Posts sobre os dias que passam
Pronto. Finalmente Portugal conseguiu uma vitória no seu Euro, contra uma Rússia nostálgica de Yashin e Dassaev, embora Ovchinikov mereça o maior respeito, sobretudo depois da sua injusta expulsão de hoje. Scolari mudou a equipa e bem. Percebeu enfim o que toda a gente já sabia: que Ricardo Carvalho está a anos-luz de Couto (cujo destino, diz-se, é precisamente a Luz), que Deco é um jogador para jogar de início e Rui Costa serve para entrar na segunda parte, mais fresco (e hoje terá mostrado aos detratores que ainda tem uns trunfos na manga), bem como Ronaldo, mas por razões diametralmente opostas.
Só que este triunfo não vem por si só resolver todos os males do mundo. Portugal venceu uma equipa russa desfalcadíssima na defesa, que a meio do jogo ficou reduzida a dez elementos, marcou o segundo golo já no fim (belíssima jogada, aliás)e mostrou, sobretudo na segunda parte,uma incapacidade concretizadora (por onde andas, Pauleta?)e um entorpecimento que só o miúdo-prodígio conseguiu travar, mas que não prenuncia nada de bom perante a "Fúria" espanhola. Que hoje empatou a um golo com os "Olímpicos", perante um Bessa a estourar e o próprio Rei de Espanha na assistência. Ao menos o empate permitiu que no regresso a Madrid não houvesse qualquer tipo de diferendo com a Rainha Sofia da GRÈCIA.
O que é certo é que o jogo deu um imenso colorido à zona da Boavista, onde moro. No terreno contíguo estacionaram numerosos autocarros. Na imensa avenida passaram espanhóis de Madrid, Barcelona, Galiza (Rias Baxas e Altas), Cuenca, Badajoz, de todos as cidades e pueblos; não faltaram ainda inúmeros gregos, alemães de Hamburgo, Ulm e Dresden (reconhecíveis com a camisola do Dínamo local), que apoiavam a Grécia, holandeses, dinamarqueses, suecos, ingleses, italianos, até mesmo romenos, e imagine-se, portugueses!
Já anteontem a Dinamarca e Itália deram um show de bola, sobretudo os respectivos "keepers", o sucesor-de-Schmeickel Sorensen e o já conceituado Buffon, o "Maradona das redes". Os suecos quiseram ser os mais concretizadores dos vikings e aplicaram chapa cinco a uma inexperiente Bulgária, onde se destacou um esquerdino de nome Petrov (de qualquer forma, apelido de metade da equipa), e que ou muito me engano ou vai ser um equipa quebra-cabeças daqui a dois-três anos. Mas o jogo valeu pelo fulgor ofensivo dos nórdicos e pelo regresso do magnífico e letal Larsson, que continua a ser um matador por excelência. O jogo Itália-Suécia promete.
Ontem, o mítico confronto Holanda-Alemanha saldou-se por uma igualdade entre uma equipa com um leque de atacantes inimaginável e outra que, não tendo tantas estrelas, vale como um colectivo sólido e fiável. A ter em conta. De realçar que estavam no Porto bem mais holandeses que alemães, um fenómeno que nem os próprios germânicos (muitos com camisolas do velho Mönchengladbach) souberam explicar. Já a Letónia ameaçou, mas a experiência dos checos acabou por prevalecer. Atente-se ao primeiro golo dos boémios, fruto de um centro de Poborsky, depois de uma jogada com fintas absolutamente magistrais, em que o ex-jogador do Benfica mostrou que ainda é igual a si próprio.
Saíndo um pouco do tema futebol, e aproveitando o facto de se ter falado da Família Real Espanhola, noto com pesar que a conviva que me tinha atraído a atenção na casamento dos príncipes é já considerada a "solteira mais desejada de Espanha", sobretudo depois de ter confirmado que não tinha noivo. O que significa uma feroz e numerosa concorrência, e bem assim um aborrecimento suplementar. Mas o frémito da luta é sempre bem-vindo, apesar da quantidade e peso dos outros candidatos!
Tudo se disse, depois do Portugal-Grécia de outro dia. Mas há coisas que não podem passar em claro. Veio um senhor, no Público de ontem, afirmar solenemente que ao contrário da Grécia "Portugal nunca teve heróis, mas chicos-espertos". Ora eu respeito imensamente a Grécia (tanto que até me inspirou no nome deste blog) e os seus Mitos, dos quais sou um fanático estudioso. Acontece que Ulisses, Aquiles, Jasão, Perseu ou Teseu são só isso mesmo (já Agamémnon nem tanto, e Alexandre ou Leónidas foram bem reais); ao passo que homens como os Gamas, Albuquerques, o Condestável, Camões, Afonso Henriques ou até os recentes Mouzinho da Silveira e Serpa Pinto foram heróis na verdadeira acepção da palavra, de tal forma que formaram os seus próprios mitos, que perduraram até hoje no imaginário lusitano, para além de outras figuras lendárias, como o Adamastor, o Velho do Restelo ou o Desejado/Encoberto. Na Índia, por exemplo, o nome de Afonso de Albuquerque ainda impõe respeito aos indígenas, e é um facto que prova a perenidade destes homens.
O chamar-lhes "chicos-espertos" mostra ou ignorância, ou encobrimento da história, ou ainda uma snobeira desdenhosa de Portugal, do tipo "o que vem lá de fora é que é bom". Ou até as três coisas, não sei...
quinta-feira, junho 17, 2004
segunda-feira, junho 14, 2004
Reflexões sobre o Domingo que acaba
Como se previa, o PS ganhou as eleições à coligação Força Portugal, ou PSD-CDS/PP. Menos previsível terá a sido a diferença de resultados, à roda dos 11%. O PS pausadamente colheu os louros e apontou Durão Barroso como sendo o "pai da derrota".
Embora o líder de qualquer movimento seja à partida o responsável moral pelas derrotas que venha a sofrer, parece-me que o(S) verdadeiro(S) culpado(S) é outro, e o seu nome é Paulo Portas, na companhia do seu partido. Mais do que quaisquer outros, os populares (populistas?)foram sem a menor dúvida a causa máxima da derrota da coligação de centro-direita. Que ninguém pense o contrário: a impopularidade de Portas, não só nas Forças Armadas mas a nível geral, a incapacidade do PP resolver as questões nas quais tem responsabilidades políticas, o tom arrogante e militarista e sobretudo o nível apresentado nesta campanha eleitoral ditaram os resultados dos partidos governamentais. E caso não tivessem concorrido coligados, quem sabe quão grande seria o tombo do PP, ou o alívio do PSD.
De qualquer forma, e porque não acredito que a morte do Prof. Sousa Franco tenha tido grandes efeitos práticos, o PS terá ganho as eleições sobretudo por demérito da coligação, e não tanto por um incrível poder de atração do eleitorado. Tal como há dois anos, quando o poder caíu nas mãos de Durão Barroso por culpa dos socialistas.
À esquerda, a CDU conseguiu aguentar-se, em boa parte por causa da energia de Ilda Figueiredo e Odete Santos, uma vez que os militantes carismáticos vão rareando.
O Bloco de Esquerda é um dos grandes vencedores, ao aumentar significativamente a votação e eleger Miguel Portas (também no PE haverá rotatividade?). Pela euforia que se viu entre os bloquistas, é de crer que comemoraram os resultados com uma distribuição grátis de Cannabis e cerveja (ou shots, talvez).
A ND ficou ainda mais abaixo do que se previa, com o histórico MRPP à sua frente. Claro que Manuel Monteiro retorquiu com o esperado "nas legislativas elegeremos deputados", entre outras coisas, mas só ele não deve ver o pouco entusiasmo que despertou no eleitorado. Veremos qual o futuro da ND.
Já agora, realço os mais uma vez baixos números do PPM, muito longe dos tempos de Ribeiro Telles e MEC (com o incrível e patético comunicado sobre a morte de Sousa Franco), e o resultado residual daquele partido proto-fascista que diz ter o apoio de Le Pen, mas que só bateu o micaelense PDA e o POUS, que como se sabe tem apenas como militantes Carmelinda Pereira e Aires Rodrigues.
As frases tontas da noite ficaram reservadas para Luís Filipe Menezes, que culpou entre outros Rui Rio pela derrota da Força Portugal, mostrando quão preocupante é a sua Riofobia, o que me faz pensar que o autarca de Gaia nem seque é capaz de pôr um pé no Porto; e, mais uma vez, Monteiro, que disse que os resultados tinham sido uma derrota para PSD e...PS; é crível, no entanto, que o Novo Democrata não tivesse sido informado ainda dos resultados e pensasse que a sua ND tinha elegido já um grupo parlamentar pronto para abalar para Estrasburgo. Enganos...
Ah, e não esquecer todos aqueles que desculparam os maus resultados com a abstenção, já que provavelmente saberiam o que ia na cabeça dos abstencionistas; sem dúvida um caso de extraordinários poderes telepáticos.
A França venceu a Inglaterra, nos descontos, com dois golos de Zidane, de bola parada. Eis o que acontece quando se luta até ao fim e se tem um grande naipe de génios da bola como os "bleus". Confesso que me deu um grande gozo ver os truculentos súbditos da rainha perder quando há muito cantavam vitória, à exepção do saudoso e quase mítico Erikson. O regresso à Luz não lhe podia ter corrido pior. A propósito, o cenário era o de uma autêntica Catedral do Futebol. Como devia ser sempre. Como muitos poucos estádios o são. E como a Luz, mais uma vez, demonstrou ser: um anfiteatro de sonho tornado realidade. E como é também um talismã para a Seleção Nacional, veremos os sonhos que nela caberão na próxima 4ª-feira.
Como se previa, o PS ganhou as eleições à coligação Força Portugal, ou PSD-CDS/PP. Menos previsível terá a sido a diferença de resultados, à roda dos 11%. O PS pausadamente colheu os louros e apontou Durão Barroso como sendo o "pai da derrota".
Embora o líder de qualquer movimento seja à partida o responsável moral pelas derrotas que venha a sofrer, parece-me que o(S) verdadeiro(S) culpado(S) é outro, e o seu nome é Paulo Portas, na companhia do seu partido. Mais do que quaisquer outros, os populares (populistas?)foram sem a menor dúvida a causa máxima da derrota da coligação de centro-direita. Que ninguém pense o contrário: a impopularidade de Portas, não só nas Forças Armadas mas a nível geral, a incapacidade do PP resolver as questões nas quais tem responsabilidades políticas, o tom arrogante e militarista e sobretudo o nível apresentado nesta campanha eleitoral ditaram os resultados dos partidos governamentais. E caso não tivessem concorrido coligados, quem sabe quão grande seria o tombo do PP, ou o alívio do PSD.
De qualquer forma, e porque não acredito que a morte do Prof. Sousa Franco tenha tido grandes efeitos práticos, o PS terá ganho as eleições sobretudo por demérito da coligação, e não tanto por um incrível poder de atração do eleitorado. Tal como há dois anos, quando o poder caíu nas mãos de Durão Barroso por culpa dos socialistas.
À esquerda, a CDU conseguiu aguentar-se, em boa parte por causa da energia de Ilda Figueiredo e Odete Santos, uma vez que os militantes carismáticos vão rareando.
O Bloco de Esquerda é um dos grandes vencedores, ao aumentar significativamente a votação e eleger Miguel Portas (também no PE haverá rotatividade?). Pela euforia que se viu entre os bloquistas, é de crer que comemoraram os resultados com uma distribuição grátis de Cannabis e cerveja (ou shots, talvez).
A ND ficou ainda mais abaixo do que se previa, com o histórico MRPP à sua frente. Claro que Manuel Monteiro retorquiu com o esperado "nas legislativas elegeremos deputados", entre outras coisas, mas só ele não deve ver o pouco entusiasmo que despertou no eleitorado. Veremos qual o futuro da ND.
Já agora, realço os mais uma vez baixos números do PPM, muito longe dos tempos de Ribeiro Telles e MEC (com o incrível e patético comunicado sobre a morte de Sousa Franco), e o resultado residual daquele partido proto-fascista que diz ter o apoio de Le Pen, mas que só bateu o micaelense PDA e o POUS, que como se sabe tem apenas como militantes Carmelinda Pereira e Aires Rodrigues.
As frases tontas da noite ficaram reservadas para Luís Filipe Menezes, que culpou entre outros Rui Rio pela derrota da Força Portugal, mostrando quão preocupante é a sua Riofobia, o que me faz pensar que o autarca de Gaia nem seque é capaz de pôr um pé no Porto; e, mais uma vez, Monteiro, que disse que os resultados tinham sido uma derrota para PSD e...PS; é crível, no entanto, que o Novo Democrata não tivesse sido informado ainda dos resultados e pensasse que a sua ND tinha elegido já um grupo parlamentar pronto para abalar para Estrasburgo. Enganos...
Ah, e não esquecer todos aqueles que desculparam os maus resultados com a abstenção, já que provavelmente saberiam o que ia na cabeça dos abstencionistas; sem dúvida um caso de extraordinários poderes telepáticos.
A França venceu a Inglaterra, nos descontos, com dois golos de Zidane, de bola parada. Eis o que acontece quando se luta até ao fim e se tem um grande naipe de génios da bola como os "bleus". Confesso que me deu um grande gozo ver os truculentos súbditos da rainha perder quando há muito cantavam vitória, à exepção do saudoso e quase mítico Erikson. O regresso à Luz não lhe podia ter corrido pior. A propósito, o cenário era o de uma autêntica Catedral do Futebol. Como devia ser sempre. Como muitos poucos estádios o são. E como a Luz, mais uma vez, demonstrou ser: um anfiteatro de sonho tornado realidade. E como é também um talismã para a Seleção Nacional, veremos os sonhos que nela caberão na próxima 4ª-feira.
domingo, junho 13, 2004
Tantos meses de espera e acabei por não poder ir ver os Pixies. Provavelmente não haverá mais oportunidades para isso. Se assim for, creio que nunca me perdoarei por toda a minha vida.
Para mais, se pensar que no lugar dos neo-comandados de Frank Black assisti a um espectáculo do Emanuel, o proclamado rei da música-pimba!...
Para mais, se pensar que no lugar dos neo-comandados de Frank Black assisti a um espectáculo do Emanuel, o proclamado rei da música-pimba!...
Como os prezados leitores repararão, acabou enfim a confusão com os archives. Isso quer dizer que de ora em diante os posts serão mais curtos (em parte) e frequentes. Ou seja, deixam de ser simplesmente semanais.
O assunto do dia é indubitavelmente a seleção nacional e a sua desapontadora derrota perante a bem organizada turma helénica. Depois da enorme euforia em redor da equipa lusa, eis agora a ressaca em redor da derrota. A reter há apenas meia dúzia de coisas: que a Grécia é sem dúvida uma equipa bem organizada; que as equipas menos conhecidas têm esse mesmo privilégio, ou seja, podem sempre surpreender; que Rui Costa está realmente fora de forma (embora eu apostasse que se entrasse na 2ª parte faria coisas interessantes); que Paulo Ferreira não é o inexpugnável que se pensava;e que Scolari terá mesmo de arriscar um pouco mais.
Mais uma vez teremos de fazer contas até ao fim; mais uma vez falhou a finalização; de novo vieram os pseudo-entendidos na matéria afirmar que "era perfeitamente previsível a derrota frente à Grécia", quando antes do jogo faziam previsões totalmente opostas; outros resolveram mais uma vez atirbuir as culpas a Figo (?!) e a Ricardo, com o argumento de que "com o Vítor Baía é que era", embora não expliquem como é que o Vítor Baía iria defender aquele penalty e o primeiro golo fora do âmbito de visão. E, claro, aqueles que com mais ou menos razão não deixarão de culpar Scolari de tudo e mais alguma coisa.
Sempre que Portugal é favorito os resultados ficam aquém do esperado. Ao contrário do que aconteceu no europeu de há 4 anos, onde vimos uma das melhores equipas nacionais de sempre. Como era des esperar, voltamos a meter a pata na poça, embora seja duvidoso que a lição tenha servido para algo. Porque o Euro começou agora, e está longe de terminar. Pede-se pois menos euforia bacoca e mais confiança nos jogadores lusos.
Por falar em euforia, era mesmo esse o sentimento dominante ontem à noite na Praça da Ribeira, onde desfilavam cantores pimba que punham a dançar não só portugueses mas também holandeses, ingleses, franceses, croatas, gregos, suíços, alemães, espanhois, dinamarqueses italianos e letões. Foram pelo menos essas as nacionalidades reconhecíveis, no meio do arraial que misturava música (pimba, claro), cerveja, e iconografia nacional/futebolística, a começar pelas omnipresentes bandeiras portuguesas. Ao menos o ambiente era de convívio e alegria.E o espectáculo dos holandeses rendidos a Emanuel hilariante.
É de arrepiar o comentário do adepto grego que, perante a minha incredulidade divertida profetizava que a Grécia iria ganhar no dia seguinte, à frente de milhares de portugueses, fazendo uma analogia com as vitórias de Alexandre contra um exército persa muito superior em número. Seria o covicto mancebo descendente da troiana Cassandra?
O assunto do dia é indubitavelmente a seleção nacional e a sua desapontadora derrota perante a bem organizada turma helénica. Depois da enorme euforia em redor da equipa lusa, eis agora a ressaca em redor da derrota. A reter há apenas meia dúzia de coisas: que a Grécia é sem dúvida uma equipa bem organizada; que as equipas menos conhecidas têm esse mesmo privilégio, ou seja, podem sempre surpreender; que Rui Costa está realmente fora de forma (embora eu apostasse que se entrasse na 2ª parte faria coisas interessantes); que Paulo Ferreira não é o inexpugnável que se pensava;e que Scolari terá mesmo de arriscar um pouco mais.
Mais uma vez teremos de fazer contas até ao fim; mais uma vez falhou a finalização; de novo vieram os pseudo-entendidos na matéria afirmar que "era perfeitamente previsível a derrota frente à Grécia", quando antes do jogo faziam previsões totalmente opostas; outros resolveram mais uma vez atirbuir as culpas a Figo (?!) e a Ricardo, com o argumento de que "com o Vítor Baía é que era", embora não expliquem como é que o Vítor Baía iria defender aquele penalty e o primeiro golo fora do âmbito de visão. E, claro, aqueles que com mais ou menos razão não deixarão de culpar Scolari de tudo e mais alguma coisa.
Sempre que Portugal é favorito os resultados ficam aquém do esperado. Ao contrário do que aconteceu no europeu de há 4 anos, onde vimos uma das melhores equipas nacionais de sempre. Como era des esperar, voltamos a meter a pata na poça, embora seja duvidoso que a lição tenha servido para algo. Porque o Euro começou agora, e está longe de terminar. Pede-se pois menos euforia bacoca e mais confiança nos jogadores lusos.
Por falar em euforia, era mesmo esse o sentimento dominante ontem à noite na Praça da Ribeira, onde desfilavam cantores pimba que punham a dançar não só portugueses mas também holandeses, ingleses, franceses, croatas, gregos, suíços, alemães, espanhois, dinamarqueses italianos e letões. Foram pelo menos essas as nacionalidades reconhecíveis, no meio do arraial que misturava música (pimba, claro), cerveja, e iconografia nacional/futebolística, a começar pelas omnipresentes bandeiras portuguesas. Ao menos o ambiente era de convívio e alegria.E o espectáculo dos holandeses rendidos a Emanuel hilariante.
É de arrepiar o comentário do adepto grego que, perante a minha incredulidade divertida profetizava que a Grécia iria ganhar no dia seguinte, à frente de milhares de portugueses, fazendo uma analogia com as vitórias de Alexandre contra um exército persa muito superior em número. Seria o covicto mancebo descendente da troiana Cassandra?
quinta-feira, junho 10, 2004
António Luciano Pacheco de Sousa Franco 1942-2004
Hoje pude dormir até tarde. Estava realmente precisado. Mas o dia não começaria nada bem, infelizmente. A minha mãe, que se encontrava em Matosinhos, onde trabalha, telefonou a dar a notícia que por toda a parte circulava: a morte repentina de Sousa Franco, cabeça de lista do PS ás Europeias de Domingo próximo.
Seguiu-se a incredulidade e consternação da praxe. Na televisão, todos os quadrantes políticos, mesmo os que lhe eram mais hostis. lamentavam a sua morte. Julgo que todos eram mais ou menos sinceros, já que ninguém fica indiferente a um acontecimento abrupto destes. Mas foi impossível não pensar nos acontecimentos dos últimos dias.
Nesta campanha patética e surreal, houve quem mimoseasse o lente de finanças públicas com ataques absolutamente gratuitos e despropositados. Sousa Franco reagiu com algum fervor mas nunca baixando ao nível dos que o insultaram. Propôs mesmo a Deus Pinheiro, que manteve sempre a compostura, um pacto anti-insultos. Só que poucos foram aqueles que o cumpriram. No meio disto tudo, só se ouviu falar verdadeiramente de ideias num debate entre os dois principais candidatos.
Há que recordar ainda que Sousa Franco conseguiu, graças ás suas políticas de covergência, trazer a moeda única, esse mesmo Euro que usamos diariamente, para o nosso país. Ao contrário do que tentaram apregoar, realizou um trabalho de grande valor para pôr as contas do Estado em ordem; com a sua saída, a situação financeira começou a resvalar.
Apesar de cultivar a independência, uma das suas características mais visíveis e que o tinham feito "vagabundear" pelo espectro partidário de centro-esquerda, o PS chamou-o agora para uma missão no Parlamento Europeu. Sousa Franco entregou-se a este objectivo com um vigor e uma alegria que não se lhe conheciam, onde até houve quem o considerasse um bom candidato presidencial. Começava no entanto a denotar sinais de cansaço, como se viu na indispensável visita à lota de Matosinhos, onde estalou o conflito entre as comadres Narciso/Seabra. Pouco depois sucumbia a um ataque de coração; ao que parece, já tinha algumas mazelas cardíacas; o cansaço e a tensão dos úçtimos momentos terão completado a sinistra obra...
É pois um momento de luto para o país; perdeu-se um universitário ilutre, um político com elevação, um homem com frontalidade, humanismo e bonomia. Todos eles contribuíram para que fosse O MELHOR MINISTRO DAS FINANÇAS PORTUGUÊS DA ÚLTIMA DÉCADA. Pela perda enorme, de um político que tanto tinha ainda para dar a Portugal e à Europa, sinto-me realmente amargurado. De onde quer que ele esteja, espero que ouça o imenso obrigado que tantos e tantos portugueses como eu lhe devem.
PS: faço um ligeiro aditamento ao post; primeiro, para lamentar outro desaparecimento, desta vez de Lino de Carvalho, deputado do PCP, a quem, embora esteja politicamente muito afastado, reconheço uma combatividade e convicção notórias pela forma como tomava a palavra em S. Bento; segundo, pelo enorme galo que tive hoje quando almoçei em Matosinhos; inevitavelmente, pensava em Sousa Franco, sucumbido um dia antes na avenida contígua, quando entrou no restaurante onde me encontrava uma das "comadres" das querelas na lota: Narciso Miranda, o eterno cacique socialista; com os acontecimentos do dia anterior ainda frescos, é realmente penoso dar-se de caras com um dos protagonistas daqueles fatídicos momentos. O que só conseguiu turvar ainda mais os meus pensamentos.
Hoje pude dormir até tarde. Estava realmente precisado. Mas o dia não começaria nada bem, infelizmente. A minha mãe, que se encontrava em Matosinhos, onde trabalha, telefonou a dar a notícia que por toda a parte circulava: a morte repentina de Sousa Franco, cabeça de lista do PS ás Europeias de Domingo próximo.
Seguiu-se a incredulidade e consternação da praxe. Na televisão, todos os quadrantes políticos, mesmo os que lhe eram mais hostis. lamentavam a sua morte. Julgo que todos eram mais ou menos sinceros, já que ninguém fica indiferente a um acontecimento abrupto destes. Mas foi impossível não pensar nos acontecimentos dos últimos dias.
Nesta campanha patética e surreal, houve quem mimoseasse o lente de finanças públicas com ataques absolutamente gratuitos e despropositados. Sousa Franco reagiu com algum fervor mas nunca baixando ao nível dos que o insultaram. Propôs mesmo a Deus Pinheiro, que manteve sempre a compostura, um pacto anti-insultos. Só que poucos foram aqueles que o cumpriram. No meio disto tudo, só se ouviu falar verdadeiramente de ideias num debate entre os dois principais candidatos.
Há que recordar ainda que Sousa Franco conseguiu, graças ás suas políticas de covergência, trazer a moeda única, esse mesmo Euro que usamos diariamente, para o nosso país. Ao contrário do que tentaram apregoar, realizou um trabalho de grande valor para pôr as contas do Estado em ordem; com a sua saída, a situação financeira começou a resvalar.
Apesar de cultivar a independência, uma das suas características mais visíveis e que o tinham feito "vagabundear" pelo espectro partidário de centro-esquerda, o PS chamou-o agora para uma missão no Parlamento Europeu. Sousa Franco entregou-se a este objectivo com um vigor e uma alegria que não se lhe conheciam, onde até houve quem o considerasse um bom candidato presidencial. Começava no entanto a denotar sinais de cansaço, como se viu na indispensável visita à lota de Matosinhos, onde estalou o conflito entre as comadres Narciso/Seabra. Pouco depois sucumbia a um ataque de coração; ao que parece, já tinha algumas mazelas cardíacas; o cansaço e a tensão dos úçtimos momentos terão completado a sinistra obra...
É pois um momento de luto para o país; perdeu-se um universitário ilutre, um político com elevação, um homem com frontalidade, humanismo e bonomia. Todos eles contribuíram para que fosse O MELHOR MINISTRO DAS FINANÇAS PORTUGUÊS DA ÚLTIMA DÉCADA. Pela perda enorme, de um político que tanto tinha ainda para dar a Portugal e à Europa, sinto-me realmente amargurado. De onde quer que ele esteja, espero que ouça o imenso obrigado que tantos e tantos portugueses como eu lhe devem.
PS: faço um ligeiro aditamento ao post; primeiro, para lamentar outro desaparecimento, desta vez de Lino de Carvalho, deputado do PCP, a quem, embora esteja politicamente muito afastado, reconheço uma combatividade e convicção notórias pela forma como tomava a palavra em S. Bento; segundo, pelo enorme galo que tive hoje quando almoçei em Matosinhos; inevitavelmente, pensava em Sousa Franco, sucumbido um dia antes na avenida contígua, quando entrou no restaurante onde me encontrava uma das "comadres" das querelas na lota: Narciso Miranda, o eterno cacique socialista; com os acontecimentos do dia anterior ainda frescos, é realmente penoso dar-se de caras com um dos protagonistas daqueles fatídicos momentos. O que só conseguiu turvar ainda mais os meus pensamentos.
segunda-feira, junho 07, 2004
É a notícia do dia: Ronald Reagan, o "falcão anti-soviético", morreu ontem aos 93 anos depois de uma prolongada e degenerativa doença. Na sua grande maioria, os blogs lamentaram a perda do que consideraram "um dos maiores presidentes de sempre dos EUA".
Peço desculpa, mas discordarei dessa opinião maioritária. Lamento a sua morte, como lamentarei a de qualquer ser humano, embora talvez fosse o que melhor lhe podia ter sucedido, já que vivia num estado absolutamente comatoso há já largos meses. Mas não posso concordar com aqueles que o consideram o vencedor da Guerra Fria, ou pior ainda, um paladino da Liberdade.
Quanto à segunda recordarei apenas a aviltante invasão a Granada, o apoio aos combatentes islâmicos do Afeganistão (a antecâmara da Al-Qaeda), o sustento aos Contras da Nicarágua e El-Salvador, na tentativa de restaurar regimes brutais que apeassem os sandinistas
do poder (também eles ditatoriais, mas num registo bastante menor), e, last but not least,as relações de amizade que estabeleceu com o Iraque de Saddam, no fito de combater o Irão recém-Khomeinizado, não hesitando em armar até aos dentes o carniceiro de Bagdad, mesmo conhecendo o carácter do seu regime.Isto para além do sonho megalómano da "Guerra das Estrelas", do apoio incondiconal à sua versão feminina Tatcher,e aos bombardeamentos da Tripoli de Khadafi, o único acto com que verdadeiramente posso concordar (embora não tivessem o aval da ONU), já que começou aí a inflexão do ditador líbio, com os resultados que se conhecem hoje. Eis as traves mestras da política internacional de Reagan, e da sua propalada liberdade.
Relativamente ao facto de ter sido o vencedor da Guerra Fria, só posso dizer que tal pensamento é uma perfeita injustiça para com Gorbatchov, João Paulo II, Walesa, e tantos outros que puganaram pelo fim da tirania comunista. Reagan era o presidente da altura, é certo. Empreendeu um programa de "Guerra das Estrelas" para subverter a URSS. Para sua sorte apareceu aos comandos desta o homem do famoso sinal na careca, que se dispunha a proceder ao degelo e a trazer a perestroika à Praça Vermelha. Hoje em dia está na moda tratar Gorbatchov como um derrotado. Mas se no seu lugar surgisse um duro estalinista, quem sabe o que poderia ter acontecido? Quem nos diz que uma animosidade crescente não teria degenerado numa guerra apocalíptica? Ronnie apenas colheu os louros das circunstâncias; mas o mérito, esse, coube sobretudo a Gorby e a outros já aqui referidos.
Nem vale a pena falar dos resultados das políticas internas dos EUA durante os anos 80, sobretudo no que à economia diz respeito. Se o sentimento patriótico dos americanos se elevou imenso, o mesmo não se poderá dizer da sua situação financeira,como resultado da estrita aplicação das teses dos Chicago Boys. Viu-se no que deram...
Paz a Ronnie. A paz que negou a tantos outros. E a que qualquer homem ou mulher têm direito.
Já há muito tempo que por aqui não passava. Mas as novidades arqueológicas e as histórias envolvendo galeões, corsários e naufrágios que Alexandre Monteiro exemplarmente conta valem algumas visitas mais assíduas.
Serralves...Eis o verdadeiro motivo de orgulho dos portuenses. A referência cultural de toda uma cidade (e das mais relevantes a nível nacional) completou 15 anos de Fundação e 5 de museu. Os parabéns deram-se durante 40 horas seguidas, em que o público em geral entrou gratuitamente no parque e no museu, estabelecendo um são convívio onde se viam sofás vermelhos nos jardins, entretenimento infantil, provagem de flores (!), música ao vivo, etc. À noite havia ligeiras transmutações, com o ténis coberto por uma tenda própria para o evento, onde um qualquer DJ renomado passava dance-music inesgotável, à sombra das árvores que caracterizam o enorme parque e da disceta colunata da casa de chá.
As habituais exposições de arte estiveram também expostas nesse fim-de-semana non stop, após as quais se podia ir comer um qualquer prato na cafetaria do museu, do alto da qual se avistava boa parte dos jardins e a coluna de gente a bater em retirada da festa ás primeiras horas da manhã.
Embora não tenha ficado completamente satisfeito, agradou-me a experiência de vaguear pelo belíssimo parque à noite, que apesar de encoberta exibia uma claridade fora do vulgar (claro que a iluminação artificial ajudava). O tom mágico do arvoredo, dos lagos, dos jardins de buxo e das esculturas era digno de um qualquer livro juvenil de Sophia De Mello Breyner; tais obras, como "O Rapaz de Bronze" ou "A Floresta", essenciais quando aprendia as primeiras letras,podiam ter sido inspiradas ali, ou não fosse a autora natural deste mesmo Porto, e habitasse uma casa a poucas centenas de metros dali. Fosse como fosse, era um cenário fantástico e quase irreal; abençoados mecenas que se lembraram de comprar esta imensa propriedade, impedindo que a mesma fosse posta à disposição de um qualquer grupo de patos-bravos sem alma.
Ao que parece, eventos semelhantes serão repetidos, com outros pretextos, talvez até no próximo Verão. Os portuenses agradecem. E regozijam-se por haver um lugar como Serralves, como elemento purificador da sua cidade.
Muitos perguntam qual será o futuro de Secretário, o insigne ex-jogador do FCP que há semanas se sagrou campeão da Europa pela 2ª vez (por incrível que pareça já o tinha conseguido pelo Real, também aí sem jogar, claro). Julgo que tenho a resposta: é que o dito ex-futebolista há dias entrava e saía incessantemente da Ordem dos Advogados do Porto, o que me levou a pôr duas hipóteses: ou se prepara para uma vida de douto jurista; ou então estagia para ocupar uma função pouco mais ou menos coincidente com o apelido. São palpites...
Peço desculpa, mas discordarei dessa opinião maioritária. Lamento a sua morte, como lamentarei a de qualquer ser humano, embora talvez fosse o que melhor lhe podia ter sucedido, já que vivia num estado absolutamente comatoso há já largos meses. Mas não posso concordar com aqueles que o consideram o vencedor da Guerra Fria, ou pior ainda, um paladino da Liberdade.
Quanto à segunda recordarei apenas a aviltante invasão a Granada, o apoio aos combatentes islâmicos do Afeganistão (a antecâmara da Al-Qaeda), o sustento aos Contras da Nicarágua e El-Salvador, na tentativa de restaurar regimes brutais que apeassem os sandinistas
do poder (também eles ditatoriais, mas num registo bastante menor), e, last but not least,as relações de amizade que estabeleceu com o Iraque de Saddam, no fito de combater o Irão recém-Khomeinizado, não hesitando em armar até aos dentes o carniceiro de Bagdad, mesmo conhecendo o carácter do seu regime.Isto para além do sonho megalómano da "Guerra das Estrelas", do apoio incondiconal à sua versão feminina Tatcher,e aos bombardeamentos da Tripoli de Khadafi, o único acto com que verdadeiramente posso concordar (embora não tivessem o aval da ONU), já que começou aí a inflexão do ditador líbio, com os resultados que se conhecem hoje. Eis as traves mestras da política internacional de Reagan, e da sua propalada liberdade.
Relativamente ao facto de ter sido o vencedor da Guerra Fria, só posso dizer que tal pensamento é uma perfeita injustiça para com Gorbatchov, João Paulo II, Walesa, e tantos outros que puganaram pelo fim da tirania comunista. Reagan era o presidente da altura, é certo. Empreendeu um programa de "Guerra das Estrelas" para subverter a URSS. Para sua sorte apareceu aos comandos desta o homem do famoso sinal na careca, que se dispunha a proceder ao degelo e a trazer a perestroika à Praça Vermelha. Hoje em dia está na moda tratar Gorbatchov como um derrotado. Mas se no seu lugar surgisse um duro estalinista, quem sabe o que poderia ter acontecido? Quem nos diz que uma animosidade crescente não teria degenerado numa guerra apocalíptica? Ronnie apenas colheu os louros das circunstâncias; mas o mérito, esse, coube sobretudo a Gorby e a outros já aqui referidos.
Nem vale a pena falar dos resultados das políticas internas dos EUA durante os anos 80, sobretudo no que à economia diz respeito. Se o sentimento patriótico dos americanos se elevou imenso, o mesmo não se poderá dizer da sua situação financeira,como resultado da estrita aplicação das teses dos Chicago Boys. Viu-se no que deram...
Paz a Ronnie. A paz que negou a tantos outros. E a que qualquer homem ou mulher têm direito.
Já há muito tempo que por aqui não passava. Mas as novidades arqueológicas e as histórias envolvendo galeões, corsários e naufrágios que Alexandre Monteiro exemplarmente conta valem algumas visitas mais assíduas.
Serralves...Eis o verdadeiro motivo de orgulho dos portuenses. A referência cultural de toda uma cidade (e das mais relevantes a nível nacional) completou 15 anos de Fundação e 5 de museu. Os parabéns deram-se durante 40 horas seguidas, em que o público em geral entrou gratuitamente no parque e no museu, estabelecendo um são convívio onde se viam sofás vermelhos nos jardins, entretenimento infantil, provagem de flores (!), música ao vivo, etc. À noite havia ligeiras transmutações, com o ténis coberto por uma tenda própria para o evento, onde um qualquer DJ renomado passava dance-music inesgotável, à sombra das árvores que caracterizam o enorme parque e da disceta colunata da casa de chá.
As habituais exposições de arte estiveram também expostas nesse fim-de-semana non stop, após as quais se podia ir comer um qualquer prato na cafetaria do museu, do alto da qual se avistava boa parte dos jardins e a coluna de gente a bater em retirada da festa ás primeiras horas da manhã.
Embora não tenha ficado completamente satisfeito, agradou-me a experiência de vaguear pelo belíssimo parque à noite, que apesar de encoberta exibia uma claridade fora do vulgar (claro que a iluminação artificial ajudava). O tom mágico do arvoredo, dos lagos, dos jardins de buxo e das esculturas era digno de um qualquer livro juvenil de Sophia De Mello Breyner; tais obras, como "O Rapaz de Bronze" ou "A Floresta", essenciais quando aprendia as primeiras letras,podiam ter sido inspiradas ali, ou não fosse a autora natural deste mesmo Porto, e habitasse uma casa a poucas centenas de metros dali. Fosse como fosse, era um cenário fantástico e quase irreal; abençoados mecenas que se lembraram de comprar esta imensa propriedade, impedindo que a mesma fosse posta à disposição de um qualquer grupo de patos-bravos sem alma.
Ao que parece, eventos semelhantes serão repetidos, com outros pretextos, talvez até no próximo Verão. Os portuenses agradecem. E regozijam-se por haver um lugar como Serralves, como elemento purificador da sua cidade.
Muitos perguntam qual será o futuro de Secretário, o insigne ex-jogador do FCP que há semanas se sagrou campeão da Europa pela 2ª vez (por incrível que pareça já o tinha conseguido pelo Real, também aí sem jogar, claro). Julgo que tenho a resposta: é que o dito ex-futebolista há dias entrava e saía incessantemente da Ordem dos Advogados do Porto, o que me levou a pôr duas hipóteses: ou se prepara para uma vida de douto jurista; ou então estagia para ocupar uma função pouco mais ou menos coincidente com o apelido. São palpites...
segunda-feira, maio 31, 2004
E continua o toque de finados dos blogs de referência. Aconteceu agora ao Dicionário do Diabo, de Pedro Mexia, que passa a estar disponível em versão colectânea, juntamente com os posts da Coluna Infame; é facilmente encontrado em qualquer Feira do Livro por esse Portugal fora.
Mas não é causa para desespero: termos sempre notícias de Mexia na GR ou até em situações em que ele esteja, eventualmente, fora do mundo. Para não falar nas eventualidades, é claro.
Sim, eu sei, não há como lhe escapar: o FC Porto ganhou a final da Champions ao Mónaco,marcou três golos, atingiu o céu, mostrou-se a todo o mundo e a festa redobrou, embora aqui tenham tido a generosa contribuição de numerosos adeptos de outros clubes. Eu próprio não deixei de apreciar a vitória, embora ao princípio tenha julgado que me ia ser indiferente. Acabou por não ser, até porque estava em companhia de amigos portistas moderados, que mereciam o maior apoio.
A isto sucedeu a natural euforia, um pouco por todo o país, e a chuva de elogios ao Porto. O problema é que nestas situações aparece sempre gente que desconhece o fair-play, as regras de cortesia e desportivismo, etc, e que começa logo com expressões do tipo "curvem-se perante nós", "curem-se da azia", e outros vocábulos irreproduzíveis num blog civilizado como este (ou pelo menos, que o tenta ser). Ouvi isto tanto pessoalmente como na blogoesfera. Por essa razão, e por estar farto de ver em diversas publicações loas ao FCP,como lampião que se preze, tratarei de pôr as coisas nos devidos lugares. Os amigos portistas que me desculpem, mas isto é sobretudo dedicado àqueles de quem falei anteriormente.
Apesar de estar neste momento bastante acima (desportivamente falando) do que o SLB, não considero de forma alguma que o Porto seja maior, coisa que muitos tentam agora defender, mas que não tem o menor cabimento. É certo que têm mais títulos internacionais; mas o Benfica tem mais títulos nacionais (agora até tem o dobro das Taças de Portugal), mais finais europeias (sete só da Taça dos Campeões, o que nos dá o duvidoso título de campeão das finais perdidas), melhor ranking internacional desde sempre, muitos mais adeptos (uma condição inegável)e, mais uma vez, o maior estádio. Além disso, o Porto faz gala de representar "uma cidade e uma região"; absolutamente legítimo; mas em compensação o Benfica representa todo um país. Eis a condição de maior totalmente justificada. O que não significa que seja o melhor, qualidade que atribuo ao Porto sem a menor hesitação.
Há tempos vi um ranking em que eram apontados os dez maiores clubes da Europa, baseados nas vitórias e finais onde já tinham estado. Correspondia exactamente aos dez Gloriosos Europeus, tal como os tinha pensado, a saber: SLB, Real Madrid, Barça, Inter, Juventus, Milan,Manchester, Liverpool, Ajax e Bayern. Para lá da situação actual, das decepções que tenham constituído este ano ou de outras deficiências, todos estes clubes marcaram uma época (Benfica, década de 60, ou Liverpool, fins dos 70)ou introduziram novidades no futebol então jogado (Ajax, como futebol total,ou Inter, cattenacio). Daí o galardão que se lhes atribui.
Aquém disso estão diversos clubes grandes mas que não cabem na classificação anterior, nos quais se encontra o Porto ao lado de outros respeitáveis nomes como o Borrusia Dortmund, Marselha, PSV, Feyeenord, Celtic, Anderlecht ou Valência, com presenças notórias mas fugazes na Europa do futebol. Atrás virá ainda outro grupo, onde está o Sporting, enquadrado pelo Rangers, Parma, Galatasaray, Dínamo de Kiev ou Lazio de Roma.
Por isso, o SLB, pertencendo à nata da nata dos clubes europeus,tem forçosamente de voltar à ribalta rapidamente. O seu lugar natural é lá. A mística e a glória assim o exigem.Em Agosto outra oportunidade de voltar à Champions se abre; há que aproveitá-la, qualquer que seja o adversário. E ir o mais longe possível.
Acredito mesmo que o SLB volte a conquistar a Taça dos Campeões (lamento, mas este é o seu verdadeiro nome). Num futuro não muito distante. Em pleno Estádio de Saint Denis, Paris, perante o AC Milan, com quem temos velhas contas a ajustar. Depois de eliminar Inter, Manchester e PSV. Perante um coro de dezenas de milhares de portugueses de vermelho carregado. O título que nos foge há mais de quarenta anos, desde a maldição de Bella Guttmann, e que tão ardorosamente merecemos. Porque não me esqueço daquele momento decisivo em que o guarda-redes do PSV defendeu o penalti de Veloso. Podia até ser um miúdo que não gostava muito de futebol na altura, mas essa ferida na alma clubística conservou-se sempre. E só cicatrizará com o regresso ao maior nível do SLB ás grandes vitórias que o caracterizaram e dele fizeram o que é.
Quem quiser pode pensar que isto é um post escrito por um adepto fanático do clube em questão. Não me interessa. Olhando para o SLB, e lembrando.me por exemplo dos 120.000 apoiantes que chegou a ter num só jogo aclamando-o até à exaustão, não posso deixar de dizer que é o MAIOR! E atenção que digo isto com toda a racionalidade que se pode exigir quando se fala da bola e em particular do clube amado.
Mais uma vez escrevi um post extremamente longo sobre futebol. É perfeitamente natural. Afinal de contas, o país inteiro anda a ser impregnado, coberto por uma imensa onda de futebol, a levar uma injecção de bola que pode provocar overdoses. Se é que já não provocou. Perante tudo o que se vê nos media, nos cartazes de campanha para as europeias ou que se ouve nos cafés, de que é que se há de falar mais? Ah, pois, no Rock in Rio. Sinceramente, aguardo com mais expectativa pelo SuperRock. E até por Vilar de Mouros.
E depois, há um assunto que também provoca grande excitação no país e no continente: as eleições europeias. Pena é que o grosso das pessoas se lembre mais depressa do dia de inauguração do Euro do que da data das eleições. Que por acaso é no dia a seguir.
Mas falando da campanha, parece que Paulo Portas resoveu ditar piadas algo descabidas sobre Sousa Franco, entrecortadas por gargalhadinhas irritantes. Além de injusto, é ridículo. Alguém podia avisá-lo que é Ministro de Estado. Mas depois dos louvores do chefe de governo ao "boss" da Madeira, é de esperar o pior.
terça-feira, maio 25, 2004
Regresso depois de um fim de semana sossegado a nível pessoal pondo em dia o sono e a leitura de periódicos. Perdi por isso os momentos em directo do enlace real entre D. Filipe de Bourbon e D. Letizia (acabei por não ir pessoalmente ao casamento, pretextando "trabalho inadiável", mas os príncipes entenderam). Claro que isso não teve a menor importância, já que todas as estações de televisão se encarregaram de repetir até à exaustão cada um das passos dados pela família real e convidados (Marichalar não está manifestamente recuperado: ninguém no seu perfeito juízo usa uma gravata com um verde berrante daqueles), desde a saída do Palácio Real até ao regresso ao mesmo, com os habituais acenos à multidão. Madrid estava impecável, apesar de fustigada pela chuva que afastou muitos mirones, inclusivamente a meia-dúzia de republicanos que se manifestava da forma possível.Jorge Sampaio teve um tratamento absolutamente VIP.Os Duques de Bragança, como sempre, também compareceram.
Ora o faustoso evento serviu para relançar as velhas discussões Monarquia vs República, e em especial os gastos que se fazem na 1ª aquando de ocasiões como estas. Frases como "gastam-se milhões na boda, ao invés de se investir no que é importante, só para as televisões" fizeram-se ouvir incessantemente nos dias que antecederam o enlace.
Quem se dê ao trabalho de pensar por 5 minutos depressa chegará à conclusão de que não só este acontecimento teve uma importância política e mediática à escala global, aliás como tudo hoje, como o facto das ditas televisões (dezenas de estações)estarem lá, os gastos terem tido a devida compensação pecuniária.A importância política é tão somente esta: é em acontecimentos como estes que criam laços de amizade e confiança entre inúmeros líderes, tanto que em dado momento da narração se cometou que o facto do presidente Toledo, do Peru, ter usado um pretexto irrisório para a sua falta de comparência poderia arrefecer as relações entre a pátria dos Incas e o seu antigo colonizador.
Outros houve que se referiram à "piroseira" ou histerismo do evento. Pela minha parte, apercebi-me que tanto os nubentes como demais convidados exprimiam apenas tímidos sinais de nervosismo, sem qualquer ponta de histeria; a piroseira, bem, talvez o vestido da Duquesa de Alba (uma Grande de Espanha!), porque não era aquele o tipo de gente onde se costumam encontrar grandes rasgos de "pinderiquice". Ambos os adjectivos podiam ser atribuidos, isso sim, à vaga de cobertura mediática que cobriu o casamento. Mas jamais aos seus intervenientes directos.
Resta só desejar as maiores felicidades ao casal, à vinda dos respectivos herdeiros e à eterna continuidade da Monarquia no país vizinho...com a pequena esperança de que algo semelhante aconteça aqui.
Na última semana o governo parece ter sido acometido de loucura. Primeiro tivemos as vénias os cânticos de louvor à Madeira de Jardim, seguidos de acusações de "falta de democracia nos Açores".Depois da obscura demissão do ex-ministro Theias, substituído pelo regressado Arlindo Cunha (mas será que o PSD não arranja um único nome de jeito para esta pasta?), seguiu-se o mui interessante Congresso de Oliveira de Azemeis, em que as moções principais foram aprovadas por unanimidade. Ou seja, o encontro não serviu para absolutamente nada, a não ser para se ficar de boca aberta com mais uma pérola do Primeiro-Ministro. Então não é que Durão Barroso responsabilizou qualquer falha de segurança que eventualmente aconteça durante o Euro-2004, em virtude da greve dos SEF, ao PCP? O octogenário movimento leninista está pois de parabéns: desde 1975 que não metia medo a ninguém,e afinal o PM teme as investidas de Carvalhas e Cª. Quase trinta anos depois, o PC é de novo uma ameaça. Surreal, no mínimo.
Ora o faustoso evento serviu para relançar as velhas discussões Monarquia vs República, e em especial os gastos que se fazem na 1ª aquando de ocasiões como estas. Frases como "gastam-se milhões na boda, ao invés de se investir no que é importante, só para as televisões" fizeram-se ouvir incessantemente nos dias que antecederam o enlace.
Quem se dê ao trabalho de pensar por 5 minutos depressa chegará à conclusão de que não só este acontecimento teve uma importância política e mediática à escala global, aliás como tudo hoje, como o facto das ditas televisões (dezenas de estações)estarem lá, os gastos terem tido a devida compensação pecuniária.A importância política é tão somente esta: é em acontecimentos como estes que criam laços de amizade e confiança entre inúmeros líderes, tanto que em dado momento da narração se cometou que o facto do presidente Toledo, do Peru, ter usado um pretexto irrisório para a sua falta de comparência poderia arrefecer as relações entre a pátria dos Incas e o seu antigo colonizador.
Outros houve que se referiram à "piroseira" ou histerismo do evento. Pela minha parte, apercebi-me que tanto os nubentes como demais convidados exprimiam apenas tímidos sinais de nervosismo, sem qualquer ponta de histeria; a piroseira, bem, talvez o vestido da Duquesa de Alba (uma Grande de Espanha!), porque não era aquele o tipo de gente onde se costumam encontrar grandes rasgos de "pinderiquice". Ambos os adjectivos podiam ser atribuidos, isso sim, à vaga de cobertura mediática que cobriu o casamento. Mas jamais aos seus intervenientes directos.
Resta só desejar as maiores felicidades ao casal, à vinda dos respectivos herdeiros e à eterna continuidade da Monarquia no país vizinho...com a pequena esperança de que algo semelhante aconteça aqui.
Na última semana o governo parece ter sido acometido de loucura. Primeiro tivemos as vénias os cânticos de louvor à Madeira de Jardim, seguidos de acusações de "falta de democracia nos Açores".Depois da obscura demissão do ex-ministro Theias, substituído pelo regressado Arlindo Cunha (mas será que o PSD não arranja um único nome de jeito para esta pasta?), seguiu-se o mui interessante Congresso de Oliveira de Azemeis, em que as moções principais foram aprovadas por unanimidade. Ou seja, o encontro não serviu para absolutamente nada, a não ser para se ficar de boca aberta com mais uma pérola do Primeiro-Ministro. Então não é que Durão Barroso responsabilizou qualquer falha de segurança que eventualmente aconteça durante o Euro-2004, em virtude da greve dos SEF, ao PCP? O octogenário movimento leninista está pois de parabéns: desde 1975 que não metia medo a ninguém,e afinal o PM teme as investidas de Carvalhas e Cª. Quase trinta anos depois, o PC é de novo uma ameaça. Surreal, no mínimo.
quarta-feira, maio 19, 2004
...E ao fim de três longas semanas A Ágora voltou enfim. Não porque tivesse havido um qualquer hiato pré-estival, atendendo ao tempo que faz, mas porque o célebre vírus Sasser atacou por estas paragens e a sua remoção não foi propriamente fácil. Enfim, parece que a desinfecção surtiu efeito. Esperemos que nos tempos mais próximos não haja surpresas de maior no mesmo sentido.
E neste regresso a primeira coisa a referir é incontestavelmente
a vitória do SLB na Taça de Portugal, oito anos depois. Num jogo duro e de resultado imprevisível até ao fim, a vitória acabou por sorrir à equipa que, não tendo jogado melhor nem possuído a bola mais tempo, mais acreditou e, claro, mais golos marcou. Mas para além do jogo em si, o Benfica acabou por ser um justíssimo vencedor.Porque não celebrou vitória antecipadamente, ao contrário de Pinto da Costa ( a quem no dia anterior só lhe faltou dizer que queria ver Lisboa a arder). Nem, caso tivesse perdido, atiraria as culpas para cima do árbitro, sabendo-se como Camacho é. E porque depois de perder dois atletas num ano, um deles na véspera, uma alegria destas era o mínimo que se podia pedir.
Ficou-nos pois mais uma final do Jamor, talvez a última. E a 24ª Taça do SLB (tantas quantas Sporting e Porto juntos). Empunhada pelos dois capitães. E a lembrança de Feher e Baião. E as faixas da claque do Benfica, desejando boa sorte ao Porto contra o Mónaco, num registo de fair-play inédito. Fair-play que Mourinho não teve quando lhe era exigido, apontando baterias ao árbitro num rosário de acusações, cada uma mais patética que a outra.Mas neste plano esteve bem acompanhado: o Blasfémias desfiou uma das mais incríveis e facciosas reacções que já tive oportunidade de ver, com coisas do tipo "Lucílio Baptista jogou muito bem de vermelho", ou "a equipa do Porto é boa de mais para jogar no meio de um pinhal (!)", ou ainda "a equipa do Benfica é um amontoado de jogadores caceteiros". Não é apenas mau perder: é também deselegância, má-criação e hipocrisia, sobretudo no que toca aos "caceteiros". Alguém dirá que se trata de um blog "de referência"? Não me parece. Para mim não é, com certeza.
Também Sousa Tavares não aceitou bem a derrota, embora tenha usado uma forma um pouco mais polida para o fazer. Mas nas entrelinhas nota-se a imensa raiva pela derrota com que não contava, certamente, pelas desculpas que dá. E o querer desculpar à força toda os obscuros negócios entre a Câmara do Porto ao tempo de Nuno Cardoso e o FCP é de bradar aos céus. Que pena que alguém que noutras área é por vezes tão lúcido e clarividente use aqui os mais incongruentes argumentos para justificar o injustificável. Ora veja-se...
Enfim, alguns mais ressabiados disseram que apenas tínhamos ganho "migalhas". Mas se assim é, porque terão ficado tão raivosos?
Mais importante do que isso foi a festa que se viveu nessa noite. E que se estendeu pelos Aliados dentro, onde eu próprio tive a oportunidade de testemunhar a euforia vermelha que invadiu a Baixa Portuense. Assim como o resto do país, de Norte a Sul. É bem melhor ver comemorações festivas em diversos lugares do que apenas num só. É também pelo apoio massivo e alegre de todo um país que se vêem os grandes clubes...
Peço desculpa pelo excessivo tom futebolístico do post, mas urgia. Em compensação, não falarei hoje da Selecção, cujos escolhidos foram anunciados hoje por Scolari. Os melhores possíveis, espera-se.
Podia fazer uma qualquer referência ao Iraque, ás sinistras práticas que ao que parece permaneceram nas prisões, e à completa falta de vergonha de Rumsfeld (e de Bush)por não se demitir, o que prova que os EUA, actualmente, não são um país minimamente civilizado, já que até em Portugal o responsável político por tais aberrações seria de pronto exonerado; podia também falar da política racista e de cariz autoritária de Israel, que continua placidamente a destruir casas de palestinianos como se de construções na areia se tratassem, ao mesmo tempo que pululam os colonatos ilegais; ou de mais um sinistro assassínio ás mãos de outra incontável agremiação terrorista islâmica, desta vez do próprio líder do governo provisório iraquiano.
Mas tudo isso é, a cada dia que passa, mais banal. E de cada vez que se ouve mais um evento do género, boceja-se. É lamentável, mas verdadeiro.
...Como lamentável é também a erosão cada vez mais acentuada da costa portuguesa. Já me tinha referido em anteriores posts a um exemplo concreto, o de Moledo. E certamente voltarei à carga.
A ausência durante semanas provoca disto:o desnorte perante as alterações que o blogger sofreu.
Penso que por hoje é tudo. A hora já é tardia. Boa noite.
E neste regresso a primeira coisa a referir é incontestavelmente
a vitória do SLB na Taça de Portugal, oito anos depois. Num jogo duro e de resultado imprevisível até ao fim, a vitória acabou por sorrir à equipa que, não tendo jogado melhor nem possuído a bola mais tempo, mais acreditou e, claro, mais golos marcou. Mas para além do jogo em si, o Benfica acabou por ser um justíssimo vencedor.Porque não celebrou vitória antecipadamente, ao contrário de Pinto da Costa ( a quem no dia anterior só lhe faltou dizer que queria ver Lisboa a arder). Nem, caso tivesse perdido, atiraria as culpas para cima do árbitro, sabendo-se como Camacho é. E porque depois de perder dois atletas num ano, um deles na véspera, uma alegria destas era o mínimo que se podia pedir.
Ficou-nos pois mais uma final do Jamor, talvez a última. E a 24ª Taça do SLB (tantas quantas Sporting e Porto juntos). Empunhada pelos dois capitães. E a lembrança de Feher e Baião. E as faixas da claque do Benfica, desejando boa sorte ao Porto contra o Mónaco, num registo de fair-play inédito. Fair-play que Mourinho não teve quando lhe era exigido, apontando baterias ao árbitro num rosário de acusações, cada uma mais patética que a outra.Mas neste plano esteve bem acompanhado: o Blasfémias desfiou uma das mais incríveis e facciosas reacções que já tive oportunidade de ver, com coisas do tipo "Lucílio Baptista jogou muito bem de vermelho", ou "a equipa do Porto é boa de mais para jogar no meio de um pinhal (!)", ou ainda "a equipa do Benfica é um amontoado de jogadores caceteiros". Não é apenas mau perder: é também deselegância, má-criação e hipocrisia, sobretudo no que toca aos "caceteiros". Alguém dirá que se trata de um blog "de referência"? Não me parece. Para mim não é, com certeza.
Também Sousa Tavares não aceitou bem a derrota, embora tenha usado uma forma um pouco mais polida para o fazer. Mas nas entrelinhas nota-se a imensa raiva pela derrota com que não contava, certamente, pelas desculpas que dá. E o querer desculpar à força toda os obscuros negócios entre a Câmara do Porto ao tempo de Nuno Cardoso e o FCP é de bradar aos céus. Que pena que alguém que noutras área é por vezes tão lúcido e clarividente use aqui os mais incongruentes argumentos para justificar o injustificável. Ora veja-se...
Enfim, alguns mais ressabiados disseram que apenas tínhamos ganho "migalhas". Mas se assim é, porque terão ficado tão raivosos?
Mais importante do que isso foi a festa que se viveu nessa noite. E que se estendeu pelos Aliados dentro, onde eu próprio tive a oportunidade de testemunhar a euforia vermelha que invadiu a Baixa Portuense. Assim como o resto do país, de Norte a Sul. É bem melhor ver comemorações festivas em diversos lugares do que apenas num só. É também pelo apoio massivo e alegre de todo um país que se vêem os grandes clubes...
Peço desculpa pelo excessivo tom futebolístico do post, mas urgia. Em compensação, não falarei hoje da Selecção, cujos escolhidos foram anunciados hoje por Scolari. Os melhores possíveis, espera-se.
Podia fazer uma qualquer referência ao Iraque, ás sinistras práticas que ao que parece permaneceram nas prisões, e à completa falta de vergonha de Rumsfeld (e de Bush)por não se demitir, o que prova que os EUA, actualmente, não são um país minimamente civilizado, já que até em Portugal o responsável político por tais aberrações seria de pronto exonerado; podia também falar da política racista e de cariz autoritária de Israel, que continua placidamente a destruir casas de palestinianos como se de construções na areia se tratassem, ao mesmo tempo que pululam os colonatos ilegais; ou de mais um sinistro assassínio ás mãos de outra incontável agremiação terrorista islâmica, desta vez do próprio líder do governo provisório iraquiano.
Mas tudo isso é, a cada dia que passa, mais banal. E de cada vez que se ouve mais um evento do género, boceja-se. É lamentável, mas verdadeiro.
...Como lamentável é também a erosão cada vez mais acentuada da costa portuguesa. Já me tinha referido em anteriores posts a um exemplo concreto, o de Moledo. E certamente voltarei à carga.
A ausência durante semanas provoca disto:o desnorte perante as alterações que o blogger sofreu.
Penso que por hoje é tudo. A hora já é tardia. Boa noite.
sexta-feira, abril 23, 2004
A entrevista de Omar Bakri à Pública da semana passada provocou ondas de fúria, preocupação, e até ironia, como se viu pelos divertidos posts que o Barnabé dedicou ao assunto. O caso não é para menos: aqui estava um teórico do terror, que, de forma plácida e sucinta proferiu palavras de um absoluto desprezo pela vida humana, pelo menos a dos "infiéis"; tudo isto enquanto intercaladamente afirmava não desrespeitar a lei inglesa vigente, nem ter cometido nenhum crime, podendo por isso desfiar todos estes horrores em liberdade. Uma liberdade que em diferentes casos subtrairia a outros que não ele.
Mas o realce dogmático de que "a vida dos não-muçulmanos não tem valor algum", ou "este será o século do terror", ou ainda "queremos converter o mundo inteiro ao islamismo" mostra-nos até que ponto este tipo de gente está determinado a prosseguir, ou seja, a atacar qualquer "infiel", a matar o maior número de gente possível ("não há inocentes ou não-inocentes", afirmou), a proclamar o primado da violência. Uma mente destas, suando Waahabismo por todos os lados, não pode deixar de inquietar o comum dos mortais. E revelar-nos um pouco o que podem ser os próximos anos.
O medo e a psicose deste terrorismo do submundo, de rostos duvidosos e que fala árabe, sucede ao do "Equilíbrio do Terror" da Guerra Fria, que por sua vez substituiu os relativos ao fascismo e às guerras mundiais. Somente que agora os autores do terror se encontram subtilmente imiscuídos no cosmopolitismo das sociedades ocidentais desempenhando honestas profissões e mantendo na maior parte dos casos um trato simpático e discreto. É essa máscara que faz com que passem anos de duplicidade, até que um dia são chamados para desempenhar a sua parte na "Djeehad". Uns são impedidos a tempo. Outros não...
Mas o realce dogmático de que "a vida dos não-muçulmanos não tem valor algum", ou "este será o século do terror", ou ainda "queremos converter o mundo inteiro ao islamismo" mostra-nos até que ponto este tipo de gente está determinado a prosseguir, ou seja, a atacar qualquer "infiel", a matar o maior número de gente possível ("não há inocentes ou não-inocentes", afirmou), a proclamar o primado da violência. Uma mente destas, suando Waahabismo por todos os lados, não pode deixar de inquietar o comum dos mortais. E revelar-nos um pouco o que podem ser os próximos anos.
O medo e a psicose deste terrorismo do submundo, de rostos duvidosos e que fala árabe, sucede ao do "Equilíbrio do Terror" da Guerra Fria, que por sua vez substituiu os relativos ao fascismo e às guerras mundiais. Somente que agora os autores do terror se encontram subtilmente imiscuídos no cosmopolitismo das sociedades ocidentais desempenhando honestas profissões e mantendo na maior parte dos casos um trato simpático e discreto. É essa máscara que faz com que passem anos de duplicidade, até que um dia são chamados para desempenhar a sua parte na "Djeehad". Uns são impedidos a tempo. Outros não...
Não partilho contudo do pessimismo de algumas pessoas da nossa praça, que temem um mundo islamizado por tais criaturas a médio prazo, com a bandeira do Islão a flutuar em Downing Street, como exprimiu Bakri. Porque tal mudança ocorreria utilizando o terror e a violência consciente, mais com o intuito de destruir que de conquistar. E tal estratégia nunca surtiu efeito, porque, de Átila a Hitler, o terror sempre acabou por instalar a repulsa generalizada e voltar-se contra os seus criadores. Tal como as messiânicas ideias de dominar o Mundo (embora seja possível influenciá-lo, como os EUA), ainda que de forma contida e inteligente, a exemplo de Alexandre, O Grande. A diversidade da Terra é tão vasta, apesar de um certo tipo de globalização pretender moldá-la de forma unitária, que jamais uma corrente de opinião, ideologia, doutrina ou afim conseguirá dominá-la, para mais usando a intimidação e a chantagem; porque se o medo existe no ser humano, a coragem coexiste com aquele. E a rejeição global do fanatismo muçulmano, tal como começa a surgir em diversos países islâmicos, em especial no seu instigador, o Irão, levará a que as organizações que o defendem impludam qualquer dia. Em que nova ameaça surgirá, sem dúvida, noutras formas...
Mas até esse dia, a Al-Qaeda e Cª continuarão a incomodar, e muito, o resto do Mundo. Da mesma forma dissimulada, cobarde e mortífera, sob os mais variados pretextos. Sobretudo se continuarem as políticas suicidas como a praticada no Iraque, um problema sem ponta por que se lhe pegue, ou pelo actual governo de Israel (bem pior do que o Apartheid, se me é permitido). E só a coragem, a política racional, a compreensão do porquê do fascínio que incute a jovens islamistas e a utilização sábia e inteligente dos serviços secretos poderá vencê-la o mais depressa possível. Sem o que, indubitavelmente, será mais difícil e demorado extirpá-la. De uma vez por todas.
Começa a ser um hábito falar aqui do Dicionário do Diabo, mas estas fotografias da mulher de Salman Rushdie justificam-no. Pedro Mexia, em relação a imagens femininas, tem acertado no vinte. Para além disso, num post mais abaixo intitulado "Ariston", não só é hilariante como ainda menciona uma palavra que já julgava desaparecida do vocabulário português : "Trangalhadanças".
Um aviso sério: se algum dia alguém tiver de ir à Trofa, por favor, não volte ao Porto pela estrada da Maia (a nacional, não a auto), a não ser que queira perder umas quatro horinhas nos arredores suburbano-bucólicos da Invicta.
Por falar nisso, o Porto lá ganhou o campeonato, como se esperava, embora não me apetecesse nada que fosse ontem, uma vez que sobre mim tombou a obrigação de defender o Benfica perante uma boa quinzena de portistas; uma missão inglória, como se suspeita, em que todos os argumentos serviram (embora do lado de lá da barricada tivesse ouvido pérolas do tipo "O Deco é melhor que o Figo", ou "o Deco é tão português como o Eusébio" - sem comentários), sobretudo agora que o Porto tem a Liga dos Campeões ao seu alcance, já que é provável passarem na Corunha, perante um Depor desfalcado. Resta saber, a título de grande curiosidade, se a maldição de Bella "nem em cem anos uma equipa portuguesa voltará a ser bicampeã da Europa" Gutman se tornará a cumprir, como aconteceu ao Benfica. A ver vamos...
Mas não é por isso que o SLB perde a sua enorme legião de fãs; ora veja-se aqui, no ponto 70, até onde vai a sua popularidade.
Ainda falando na bola, a operação Apito Dourado começou a investigar os meandros do futebol por baixo, pelo modesto mas de má memória Gondomar, e promete não ficar por aqui. Miguel Sousa Tavares, que tantas vezes critica a impunidade em Portugal, atirou-se fortemente contra esta investigação, sob o pretexto de ser "a imprensa lisboeta (o DN e o Público são só de Lisboa? Julgava que eram de nível nacional) a querer incriminar Pinto da Costa Sousa Cintra". Não é preciso muito para se chegar à conclusão de que se se tratasse apenas do nome de Sousa Cintra, provavelmente as palavras de MST seriam de sentido inverso. Mas se não já não é apenas a casa do vizinho...
Uma oportuna metáfora do capitalismo em diferentes paragens pode ser encontrada aqui. Veja-se o exemplo de Portugal : acerta no vinte. Fantástico. Ou como diria Rui Baptista, have fun.
Enfim...é 25 de Abril. Passam trinta anos desde a histórica data dos cravos. Mais um. Passado tanto tempo, apenas uma certeza: apesar de tudo, valeu a pena.
E já agora, louvem-se as engenhosas maneiras que o Barnabé arranjou para comemorar o dia, através de cartazes da época e de textos enviados pelos seus leitores. Bem lembrado, sem dúvida.
E amanhã, recomeça a semana. Espera-se que com mais sol.
sexta-feira, abril 16, 2004
Posts Lentos
...e ao fim de uma semana regressei para actualizar A Ágora.
Infelizmente a situação interna não melhorou muito nestes sete dias. O Iraque continua a ser o inferno na Terra, apesar de Bush continuar empenhado na sua "libertação" e "democratização", para não falar da repressão das "facções minoritárias que não representam o povo iraquiano, apoiante da coligação". Para isso, tratou de matar uns seiscentos iraquianos, metade dos quais mulheres e crianças, que como é óbvio, são dos inimigos mais perigosos.
Por muito que se fique repugnado e horrorizado com as imagens dos corpos calcinados dos quatro norte-americanos assassinados na semana passada, a ideia das forças ocupantes (sim, o termo é este) de disparar sobre tudo o que mexa faz-nos pensar que é pior a emenda que o soneto. Mostra claramente a gritante falta de estratégia da coligação para impôr seja que regime fôr no Iraque, de legitimidade aliás duvidosa. As imagens utópicas dos iraquianos recebendo os soldados com bandeirinhas americanas e atirando-lhes flores são de um ridículo atroz quando em contraste com a duríssima realidade: uma população insegura cada vez mais descontente com as forças ocupantes, um exército de radicais que se avoluma a cada dia que passa, a morte e a barbárie à solta por toda Mesopotâmia, o terrorismo a fervilhar e a preparar, quem sabe, novos atentados contra o resto do Mundo, e umas tropas de ocupação que em lugar de defender os locais reagem a golpes de míssil e de canhão. Eis um cenário digno da Divina Comédia.
Agora, quando um exército estrangeiro, baseado em factos falsos e manipulados, sem que tenha sido atacado anteriormente, sem a menor legitimidade ou justificação à luz do Direito Internacional, invade um país, e ás contestações dos indígenas responde provocando centenas de mortos e feridos, atacando além do mais templos religiosos, que se poderá esperar destes? Que sejam compreensivos? Só mesmo alguém demasiado ingénuo ou com uma má-fé visceral poderá afirmar isso. Mas o que é certo é que esses não faltam, baseados em sondagens que dizem que "72% dos iraquianos consideram que a situação é melhor do que no tempo de Saddam". Como se fosse possível fazer um estudo minimamente credível no diabólico caos que por lá se espalhou...
Enfim, nem tudo é assim tão mau. A verdade é que na Páscoa não houve atentados terroristas. Os japoneses feitos reféns e ameaçados de morte horrenda foram postos em liberdade (embora um italiano tenha sido assassinado por mais um grupo de bandoleiros). E a mensagem de Bin Laden, propondo tréguas à Europa, pode bem ser um sinal de fraqueza e de vulnerabilidade, talvez para ganhar tempo. Sobretudo, há que não lho dar.
N´A Praia aparece parte do texto de Pedro Mexia da GR da semana passada, ácerca da noite e dos encantos (a propósito, aquela imagem colectivo-feminina que ele pôs no "Dicionário..." é de extremo bom gosto). Devo dizer que me revejo em muito da tal descrição, já que adquiri igualmente o hábito de estar mais activo à noite nos primeiros anos da faculdade. Não que seja um noctívago no sentido de me deslocar hebdomadariamente pela discoteca ou bar da moda, mas antes por apreciar especialmente estas horas do dia (!), em que a inspiração, a vervee o entusiasmo chegam com mais fluidez. Os meus posts, por exemplo, são quase 100% nocturnos (apesar da hora em baixo assim não o indicar). Estive mesmo vai - não vai para apelidar de "Blog Nocturno" isto que os prezados leitores têm pela frente, mas felizmente uma qualquer hora tardia sussurou-me "A Ágora".
Pudesse eu escolher as horas do meu próprio trabalho e não me deitaria senão ao nascer do dia, já que este é o cenário mais belo e majestoso que um ser pode exigir. Assim não o quer o destino actual, que me vai obrigar a deitar não tarda nada, obrigado que sou a levantar-me a uma hora pouco católica. Quem sabe um dia consiga ser um escritor famoso, ou um DJ, ou um guarda-nocturno, ou qualquer profissão que me permita estar acordado de noite. Tudo para ver a ascensão de mais um dia radioso, antes das horas em que o bulício amaina e as estrelas reaparecem.
Se o vinho é alegria e o campo representa a paz, então uma ou várias vinhas representarão a junção entre estes dois elementos, e bem assim um cenário idílico. Deve ser por isso que a visão de uma região vinhateira me dá uma tão grande sensação de paz e reconciliação com a vida. Ainda que numa altura longe das vindimas, como na Páscoa. E se o tempo estiver soalheiro, nem se fala. A vista de vinhedos, pomares e montanhas de tom doce e macio é a mais conciliadora que conheço. Pudesse toda a humanidade usufruír de tanto. Embora haja os que preferem os cenários tropicais.
Mas bom mesmo é poder estar só num terraço, gozando o sol primaveril da tarde, com um bom livro nas mãos, campos e pinhais à esquerda, latadas e vinhas à frente, pomares e choupos à direita, e, atrás destes, o suave perfil da serra a subir lentamente, formando o Parque Natural. Tudo acompanhado pelo canto dos pássaros e pelo zumbido dos insectos.
Se tivesse possibilidade, passava deste modo o resto da semana. Mas a Páscoa acabou, e a realidade citadina obrigou-me a esquecer o bucolismo. O pior é que não conseguiu. Malditos sejam o regresso ao trabalho e a nostalgia!
...e ao fim de uma semana regressei para actualizar A Ágora.
Infelizmente a situação interna não melhorou muito nestes sete dias. O Iraque continua a ser o inferno na Terra, apesar de Bush continuar empenhado na sua "libertação" e "democratização", para não falar da repressão das "facções minoritárias que não representam o povo iraquiano, apoiante da coligação". Para isso, tratou de matar uns seiscentos iraquianos, metade dos quais mulheres e crianças, que como é óbvio, são dos inimigos mais perigosos.
Por muito que se fique repugnado e horrorizado com as imagens dos corpos calcinados dos quatro norte-americanos assassinados na semana passada, a ideia das forças ocupantes (sim, o termo é este) de disparar sobre tudo o que mexa faz-nos pensar que é pior a emenda que o soneto. Mostra claramente a gritante falta de estratégia da coligação para impôr seja que regime fôr no Iraque, de legitimidade aliás duvidosa. As imagens utópicas dos iraquianos recebendo os soldados com bandeirinhas americanas e atirando-lhes flores são de um ridículo atroz quando em contraste com a duríssima realidade: uma população insegura cada vez mais descontente com as forças ocupantes, um exército de radicais que se avoluma a cada dia que passa, a morte e a barbárie à solta por toda Mesopotâmia, o terrorismo a fervilhar e a preparar, quem sabe, novos atentados contra o resto do Mundo, e umas tropas de ocupação que em lugar de defender os locais reagem a golpes de míssil e de canhão. Eis um cenário digno da Divina Comédia.
Agora, quando um exército estrangeiro, baseado em factos falsos e manipulados, sem que tenha sido atacado anteriormente, sem a menor legitimidade ou justificação à luz do Direito Internacional, invade um país, e ás contestações dos indígenas responde provocando centenas de mortos e feridos, atacando além do mais templos religiosos, que se poderá esperar destes? Que sejam compreensivos? Só mesmo alguém demasiado ingénuo ou com uma má-fé visceral poderá afirmar isso. Mas o que é certo é que esses não faltam, baseados em sondagens que dizem que "72% dos iraquianos consideram que a situação é melhor do que no tempo de Saddam". Como se fosse possível fazer um estudo minimamente credível no diabólico caos que por lá se espalhou...
Enfim, nem tudo é assim tão mau. A verdade é que na Páscoa não houve atentados terroristas. Os japoneses feitos reféns e ameaçados de morte horrenda foram postos em liberdade (embora um italiano tenha sido assassinado por mais um grupo de bandoleiros). E a mensagem de Bin Laden, propondo tréguas à Europa, pode bem ser um sinal de fraqueza e de vulnerabilidade, talvez para ganhar tempo. Sobretudo, há que não lho dar.
N´A Praia aparece parte do texto de Pedro Mexia da GR da semana passada, ácerca da noite e dos encantos (a propósito, aquela imagem colectivo-feminina que ele pôs no "Dicionário..." é de extremo bom gosto). Devo dizer que me revejo em muito da tal descrição, já que adquiri igualmente o hábito de estar mais activo à noite nos primeiros anos da faculdade. Não que seja um noctívago no sentido de me deslocar hebdomadariamente pela discoteca ou bar da moda, mas antes por apreciar especialmente estas horas do dia (!), em que a inspiração, a vervee o entusiasmo chegam com mais fluidez. Os meus posts, por exemplo, são quase 100% nocturnos (apesar da hora em baixo assim não o indicar). Estive mesmo vai - não vai para apelidar de "Blog Nocturno" isto que os prezados leitores têm pela frente, mas felizmente uma qualquer hora tardia sussurou-me "A Ágora".
Pudesse eu escolher as horas do meu próprio trabalho e não me deitaria senão ao nascer do dia, já que este é o cenário mais belo e majestoso que um ser pode exigir. Assim não o quer o destino actual, que me vai obrigar a deitar não tarda nada, obrigado que sou a levantar-me a uma hora pouco católica. Quem sabe um dia consiga ser um escritor famoso, ou um DJ, ou um guarda-nocturno, ou qualquer profissão que me permita estar acordado de noite. Tudo para ver a ascensão de mais um dia radioso, antes das horas em que o bulício amaina e as estrelas reaparecem.
Se o vinho é alegria e o campo representa a paz, então uma ou várias vinhas representarão a junção entre estes dois elementos, e bem assim um cenário idílico. Deve ser por isso que a visão de uma região vinhateira me dá uma tão grande sensação de paz e reconciliação com a vida. Ainda que numa altura longe das vindimas, como na Páscoa. E se o tempo estiver soalheiro, nem se fala. A vista de vinhedos, pomares e montanhas de tom doce e macio é a mais conciliadora que conheço. Pudesse toda a humanidade usufruír de tanto. Embora haja os que preferem os cenários tropicais.
Mas bom mesmo é poder estar só num terraço, gozando o sol primaveril da tarde, com um bom livro nas mãos, campos e pinhais à esquerda, latadas e vinhas à frente, pomares e choupos à direita, e, atrás destes, o suave perfil da serra a subir lentamente, formando o Parque Natural. Tudo acompanhado pelo canto dos pássaros e pelo zumbido dos insectos.
Se tivesse possibilidade, passava deste modo o resto da semana. Mas a Páscoa acabou, e a realidade citadina obrigou-me a esquecer o bucolismo. O pior é que não conseguiu. Malditos sejam o regresso ao trabalho e a nostalgia!
quinta-feira, abril 08, 2004
Posts céleres
Aquele anúncio que agora anda para aí, do apaixonado impetuoso que corre para oferecer a flor à menina dos seus olhos, e que se vê suplantado pelo descontraído rival que se antecipa com uma MMS, é um símbolo de como o moderno materialismo suplanta por vezes o Amor. A moral do anúncio é de que os MMS conseguem o mesmo efeito por vias mais céleres. Mas o que custa é ver a presumível "derrota" do que correu mais, e, pior do que isso, a indiferença da menina ao seu esforço perante a superioridade tecnológica do rival. Ela prefere a imagem de uma flor digitalizada a poder tocar, sentir ou arrancar as pétalas à autêntica. Um sinal dos tempos? Ou a absoluta veia comercial e mercantilista de alguns, que lhes tolda toda e qualquer emoção ou sentimento mais arrebatador?
De uma forma ou de outra, estou do lado do tipo que corre. E espero que na continuação, a menina atire o telemóvel ao ar e se abrace apaixonadamente ao velocista e à sua flor autêntica.
Não olho para as notícias "de última hora" do Iraque que anunciam novos mortos, novos atentados ou novos ataques com grande espanto. Qualquer barbaridade vinda daquele território parece-me normal. É duro e insano, mas é mesmo assim. Bush dizia há um ano que o Mundo estava mais seguro. Não sei qual a sua medida de segurança. Mas na minha perspectiva, e suponho que na de qualquer pessoa com dois dedos de testa, este Mundo está um lugar bem pior para se viver. Onde quer que se vá e se esteja. Se esta Administração Americana precisava de mais provas de inépcia e embrutecimento, elas estão dadas.
Mas como é tempo de Páscoa, retiro-me para o Portugal semi-profundo. Mais posts só para a semana. E este ano, ao menos, o tempo parece querer dar algumas tréguas. Aproveitê-mo-lo, pois. Boa Páscoa a todos!
Aquele anúncio que agora anda para aí, do apaixonado impetuoso que corre para oferecer a flor à menina dos seus olhos, e que se vê suplantado pelo descontraído rival que se antecipa com uma MMS, é um símbolo de como o moderno materialismo suplanta por vezes o Amor. A moral do anúncio é de que os MMS conseguem o mesmo efeito por vias mais céleres. Mas o que custa é ver a presumível "derrota" do que correu mais, e, pior do que isso, a indiferença da menina ao seu esforço perante a superioridade tecnológica do rival. Ela prefere a imagem de uma flor digitalizada a poder tocar, sentir ou arrancar as pétalas à autêntica. Um sinal dos tempos? Ou a absoluta veia comercial e mercantilista de alguns, que lhes tolda toda e qualquer emoção ou sentimento mais arrebatador?
De uma forma ou de outra, estou do lado do tipo que corre. E espero que na continuação, a menina atire o telemóvel ao ar e se abrace apaixonadamente ao velocista e à sua flor autêntica.
Não olho para as notícias "de última hora" do Iraque que anunciam novos mortos, novos atentados ou novos ataques com grande espanto. Qualquer barbaridade vinda daquele território parece-me normal. É duro e insano, mas é mesmo assim. Bush dizia há um ano que o Mundo estava mais seguro. Não sei qual a sua medida de segurança. Mas na minha perspectiva, e suponho que na de qualquer pessoa com dois dedos de testa, este Mundo está um lugar bem pior para se viver. Onde quer que se vá e se esteja. Se esta Administração Americana precisava de mais provas de inépcia e embrutecimento, elas estão dadas.
Mas como é tempo de Páscoa, retiro-me para o Portugal semi-profundo. Mais posts só para a semana. E este ano, ao menos, o tempo parece querer dar algumas tréguas. Aproveitê-mo-lo, pois. Boa Páscoa a todos!
segunda-feira, abril 05, 2004
Lamentavelmente, esqueci-me de referir nos últimos posts a morte do genial Peter Ustinov. Sempre que o via em mais um filme, ou em alguma acção pela UNICEF, uma das coisas que mais me ocorria era que o ex-Nero, Poirot, assaltante de jóias ("uma profissão" que me atrairia no plano concreto se tivesse alma de larápio e alguma coragem romanesca), etc, ainda durasse um bom par de anos. Ficou até onde o tempo lhe permitiu. Numa pacata casa junto a um lago suíço. Paz à sua alma. E eterna audiência aos seus filmes.
Para que tais esquecimentos não se repitam desde já, aproveito a adenda da Janela Para o Rio, que se lembrou dos aniversários dos desaparecimentos de Kurt Cobain e Martin Luther King.
Do primeiro apenas penso: dez anos? Já? Então já se passou uma década desde que, à porta dos Convívios, envergando a minha camisa aos quadrados desfraldada (um tipo de vestuário tipicamente "Anos 90", que ainda uso), ouvi de outros teenagers cabisbaixos a notícia do tiro de carabina que iniciou a queda do Grunge? Deus meu! Se não me engano, daqui a dias comemorar-se-á igualmente o adeus de Senna. Lembram-se? Já lá vão dez anos. E já então Schumacker se afirmava nos circuitos, ao mesmo tempo que se protestava contra as provas globais, ganhando-se assim o epíteto de "Geração Rasca".
Quanto a Luther King, só tenho a dizer que outros activistas como ele fazem uma falta danada a este mundo feroz e amedrontado no qual vivemos. Não haverá uns quantos? É que Mandela já tem certa idade, e Xanana merece algum sossego.
Ontem foram mortos uns quantos elementos terroristas em Leganés, arredores de Madrid. Se fiquei preocupado quando morreu o sheik Yassin, por razões proporcionais pensei agora : "menos cinco fanáticos". É que desta vez até foram os próprios a imolar-se. Pena que não haja mais a matar-se tranquilamente, sem aborrecer o próximo. E mais pena ainda a morte do pobre polícia espanhol, de 41 anos e pai de filhos, em consequência da explosão. Esses sim, são verdadeiros mártires da preservação da nossa liberdade e segurança.
O Porto perdeu, Aleluias sejam dadas (sobretudo em tempo pascal)! Embora isso em nada altere o inexorável caminho rumo a revalidação do título, esta é mais uma época em os recordes detidos pelo SLB não vão ser alcançados - 52 jogos sem perder e uma época inteira sem derrotas. É por coisas assim que alguns clubes serão sempre gloriosos, diga-se o que se disser. Ou melhor, determinado clube é sempre O Glorioso.
Recebi alguns mails, presumivelmente de outros bloggers, que por razões que desconheço não consegui abrir. Por isso peço encarecidamente que, se possível, não me enviem ficheiros agarrados; escrevam directamente as vossas mensagens. Eu sei que custa, mas é a única hipótese. Por isso, as minhas desculpas por esse incómodo.
Para que tais esquecimentos não se repitam desde já, aproveito a adenda da Janela Para o Rio, que se lembrou dos aniversários dos desaparecimentos de Kurt Cobain e Martin Luther King.
Do primeiro apenas penso: dez anos? Já? Então já se passou uma década desde que, à porta dos Convívios, envergando a minha camisa aos quadrados desfraldada (um tipo de vestuário tipicamente "Anos 90", que ainda uso), ouvi de outros teenagers cabisbaixos a notícia do tiro de carabina que iniciou a queda do Grunge? Deus meu! Se não me engano, daqui a dias comemorar-se-á igualmente o adeus de Senna. Lembram-se? Já lá vão dez anos. E já então Schumacker se afirmava nos circuitos, ao mesmo tempo que se protestava contra as provas globais, ganhando-se assim o epíteto de "Geração Rasca".
Quanto a Luther King, só tenho a dizer que outros activistas como ele fazem uma falta danada a este mundo feroz e amedrontado no qual vivemos. Não haverá uns quantos? É que Mandela já tem certa idade, e Xanana merece algum sossego.
Ontem foram mortos uns quantos elementos terroristas em Leganés, arredores de Madrid. Se fiquei preocupado quando morreu o sheik Yassin, por razões proporcionais pensei agora : "menos cinco fanáticos". É que desta vez até foram os próprios a imolar-se. Pena que não haja mais a matar-se tranquilamente, sem aborrecer o próximo. E mais pena ainda a morte do pobre polícia espanhol, de 41 anos e pai de filhos, em consequência da explosão. Esses sim, são verdadeiros mártires da preservação da nossa liberdade e segurança.
O Porto perdeu, Aleluias sejam dadas (sobretudo em tempo pascal)! Embora isso em nada altere o inexorável caminho rumo a revalidação do título, esta é mais uma época em os recordes detidos pelo SLB não vão ser alcançados - 52 jogos sem perder e uma época inteira sem derrotas. É por coisas assim que alguns clubes serão sempre gloriosos, diga-se o que se disser. Ou melhor, determinado clube é sempre O Glorioso.
Recebi alguns mails, presumivelmente de outros bloggers, que por razões que desconheço não consegui abrir. Por isso peço encarecidamente que, se possível, não me enviem ficheiros agarrados; escrevam directamente as vossas mensagens. Eu sei que custa, mas é a única hipótese. Por isso, as minhas desculpas por esse incómodo.
terça-feira, março 30, 2004
De volta de Paris
Uma semana depois, eis-me de volta, regressado que estou da "Ville Lumiére". A fazer jus ao nome. A luminosidade de Paris no Domingo, dia das eleições, fazia inveja ás esconsas nuvens que cobriam o céu portuense. A Primavera já lá chegou, enfim, com o suplemento de Chirac e a sua política de semi-gaullismo sinuoso estarem no ocaso. Resta saber qual o futuro da política em França, já que os vencedores da hora, o PSF, PCF, Verdes e a Gauche des Citoyens não são movimentos lá muito actualizados. Parece-me que esta amálgama está longe do "Big-Bang" reclamado por Michel Rocard há dez anos atrás, em que propunha um novo partido de centro-esquerda centrado nos socialistas, ecologistas e defensores dos direitos humanos. Desde então, nada foi feito ou proposto.
À direita o panorama é ainda menos animador. Reféns de uma geração que anda pela política há quase 40 anos, Chiracs, Giscars e outros tantos, os liberais e gaullistas estão sem referências e sem rumo, não sabendo muito bem a quem recorrer. Está visto que a nova UMP, aglutinadora do ex-RPR e de parte da UDF, nada trouxe de novo, e não passou de nova jogada do Presidente para recuperar forças. Para sua consolação, a Frente Nacional, que poderia muito bem ter aproveitado a psicose do terrorismo para crescer ainda mais, ficou aquém do previsto.
Só não compreendo aqueles que em Portugal vieram dizer que tinha sido o voto dos eleitores "contra a política de confronto com os EUA protagonizada por Chirac", a propósito da guerra do Iraque. Essas pessoas saberão quem ganhou as eleições, serão ignorantes ou tomar-nos-ão simplesmente por parvos? Qualquer resposta é viável, mas outras haverá, igualmente pertinentes, que respondam a tamanhos disparates.
A confusão dos meandros da política reflecte-se nas medidas sociais e, consequentemente, na rua. Os protestos nunca foram escusados em França, mas agora há um autêntico fartar vilanagem. Quando passava em frente à Ópera (sim, a do Fantasma da dita), e em direcção à Madeleine, uma enorme manifestação de bombeiros, cobertos com respectivos capacetes e brandindo até bandeiras da Bretanha e do País Basco (para além da inevitável CGT), carregou sobre as barreiras organizadas pela polícia de choque, que respondeu com jactos de água. Perante petardos, very-lights e outros objectos arremessados pelos "soldados da paz" (nunca este epíteto poderia ser mais irónico do que aqui), as forças da ordem recorreram então ao gás lacrimogéneo. Qual repórter no calor da guerra, o que escreve estas linhas, que estava no local a registar fotograficamente o evento, teve de fugir dali rapidamente, acompanhado pelos seus companheiros de viagem. Os minúsculos pátios daqueles prédio centenários que constituem os boulevards podem muito bem servir de refúgio num caso destes, não obstante deixarem passar réstias do ardente gás, e foi exactamente o caso. Aconselho quem quer que seja a não querer saber como são tais descargas gasosas, que muito se irá arrepender, nem se fie nos que ao lado estiveram no Maio de 68, "que aquilo sim, aquilo é que era a sério". Mas não precisei de mais coisas "sérias" para ver um protesto "à la grande et à la française". Nem esperei muito tempo no local, mas ainda pude ver a turba em retirada, apesar dos apelos vigorosos dos seus comandantes, dirigindo-se para a Place Vendôme, onde se situava outra barreira policial. Um very-light voou mesmo por cima do Hotel Ritz, estragando o toldo de uma ourivesaria das imediações. Para mim era porém o epílogo da tarde proletária; tinha de me despachar para um compromisso numa noite burguesa, na mais recatada Montmartre.
Enfim, "Paris é uma festa", como dizia Hemingway. Curioso é como a Sorbonne e o Boul Mich´estiveram tão calmos nesses dias.
Ah! Só um acontecimento triste perturbou o brilho parisiense: a injusta, heróica e de todo imerecida eliminação do SLB pelo Inter. Não vi o jogo, apenas ouvi o desenrolar do marcador por sms constantes, mas pelo que todos dizem, nada teria sido mais justo que a passagem do Benfica. A falta de experiência, os (eternos) erros defensivos, uma arbitragem habilidosa, algum azar à mistura e sobretudo a falta de golos da 1ª mão determinaram a queda do SLB. De pé, como as árvores.
E como talvez cá não volte antes, há que não esquecer que os Blóscares são já no apropriado dia 1 de Abril. A Ágora não recebeu qualquer nomeação, mas já se sabe como é a indústria dos blogs comerciais: alguns dos melhores, por não serem tão visíveis, ficam de fora.
Ainda assim, é tempo de preparar o smoking e a faixa para a gala que se avizinha, com o inevitável glamour, sobretudo o feminino, claro. Quem não puder estar lá sempre pode acompanhar pela Origem do Amor, que obteve a transmissão exclusiva do evento.
quarta-feira, março 24, 2004
Quem se importa com a morte do sheik Yassin? Eu. Importo-me porque as consequências do seu assassinato poderão ser desastrosas. Como qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe à primeira.
Lá porque o sheik era um velhinho paraplégico e meio cego que vivia numa casa modesta de Gaza não impede que tenha sido ele a mandar hordas de "mártires" para o suicídio, muitos dos quais já levavam essa lavagem cerebral desde sempre. Agora, assassínios selectivos não podem fazer parte do programa de um estado de direito. Por aí se comprova que Israel, sendo uma democracia, não é realmente um estado de direito, sobretudo se comparação for feita com Espanha e a ETA (ninguém viu Bilbao enxameada de tanques, pois não? E os GAL foram desmantelados e punidos). E já agora, a atitude dos EUA, com declarações do tipo "nós não fomos avisados, não tomamos parte activa nisto, mas achamos muito bem", é meritória de um país que envia anualmente centenas de pessoas para o corredor da morte. Sem que os índices de criminalidade diminuam, diga-se de passagem.
A propósito, um dos países que anda desavindo com os EUA é a França. Imperdoável a forma como todos se esqueceram dos 200 anos do Code Civil (eu incluído), um instrumento essencial para a construção do Direito na Europa. Se o código napoleónico está hoje algo ultrapassado, não deixou todavia de influenciar a construção das leis que regulam os cidadãos nas suas inúmeras circunstâncias e casos, obtendo soluções que pretendem resolver os problemas mais banais do dia-a-dia. Ou seja, os mais importantes. Não sei porque é que não se falou mais da efeméride, mas calculo que o anglo-saxonismo dominante não lhe tenha dado grande espaço. Felizmente, em boa hora Vital Moreira nos lembrou de tal.
E é precisamente para França e para a sua luminosa capital (apesar do clima duvidoso) que parto amanhã. Apenas por meros 5 dias. Assim sendo, A Ágora só volta para a semana. Até lá; espero que se portem todos bem!
Lá porque o sheik era um velhinho paraplégico e meio cego que vivia numa casa modesta de Gaza não impede que tenha sido ele a mandar hordas de "mártires" para o suicídio, muitos dos quais já levavam essa lavagem cerebral desde sempre. Agora, assassínios selectivos não podem fazer parte do programa de um estado de direito. Por aí se comprova que Israel, sendo uma democracia, não é realmente um estado de direito, sobretudo se comparação for feita com Espanha e a ETA (ninguém viu Bilbao enxameada de tanques, pois não? E os GAL foram desmantelados e punidos). E já agora, a atitude dos EUA, com declarações do tipo "nós não fomos avisados, não tomamos parte activa nisto, mas achamos muito bem", é meritória de um país que envia anualmente centenas de pessoas para o corredor da morte. Sem que os índices de criminalidade diminuam, diga-se de passagem.
A propósito, um dos países que anda desavindo com os EUA é a França. Imperdoável a forma como todos se esqueceram dos 200 anos do Code Civil (eu incluído), um instrumento essencial para a construção do Direito na Europa. Se o código napoleónico está hoje algo ultrapassado, não deixou todavia de influenciar a construção das leis que regulam os cidadãos nas suas inúmeras circunstâncias e casos, obtendo soluções que pretendem resolver os problemas mais banais do dia-a-dia. Ou seja, os mais importantes. Não sei porque é que não se falou mais da efeméride, mas calculo que o anglo-saxonismo dominante não lhe tenha dado grande espaço. Felizmente, em boa hora Vital Moreira nos lembrou de tal.
E é precisamente para França e para a sua luminosa capital (apesar do clima duvidoso) que parto amanhã. Apenas por meros 5 dias. Assim sendo, A Ágora só volta para a semana. Até lá; espero que se portem todos bem!
segunda-feira, março 22, 2004
Depois de tudo o que li na semana que passou sobre os efeitos das eleições em Espanha, sobretudo na blogoesfera, apetecia-me fazer um longo e esclarecedor post. Mas como é tarde e não estou para isso, apenas direi o seguinte:
- a posição de Zapatero é realmente precipitada. É certo que a guerra do Iraque é ilegítima, perigosa e obscura. Mas retirar as tropas estacionadas sem mais não é razoável. Agora que o mal está feito, há que levar a difícil empresa até ao fim. Posso admitir é que o próximo Presidente do Governo espanhol tenha dito isso para justificar uma futura presença da ONU na região.
-pior do que isso só a posição de Mário Soares, quanto a "negociar com os terroristas". É tristemente espantoso verificar como o "Bochechas", hábil animal político por natureza, possa ter proferido uma afirmação dessas em relação a um grupo de assassinos raivosos como é a Al-Qaeda. Ou confundi-la com os movimentos de libertação africanos, cujos objectivos eram até justificáveis. É que pode-se negociar com a UNITA, MPLA ou FRELIMO. Pode-se negociar com as FARC, os Tigres Tâmil ou o IRA. No limite, de estômago agoniado, talvez até com o Hamas e a ETA. Mas nunca, em ocasião alguma, com a Al-Qaeda.
Soluções contra o terrorismo? Já o disse atrás: acabar com as madrassas Wahaabitas, congelar os fundos das organizações terroristas, e, claro, continuar com a vertente armada no Afeganistão/Paquistão. A luta anti-terrorista também passa por aí, quer queiramos quer não. Quanto ao resto, lamento, mas já o disse no post anterior.
Ontem passou um ano que começou a guerra. Nessa altura estava mais próximo do Iraque que de Portugal; mais precisamente na Grécia. Na madrugada em que começaram os bombardeamentos assisti a uma manifestação de iraquianos em frente à embaixada americana em Atenas. De carácter muito pouco religioso, diga-se, antes nacionalista, mas que não era exactamente um agradecimento aos EUA pela "libertação". Durante esses dias, aliás, os helenos também se mostraram muito cépticos quanto ao empreendimento da guerra, governo incluído. As manifestações no dia 21 foram de tal ordem que Atenas ficou completamente em estado de sítio.
Por isso mesmo, aproveitei a oportunidade que os protestos me concederam para dar um salto ao Cabo Sunion (cujas impressões publicarei num post vindouro). Nesse promontório abrupto sobre o azul do Egeu, à sombra das colunas de Poseidon, sob sol helénico, consegui não me lembrar em momento algum do conflito que se começava a travar em terras da Mesopotâmia, a mil e tal kms dali. Como se sentisse toda a inspiração, todo o magnífico ideal que originou a Democracia ateniense. Como seria desejável que Saddams, Osamas ou Sharons sentissem igualmente. Mas pelo menos uma convicção inabalável: há na realidade lugares que tocam e influenciam um ser. Percebe-se como pôde Péricles vir dali. E a Ágora também.
Certos blogs, que à partida pareciam de um humor e qualidade exepcionais, revelam-se amargas desilusões. É o caso paradigmático do Homem-a-dias, que me começa a irritar solenemente. Para além do tom arrogante e até grosseiro que por vezes usa, deu-lhe não só para argumentar que os palestinianos sâo um povo fictício (não hesitando em pôr-lhes aspas para os nomear) como acha inclusivamente que o Paquistão, Marrocos e Jordânia não são sequer países! Embora eu não aprecie grandemente a Indonésia e a Coreia do Norte, não é por isso que lhes deixo de reconhecer efectividade. Tendo em conta que o estado de Israel, que o dilecto blogger tanto aprecia, é mais jovem que dois dos referidos estados, podia já agora negar-lhe a existência, não? Ou tudo isto não passará de um enormíssimo sentimento anti-árabe?
Por outro lado, há blogs que são iguais a si mesmos e que quando acabam deixam infindáveis saudades. Pois é; o Desejo Casar, talvez o meu blog favorito (ex-aqeo com mais dois ou três), despede-se de nós. Não necessariamente os seus autores, mas o espaço em si, portador das melhores páginas que foram escritas "online" em Portugal. A mim deixa-me saudades, não só por isso mas por ter sido aquele que me levou a interessar pelo maravilhoso mundo dos blogs, e a criar o meu próprio. Por isso, e por tantas outras razões inexprimíveis, espero que os seus autores não o apaguem, conservando o pequeno tesouro que é, e que oportunamente dêem o nó, enfim.
Até sempre, DC. A Ágora está-lhes infinitamente grata.
- a posição de Zapatero é realmente precipitada. É certo que a guerra do Iraque é ilegítima, perigosa e obscura. Mas retirar as tropas estacionadas sem mais não é razoável. Agora que o mal está feito, há que levar a difícil empresa até ao fim. Posso admitir é que o próximo Presidente do Governo espanhol tenha dito isso para justificar uma futura presença da ONU na região.
-pior do que isso só a posição de Mário Soares, quanto a "negociar com os terroristas". É tristemente espantoso verificar como o "Bochechas", hábil animal político por natureza, possa ter proferido uma afirmação dessas em relação a um grupo de assassinos raivosos como é a Al-Qaeda. Ou confundi-la com os movimentos de libertação africanos, cujos objectivos eram até justificáveis. É que pode-se negociar com a UNITA, MPLA ou FRELIMO. Pode-se negociar com as FARC, os Tigres Tâmil ou o IRA. No limite, de estômago agoniado, talvez até com o Hamas e a ETA. Mas nunca, em ocasião alguma, com a Al-Qaeda.
Soluções contra o terrorismo? Já o disse atrás: acabar com as madrassas Wahaabitas, congelar os fundos das organizações terroristas, e, claro, continuar com a vertente armada no Afeganistão/Paquistão. A luta anti-terrorista também passa por aí, quer queiramos quer não. Quanto ao resto, lamento, mas já o disse no post anterior.
Ontem passou um ano que começou a guerra. Nessa altura estava mais próximo do Iraque que de Portugal; mais precisamente na Grécia. Na madrugada em que começaram os bombardeamentos assisti a uma manifestação de iraquianos em frente à embaixada americana em Atenas. De carácter muito pouco religioso, diga-se, antes nacionalista, mas que não era exactamente um agradecimento aos EUA pela "libertação". Durante esses dias, aliás, os helenos também se mostraram muito cépticos quanto ao empreendimento da guerra, governo incluído. As manifestações no dia 21 foram de tal ordem que Atenas ficou completamente em estado de sítio.
Por isso mesmo, aproveitei a oportunidade que os protestos me concederam para dar um salto ao Cabo Sunion (cujas impressões publicarei num post vindouro). Nesse promontório abrupto sobre o azul do Egeu, à sombra das colunas de Poseidon, sob sol helénico, consegui não me lembrar em momento algum do conflito que se começava a travar em terras da Mesopotâmia, a mil e tal kms dali. Como se sentisse toda a inspiração, todo o magnífico ideal que originou a Democracia ateniense. Como seria desejável que Saddams, Osamas ou Sharons sentissem igualmente. Mas pelo menos uma convicção inabalável: há na realidade lugares que tocam e influenciam um ser. Percebe-se como pôde Péricles vir dali. E a Ágora também.
Certos blogs, que à partida pareciam de um humor e qualidade exepcionais, revelam-se amargas desilusões. É o caso paradigmático do Homem-a-dias, que me começa a irritar solenemente. Para além do tom arrogante e até grosseiro que por vezes usa, deu-lhe não só para argumentar que os palestinianos sâo um povo fictício (não hesitando em pôr-lhes aspas para os nomear) como acha inclusivamente que o Paquistão, Marrocos e Jordânia não são sequer países! Embora eu não aprecie grandemente a Indonésia e a Coreia do Norte, não é por isso que lhes deixo de reconhecer efectividade. Tendo em conta que o estado de Israel, que o dilecto blogger tanto aprecia, é mais jovem que dois dos referidos estados, podia já agora negar-lhe a existência, não? Ou tudo isto não passará de um enormíssimo sentimento anti-árabe?
Por outro lado, há blogs que são iguais a si mesmos e que quando acabam deixam infindáveis saudades. Pois é; o Desejo Casar, talvez o meu blog favorito (ex-aqeo com mais dois ou três), despede-se de nós. Não necessariamente os seus autores, mas o espaço em si, portador das melhores páginas que foram escritas "online" em Portugal. A mim deixa-me saudades, não só por isso mas por ter sido aquele que me levou a interessar pelo maravilhoso mundo dos blogs, e a criar o meu próprio. Por isso, e por tantas outras razões inexprimíveis, espero que os seus autores não o apaguem, conservando o pequeno tesouro que é, e que oportunamente dêem o nó, enfim.
Até sempre, DC. A Ágora está-lhes infinitamente grata.
quarta-feira, março 17, 2004
Nova semana, assuntos de véspera. A notícia do momento continua a ser o atentado de Madrid, associado à surpreendente vitória do velho PSOE do jovem Zapatero (o apelido respeitará à profissão ou será uma influência de Zapata?) e ás mentiras do PP quando mais tinha de estar ao lado dos espanhóis e transmitir-lhes confiança. Falharam no momento mais decisivo e pagaram o erro muito caro. Se o resultdo foi benéfico ou não, o futuro o dirá. Mas há duas coisas que constato: uma, é que o povo espanhol mostrou que a sua democracia é realmente sólida e madura, como se sabe desde a tentativa de golpe de estado de Tejero; outra é a comparação entre os dirigentes do PP a gerir o pós-atentado e a forma transparente e humana, além de vitoriosa, como Guterres conduziu o processo de Timor, em Setembro de 99. Nunca como aí o ex-PM teve tanta popularidade (merecida, diga-se). Até porque esse era sem dúvida um momento decisivo.
Ou não ouvi bem, ou este Ministro da Administração Interna é completamente obtuso: então não é que Figueiredo Lopes considera não ser necessário controlar as fronteiras nacionais durante o período do Euro-2004 ( e portanto dos festivais Rock), ao contrário do que pensa o responsável da segurança pelo evento desportivo? Chama-se a isto ser crente, é o que é; ou muito simplesmente, inepto.
Por falar em festivais de Rock: fala-se no Rock in Rio, mas o melhor cartaz está sem dúvida no SuperBock-SuperRock, com os fantásticos Pixies à cabeça. Soube a esse respeito da existência, via Aviz, de um blog contra o evento que veio do Brasil. A princípio pensei que tinha piada, mas passado o entusiasmo inicial tenho as maiores dúvidas: é que se se põem a denegrir o pindérico acontecimento e a elogiar demasiado o SuperBock, os bilhetes para o segundo esgotam-se em menos de um sopro. Ora não convinha nada que isso acontecesse, uma vez que é minha intenção lá ir, mas, dada a condição de morador na cidade do Porto, e estando Junho ainda distante, planeava comprar o "ticket" lá para Maio. Veremos se não terei de rever prioridades...
Já falei disso há semanas atrás, mas a situação deteriorou-se consideravelmente. Moledo está de novo ameaçado pelas ondas do mar. Metade da sua duna é já uma recordação. Da antiga praia nem é bom falar. As casa em frente ao mar estão severamente ameaçadas de queda no Atlântico. Entre as quais a de minha avó. Aquela que me acompanha desde a mais tenra infância. Onde pairam as mais vetustas recordações. Prestes a desaparecer da forma mais terrível.
Nem o facto da casa onde Durão Barroso passa habitualmente as suas férias ser igualmente ameaçada deverá valer de algo. Por culpa das entidades territoriais e autárquicas, Moledo do Minho deverá estar mesmo com os dias contados.
Ou não ouvi bem, ou este Ministro da Administração Interna é completamente obtuso: então não é que Figueiredo Lopes considera não ser necessário controlar as fronteiras nacionais durante o período do Euro-2004 ( e portanto dos festivais Rock), ao contrário do que pensa o responsável da segurança pelo evento desportivo? Chama-se a isto ser crente, é o que é; ou muito simplesmente, inepto.
Por falar em festivais de Rock: fala-se no Rock in Rio, mas o melhor cartaz está sem dúvida no SuperBock-SuperRock, com os fantásticos Pixies à cabeça. Soube a esse respeito da existência, via Aviz, de um blog contra o evento que veio do Brasil. A princípio pensei que tinha piada, mas passado o entusiasmo inicial tenho as maiores dúvidas: é que se se põem a denegrir o pindérico acontecimento e a elogiar demasiado o SuperBock, os bilhetes para o segundo esgotam-se em menos de um sopro. Ora não convinha nada que isso acontecesse, uma vez que é minha intenção lá ir, mas, dada a condição de morador na cidade do Porto, e estando Junho ainda distante, planeava comprar o "ticket" lá para Maio. Veremos se não terei de rever prioridades...
Já falei disso há semanas atrás, mas a situação deteriorou-se consideravelmente. Moledo está de novo ameaçado pelas ondas do mar. Metade da sua duna é já uma recordação. Da antiga praia nem é bom falar. As casa em frente ao mar estão severamente ameaçadas de queda no Atlântico. Entre as quais a de minha avó. Aquela que me acompanha desde a mais tenra infância. Onde pairam as mais vetustas recordações. Prestes a desaparecer da forma mais terrível.
Nem o facto da casa onde Durão Barroso passa habitualmente as suas férias ser igualmente ameaçada deverá valer de algo. Por culpa das entidades territoriais e autárquicas, Moledo do Minho deverá estar mesmo com os dias contados.
sábado, março 13, 2004
sexta-feira, março 12, 2004
Se hoje fosse um dia normal estaria neste momento a comentar o Benfica-Inter.
Mas infelizmente não é. Porque a morte, o medo, o choque e a raiva caíram em casa dos vizinhos. Sim, a infâmia que é o terrorismo caiu em Madrid de forma estrondosa, e, como sempre, cobarde. Os alvos? Simples pessoas que partiam ou chegavam de manhã cedo no comboio para o seu trabalho diário. Meros cidadãos anónimos, na sua vida de todos os dias. Foram estes que pagaram nem se sabe porquê, por alguma ridícula questiúncula nacionalista ou religiosa.
Primeiro pensei, como todos os outros, que tinha sido a minoritária e rancorosa ETA. Agora já se fala na Al-Qaeda, que terá reinvindicado os assassínios para vingar a Reconquista Ibérica (!!!) e o apoio aos EUA na questão do Iraque. Como é evidente, esta 2ª hipótese é aquela que todos menos desejariam, pela força envolvida, pelas sinistras convicções e porque a ETA é "mais caseira". E para os portugueses, acrescente-se a ideia murmurada a medo de que pode sobrar para nós. Porque as motivações apresentadas pelos islâmicos são exactamente as mesmas; daí quererem uma vingança milenar, quais Tariks do séc. XXI, com a óbvia diferença em relação aos antepassados mouros de que estes facilmente lhes dariam lições de civilização e tolerância.
Mas para o actual momento pouco importa quais os autores de obra tão animalesca. Morreram ou ficaram feridas perto de mil pessoas.Uma enormidade. E o que há a fazer é enterrar os mortos, cuidar dos vivos, prestar condolências ás famílias e, aí sim, encontrar e punir os culpados. E pensar que não é com megalómanos planos de guerrinhas baseadas em mentiras que se combate o flagelo do século, mas com acções eficazes e coordenadas que no caso do islamismo fanático terão de ser executadas no coração da besta: as madrassas Wahabitas, grandes inspiradoras desta torrente de ódio, ignorância e demência.
Oponho-me ao iberismo, de que já dei conta neste blog, mas afirmo: HOJE SOMOS TODOS ESPANHOIS! Todos! Sejam portugueses, castelhanos, bascos, catalães, galegos, andaluzes, cubanos, argentinos, filipinos, de outros povos, todos são espanhois hoje! Para responder à barbárie que se abateu no coração da Ibéria. E a melhor forma de lhe responder será o voto em massa no Domingo, o orgulho dos espanhois no seu estado de direito, hoje tão firmemente evocado pelo seu Rei, e a solidariedade que em Madrid e noutras partes de Espanha se demonstrou com as enormes dádivas de sangue e o exemplar trabalho dos serviços de saúde.
Sim, apesar de vítimas da demência e do ódio sem limites, os nossos "parentes" do país vizinho podem ter orgulho em si próprios e nas suas instituições. Que conservem sempre esse altaneiro orgulho, como tantas vezes o fizeram ao longo da história.
Mas infelizmente não é. Porque a morte, o medo, o choque e a raiva caíram em casa dos vizinhos. Sim, a infâmia que é o terrorismo caiu em Madrid de forma estrondosa, e, como sempre, cobarde. Os alvos? Simples pessoas que partiam ou chegavam de manhã cedo no comboio para o seu trabalho diário. Meros cidadãos anónimos, na sua vida de todos os dias. Foram estes que pagaram nem se sabe porquê, por alguma ridícula questiúncula nacionalista ou religiosa.
Primeiro pensei, como todos os outros, que tinha sido a minoritária e rancorosa ETA. Agora já se fala na Al-Qaeda, que terá reinvindicado os assassínios para vingar a Reconquista Ibérica (!!!) e o apoio aos EUA na questão do Iraque. Como é evidente, esta 2ª hipótese é aquela que todos menos desejariam, pela força envolvida, pelas sinistras convicções e porque a ETA é "mais caseira". E para os portugueses, acrescente-se a ideia murmurada a medo de que pode sobrar para nós. Porque as motivações apresentadas pelos islâmicos são exactamente as mesmas; daí quererem uma vingança milenar, quais Tariks do séc. XXI, com a óbvia diferença em relação aos antepassados mouros de que estes facilmente lhes dariam lições de civilização e tolerância.
Mas para o actual momento pouco importa quais os autores de obra tão animalesca. Morreram ou ficaram feridas perto de mil pessoas.Uma enormidade. E o que há a fazer é enterrar os mortos, cuidar dos vivos, prestar condolências ás famílias e, aí sim, encontrar e punir os culpados. E pensar que não é com megalómanos planos de guerrinhas baseadas em mentiras que se combate o flagelo do século, mas com acções eficazes e coordenadas que no caso do islamismo fanático terão de ser executadas no coração da besta: as madrassas Wahabitas, grandes inspiradoras desta torrente de ódio, ignorância e demência.
Oponho-me ao iberismo, de que já dei conta neste blog, mas afirmo: HOJE SOMOS TODOS ESPANHOIS! Todos! Sejam portugueses, castelhanos, bascos, catalães, galegos, andaluzes, cubanos, argentinos, filipinos, de outros povos, todos são espanhois hoje! Para responder à barbárie que se abateu no coração da Ibéria. E a melhor forma de lhe responder será o voto em massa no Domingo, o orgulho dos espanhois no seu estado de direito, hoje tão firmemente evocado pelo seu Rei, e a solidariedade que em Madrid e noutras partes de Espanha se demonstrou com as enormes dádivas de sangue e o exemplar trabalho dos serviços de saúde.
Sim, apesar de vítimas da demência e do ódio sem limites, os nossos "parentes" do país vizinho podem ter orgulho em si próprios e nas suas instituições. Que conservem sempre esse altaneiro orgulho, como tantas vezes o fizeram ao longo da história.
terça-feira, março 09, 2004
Decididamente não consigo de deixar de referir artigos do Público. Veja-se o perfeito contraste ao nível da opinião e sobretudo do estilo. Compare-se o grotesco e lamechas texto de Ana Drago com a análise oportuna e tranquila de Graça Franco, mesmo ao lado. Imperdível. E por aí percebe-se porque é que a maioria das ditas "feministas" faz por vezes uma figura tão confrangedora (o que só compromete a causa das mulheres), ou porque é que não há despenalização do aborto em Portugal. É que com defesas destas não há causa que aguente. E já agora, a pergunta: porque é que só dezoito anos depois da Engª Pintassilgo é que aparece uma mulher candidata à presidência da República?
Vou no entanto aproveitar a boleia do dia da mulher para falar mais uma vez nos óscares. Ou nos seus resultados.
Conheci Charlize há uma meia dúzia de anos. Não a título pessoal, pobre de mim, mas através da fita "O Advogado do diabo", onde contracenava com Keanu Reeves e o diabólico Al Pacino (eis um motivo para falar de ti n´A Ágora, Miguel Lopo, já que me parece que fui ver esse filme contigo). Na altura achei a gentil menina muito "bonequinha", e nem pensei mais na pessoa. Os anos passaram, e voltei a ver Charlize, ora protegendo gorilas selvagens (nunca esteve tão bonita como aí), guiando Minis a alta velocidade depois de arrombar cofres ou contracenando com Tobey Maguire naquele filme algo xaroposo cujo título não me vem à memória. Até que...chega enfim a consagração com o cobiçadíssimo óscar de melhor actriz, pelo seu papel em "Monster".
Não vi o filme, nem pretendo vê-lo. Só o facto de ver Charlize naquela maquilhagem me faz arrepios; isto é, a certeza de que não me atiraria nunca para os braços de uma mulher com aquele aspecto (ao contrário da Sul-Africana), o que prova que a beleza conta, e muito. Certo é que todas as críticas que ouço acerca da interpretação me levam a concluír uma coisa: que o Óscar se ficou a dever mais à maquilhagem que ao seu conteúdo. Um pouco à imagem de Nicole Kidman e do seu nariz no ano passado. O que já não aconteceu com Willem Dafoe no soturno "A Sombra do Vampiro", em que todavia compunha um Nosferatu perfeito. É pena que num caso ou noutro houvesse este desperdício de talento. Porque Charlize tem-no. Podiam era dar ao filme o prémio de melhor caracterização e permitir que ela ganhasse o óscar numa futura aparição. Como raramente há repetições da sua atribuição à mesmo pessoa, pode-se dizer que Hollywood perdeu uma excelente oportunidade de fazer justiça a Charlize mais tarde, não tendo antes atribuído o prémio a Diane Keaton ou Samantha Morton. O futuro dar-me-à razão, ou a uma Sul-Africana de meia-idade conservando eterno brilho e elegância.
Vou no entanto aproveitar a boleia do dia da mulher para falar mais uma vez nos óscares. Ou nos seus resultados.
Conheci Charlize há uma meia dúzia de anos. Não a título pessoal, pobre de mim, mas através da fita "O Advogado do diabo", onde contracenava com Keanu Reeves e o diabólico Al Pacino (eis um motivo para falar de ti n´A Ágora, Miguel Lopo, já que me parece que fui ver esse filme contigo). Na altura achei a gentil menina muito "bonequinha", e nem pensei mais na pessoa. Os anos passaram, e voltei a ver Charlize, ora protegendo gorilas selvagens (nunca esteve tão bonita como aí), guiando Minis a alta velocidade depois de arrombar cofres ou contracenando com Tobey Maguire naquele filme algo xaroposo cujo título não me vem à memória. Até que...chega enfim a consagração com o cobiçadíssimo óscar de melhor actriz, pelo seu papel em "Monster".
Não vi o filme, nem pretendo vê-lo. Só o facto de ver Charlize naquela maquilhagem me faz arrepios; isto é, a certeza de que não me atiraria nunca para os braços de uma mulher com aquele aspecto (ao contrário da Sul-Africana), o que prova que a beleza conta, e muito. Certo é que todas as críticas que ouço acerca da interpretação me levam a concluír uma coisa: que o Óscar se ficou a dever mais à maquilhagem que ao seu conteúdo. Um pouco à imagem de Nicole Kidman e do seu nariz no ano passado. O que já não aconteceu com Willem Dafoe no soturno "A Sombra do Vampiro", em que todavia compunha um Nosferatu perfeito. É pena que num caso ou noutro houvesse este desperdício de talento. Porque Charlize tem-no. Podiam era dar ao filme o prémio de melhor caracterização e permitir que ela ganhasse o óscar numa futura aparição. Como raramente há repetições da sua atribuição à mesmo pessoa, pode-se dizer que Hollywood perdeu uma excelente oportunidade de fazer justiça a Charlize mais tarde, não tendo antes atribuído o prémio a Diane Keaton ou Samantha Morton. O futuro dar-me-à razão, ou a uma Sul-Africana de meia-idade conservando eterno brilho e elegância.
domingo, março 07, 2004
Um dos textos mais lúcidos e certeiros que vi nos últimos tempos é da autoria de Augusto Santos Silva e saíu ontem, no Público. Mosta-nos até onde pode ir a tolerância perante Ferreiras Torres, Jardins e Gaspares, além de inúmeros "cromos", em detrimento de outros que nem precisariam dos respectivos cargos públicos para sobressaír. Há que ler, reflectir e alterar mentalidades.
quarta-feira, março 03, 2004
O capítulo "lasca", do Dicionário do Diabo, fala-nos do que realmente interessa na Cerimónia dos Óscares (sim, porque os filmes vê-mo-los no cinema). Discordo todavia do prémio "Lasca 2004": para mim, era indubitavelmente Zeta-Jones, apesar de um tanto "tigresse". E isso porque Liv Tyler levava aquele penteado à dona -de-casa "sixtie".
Gostava de dar umas achegas sobre o Haiti. E outras acerca do Marco sob o jugo de Ferreira Torres. Mas isso fica adiado para quando encontrar os meus archives.
Gostava de dar umas achegas sobre o Haiti. E outras acerca do Marco sob o jugo de Ferreira Torres. Mas isso fica adiado para quando encontrar os meus archives.
segunda-feira, março 01, 2004
O esquecimento é imperdoável...A vileza da omissão é abjecta...mas, mesmo com tal atraso, é sempre tempo de dizer
PARABÉNS, SPORT LISBOA E BENFICA, PELOS TEUS CEM ANOS DE IMENSA GLÓRIA!
Em crise? Sim. Mas as crises também passam. Os bons momentos também voltam. Empates caseiros com Moreirenses? Acontece aos melhores. O Real Madrid, por exemplo, perdeu em casa no dia do seu centenário. E se há algum clube maior que o Benfica, só mesmo o dos "merengues".
E depois...Não é todos os dias que aquela que é talvez a mais conhecida instituição portuguesa comemora um século de existência!
Santana Lopes disse que a escolha de Sousa Franco para cabeça de lista do PS era um acto de "masoquismo político". Porquê? Porque segundo o protocandidato presidencial, o ex-ministro das finanças "foi responsável pelo descalabro das contas públicas na governação do PS".
Descontando a oportunidade da escolha, nota-se mais uma vez a falta de clarividência de PSL: é que o tal "descalabro" surgiu sim, mas depois do consulado de Sousa Franco, que foi aliás um dos principais responsáveis pelo cumprimento dos critérios de convergência que permitiram a Portugal aceder ao Euro. Mas isto o autarca alfacinha não quis referir. A título de memória, julgo que não minto se disser que Santana foi o responsável pelo descalabro cultural a que se assistiu no início dos anos 90.
Daqui a nada começa a cerimónia dos óscares. Não dá para ficar até ao fim, mas sempre tiro algumas coisas a limpo já esta noite. Palpites? Como tenho pressa e um pouco de preguiça, remeto-os para a Janela para o Rio; as apostas estão lá, talvez com menos alguns aneis. E para melhor realizador acho que Sophia Copolla pode mesmo agarrar a estatueta em detrimento de Jackson e do velho Clint. A ver vamos...
PARABÉNS, SPORT LISBOA E BENFICA, PELOS TEUS CEM ANOS DE IMENSA GLÓRIA!
Em crise? Sim. Mas as crises também passam. Os bons momentos também voltam. Empates caseiros com Moreirenses? Acontece aos melhores. O Real Madrid, por exemplo, perdeu em casa no dia do seu centenário. E se há algum clube maior que o Benfica, só mesmo o dos "merengues".
E depois...Não é todos os dias que aquela que é talvez a mais conhecida instituição portuguesa comemora um século de existência!
Santana Lopes disse que a escolha de Sousa Franco para cabeça de lista do PS era um acto de "masoquismo político". Porquê? Porque segundo o protocandidato presidencial, o ex-ministro das finanças "foi responsável pelo descalabro das contas públicas na governação do PS".
Descontando a oportunidade da escolha, nota-se mais uma vez a falta de clarividência de PSL: é que o tal "descalabro" surgiu sim, mas depois do consulado de Sousa Franco, que foi aliás um dos principais responsáveis pelo cumprimento dos critérios de convergência que permitiram a Portugal aceder ao Euro. Mas isto o autarca alfacinha não quis referir. A título de memória, julgo que não minto se disser que Santana foi o responsável pelo descalabro cultural a que se assistiu no início dos anos 90.
Daqui a nada começa a cerimónia dos óscares. Não dá para ficar até ao fim, mas sempre tiro algumas coisas a limpo já esta noite. Palpites? Como tenho pressa e um pouco de preguiça, remeto-os para a Janela para o Rio; as apostas estão lá, talvez com menos alguns aneis. E para melhor realizador acho que Sophia Copolla pode mesmo agarrar a estatueta em detrimento de Jackson e do velho Clint. A ver vamos...
sexta-feira, fevereiro 27, 2004
Só uns apontamentos para dizer que estou aqui:
-O SLB lá ganhou. Por poucos (e insuficientes), mas ganhou. ´Bora ver o que nos reserva o gelo de Trondhein para a semana.
-Se alguma lição me fica desta semana é que mal se entra num autocarro nos devemos agarrar a tudo o que estiver à mão: cadeiras, aquelas cintas de couro que pendem do tecto, etc (não convirá talvez que seja a carteira de outrém). Só quem passa por elas (e quem anda de transporte público) é que entende o sentido deste post.
-muito se falou da Serra da Estrela nos últimos dias, por causa do propalado nevão. Mas quem tivesse atravessado o Marão na última 3ª-feira (sim, a desse pretexto para tristes figuras que se chama Carnaval, ou mais rusticamente, Entrudo) teria ficado deleitado com a imagem de postal natalício sobre a Campeã como há muito não se via. Ah, tivesse eu na altura algo com que tirar umas fotos...
-Pedro Lomba não apagou nada, até ao momento. Ainda bem. Dá mais tempo para relembrar todos os seus pertinentes- senão tocantes - posts.
-O SLB lá ganhou. Por poucos (e insuficientes), mas ganhou. ´Bora ver o que nos reserva o gelo de Trondhein para a semana.
-Se alguma lição me fica desta semana é que mal se entra num autocarro nos devemos agarrar a tudo o que estiver à mão: cadeiras, aquelas cintas de couro que pendem do tecto, etc (não convirá talvez que seja a carteira de outrém). Só quem passa por elas (e quem anda de transporte público) é que entende o sentido deste post.
-muito se falou da Serra da Estrela nos últimos dias, por causa do propalado nevão. Mas quem tivesse atravessado o Marão na última 3ª-feira (sim, a desse pretexto para tristes figuras que se chama Carnaval, ou mais rusticamente, Entrudo) teria ficado deleitado com a imagem de postal natalício sobre a Campeã como há muito não se via. Ah, tivesse eu na altura algo com que tirar umas fotos...
-Pedro Lomba não apagou nada, até ao momento. Ainda bem. Dá mais tempo para relembrar todos os seus pertinentes- senão tocantes - posts.
domingo, fevereiro 22, 2004
Uma das inúmeras (e excelentes) colecções de "brindes" que ultimamente têm caracterizado o Público é a dos álbuns completos do Tintin, um suprasumo da BD. Digo completos porque não ficaram esquecidos os menos oficiais, como o exemplar desta semana: "Tintin no País dos Sovietes".
Esta obra é apenas e só a primeira da saga do repórter da poupa e calças de golfe. Aqui ainda tem a imagem de escuteiro imberbe (à imagem do seu criador) que viaja até à longíqua e temida URSS para relatar os factos aí decorridos, isto é, uma autêntica missão anti-comunista. Como anti-comunista era o "XXiéme", jornal católico para o qual Hergé trabalhava. E precisamente este álbum atribuiu ao seu autor uma imagem de conservadorismo, racismo até (e mais tarde de colaboraccionismo), que lhe dificultariam sobremaneira o percurso de cartoonista.
É certo que Hergé exprimia uma imagem fortemente anti-bolchevista sem grande conhecimento de causa, e isso nota-se pelas confissões do próprio em relacção à falta de dados fiáveis sobre a realidade do país (aliás difíceis de obter), para além da "naïveté" e precariedade das pranchas. Mas só o facto de ser a primeira da série, com a extraordinária evolução que esta sofreu, serviria para reconhecer a sua extrema importância no universo da BD.
Importância que para mim acresce por motivos pessoais. Lembro-me que me ofereceram o álbum (no original, em francês), no dia da minha profissão de fé, teria eu os meus doze anos. Embora já na altura adorasse os livros do Tintin (cuja obra integral possuo, não precisando pois de recorrer ao Público), este tinha algo que me marcou a partir de então. Não sei se a singeleza dos desenhos, se o ritmo contagiante das aventuras numa sucessão burlesca, ou as divertidíssimas situações surgidas do nada (a fuga da prisão alemã, o modo como as eleições se processavam, as peripécias na Sibéria)...talvez tudo isso em conjunto...Mas o que é certo é que uma das minhas paixões, a BD, instalou-se definitivamente no meu espírito, de tal forma que pouco tempo depois fazia a minha própria aventura em pranchas (um embaixador português em Israel nos anos 60, e vogando pelas Arábias, imagine-se); uma experiência notoriamente inspirada nos álbuns do Tintin e que ficou a meio - mas um dia retomo-a e ainda ouvirão falar de mim como cartoonista!
Datada, politizada ou esquecida, "No País dos sovietes" é uma obra deliciosa que continuo a guardar com consideração e carinho ( na sua versão francesa). Nunco esquecendo o quão marcou o início da minha adolescência, e por isso um caminho complicado mas determinante da minha vida.
Olhando para os últimos posts, reparo que nem uma referência fiz ao triste desaparecimento de Marco Pantani, aquele incrível corredor de crâneo rapado coberto por um lenço de que só tive conhecimento ao vê-lo numa soalheira tarde de Verão, pedalando nos Campos Elísios, consagrando a vitória no Tour, à qual juntaria pouco depois a do Giro. Que o "pirata" possa pois, na dimensão em que se encontrar, trepar montanhas pela eternidade fora, sem ameaças de dopping, drogas ou vergonhosas intromisões na sua vida privada. Das quais está trágica mas finalmente livre para todo o sempre.
Já há uns tempos tinha aqui falado da "stand-up-comedy" do Francisco Menezes, em contraponto com outros. Tive enfim oportunidade de assistir a uma sua performance ao vivo, no regressado-ás-origens Twins. Teve piada, mas acho que ele devia actualizar o repertório, até porque já conhecia metade do "libretto". Asseguraram-se outras futuras actuações no local, prometeram-se futuras irreverências. Só espero é que o sucesso não seja tal que ainda se lembrem de convidar o Fernando Rocha. Palavra de honra que não voltaria lá nas próximas décadas! Mas o bom senso há de imperar. Ou não? É que na semana que vem vai lá o Represas. Por isso...
Esta obra é apenas e só a primeira da saga do repórter da poupa e calças de golfe. Aqui ainda tem a imagem de escuteiro imberbe (à imagem do seu criador) que viaja até à longíqua e temida URSS para relatar os factos aí decorridos, isto é, uma autêntica missão anti-comunista. Como anti-comunista era o "XXiéme", jornal católico para o qual Hergé trabalhava. E precisamente este álbum atribuiu ao seu autor uma imagem de conservadorismo, racismo até (e mais tarde de colaboraccionismo), que lhe dificultariam sobremaneira o percurso de cartoonista.
É certo que Hergé exprimia uma imagem fortemente anti-bolchevista sem grande conhecimento de causa, e isso nota-se pelas confissões do próprio em relacção à falta de dados fiáveis sobre a realidade do país (aliás difíceis de obter), para além da "naïveté" e precariedade das pranchas. Mas só o facto de ser a primeira da série, com a extraordinária evolução que esta sofreu, serviria para reconhecer a sua extrema importância no universo da BD.
Importância que para mim acresce por motivos pessoais. Lembro-me que me ofereceram o álbum (no original, em francês), no dia da minha profissão de fé, teria eu os meus doze anos. Embora já na altura adorasse os livros do Tintin (cuja obra integral possuo, não precisando pois de recorrer ao Público), este tinha algo que me marcou a partir de então. Não sei se a singeleza dos desenhos, se o ritmo contagiante das aventuras numa sucessão burlesca, ou as divertidíssimas situações surgidas do nada (a fuga da prisão alemã, o modo como as eleições se processavam, as peripécias na Sibéria)...talvez tudo isso em conjunto...Mas o que é certo é que uma das minhas paixões, a BD, instalou-se definitivamente no meu espírito, de tal forma que pouco tempo depois fazia a minha própria aventura em pranchas (um embaixador português em Israel nos anos 60, e vogando pelas Arábias, imagine-se); uma experiência notoriamente inspirada nos álbuns do Tintin e que ficou a meio - mas um dia retomo-a e ainda ouvirão falar de mim como cartoonista!
Datada, politizada ou esquecida, "No País dos sovietes" é uma obra deliciosa que continuo a guardar com consideração e carinho ( na sua versão francesa). Nunco esquecendo o quão marcou o início da minha adolescência, e por isso um caminho complicado mas determinante da minha vida.
Olhando para os últimos posts, reparo que nem uma referência fiz ao triste desaparecimento de Marco Pantani, aquele incrível corredor de crâneo rapado coberto por um lenço de que só tive conhecimento ao vê-lo numa soalheira tarde de Verão, pedalando nos Campos Elísios, consagrando a vitória no Tour, à qual juntaria pouco depois a do Giro. Que o "pirata" possa pois, na dimensão em que se encontrar, trepar montanhas pela eternidade fora, sem ameaças de dopping, drogas ou vergonhosas intromisões na sua vida privada. Das quais está trágica mas finalmente livre para todo o sempre.
Já há uns tempos tinha aqui falado da "stand-up-comedy" do Francisco Menezes, em contraponto com outros. Tive enfim oportunidade de assistir a uma sua performance ao vivo, no regressado-ás-origens Twins. Teve piada, mas acho que ele devia actualizar o repertório, até porque já conhecia metade do "libretto". Asseguraram-se outras futuras actuações no local, prometeram-se futuras irreverências. Só espero é que o sucesso não seja tal que ainda se lembrem de convidar o Fernando Rocha. Palavra de honra que não voltaria lá nas próximas décadas! Mas o bom senso há de imperar. Ou não? É que na semana que vem vai lá o Represas. Por isso...
terça-feira, fevereiro 17, 2004
Já vi o "Lost in Translation". Creio que só faltava eu, em toda a blogoesfera. Posso dizer simplesmente que Bill Murray, um dos meus actores preferidos desde os velhinhos "Gosthbusters", não terá surpreendido tanto quem tiver visto os "Tenembauns"; que simpatizei com Scarlett, provavelmente pelo seu ar de filósofa ingénua em busca de um outro Japão por trás das torrentes de vidro e néon; que Tóquio faz inveja à maior das Manhattans; e que jamais pensei que a solidão e o vazio se pudessem fazer sentir com tal intensidade numa urbe de vinte milhões de habitantes. Para onde irá Bill/Bob, assim acompanhado pelos nunca antiquados Mary Chain?
Também "Anything Else" está retirado da lista dos filmes a ver. Woddy nunca tinha sido tão neurótico como agora; Jason mostrou que o fim das "American Pies" o libertou definitivamente (embora com uns resquícios...); Ricci, com a sua silhueta angulosa, mostra de forma sublime o quão birrenta e neurótica pode ser. O Central Park nunca teve uma tão forte carga maníaca-obsessiva como aqui, no melhor filme de Allen nos últimos dez anos.
Mas ainda estou um pouco em estado de choque. Não digo coisa com coisa. Daqui a uns meses talvez compreenda a importância real destas duas películas.
E ainda falta "Big Fish", Santo Deus!
Ah, é verdade. Complemente-se o "Último Samurai" com "Lost in Translation" e veja-se a comparação de um Japão separado por meros 140 anos.
Também "Anything Else" está retirado da lista dos filmes a ver. Woddy nunca tinha sido tão neurótico como agora; Jason mostrou que o fim das "American Pies" o libertou definitivamente (embora com uns resquícios...); Ricci, com a sua silhueta angulosa, mostra de forma sublime o quão birrenta e neurótica pode ser. O Central Park nunca teve uma tão forte carga maníaca-obsessiva como aqui, no melhor filme de Allen nos últimos dez anos.
Mas ainda estou um pouco em estado de choque. Não digo coisa com coisa. Daqui a uns meses talvez compreenda a importância real destas duas películas.
E ainda falta "Big Fish", Santo Deus!
Ah, é verdade. Complemente-se o "Último Samurai" com "Lost in Translation" e veja-se a comparação de um Japão separado por meros 140 anos.
sábado, fevereiro 14, 2004
Não resisto a fazer mais um apontamento futebolístico, mas o post de Alexandre Borges, no Desejo Casar, intitulado "E a banda continua a tocar", é a melhor previsão do que vai ser um típico Domingo de Clássico desde há muito...Aliás, acho que tão completa nem nunca vi.
Fim-de-semana à porta...Entre efemérides que se comemoram por diversíssimas razões, como a dos duzentos anos sobre a morte de Kant(onde se percebe que afinal não há mesmo seres totalmente desprovidos de paixão), descobri há pouco aqui e aqui que os Smiths tiveram o seu início de carreira há precisamente vinte anos. Como possível comemoração, muni-me logo de um disco desses maníaco-depressivos de flores em riste. No preciso momento ouço...Ask, exactamente.
Ex-Köenigsberg e Manchester. Kant e The Smiths...Qual deles terá influenciado de forma decisiva na vida um maior número de pessoas? A resposta presume-se impossível
Fim-de-semana à porta...Entre efemérides que se comemoram por diversíssimas razões, como a dos duzentos anos sobre a morte de Kant(onde se percebe que afinal não há mesmo seres totalmente desprovidos de paixão), descobri há pouco aqui e aqui que os Smiths tiveram o seu início de carreira há precisamente vinte anos. Como possível comemoração, muni-me logo de um disco desses maníaco-depressivos de flores em riste. No preciso momento ouço...Ask, exactamente.
Ex-Köenigsberg e Manchester. Kant e The Smiths...Qual deles terá influenciado de forma decisiva na vida um maior número de pessoas? A resposta presume-se impossível
quarta-feira, fevereiro 11, 2004
Não se sabe bem porquê, mas as hostes portistas parece que perderam a cabeça. Pinto da Costa diz que "O Benfica e o Sporting se vão fundir", num delírio tão ridículo quanto a dizer o mesmo do Milan/Inter, ou do Boca Juniors/River Plate, e até se pôs bacocamente a falar de Feher, ele, que nem as devidas condolências soube prestar. Aconteceu ontem, ao fim de um jantar em Espinho, presume-se que bem regado.
Mas também Miguel Sousa Tavares anda tenso; para provar que Mourinho não rasgou a camisola de Rui Jorge, experimentou o próprio fazê-lo, tendo triunfalmente concluido que tal não era possível. Queixa-se ainda MST que os jornalistas fizeram o possível para "incitar Pinto da Costa a alguma declaração bombástica"; e acrescenta: "fartei-me de rir". Provavelmente hoje rirá menos, com as atoardas do seu "Papa". Espero que para a semana não assobie para o ar, ele, que tanto critica o clima de ódio no futebol.
E enquanto isso, indiferente a zizânias, uma equipa serena e unida prepara-se para um jogo complicado para a Taça. Podem não ser os melhores do mundo, mas independentemente dos resultados obtidos, os jogadores do Benfica merecem todo o apoio possível e o respeito devido a um clube de nível mundial.
Mas também Miguel Sousa Tavares anda tenso; para provar que Mourinho não rasgou a camisola de Rui Jorge, experimentou o próprio fazê-lo, tendo triunfalmente concluido que tal não era possível. Queixa-se ainda MST que os jornalistas fizeram o possível para "incitar Pinto da Costa a alguma declaração bombástica"; e acrescenta: "fartei-me de rir". Provavelmente hoje rirá menos, com as atoardas do seu "Papa". Espero que para a semana não assobie para o ar, ele, que tanto critica o clima de ódio no futebol.
E enquanto isso, indiferente a zizânias, uma equipa serena e unida prepara-se para um jogo complicado para a Taça. Podem não ser os melhores do mundo, mas independentemente dos resultados obtidos, os jogadores do Benfica merecem todo o apoio possível e o respeito devido a um clube de nível mundial.
segunda-feira, fevereiro 09, 2004
A imagem de fundo do meu computador é, neste momento, a vista de Moledo do Minho a partir do fronteiro e galego Monte de Stª Tecla.
Já desconfiava há muito das razões da regressão daquela praia. Mas este artigo de há já uns tempos é elucidativo sobre o que se pode, e sobretudo o que não se pode fazer por esta aldeia de novo ameaçada não já pelas vagas do novo-riquismo geral, mas sim pelas reais ondas atlânticas.
É possível que a imagem no computador de um lugar onde passei momentos decisivos da minha vida (onde quase nasci, aliás) se torne daqui a alguns anos numa nostálgica recordação. Urge pois tomar medidas sérias; as que forem possíveis, em todo o caso. E gritar aos srs autarcas de Caminha que se fôr preciso acabar com o Ferry, que se acabe. A alguns kms a montante, em Cerveira, há outro, que em breve será substituído por uma ponte. Infelizmente, a importância das tricas inter-municipais está para lá da que se dá ás mais carismáticas e apelativas freguesias. Enquanto isto durar, nada se pode fazer por Moledo e tantas outras praias ameaçadas pela vontade de Neptuno.
Já desconfiava há muito das razões da regressão daquela praia. Mas este artigo de há já uns tempos é elucidativo sobre o que se pode, e sobretudo o que não se pode fazer por esta aldeia de novo ameaçada não já pelas vagas do novo-riquismo geral, mas sim pelas reais ondas atlânticas.
É possível que a imagem no computador de um lugar onde passei momentos decisivos da minha vida (onde quase nasci, aliás) se torne daqui a alguns anos numa nostálgica recordação. Urge pois tomar medidas sérias; as que forem possíveis, em todo o caso. E gritar aos srs autarcas de Caminha que se fôr preciso acabar com o Ferry, que se acabe. A alguns kms a montante, em Cerveira, há outro, que em breve será substituído por uma ponte. Infelizmente, a importância das tricas inter-municipais está para lá da que se dá ás mais carismáticas e apelativas freguesias. Enquanto isto durar, nada se pode fazer por Moledo e tantas outras praias ameaçadas pela vontade de Neptuno.
Já há duas semanas que Miki nos deixou. Ficámos todos extremamente abalados com o funesto caso, mas Pedro Mexia ficou-o, ao que parece, de forma permanente. Data dessa altura ( e o seu último post versa sobre isso mesmo) a imobilidade da sua escrita online. Espera-se que não por muito tempo. A vida continua sempre, em tons mais carregados. E o "Dicionário..." tem obrigatoriamente de prosseguir a sua missão didáctico-social.
domingo, fevereiro 08, 2004
Os progressos da (in)justiça
Num qualquer noticiário televisivo de um canal que não sei agora precisar
surgiu a notícia do suicídio de um recluso, um jovem de 19 anos a cumprir pena, por furto, de ...7 anos.
O meu espanto não é o suicídio; mortes voluntárias são infelizmente o dia-a-dia nas prisões. O que choca é que alguém com pouco mais que a maioridade seja condenado a tanto tempo de cadeia por um furto, não um roubo, note-se bem. Em comparação, grande parte dos assassinos da estrada (quer por embriaguez, simples falta de cuidado ou até, pasme-se, apostas!) escapam com multa e pena suspensa. Ou seja, para a nossa jurisprudência penal o furto é bem mais grave que o roubo, e passa com leves penas ou admoestações, do gênero "vá lá, para a próxima beba um pouco menos". É o chico-espertismo e desleixo gosseiro acarinhado pelos próprios tribunais.
Não sei quais eram os antecedentes criminais do miúdo, os valores do furto em causa, se tinha dinheiro para pagar a um advogado credível ou se o facto de ser preto terá contribuído para o avolumar da pena. O que é certo é que tal decisão permitiu que a pessoa em causa se matasse, ou em alternativa que acabasse por se transformar num criminoso a sério, talvez com uma doença infecto-contagiosa apanhada na prisão.
Pensamos que a nossa justiça está a melhorar. Pode ser que esteja. Talvez por isso certas "doutas" decisões choquem tanto pelo facto de promoverem a injustiça de forma tão aberrante e descriminatória.
Num qualquer noticiário televisivo de um canal que não sei agora precisar
surgiu a notícia do suicídio de um recluso, um jovem de 19 anos a cumprir pena, por furto, de ...7 anos.
O meu espanto não é o suicídio; mortes voluntárias são infelizmente o dia-a-dia nas prisões. O que choca é que alguém com pouco mais que a maioridade seja condenado a tanto tempo de cadeia por um furto, não um roubo, note-se bem. Em comparação, grande parte dos assassinos da estrada (quer por embriaguez, simples falta de cuidado ou até, pasme-se, apostas!) escapam com multa e pena suspensa. Ou seja, para a nossa jurisprudência penal o furto é bem mais grave que o roubo, e passa com leves penas ou admoestações, do gênero "vá lá, para a próxima beba um pouco menos". É o chico-espertismo e desleixo gosseiro acarinhado pelos próprios tribunais.
Não sei quais eram os antecedentes criminais do miúdo, os valores do furto em causa, se tinha dinheiro para pagar a um advogado credível ou se o facto de ser preto terá contribuído para o avolumar da pena. O que é certo é que tal decisão permitiu que a pessoa em causa se matasse, ou em alternativa que acabasse por se transformar num criminoso a sério, talvez com uma doença infecto-contagiosa apanhada na prisão.
Pensamos que a nossa justiça está a melhorar. Pode ser que esteja. Talvez por isso certas "doutas" decisões choquem tanto pelo facto de promoverem a injustiça de forma tão aberrante e descriminatória.
quinta-feira, fevereiro 05, 2004
Já vai tarde a hora, nesta estranhamente cálida noite de inícios de Fevereiro, e eu continuo a ver os blogs dos outros; enquanto "posto", ouço uma banda da qual andava há muito afastado: os Manic Street Preachers. Sobretudo as três primeiras músicas do respectivo "best of ", uma sequência fantástica, começando pela genial e revoltada "Design for Life". Julgo que esta banda anda algo desaparecida, salvo o lançamento de um ou outro B-side. Mas o que importa é que os velhinhos hinos cá continuam, com aquela eterna carga revolucionária e anti-sistema que se lhes conhece (exemplo manifesto disso foram os seus concertos em Cuba, com a presença mesma do dinossauro Fidel,) e que talvez explique o facto de nunca terem tido grande sucesso nos "States".
Porque Portugal fica deste lado do Atlântico lembrei-me subitamente que talvez os "Manics" fossem uma boa hipótese para o próximo Rock in Rio. O problema é que os senhores do dito evento estão mais preocupados em trazer os horrendos Slipknot (que atrás daquelas máscaras parecem um bando de satânicos em fúria - os nossos Caretos têm muito mais piada), os velhos Guns, que ninguém sabe se ainda realmente existem, e a Britney Spears. Pessoalmente não tenho nada contra a vinda da menina, mas preferia que fosse noutros moldes, sei lá, como mestre-de-cerimónias, por exemplo: o efeito visual era o mesmo e dava espaço a músicos de verdade. A ver se Sting, Mettalica e Gabriel salvam aquilo. Se meterem mais uma ou outra banda com interesse talvez lá apareça. Senão, viro-me definitivamente para o Euro (o 2004, não a moeda).
Porque Portugal fica deste lado do Atlântico lembrei-me subitamente que talvez os "Manics" fossem uma boa hipótese para o próximo Rock in Rio. O problema é que os senhores do dito evento estão mais preocupados em trazer os horrendos Slipknot (que atrás daquelas máscaras parecem um bando de satânicos em fúria - os nossos Caretos têm muito mais piada), os velhos Guns, que ninguém sabe se ainda realmente existem, e a Britney Spears. Pessoalmente não tenho nada contra a vinda da menina, mas preferia que fosse noutros moldes, sei lá, como mestre-de-cerimónias, por exemplo: o efeito visual era o mesmo e dava espaço a músicos de verdade. A ver se Sting, Mettalica e Gabriel salvam aquilo. Se meterem mais uma ou outra banda com interesse talvez lá apareça. Senão, viro-me definitivamente para o Euro (o 2004, não a moeda).
A TVI no seu melhor. Ontem estava programado o filme "A Fogueira das Vaidades", de Brian de Palma. O que é que saíu? O Rambo, ou coisa parecida.
Nada que não fosse de esperar da TVI.
Nada que não fosse de esperar da TVI.
terça-feira, fevereiro 03, 2004
Talvez portugal não seja o país de 3º Mundo que tantos apregoam.
Ontem estive durante momentos a observar o descendente directo do antigo "Flash-Back", ouvindo José Magalhães, Lobo Xavier e Pacheco Pereira.
O último referia-se, a propósito das incidências da morte do Feher, à "histeria dos portugueses, empolada pelos media, tal como já tinha acontecido com Timor-Leste". E rematava ainda:"em nenhum outro país da Europa isto aconteceria, só talvez em África e na América Latina".
Já se sabe que o eminente membro da blogosfera foge dos unanimismos e das questões consensuais como o diabo da cruz. Talvez para cultivar aquele ar de voz superior e do contra. Agora, que isso lhe dá uma imagem de insensibilidade e calculismo, lá isso dá-lhe, o mais possível. Até posso concordar quando se refere a exageros dos media, mas quanto ao resto, o que Pacheco Pereira pede é que as pessoas recalquem os seus sentimentos, dando uma ideia de racionalidade que manifestamente não têm, porque as emoções são uma componente humana. Até do ponto de vista psíquico é censurável; como tantos psicólogos afirmam, o luto é um processo pessoal e necessário, até a dor passar, e, aí sim, a vida seguir o seu curso normal. Já o caso de Timor é mais sério: não se tratou de uma expurgação da dor, mas de uma enorme onda de solidariedade e apoio à causa de um povo que estava a ser autenticamente chacinado, e que acabou por dar frutos. Se imitássemos Pacheco Pereira, na sua eterna torre de marfim, e com os seus academismos inconsequentes, ainda hoje Timor seria uma colónia da Indonésia, vítima sabe-se lá de que abusos. Mas deste aspecto essencial e simples o prezado colega "bloguista" não compreendeu absolutamente nada, longe disso. E aquela mania de considerar o povo lusitano histérico é absolutamente irrelevante. Os portugueses são assim naturalmente, sentimentais, embore para certas pessoas isso seja quase uma ofensa, já que confundem com "boçalidade" algo perfeitamente diverso. Esta existe, sem dúvida. Mas para aclarar as ideias relembro que a comunicação social "voyeurista" é proveniente sobretudo dos países anglo-saxónicos (com exemplos bem conhecidos) e que programas televisivos como o Big-Brother são uma criação holandesa. Ah, e o hooliganismo também nasceu mais a Norte. E então, a "histeria" só existe em Portugal?
A propósito do hábito de denegrir tudo o que se passa em Portugal, li ontem no Público uma tristíssima notícia , que, a ter lugar cá, provocaria logo comentários do tipo "isto só em Portugal", ou "somos um país do 3º Mundo".
É possível. Mas se tal fôr verdade, a Escócia, permitindo que os seus idosos pereçam assim nos lugares que lhes deviam proporcionar mais segurança e paz, não está certamente num Mundo de categoria superior.
Ontem estive durante momentos a observar o descendente directo do antigo "Flash-Back", ouvindo José Magalhães, Lobo Xavier e Pacheco Pereira.
O último referia-se, a propósito das incidências da morte do Feher, à "histeria dos portugueses, empolada pelos media, tal como já tinha acontecido com Timor-Leste". E rematava ainda:"em nenhum outro país da Europa isto aconteceria, só talvez em África e na América Latina".
Já se sabe que o eminente membro da blogosfera foge dos unanimismos e das questões consensuais como o diabo da cruz. Talvez para cultivar aquele ar de voz superior e do contra. Agora, que isso lhe dá uma imagem de insensibilidade e calculismo, lá isso dá-lhe, o mais possível. Até posso concordar quando se refere a exageros dos media, mas quanto ao resto, o que Pacheco Pereira pede é que as pessoas recalquem os seus sentimentos, dando uma ideia de racionalidade que manifestamente não têm, porque as emoções são uma componente humana. Até do ponto de vista psíquico é censurável; como tantos psicólogos afirmam, o luto é um processo pessoal e necessário, até a dor passar, e, aí sim, a vida seguir o seu curso normal. Já o caso de Timor é mais sério: não se tratou de uma expurgação da dor, mas de uma enorme onda de solidariedade e apoio à causa de um povo que estava a ser autenticamente chacinado, e que acabou por dar frutos. Se imitássemos Pacheco Pereira, na sua eterna torre de marfim, e com os seus academismos inconsequentes, ainda hoje Timor seria uma colónia da Indonésia, vítima sabe-se lá de que abusos. Mas deste aspecto essencial e simples o prezado colega "bloguista" não compreendeu absolutamente nada, longe disso. E aquela mania de considerar o povo lusitano histérico é absolutamente irrelevante. Os portugueses são assim naturalmente, sentimentais, embore para certas pessoas isso seja quase uma ofensa, já que confundem com "boçalidade" algo perfeitamente diverso. Esta existe, sem dúvida. Mas para aclarar as ideias relembro que a comunicação social "voyeurista" é proveniente sobretudo dos países anglo-saxónicos (com exemplos bem conhecidos) e que programas televisivos como o Big-Brother são uma criação holandesa. Ah, e o hooliganismo também nasceu mais a Norte. E então, a "histeria" só existe em Portugal?
A propósito do hábito de denegrir tudo o que se passa em Portugal, li ontem no Público uma tristíssima notícia , que, a ter lugar cá, provocaria logo comentários do tipo "isto só em Portugal", ou "somos um país do 3º Mundo".
É possível. Mas se tal fôr verdade, a Escócia, permitindo que os seus idosos pereçam assim nos lugares que lhes deviam proporcionar mais segurança e paz, não está certamente num Mundo de categoria superior.
Ontem pensei que os conflitos no futebol da Ocidental Praia Lusitana tivessem atingido o seu nível máximo com a guerra de compadres entre Mourinho e Bettencourt. Como é óbvio, ainda não me tinham chegado os ecos do Boavista-Guimarães. Ou talvez a guerra do Iraque tenha cá chegado, não sei. O que é certo é que Miki merecia bem mais do que isto.
Que amanhã à noite, ao menos, haja paz, concórdia e futebol a sério. E que esses valores sejam representados pelo Glorioso e pela Briosa. A única forma possível de Miki descansar em paz.
Que amanhã à noite, ao menos, haja paz, concórdia e futebol a sério. E que esses valores sejam representados pelo Glorioso e pela Briosa. A única forma possível de Miki descansar em paz.
segunda-feira, fevereiro 02, 2004
Lembro-me agora que neste fim-de-semana tivemos ao mesmo tempo o 31 de Janeiro (data da 1ª revolta republicana, cá no burgo) e o 1 de Fevereiro (Regicídio). Duas datas nefastas a não esquecer.
Bem, talvez não no primeiro caso. Afinal de tudo eles foram rechaçados pela guarda postada (no sentido arcaico da palavra, que não tem nada a ver com blogs) nas escadas da Igreja de Sto Ildefonso, ao alto da rua de Sto António - hoje pode ter o nome do dia, mas sempre prefiro o original. Parece que alguns dedicados republicanos andaram este Sábado na dita artéria a colocar propaganda do regime pelas montras, com criancinhas a cantar "as virtudes da República", com referências aos "herois".
Ainda bem que não me encontraram pelo caminho: teria de empregar todo o meu sangue-frio para lhes responder educadamente que não estava interessado em tal propaganda - e já agora para lhes deixar um comentário do tipo "Monarquia é que é".
Quanto ao Regicídio, paz à alma de el-Rei e do Príncipe Real. Mais do que ás de Costa e Buíça, apesar de tudo.
Bem, talvez não no primeiro caso. Afinal de tudo eles foram rechaçados pela guarda postada (no sentido arcaico da palavra, que não tem nada a ver com blogs) nas escadas da Igreja de Sto Ildefonso, ao alto da rua de Sto António - hoje pode ter o nome do dia, mas sempre prefiro o original. Parece que alguns dedicados republicanos andaram este Sábado na dita artéria a colocar propaganda do regime pelas montras, com criancinhas a cantar "as virtudes da República", com referências aos "herois".
Ainda bem que não me encontraram pelo caminho: teria de empregar todo o meu sangue-frio para lhes responder educadamente que não estava interessado em tal propaganda - e já agora para lhes deixar um comentário do tipo "Monarquia é que é".
Quanto ao Regicídio, paz à alma de el-Rei e do Príncipe Real. Mais do que ás de Costa e Buíça, apesar de tudo.
Passou-se já uma semana desde a partida de Miki...
Algo mudou, no futebol português? Não, desgraçadamente nada. Tudo o que se viu nos últimos dias acabou por ser apenas fogo de vista, como o previam algumas mentes mais lúcidas e avisadas.
Ontem à noite viu-se a terrível confirmação: apesar de ter sido um bom jogo, emotivo e com um público vibrante ( e por esse lado não houve problemas), o pós-embate saldou-se pela incrível troca de mimos entre Mourinho e Bettencourt, com a tranquilidade de Fernando Santos pelo meio. Do pior que se tem visto nos últimos tempos no futebol português. Como se todas as aleivosias do costume se tivessem libertado depois do período de nojo devido a Feher.
Das duas uma: ou Mourinho deve mesmo saír de Portugal por actos absolutamente indignos cá praticados (e a história da reposição de bola não tem pés nem cabeça), ou Eduardo Bettencourt terá muito por que responder.
Destas sórdidas histórias só espero uma coisa: que João Pinto, que considero um dos melhores jogadores de sempre do SLB, volte depressa aos relvados.
Como é desagradável verificar que o futebol português voltou ao normal...
PS:salve-se ao menos o facto de se terem visto alguns sinais de real fair-play entre a assistência, como aquele cartaz de um adepto do FCP que dizia "SLB:que Deus lhes dê forças". Gestos simples que se apreciam.
Algo mudou, no futebol português? Não, desgraçadamente nada. Tudo o que se viu nos últimos dias acabou por ser apenas fogo de vista, como o previam algumas mentes mais lúcidas e avisadas.
Ontem à noite viu-se a terrível confirmação: apesar de ter sido um bom jogo, emotivo e com um público vibrante ( e por esse lado não houve problemas), o pós-embate saldou-se pela incrível troca de mimos entre Mourinho e Bettencourt, com a tranquilidade de Fernando Santos pelo meio. Do pior que se tem visto nos últimos tempos no futebol português. Como se todas as aleivosias do costume se tivessem libertado depois do período de nojo devido a Feher.
Das duas uma: ou Mourinho deve mesmo saír de Portugal por actos absolutamente indignos cá praticados (e a história da reposição de bola não tem pés nem cabeça), ou Eduardo Bettencourt terá muito por que responder.
Destas sórdidas histórias só espero uma coisa: que João Pinto, que considero um dos melhores jogadores de sempre do SLB, volte depressa aos relvados.
Como é desagradável verificar que o futebol português voltou ao normal...
PS:salve-se ao menos o facto de se terem visto alguns sinais de real fair-play entre a assistência, como aquele cartaz de um adepto do FCP que dizia "SLB:que Deus lhes dê forças". Gestos simples que se apreciam.
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