitas vezes discordei, em muitas ocasiões os critiquei, e noutras cheguei a apaudi-los, como em alguns assuntos de carácter internacional. Mas é inegável que tinha imenso valor e potencial. Vai deixar um espaço em branco, que talvez possa ser preenchido pelo velhinho Blog De Esquerda (do estimável José Mário Silva), que os apadrinhou no início e de que de certa forma se tornou rival. Vai deixar alguns "adversários", como Acidental e o Blasfémias, temporariamente sem resposta à altura em certas matérias tão carecidas de discussão. É pena. Porque pelo mancial de ideias, agressividade verbal, humor, impacto na blogoesfera nacional, e, porque não, pela quantidade de pessoas que atraía, o Barnabé era um blog diferente.
Espero que os seus membros continuem a ser bloggers noutros espaços. O seu valor não pode ser sub-aproveitado. Veremos quais os rumos na blogoesfera entre os ex-Barnabés.

sexta-feira, julho 01, 2005

Emídio Guerreiro 1899-2005



Voluntário ao Corpo Epedicionário Português da 1ª guerra Mundial; participante na revolta "reviralhista" de 1927, no Porto; combatente na Guerra Civil de Espanha, de onde fugiu por mar, vendo as tropas nacionalistas entrar em -Vigo; membro da Resistência francesa na 2ª Guerra; exilado político; fundador do LUAR; fundador e presidente interino do PPD; republicano, maçon, anti-fascista e anti-comunista; insigne professor e matemático: eis o currículo de emídio Guerreiro, um combatente da liberdade, generoso e lúcido até ao fim, de uma memória e vivacidade desconcertantes. Um decano que agora desapareceu, pouco depois de outro estimável centenário do nosso regime, Fernando Valle. E é curioso que, poucas semanas depois de a maioria gabar Álvaro Cunhal como um exemplo de resistência e coerência (que era), nos deparemos com a partida deste homem que, além de igualmente resistente e coerente até ao fim com os princípios que advogava, teve ainda outra virtude: o de ter combatido pela liberdade, onde quer que estivesse. Não pela sua nem das suas ideologias, mas pela liberdade de todos, seja quais forem as ideias ou crenças.
É mais uma referência que desaparece. E que nos faz muita falta. Há que por isso honrar a sua memória e seguir o seu exemplo de lutador pela liberdade.

Um Marco do nosso poder local



Aqui há coisa de duas semanas, a Pública trazia uma extensa reportagem sobre o Marco de Canaveses e o longo consulado do seu conhecido dinossauro, Avelino Ferreira Torres. Era o retrato de um concelho onde imperam o abandono escolar, a falta de estruturas tão básicas como o saneamento e a água canalizada, enquanto o betão e a construção civil às três pancadas continuam a crescer. Mostrava-se gente do campo, idosas analfabetas ou jovens a trabalhar na agricultura ou nas oficinas. Expunham-se testemunhos vários, desde apoiantes do "homem de fibra" que transformou o Marco em cidade, aos críticos, políticos ou não, mostrando o vazio cultural do concelho, o descalabro das contas e a prepotência do presidente. Só faltou mesmo a entrevista com este último, que despachou os jornalistas aos berros.
O conhecimento que tenho da terra data de há uns anos. Num dos Invernos mais amenos de que tenho memória, andei quase uma semana pelo concelho todo, num trabalho de identificação e entrevista de todos os artesãos que encontrasse, para uma pesquisa de artesanato encomendada pelo centro de sondagens da Universidade Católica.
Entre cesteiros, tanoeiros (talvez o último de Portugal), bordadeiras, tecedeiras (provavelmente visitei a idosa que surge na Pública) e outros cujo ofício não me vem à memória mas que nos seus vasilhames de estanho e chapéus de palha verdadeira arte, ouvi um longo rol de queixas. Muitas delas dirigiam-se ao total desinteresse da Câmara no seu trabalho, à ausência de um mínimo de divulgação por parte da autarquia. Dei-me conta disso logo à partida: assim que cheguei ao Marco dirigi-me à câmara municipal, onde funcionava o turismo local, para obter informação sobre o artesanato concelhio. Não me souberam dar qualquer informação, e só me deram um mapa do concelho e respectivas freguesias. Enquanto esperava, vi numa sala ao lado, através da porta envidraçada que a isolava, uma reunião colegial, presidida por, claro está, Ferreira Torres. Uma das minhas primordiais visões do Marco era o seu todo-poderoso presidente.
Além dos artesãos, outras pessoas, como alguns comerciantes, queixaram-se dele: desde as costumeiras ameaças físicas aos adversários, até à utilização de máquinas (e trabalhadores) camarários nas suas terras, sem falar na sua fortuna que cresceu desmesuradamente desde que está à frente da autarquia. A única pessoa que vi elogiá-lo foi uma tecelã, na freguesia de Várzea e Aliviada, que tinha no tear um autocolante do autarca , e que dizia com um sorriso tímido, baixando os olhos : "coitado do homem, lá faz o que pode"... Na altura em que lá estive houve um caso que teve honras num qualquer programa da SIC, estilo Praça Pública, em que um comerciante oferecia flores à entrada do mercado municipal para chamar a atenção de uma situação marginalizadora que lhe tinha sido criada pela câmara; no mesmo programa surgia, Avelino, verociferando no ecrã contra "a comunicação social".
A cidade do Marco é caracterizada por um urbanismo descuidado e o trânsito é a puxar para o caótico. Destacavam-se a câmara municipal, num ponto elevado, a célebre igreja de Siza Vieira, a meio de um descampado, e o Estádio Avelino Ferreira Torres. Curiosamente as pessoas da cidade olhavam para os "forasteiros" com uma desconfiança que não se via nas freguesias mais pequenas.
De resto, o concelho tem belas paisagens, sobretudo em Alpendurada (onde me lembro de comer um frango divinal por mil paus da altura, a refeição inteira), sobre o Douro, uma estação arqueológica, algumas igrejas, solares e pelourinhos merecedores de atenção, e pessoas simples e afáveis. dos artesãos trouxe como prendas um chapéus de palha e um vasilhame de estanho, que guardo na cómoda do quarto. Mas também uma certa pena por aquelas pessoas ignoradas pela edilidade presidida pelo homem que se prepara para assaltar Amarante, talvez para fugir de algo.
Esse homem, Ferreira Torres, com inúmeros casos judiciais de irregularidades e desvio de fundos à perna, promove a sua campanha à câmara amarantina através de viagens de helicóptero, mega-jantares e outdoors omnipresentes. Que não hesitou em auto-promover-se na grotesca "Quinta das Celebridades" (mas aquilo promoverá alguém?), metendo férias a meio do mandato. Esse homem, não nos esqueçamos, diz que "sabe quem é que matou o irmão" mas recusa-se a dizer - irmão esse, aliás, um famoso bombista que, tendo sido vendedor ambulante, tornou-se milionário depois de três anos em África, ninguém sabe como. Esse homem é o rosto do que pior as nossas autarquias têm: o cacique local, que vence eleições graças à "obra feita", bate nos adversários, perpetua-se no poder e caracteriza-se por um boçal nepotismo e por gastos sumptuosos com o acessório, além, claro, de favorecer tudo o que é construtor civil.
E é precisamente esta criatura que, depois de vinte e três anos a controlar - é o termo - o Marco, pretende fazer o mesmo em terras de Amarante. E o povo, ou parte dele, aplaude. Não conhecesse um pouco da sua obra, e diria que se merecem um ao outro.

quinta-feira, junho 23, 2005

Véspera de S. João

Nos últimos dias as oportunidades para actualizar o blog não têm sido muitas. Em breve, espero, a situação vai-se alterar.
Mas hoje não será o dia ideal para isso. Depois de anos privado da maior festa da cidade (e, porque não, uma das maiores festas populares do Mundo), hoje ninguém me impede, salvo força maior, de celebrar o S. João - ainda por cima Santo com o meu nome - até às tantas. Se há uma noite de festejos, é de certeza a de 23 para 24 de Junho.
O Verão chegou, e aí estão os Santos Populares a prová-lo e a recebê-lo da forma costumeira.
Um óptimo S. João a todos os que tiverem oportunidade de o festejar!

sexta-feira, junho 17, 2005

Aviso à navegação

Só para avisar que o Eelko Van Mulder deixou caír o seu pseudónimo de sonoridade vagamente neerlandesa e ficou apenas com a denominação do seu sub-título: Crónicas de "Um" VagaMundo. Tenho uma certa pena, pelo título original do blog, ao qual já me tinha habituado. Mas nome à parte, tudo o que realmente interessa conservou-se no seu lugar. Quem não conhecer é favor lá ir fazer uma visita, que vale bem apena. Recomenda-se moderação, porque pode criar vicío.

terça-feira, junho 14, 2005

Um Santo António de desaparecimentos

Álvaro Barreirinhas Cunhal 1913-2005



Por muito que represente o marxismo-leninismo mais dogmático, o comunismo mais ortodoxo e seja um defensor dos que reprimiram a Primavera de Praga ou dos que pretenderam instalar em Portugal um regime proto-soviético em 75, é impossível não ficar alheio ao carisma do líder comunista que hoje desapareceu. Dois dias depois, curiosamente, do "companheiro" Vasco Gonçalves, pelo que se poderia bem dizer que com eles o PREC morreu definitivamente.

A intransigência de Cunhal e a extrema defesa dos seus ideais comunistas são algo que perturbam o comum dos mortais. O afastamento de outras correntes mais avançadas de diversos PCs na Europa ocidental, como os de Espanha e Itália (e em menor medida o de França), na direcção oposta à da lealdade para com Moscovo, é outro elemento de marca com carga menos positiva, assim como as purgas verificadas em fins dos anos 80/ princípios dos anos 90, que coincidiram com a liquefação dos glaciares soviéticos. Mas o que atrai em Cunhal é exactamente a sua coerência e a força com que assistiu à queda do mundo em que acreditava, e que o ajudou a resistir às inúmeras torturas físicas e psicológicas durante a clandestinidade, assim como a vários anos de isolamento na prisão.

Para além do sua rígida leitura do marxismo, fica-nos também a sua aura mais romântica: a clandestinidade, as idas à URSS ainda muito novo ou o acompanhamento in loco da Guerra Civil Espanhola, a prisão em Peniche durante largos anos (nos quais traduziu obras de Shakespeare, desenhando as respectivas ilustrações), a sua faceta de romancista e desenhador, a defesa extrema que fazia da reserva da sua vida privada, bem como da família, etc.

A sua morte não constitui surpresa, até porque há muito que não saía de casa, provavelmente com estado de saúde precário. Ver-se-à se a profecia de que "quando o Cunhal desaparecer o PCP vai ao ar" se cumpre, embora já não acredite tanto nisso, já que o líder histórico há muito que se encontrava ausente ( e Jerónimo de Sousa mostra que bebeu directamente dos seus pensamentos), apesar de rábulas como a célebre leitura do discurso por Morais e Castro. Mas ainda que esperada, não deixa de constituir o fim de uma época e de um dos mais carismáticos políticos portugueses do século XX, que abraçou muito jovem a causa do comunismo e não mais a largou até ao fim dos seus dias.

Eugénio de Andrade/ José Fontinha 1923-2005


Outro desaparecimento algo esperado mas nem por isso menos penoso: Eugénio de Andrade, até ontem o maior poeta português vivo (salvo talvez Herberto Hélder), deixou-nos esta madrugada. Natural da Beira-Baixa, vivia há mais de cinquenta anos no Porto, tendo trabalhado como funcionário público. Morou muitos anos perto do jardim de S. Lázaro, até se mudar para a fundação com o seu nome, obra de inúmeros amigos e da Câmara Municipal do Porto, no Passeio Alegre, ao lado de outro homem das letras, Rebordão Navarro, e defronte do preciso espaço onde o rio encontra o mar, que tanto o inspirou enquanto lá viveu.
Lembro-me do dia em que lá fui, numa visita de estudo, no meu último ano do secundário. O poeta, que imaginava mais fechado e avesso a questões, recebeu-nos de forma cordial e simples, no pequeno auditório da fundação, leu-nos alguns dos seus mais recentes poemas da altura e respondeu a todas as perguntas que lhe fizemos (julgo que terei sido o mais insistente, mas sinceramente já não sei o que lhe perguntei). Falou-nos do seu fascínio por alguma poesia de outros autores, como Camilo Pessanha ("Conchas, pedrinhas e pedacinhos de ossos") e das suas impressões gerais da vida. Deixo-lhes um dos textos poéticos da sua autoria, que me lembro de ler na altura da visita, tirado de "O Sal da Língua", seguido de outro poema lindíssimo dedicado à pessoa que mais amou na sua vida.



ACERCA DE GATOS

Em Abril chegam os gatos: à frente o mais antigo, eu tinha dez anos ou nem isso, um pequeno tigre que nunca se habituou às areias do caixote, mas foi quem primeiro me tomou o coração de assalto.Veio depois, já em Coimbra, uma gata que não parava em casa: fornicava e paria no pinhal, não lhe tive afeição que durasse, nem ela a merecia, de tão puta. Só muitos anos depois entrou em casa, para ser senhor dela, o pequeno persa azul. A beleza vira-nos a alma do avesso e vai-se embora. Por isso, quem me lambe a ferida aberta que me deixou a sua morte é agora uma gatita rafeira e negra com três ou quatro borradelas de cal na barriga. É ao sol dos seus olhos que talvez aqueça as mãos, e partilhe a leitura do Público ao domingo.
(O SAL DA LÍNGUA)

Poema à mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...
Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."
Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...
Boa noite. Eu vou com as aves!

(Eugénio de Andrade, Antologia Breve)

segunda-feira, junho 13, 2005

O PPM acabou



Em 1974, com o advento da Democracia, o Partido Popular Monárquico era a única força política democrática que relembrava os ideais da monarquia sem os habituais e constrangedores complexos miguelistas ou integralistas. A sua importância, ao não deixar caír a recordação de oito séculos de história, foi extremamente importante, apesar do seu residual peso eleitoral. Além disso, os monárquicos-populares foram também a primeira força a defender princípios ambientalistas (muito antes dos pouco autónomos "Verdes"), expressos na campanha contra a instalação de centrais nucleares em Portugal ou por um urbanismo de qualidade nas cidades, que contemplasse os espaços verdes, os cursos de água e as culturas tradicionais que tinham sido o sustento de tanta gente há séculos e séculos no coração das urbes. Como é sabido, apesar da sua diminuta expressão nas urnas, chegaram ao poder via AD, tendo ocupado lugares no Parlamento e no Governo. Eram os tempos de Gonçalo Ribeiro Telles, Barrilaro Ruas, Luís Coimbra e tantos outros, como o velho Rolão Preto, convertido à democracia e já esquecido das suas aventuras nacional-sindiclistas dos anos trinta.
Acabada a Ad, o PPM voltou aos magros resultados abaixo do 1%. Houve no entanto a excepção das Europeias de 1987, em que Miguel Esteves Cardoso, com uma campanha personalizada e imaginativa quase entrava em Estrasburgo (imagine-se o que seria o MEC a discursar no PE!); por pouco não o voltava a conseguir em 89, só que a elevada abstenção trocou-lhe as voltas.
Depois disso, assistiu-se aos tradicionalismos e corporativismos de Nuno Cardoso da Silva e ao desfilar de um conjunto de líderes sem carisma nem senso, que terminaram com o caricato Pignatelli Queiroz e o apoio do PPM a Pedro Santana Lopes, em troca de dois lugares de deputado. Pelo meio houve ainda lugar para todo o tipo de saudosismos das ex-colónias e rejeições à UE, com pseudo-nacionalismos inflamados e bacocos.
Pois bem: quando se julgava que o PPM tinha descido ao seu ponto mais baixo, eis que a sua liderança é tomada por um dos novos deputados - à custa do PSD, relembre-se- que é, nada mais nada menos que o fadista Nuno da Câmara Pereira. O marialva, o homem que sem ponta de argumentos afirma que D. Duarte Pio não é o verdadeiro Duque de Bragança, em detrimento de uma qualquer prima sua (recorde-se que D. Manuel II atribuíu os direitos sucessores a D. Duarte Nuno, pai do actual pretendente ao trono), a criatura que acha que "o aborto devia ser totalmente proibido menos a raparigas abaixo dos dezoito anos, porque até essa idade devem poder prevaricar". Para cúmulo, na direcção nacional sentar-se-á o seu irmão Gonçalo, pifío fadista que reside na inanarrável Quinta das Celebridades (não, parece que já não, segredam-se aqui).
Ribeiro Telles afastou-se da vida partidária (com breve incursão no MPT), dedicando-se agora apenas à arquitectura paisagística; Barrilaro Ruas desapareceu, Luís Coimbra apoia agora Sá Fernandes, e MEC escreve regularmente no DN e na Blitz. O velho partido monárquico e ambientalista acabou. As ideias monárquicas são agora fielmente representadas pela Causa Real .
Com estes excelsos representantes do marialvismo de pacotilha, ancorado em fados, touradas e pouco mais, sem a menor visão do Mundo actual e ostentando a subtileza de um cacto, o PPM chega ao termo do seu caminho (muito, muito) descendente com a expressão que se lhe adivinhava há muito: a de uma caricatura. Paz à sua alma.

(Sobre o mesmo tema aconselho a leitura deste texto de António de Sousa-Cardoso, no Expresso desta semana).

terça-feira, junho 07, 2005

Se Serralves não existisse tinha de ser inventada

Há já algumas semanas que Lordelo do Ouro vinha sendo objecto de notícias pouco abonatórias, como a do assassínio da menina do Bairro do Aleixo, das despropositadas declarações do pároco a propósito da hedionda morte da criança, ou, há dias, a do homicídio de um pobre taxista de sessenta anos, em plena luz do dia e a vinte metros do hotel Ipanema Park.
Como nem só de más novas vivem as freguesias, Serralves teve o bom gosto de reeditar as quarenta horas non-stop, forma reduzida das Noites Brancas de Paris ou Roma, em que se podia visitar todo o espaço da fundação de graça. Claro que o rótulo da gratuitidade levou milhares de portuenses ao idílico espaço, aos seus jardins, prados, concertos, exposições e colóquios. O sucesso era esperado, mas a quantidade de gente que por lá passou deve ter superados as expectativas. Pela minha parte não posso falar das tardes em que as famílias aproveitaram para se estender na relva, uma vez que só me desloquei à Fundação quando já era noite cerrada e enormes luzeiros iluminavam as milhares de pessoas que por lá circulavam.



Neste ponto de encontro as pessoas acotovelavam-se a descer as escadas

Num prado normalmente reservado ás de ovelhas, uma tenda de circo expelia música ora aparentada com o reegae, ora parecida com coisa nenhuma, tais eram os guinchos agudos da intérprete. Como seria de supôr, acabou com techno puro, já despontava a alba. Embora tenha estado na prado a maior parte o tempo, não perdi a magnífica exposição de fotografias de Paulo Nozolino (atenção, até dia 12) ainda no início da noite, tendo reservado a dos projectos de Siza Vieira para as primeiras horas da manhã, quando os noctívagos se arrastavam para fora de Serralves e os madrugadores ainda não tinham aparecido. Ainda que a noite não dormida me pesasse em cima, foi gratificante passear pelo museu iluminado pelos primeiros raios de sol, com um fundo musical belíssimo (um estranho encadeamento sonoro, comovente e babilónico ao mesmo tempo) e uma ansiada placidez, depois das multidões que por lá circularam. À saída, os jardins respiravam todo o ar da manhã luminosa. A noite branca tinha valido bem a pena.
Sim, Lordelo,- onde Serralves também se situa - já merecia uns momentos de alegria, para variar um pouco das semanas antecedentes.

sábado, junho 04, 2005

Adio, Trapattoni



Afinal sou obrigado a falar novamente de bola, por uma razão que já se adivinhava há tempos: o técnico que devolveu ao Benfica o título de campeão decidiu voltar para itália, por razões familiares. Muitos, apesar dos apressados agradecimentos, terão ficado alegres. Eu não.
Talvez nem tanto pelo que poderá ser a próxima época: com um bom técnico e mais algumas soluções no banco, e se não houver nenhuma revolução no plantel, podemos pensar em fazer uma campanha europeia aceitável e revalidar os títulos internos. a questão é outra. É que apesar de todas as críticas que lhe foram feitas ao longo de época, tanto por benfiquistas como não-benfiquistas, assim como "defensivo", "Trapalhoni", "senil (aos 65 anos!)"ou "acabado para o futebol", e da ingratidão que muitos mostram, fiquei-lhe eternamente agradecido não só pelo fim do jejum como pela enorme dignidade que demonstrou, pelo nível que manteve e pela paciência face ao vendaval de críticas que ouviu. Soube ser pragmático e realista a partir do momento que ficou a saber o que valia o plantel no seu todo, mais os seus adversários ("em Abril e Maio é que se resolvem os campeonatos", disse), e não embandeirou em arco quando se começou a distanciar na tabela. Conseguiu ser além disso de uma correcção extrema, apesar de alguns lapsus linguae e gaffes. A sua forma de viver os jogos, ora serena, ora exaltada e emocionada, fará saudades. As suas tentativas de falar um português italianado com espanhol pelo meio (fizera o mesmo na Alemanha) também. E convém sobretudo lembrar que já não tínhamos um treinador tão titulado desde o tempo de Bella Guttman, nem sequer Ericksson. Trap não é apenas um conhecido treinador italiano: é um dos mais vitoriosos de sempre, o único que até agora conseguiu ganhar TODOS os troféus europeus, e que por isso mesmo se poderá considerar uma lenda viva do futebol. Basta lerem este artigo de Luís Freitas Lobo intitulado "No trilho da raposa" para confirmarem isso mesmo: Trap é um dos raríssimos técnicos já campeões por três países diferentes, e é o recordista em títulos europeus. Mas o mais impresionante é que ainda conserva toda a sua humildade, simpatia e naturalidade, não precisando de escudar-se em frases-choque ou atitudes de ser "o maior da minha rua".
Que regresse então Trap a casa, à sua família e a um qualquer clube transalpino que tenha a sorte de o contratar. Já não precisa de provar nada a ninguém, e a desilusão (ou azar) que teve na Squadra Azzurra já passou à história. Sai em grande do SLB, ao qual devolveu a alegria. e confirma o que eu disse aqui mesmo quando chegou à Luz: velhos são os trapos, não os "Trapas". E para rematar, deixo aqui o currículo desse grande senhor do futebol europeu que é Giovanni Trapattoni.

Uma Taça dos Campeões Europeus
UmaTaça Intercontinental
Uma Taça das Taças
Três Taças UEFAS
Sete campeonatos italianos
Um campeonato alemão
Um campeonato português
Duas Copas Itália
Uma Taça da Alemanha
Uma supertaça alemã
Duas supertaças italianas

Arrivederci, Trap.

segunda-feira, maio 30, 2005

Fim da semana

Ao contrário do que se possa dizer em virtude dos penosos últimos meses do seu governo (e da forma como acabou) e das suas lendárias indecisões, António Guterres é uma óptima escolha para ACNUR. Não só pelo seu desejo expresso em ocupar o cargo mas também pelas características que se exigem: capacidade de diálogo, conhecimento das situações, sensibilidade para os problemas e a sua diversidade e capacidade de decisão. As primeiras Guterres possui com abundância, como é do conhecimento público. A segunda já poderia franzir o sobrolho dos menos desconfiados, se se tratasse de um caso bicudo do nosso país. Mas não: recordemos que o ex-pm mostrou, porventura pela única vez, que tinha estofo de estadista e também sabia decidir na altura da crise de Timor. Aí não se coibiu em tomar decisões em tempos difíceis, nunca largando o comando das operações e acabando por ser o vencedor depois de um combate que chegou a parecer perdido.
É precisamente por me lembrar do papel de Guterres nessa ocasião, que envolvia refugiados e razões de índole humanitária, que julgo que fará um bom lugar e não deixará de tomar as decisões necessárias nos momentos que julgar apropriados.



Como se previa, o OUI à Constituição Europeia perdeu em França, coração da UE, e por números pesados. São portanto vencedores o xenófobo Le Pen, o tradicionalista De Villiers, os infinitos grupos trotsquistas e operários e a facção do senhor Fabius. Diga-se o que se disser, o simples facto desta gente apoiar o Não deixa-me pouco sossegado, pricipalmente quando se usam argumentos demagógicos como a recusa da entrada da Turquia na UE (da qual, já agora, desconfio um pouco).
Devo dizer que estou longe de saber qual será a minha posição no referendo que nos couber em sorte. Se me fiar na minha tradição de voto em tais decisões, escolherei o Não. Se apelar ao fundo da minha consciência europeísta, optarei pelo Sim. Mas até lá serei um fiel seguidor deste e de outros blogues que me possam dar uma visão mais profunda sobre aquela que pode (ou que podia, até hoje) ser a norma fundamental da UE.

Afinal não conseguimos a dobradinha. Com uma equipa gasta e cansada, baqueámos frente a um Vitória de Setúbal fresco e descomplexado. A vitória dos sadinos é perfeitamente justa, e Hélio mereceu plenamente erguer a Taça. Parabéns ao Vitória Futebol Clube. De qualquer forma, o importante já nós conseguimos. Agora é tempo de recarregar baterias e daqui a uns tempos pensar na nova época. Para futebol, já nos chegaram as emoções das últimas semanas.

sábado, maio 28, 2005

A TV, os adeptos, as suas cores e o triunfal regresso do Liverpool

Numa semana fértil de bola, e completando o regresso à glória dos míticos clubes de vermelho, o Liverpool venceu ontem o AC Milan numa empolgante e incerta final da Liga dos Campeões. Vinte e um anos mais tarde, os rapazes de Anfield Road voltaram a erguer a máxima Taça do futebol europeu, novamente frente a italianos.
Cheguei a casa ainda antes da partida começar. Esperava ver, antes da bola começar a rolar, a entrada dos jogadores, momento sagrado e inesquecível, e as coreografias das claques. Sempre achei que os cânticos, as bandeiras e os enormes lençóis eram um espectáculo dentro de outro, embora pense que os elementos das claques deveriam ficar-se pelas (pacíficas) acções de bancada, para evitar cenas deploráveis como as verificadas na Baixa do Porto no último Domingo. Mas os aspectos visuais valem quase tanto como o jogo em si.
O problema é que desde há uns tempos para cá as TVs quase nunca mostram o público presente, excepto em pequenos flashes e de forma secundária. Preferem focar a cara reservada dos técnicos, ou o acne de um qualquer jogador, ou até aspectos do relvado. Mas nada da vibração nas bancadas. Para mais os realizadores televisivos passam o tempo a fazer repetições que não interessam nada e passam à pressa pelos principais lances dos jogos (relembre-se o fantástico golo de Manniche no EURO 2004, vedado em directo aos telespectadores por repetições de um mero canto). Mas isso ainda percebo, pela pressa que há em escolher as melhores situações de golo. O não filmar as coreografias é que, sinceramente, me fica atravessado. Ainda por cima tínhamos em confronto um conjunto de adeptos de cânticos esmagadores perante outro cujos efeitos visuais são dos melhores que se podem ver em qualquer estádio. Ficam dois pequenos exemplos da malta de Anfield Road e dos rapazes de S. Siro.





Claro que a parte mais importante é o próprio jogo. E este não desiludiu ninguém: um Milan esmagador na primeira parte, a fazer antever um novo recorde em finais (pertença dos próprios milaneses), e um Liverpool com uma capacidade de reacção fabulosa, a empatar a partida e a levá-la para as grandes penalidades, em que Dudek (guarda-redes que eu já vi, ao vivo, sofrer um dos melhores golos jamais marcados em competições europeias), aos saltos, levou a melhor sobre o desconcentrado Sevtchenko e o especialista na matéria Dida.
O Liverpool voltou à glória muitos anos depois. Merecidamente. Mais do que os homens do sr. Berlusconi, ainda que se chamem Maldini ou Rui Costa.



com a cortesia do Terceiro Anel

segunda-feira, maio 23, 2005

Campeões enfim!



Como escrevi no post anterior, sofreu-se muito no jogo do título. No segundo tempo, com o empate a uma bola, o nervosismo era dominante, os cânticos tímidos e as provocações boavisteiras constantes. Eu estava pessimista, pensando que ainda iríamos perder o desafio. Um amigo meu, sentado ao lado, só queria saír dali. Mas a entrada de Mantorras deu novo ânimo à equipa. Subitamente, a notícia do golo da Académica provocou ondas de alegria e pôs o público a gritar "campeões, nós somos campeões!". Ainda me atrevi a dizer que faltavam uns minutos, mas retorquiram logo que o jogo das Antas tinha acabado e que o título estava ganho. Ainda assim, só ao apito final é que soltei um brado pela conquista do título há tanto tempo esperado (saí do estádio quase rouco, com tanto "ninguém pára o Benfica" e tanto "SLB, glorioso SLB"), abraçando-me ao meu amigo e aos anónimos adeptos que me rodeavam. Os jogadores deram a volta triufal ao estádio, perante o delírio da massa vermelha. Antes do fim do jogo, ainda houve uns boavisteiros mais truculentos, desejando avidamente a nossa derota: de nada adiantou, os adeptos axadrezados saíram calados e a festa ficou só para nós. Um momento único, uma sensação de alívio-dúvida-pelo-momento-em-questão formidável.

Só tive pena de ter ficado largas dezenas de minutos à espera da camioneta do Benfica, quando afinal ela saíu por outro lado, e mais ainda por não ter ido a Pedras Rubras. Mas o mais importante era mesmo o jogo, e a esse não faltei.

O título é mais que justo: com um plantel curto e espremido, Trapatonni conseguiu, com o seu pragmatismo, dar-lhes a confiança necessária e o empenho mínimo para ganhar o campeonato. Não houve aqui "colos" nem ajudas extra. Com um Porto irreconhecível e um Sporting irregular, o Benfica aproveitou e levou o título. O técnico italiano está de parabéns, assim como os jogadores e demais elementos técnicos (não esquecendo Rodolfo Moura). E, claro, Luís Filipe Vieira e também, imagine-se, José Veiga.

Os nossos sonhos serão doravante vermelhos. Em matéria de futebol, podemos dormir descansados: o título está enfim em boas mãos. Onze duros, penosos e difíceis anos depois.

E lá fora a festa ainda dura...

Ps: a festa durou até ás tantas, não sem que um punhado de trogloditas agredissem adeptos benfiquistas na baixa do Porto e na Rotunda da Boavista, queimando cachecois e atirando objectos. O facto do seu líder se auto-apelidar "Macaco" explica o porquê dos gestos (e feições) simiescos daquelas criaturas. Que, diga-se de passagem, formam a guarda pretoriana da direcção do FCP e são por ela financiados e apoiados. O que não deixa de ser bastante revelador.

Ps2: tive há pouco a oportunidade de, num relance, cumprimentar Giovanni Trapatonni e de lhe agradecer o título (além de não resistir a pedir o respectivo autógrafo). Não queria deixar de o fazer antes deste grande senhor deixar o Benfica, como parece provável. Afinal não é todos os dias que se está frente a frente com uma lenda do futebol, sobretudo quando essa mesma lenda deu ao nosso clube o título por que esperávamos à anos.

domingo, maio 22, 2005

Para a glória ou para o desastre

Amanhã (hoje, pelas horas que já são) jogam-se os últimos desafios do campeonato. O Sporting, já se sabe, está afastado da corrida, e, depois da semana a todos os títulos arrasadora que atravessou, tem apenas a hipótese de ir ao segundo lugar. O Braga só mesmo com sorte é que fica em terceiro. Assim sendo, restam apenas dois candidatos ao título: o SLB, que se desloca ao Bessa, e o Porto, que joga em casa com a Académica. O grau de dificuldade dos dois jogos é, como se pode ver, abismal.
A vitória da semana passada sobre os lagartos, no esfuziante anfiteatro da Luz, com a ajuda do Labreca, pôs uns quantos adeptos a buzinar Lisboa fora, como se o campeonato estivesse ganho. A euforia era compreensível, depois de semanas a ouvir os sportinguistas a afirmar alto e bom som que iam ganhar à Luz, mas no seu lugar teria mais calma. Disse isso mesmo a um amigo, que mal acabou o jogo me telefonou eufórico a pedir que lhe comprasse bilhetes para o Bessa. Porque os jogos têm mais de noventa minutos e, pelo menos no início, são onze contra onze. Porque não é verdade que o Bessa vá estar todo vermelho, como por aí se diz (e que estivesse: não significava nada); porque os nervos e a condição física podem traír os jogadores do Benfica, além do capítulo da finalização também não estar famoso. E porque o Boavista não é uma equipa qualquer, já esteve em primeiro e não aceitará ser o bombo da festa, além de que, tudo o indica (e o treinador Barny não desmentiu), os salários em atraso dos jogadores axadrezados devam ser pagos por generosa mão vinda das Antas em caso de vitória.
Por isso, não estou assim tão confiante, antes pelo contrário: as dificuldades vão ser mais que muitas, e só com toda a concentração e força anímica os jogadores do SLB vão ser capazes de ultrapassar a situação. Nestas coisas costumo ser pessimista, talvez fruto da derrota no EURO 2004, ou devido ao facto de estarmos perante um objectivo há tanto tempo perseguido que até parece bom demais para ser verdade. Estive mesmo prestes a vender o meu bilhete, mas pensando melhor seria uma cobardia, agora que o meu clube tem oportunidade de ser campeão, ainda por cima a escassas centenas de metros de minha casa. Sim, irei ao Bessa, apesar de toda a tensão que rodeia este jogo e o do Dragão, e das ameaças de um grupo de delinquentes que dá pelo nome de SD. Pode ser a glória, pode ser também a tristeza e a humilhação e o desânimo, mas nem eu nem os milhares de benfiquistas presentes viraremos a cara enquanto pudermos ser campeões.
Haja Deus!


O estádio onde o Benfica terá a grande prova de fogo. O sítio onde vou ficar é na bancada da direita, em baixo.

A propósito do Bessa, muito se falou na semana passada da freguesia contígua, Lordelo do Ouro, por causa do seu desbocado pároco e do tenebroso caso da pequena Vanessa. Ouvi várias menções à freguesia como sendo "a terra". Por certo pensavam que era uma qualquer aldeia nos arredores do Porto. Fica o esclarecimento: Lordelo é uma freguesia da cidade do Porto, onde se situam Serralves, a Casa das Artes e onde eu moro, e por onde amanhã entrará a camioneta do Benfica rumo ao Bessa. Percebido?

E para concluír o assunto futebol, fica o meu sincero abraço de solidariedade aos lagartos que tão ingloriamente perderam a final da UEFA no seu estádio. É pena, mas os tipos do CSKA foram mais cínicos e inteligentes. É um péssimo fim de época para o Sporting, mas julgo que os esperam dias melhores. E talvez outras finais, de desfecho mais feliz.

sexta-feira, maio 20, 2005

Guiné em óleo-Fula

Não é preciso ir à bruxa para adivinhar o que se vai seguir na Guiné-Bissau com a auto-proclamação de Kumba Ialá como "Legítimo" Presidente da república do país. Se pensarmos que o exército está dividido e exprime opiniões ambíguas, que há uma infinidade de candidatos à presidência e que um deles é Nino Vieira, além de haver um suposto Supremo Tribunal de Justiça cujas decisões são, no mínimo, aberrantes, nada mais há a esperar que uma nova guerra civil, com novos assassinatos inter pares e novas fugas em massa da população. A desgraça naquele PALOP parece não ter fim, apenas intervalos.
Argumentam alguns apoiantes do sr. Ialá que a sua destituição foi uma "usurpação do poder popular e da Democracia". É óbvio que os senhores ignoram que a primeira condição para a existÊncia de uma democracia é a separação de poderes, e não apenas o voto em urna. E que os verdadeiros usurpadores são aqueles que ignoram as fronteiras entre esses poderes e os tomam para si, à margem de toda a legitimidade e respeito pelas instituições democráticas.

Ialá pretende mudar a capital de bissau para Fula. Assistiremos ao nascimento da Guiné-Fula? Até hoje, só tinha conhecimento do óleo. É a concorrência...