segunda-feira, janeiro 22, 2018

Promessas ultrapassadas pelas confirmações


Estas recordações sobre os Cranberries levaram-me de novo aos anos noventa e à ascensão de novos grupos pop-rock. Sempre achei curiosos os casos das next big thing que surgem prontas a conquistar o Mundo e que subitamente são ultrapassadas e atropeladas por grupos por quem pouco se dava à partida. É o caso dos James, de quem já aqui escrevi, sobre quem paira uma engraçada "maldição", a de terem tido amiúde bandas a fazer as primeiras partes dos seus concertos e que depois se tornam maiores do que eles próprios (como os Radiohead, os Nirvana ou os Coldplay). Mas não são, longe disso, casos únicos.

Aí por 1992 ou 1993, em tempos de pré-Britpop, em que o Grunge era rei e senhor da cena pop-rock mundial, os britânicos andavam cabisbaixos, à procura de algum destaque num meio em que, terminado o shoegazing, e vulgarizado o madchester, pareciam condenados à decadência. Apareciam inúmeros grupos a tentar marcar a sua própria diferença. Uns eram aproveitáveis, outros nem tanto, e outros levavam os áugures do meio a rotundos enganos.

Aconteceu isso mesmo com os Kingmaker, um grupo prometedor, que supostamente iria conquistar os tops de vendas e marcar o som da pop britânica. Mas as coisas não correram pelo melhor, a popularidade que esperavam não chegou (como se pode ver pelo reduzido número de visualizações no videoclip mais abaixo) e o grupo acabou por se separar poucos anos depois.

Porque é que isto me veio à memória à boleia dos Cranberries? Porque, por alguns testemunhos que vi, os Kingmaker realizaram alguns concertos onde tinham, como banda suporte, um grupo londrino chamado Suede, que deram bem mais nas vistas que os próprios cabeças de cartaz. Como se sabe, os Suede, que começaram com um som glam-rock muito devedor de Bowie e dos anos setenta, tornaram-se num dos grupos fundadores e essenciais da Britpop e um dos mais amados no Reino Unido. Ou seja, eram eles próprios a next big thing do momento, com melhoresresultados.


Mas provaram um pouco do mesmo "remédio" atrás descrito: partiram para uma digressão nos Estados Unidos, levando uma pouco conhecida banda irlandesa para fazer as primeiras partes, uns certos Cranberries. Ao contrário do que esperavam, os ingleses passaram quase despercebidos no Novo Mundo, enquanto que os irlandeses e a voz de Dolores O´Riordan atraíram as atenções dos americanos, que começaram a fazer passar as suas músicas, como Linger, na MTV, e obtiveram logo um sucesso considerável que os catapultou para a fama. Os Suede foram olimpicamente ignorados e tiveram de se conformar em ser populares deste lado do Atlântico, sobretudo na terra de origem, onde durante bastante tempo continuaram a atrair as atenções sempre que lançavam um novo trabalho.

Quanto aos Kingmaker, desapareceram por completo. Provavelmente dedicaram-se a outras actividades que não a música. Deixaram apenas um rasto da sua existência na net, sobretudo no Youtube, para que possam ser recordados.



PS: nem sempre os Suede conseguiram ultrapassar os grupos cujos concertos abriam. partes. Na estreia dos REM em Portugal, em Lisboa, que tive a felicidade de ver, fizeram a primeira parte mas nem de perto chegaram ao seu nível. Mas sendo uma bela junção, reconheça-se que eram demasiado bons para serem um simples brinde.

sexta-feira, janeiro 19, 2018

Calou-se a voz dos Cranberries


O súbito desaparecimento de Dolores O´Riordan causou comoção por esse mundo fora. Não é para menos: era a voz e a alma dos Cranberries, um dos grupos rock mais populares das últimas décadas. Não era propriamente fã da banda irlandesa, mas quem passou a adolescência em meados dos anos noventa não pôde ficar indiferente a músicas como Zombie ou Ode to my Family, que se ouviam por toda a parte e que os tornaram estrelas globais. Para além de ser das canções mais populares dos anos noventa, Zombie teve ainda um importante papel social, como relembra o Diogo Noivo. No Need to Argue, o álbum dessas duas canções, tinha o icónico sofá na capa e vendeu cerca de 17 milhões de cópias. Curiosamente, quando o sofá deixou de aparecer na face dos álbuns, o sucesso começou a resvalar, levando mesmo à separação dos membros da banda durante alguns anos, até se reunirem novamente.



Os Cranberries vieram várias vezes a Portugal, entre festivais e concertos em nome próprio. Curiosamente, a primeira vez que actuaram em solo português seria, à partida, para fazer a primeira parte - juntamente com os Oasis - dos REM, num espectáculo que teria lugar em Alvalade. Mas o grupo de Athens, por problemas de saúde vários, teve de cancelar o concerto (só se estreariam anos mais tarde no Pavilhão Atlântico, numa actuação a que tive a sorte de assistir), pelo que o grupo irlandês entrou em cena no Coliseu dos Recreios, dando ao público um concerto memorável e vibrante, segundo os testemunhos. Seria o primeiro de vários, concluído com uma actuação no festival Marés Vivas, no cabedelo de Gaia, em 2011.
No ano passado chegou a estar anunciada nova vinda dos Cranberries a Portugal, à feira industrial anual de Cantanhede, o que me levou a pensar que o grupo estaria algo decadente (quando bandas consagradas começam a ir a Queimas das Fitas e festivais industriais é sinal disso mesmo). Acabariam por cancelar, dados os problemas de saúde de Dolores. sem imaginar que não teríamos nova oportunidade de os e de a ver.


terça-feira, janeiro 16, 2018

Como se não bastassem os fogos dos últimos meses


Recordando a tragédia de (Vila Nova da Rainha, concelho de) Tondela do último fim de semana, é estupidamente irónico como aquela terra é vítima de incêndios fora da época dos fogos (Outubro e Janeiro), sendo que o último se deu numa noite gélida e chuvosa. Já não bastava o braseiro de há três meses, que arrasou parte do economia do concelho e causou dois mortos, e agora isto. O que mostra como a negligência pode originar desastres nas alturas em que menos contamos com eles. Fossem quem fossem os culpados pelo estado do edifício, é terrível pensar que várias pessoas perderam a vida por estarem a conviver numa noite de inverno num torneio de sueca, na colectividade da terra, que deveria ser um lugar seguro e acolhedor.
Já agora, como vão os planos de protecção contra incêndios a ser postos em prática daqui a uns meses?

segunda-feira, janeiro 15, 2018

O PSD de Rio


Rui Rio ganhou a liderança do PSD, como se começou cedo a perceber, à medida que os números da votação iam saindo cá para fora. Facilmente se adivinhava que ganhando praticamente todos os distritos do norte e centro do país (faltou Coimbra e Lisboa, insuficiente para dar a volta), onde está a maioria da população e o grosso dos votantes do PSD, que a vitória já não escaparia a Rio.

Como disse no outro post, o antigo presidente da CM Porto está longe de ser um génio político, uma figura redentora ou um estadista de alta craveira. É rigoroso, firme, possivelmente bem intencionado, mas não será, salvo grande surpresa, o salvador por que os militantes do PSD tanto esperam. Dificilmente ganhará a António Costa nas próximas eleições, a não ser que algo de surpreendente se passe (e a verdade é que em 1984 ninguém imaginava Cavaco no poder pouco tempo depois, tal como ninguém imaginaria em 2004 ver brevemente Sócrates à frente do governo). Pode acontecer que o PS ganhe com maioria relativa e precise do PSD para viabilizar um governo, permitindo assim a perda da influência da extrema-esquerda, um dos objectivos de Rio. De qualquer forma, estranho a tentativa de colagem de Rio à esquerda: é verdade que em matéria de costumes é mais libertário, mas quando esteve à frente da câmara do Porto, distinguiu-se pelo rigor nas contas e pelo baixo despesismo e investimento público, por uma postura autoritária e por desdenhar da cultura, o que o tornou num dos alvos preferidos da esquerda (e se pensarmos que o BE portuense é em grande medida constituído por actores e sociólogos...).

Mas entre Rio e Santana a escolha era óbvia. Parece incrível como é que em 2018 ainda haja gente a seguir o "menino-guerreiro", mas a verdade é que ainda conseguiu uns incríveis 46% dos votos. Mesmo depois do seu curto e desastroso governo, da sua errância, de quase nunca cumprir um projecto até ao fim e de os deixar sempre um legado endividado, e de já ter perdido uma eleição com António Costa em 2009 (que devia ser uma mancha no currículo mais que suficiente para nem se apresentar), ainda há muito quem acredite nele. Será por amizade, por ingenuidade, por ódio a Rio? Todas essas razões são válidas, mas 46% é muito.

Seja como for, o PSD pode gozar agora de um período de maior sanidade, mas não terá certamente a vida fácil nem gozará de um estado de graça.
Quanto a Passos Coelho, resolveu, e bem, sair do parlamento. Deve fazer a correspondente travessia política no deserto. Veremos o que o futuro lhe reserva. 

Já agora, a razão para se prever que Rio seria o novo líder do PSD é que até já havia um hino que lhe era dedicado. Caramba, os autores destas causas tinham certamente dons premonitórios: é que já me lembro de ouvir isto desde as "ondas laranjas" de Cavaco Silva.


sábado, janeiro 13, 2018

As vitórias efémeras de Santana


Não sou militante do PSD, mas quero sempre que para a liderança dos partidos vençam os melhores e, sinceramente, já tarda uma oposição eficaz ao actual (esquema de) Governo, e o CDS não basta, por mais que Assunção Cristas se esforce - com algum êxito. Por vezes Catarina e Jerónimo tentam preencher a vaga, mas é raro aventurarem-se em grandes indignações.

Vivi bastantes anos sob os mandatos de Rui Rio e pude ver os seus sucessos e os seus fracassos. É um homem rigoroso, minucioso com as contas, pouco influenciado por grupos de pressão e ameaças (lembram-se da manif dos Super Dragões?) e teimoso, para o bem e para o mal. Como pontos negativos é autoritário, tem uma visão limitada e demasiado genérica sobre diversos assuntos, como a justiça, e uma péssima relação com a comunicação social. Não parece ser a escolha ideal para líder da oposição e para primeiro-ministro, embora pudesse fazer um papel competente como ministro das finanças ou da administração interna. Ainda assim, prefiro alguém com as suas limitações mas com rigor e organização do que um viciado nas disputas políticas como Santana Lopes, que por onde passou deixou as finanças em pantanas, e que nem quando já tinha atingido finalmente uma aura de credibilidade "senatorial" resiste a vir disputar pela enésima vez a liderança do partido - que já teve, com o êxito que se viu - com uma leviandade que já se pensava ser coisa do passado.

E neste combate pela presidência do PSD, nestas tricas, acusações várias e respectivos desmentidos, tenho ouvido por mais do que uma vez que Santana é um "vencedor". Os únicos triunfos que lhe conheço são os das vitórias autárquicas na Figueira e em Lisboa. É sobretudo esta que os seus apoiantes recordam, com razão, porque vencer uma coligação entre o PS e o PCP com um presidente no cargo cujo mandato não tinha desagradado à população, e apenas com o PSD (e simbolicamente o PPM), era uma tarefa hercúlea. Mas as vitórias de Santana acabaram aí. E vale a pena lembrar que já depois de ter oferecido a maioria absoluta a Sócrates seria de novo candidato em 2009 à câmara de Lisboa, desta vez à frente de uma coligação que juntava PSD e CDS, e perdeu com o PS de António Costa apoiado pelo grupo de Helena Roseta.

É este o pormenor que merece ser apontado: caso ganhe a presidência do PSD, Santana terá pela frente não João Soares mas António Costa, o que significa que a conquista de 2001 perdeu a validade. Já agora, é bom lembrar que Rui Rio cometeu uma proeza semelhante, ao conquistar o Porto nessas mesmas eleições (que ditaram a demissão de Guterres) a um PS de Fernando Gomes considerado absolutamente imbatível. Rio manteve-se na câmara por três mandatos, crescendo sempre nas sucessivas eleições que disputou, sempre com uma coligação PSD/CDS. Fica a nota para quem se apoia demasiado em actos eleitorais que já lá vão. Até porque os votos não são dos candidatos, são dos eleitores, e eles podem mudar o seu sentido sempre que tiverem oportunidade.

sexta-feira, janeiro 05, 2018

Nove anos de Delito de Opinião (e uma antologia comemorativa)


O primeiro post do ano 2018, já no seu quinto dia, é endereçado ao Delito de Opinião, no qual tenho também a honra de participar: é que hoje é precisamente o seu 9º aniversário. O Delito começou a sua caminhada a 5 de Janeiro de 2009 e não mais parou, arrebatando vários e talentosos escribas (e também outros que não o são, como este vosso servo) e alcançando o topo das preferências dos leitores da blogoesfera. 

E que melhor forma de comemorar o aniversário do que anunciar o livro da colectânea de textos do Delito? Como só vai até determinada época ainda não aparecem textos deste que vos escreve, por isso a qualidade é garantida. Para que seja editado há uns certos requisitos a preencher, pelo que os passo a transcrever:

"Quase a entrar no décimo ano de publicação ininterrupta, o DELITO DE OPINIÃO passa enfim de blogue a livro. Está pronta a nossa primeira antologia de textos escolhidos pelos autores que entenderam participar nesta colectânea, com estilos e temas muito diferentes - afinal aquilo que fez e faz a identidade muito própria deste blogue, que resiste de boa saúde ao "fim da blogosfera" que alguns se apressaram a decretar urbi et orbi num anúncio que nós por cá desmentimos todos os dias.
Como a nossa série dos  blogonautas convidados bem demonstra: noventa já passaram por cá desde Março e vários outros estão a chegar.
Como as estatísticas deste blogue confirmam: ultrapassámos já um milhão de visualizações desde o início do ano ainda em curso.

O sistema que adoptámos para este livro, com 260 páginas e chancela editorial da Bookbuilders, é o da subscrição. Ou crowdfunding, como agora se diz em "português técnico". Isto implica a existência de um número prévio de leitores inscritos, fazendo reserva de exemplares, para que a obra entre no mercado.
Esperamos um número mínimo de 160 subscritores, que passam a figurar como "apoiantes do DELITO" nesta iniciativa que a partir de agora deixa de ser só nossa e se torna também vossa.
Contamos portanto com a vossa adesão para muito em breve passarem a ler-nos também em livro. O complemento natural ao blogue.

Prometo ir dando mais novidades sobre esta iniciativa. Entretanto podem desde já aderir, enquanto leitores "delituosos", na loja virtual da Bookbuilders. Para garantir o acesso a esta nossa primeira antologia. E abrir o caminho a que apareçam outras. Esperando que gostem tanto de nos ler em livro como já demonstraram gostar de nos ler em blogue."


domingo, dezembro 31, 2017

Fim de ano


Como é costume, A Ágora deseja bom ano a todos os que por aqui ainda vão aparecendo, esperando que em 2018 haja mais posts, entrecortados com os do Delito de Opinião.

Bom ano de 2018 d. C.

sexta-feira, dezembro 22, 2017

O dia seguinte ao 21-D


Se há coisa que não se pode dizer depois das eleições na Catalunha é que alguma é previsível e simples. É a velha questão dos copos: se por um lado os partidos independentistas repetem a maioria absoluta (se juntarmos tudo, claro), por outro é a primeira vez que um partido não regionalista ganha as eleições naquela região. Se o PP de Rajoy leva uma banhada histórica, a CUP anticapitalista e independentista radical leva outra. E se Puigdemont ontem dizia coisas como "a república catalã (qual?) venceu a monarquia espanhola", hoje já vem pedir a Rajoy que se sentem a discutir e diz que não precisa da CUP para nada.

Espera-se que não precise realmente, e que sem os radicais que preferem os jihadistas aos turistas a gritarem-lhe ao ouvido, consiga uma solução que traga benefícios para a Catalunha sem contudo se tornar num novo país. Porque é isso que dizem os votos: a maioria dos eleitores não quer um país independente, mas há um número suficiente para que se procedam a mudanças. E Rajoy, que é um sobrevivente, já esgotou o número de se fazer de morto.

E entretanto, novos protagonistas ganham mais espaço. Contem com eles.



PS: Sábado há Real Madrid - Barcelona. Bom auscultador dos humores no país vizinho.

quinta-feira, dezembro 21, 2017

Os Habsburgos na RTP2


Apesar das séries de TV - ou agora até da net, ou de um híbrido entre as duas - estarem em grande, suplantando mesmo o cinema, não sou grande seguidor. A oferta é imensa, tem inúmeras categorias, e a obrigatoriedade de seguir os episódios, sobretudo quando há várias épocas, implica um esforço de fidelidade que tem os seus custos. 

Quando não são extensas acompanho uma ou outra. E há algumas que não sendo especialmente mediáticas têm o seu interesse. É o caso de uma produção que passou na RTP2 até há cerca de duas semanas, com o título português Maximiliano: Poder e Amor (no original Maximilian: Das Spiel von Macht und Liebe), que narra o encontro do herdeiro do trono do Sacro Império que dá nome à série com a duquesa da Borgonha. Centrando-se na particular relação entre os dois, com as habituais sub-tramas de romances pelo meio, a série mostra-nos um período charneira da história da Europa, entre o fim da Idade Média e o início do Renascimento. Constantinopla caíra poucos anos antes, na mesma altura em que findava a Guerra dos Cem Anos, e Portugal tinha iniciado a expansão africana. A história começa com a notícia da morte de Carlos, o Temerário, na batalha de Nancy, e das atribulações que a sua filha Maria teve de passar, em particular com a burguesia flamenga (a duquesa da Borgonha tinha a sua corte na então próspera Gand), pouco afecta à casa ducal e mais próxima da França de Luís XI, inimigo jurado do Temerário, com cujo filho (quase uma criança) pretendia casar Maria, anexando o velho ducado e seus territórios, que então se estendiam da Borgonha propriamente dita até à actual Holanda, aos territórios franceses. Dando a volta a estas maquinações, Maria casar-se-ia com Maximiliano.

Não querendo fazer demasiadas revelações caso a série volte a passar na TV um dia destes, compreende-se melhor assim o fim de uma potência, a Borgonha, que a ter sobrevivido como estado (e como reino, como pretendia o Temerário) mudaria bastante a geopolítica da Europa como a conhecemos, e a ascensão de outra. O Sacro Império passava por inúmeros problemas, numa altura em que os exércitos eram sobretudo constituídos por mercenários, para cuja manutenção era preciso dinheiro, que não abundava nos cofres dos Habsburgos. Para mais, estavam rodeados de poderosos inimigos - a França a oeste e a leste a Hungria do poderoso Matias Corvino e seus estados vassalos, como a Valáquia do célebre Vlad, o Empalador. Ironicamente, a coroa da Hungria seria mais tarde ostentada pelos Habsburgos. Mas todos esses problemas são retratados na série, onde começa a formar-se a dinastia que dominaria a Europa no futuro próximo. Se então a Borgonha passava por uma crise dinástica, Castela passava por outra, que acabou com o triunfo de Isabel, a Católica, sobre a pretendente apoiada por Portugal, Joana, a Beltraneja. A resolução das duas acabaria por ficar umbilicalmente ligada: o filho de Maximiliano e de Maria, Filipe, o Belo, casar-se-ia com a filha dos Reis Católicos (de Castela e de Aragão), Joana, a Louca, e o filho de ambos, que a História recorda como Carlos V, herdaria os títulos de Imperador do Sacro-Império, Duque de Borgonha (embora a região com esse nome tivesse sido anexada pela França) e Rei de Castela e Aragão, com todos os territórios inerentes e ainda os do Novo Mundo. O seu filho Filipe seria também, a partir de 1580, Rei de Portugal, como se sabe.

Claro que grande parte destes acontecimento não vêm narrados na série, que decorre num período de cinco anos. Nela cabem o romance, a intriga, a traição, a desobediência e a guerra, num ambiente algo pesado e penumbroso. Tem também uma excelente fotografia e alguns aspectos curiosos, como o facto de todos falarem na respectiva língua e em mais nenhuma - o austríaco falava com a borgonhesa em alemão e esta respondia-lhe em francês, ao passo que em Gand se falava flamengo. Nem uma palavra em inglês. Só é pena que não tenha sido referido um pormenor: o de Maximiliano e Maria, que antes do casamento nunca se tinham visto (e casam mesmo por procuração) serem já primos, uma vez que a mãe dele, já morta na altura dos acontecimentos, e a avó dela eram sobrinha e tia, ambas portuguesas, ambas da casa de Aviz (filha de D. Duarte e de D. João I, respectivamente). Tirando a omissão lusa e outras de menor importância, e só lamentando não haver mais cenas de batalha, a série cumpre perfeitamente a função didáctica. Que haja mais.

terça-feira, dezembro 19, 2017

Qatar nos Emirados, entre Madrid e Porto Alegre


Sábado à tarde entretive-me a ver a final do Mundial de Clubes, que, como habitualmente, contou com os representantes da Europa e da América do Sul. Vitória natural do Real Madrid sobre o Grémio de Porto Alegre, com um ainda mais natural golo de livre de CR7, a conquistar o ceptro mundial (e ainda lhe anularam inexplicavelmente outro tento). A equipa gaúcha revelou-se uma desilusão, a anos-luz do excelente Grémio de meados dos anos noventa, com Jardel, Paulo Nunes, Adilson e restante esquadra comandada por Scolari. Só o central Geromel, que até passou os primeiros anos da carreira em Chaves e Guimarães, se destacou da mediania-menos.

Bem menos natural do que o triunfo da multinacional desportiva sediada em Madrid é que numa final em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, apareçam nas placas comerciais à volta do relvado anúncios da Qatar Airways, rival da Emirates, a companhia aérea daquele território (e autêntico embaixador e reserva económica). Ainda por cima a Qatar é patrocinada por um estado que está de relações cortadas com os Emirados e até sofre por parte destes e dos seus aliados um bloqueio económico. É tão bizarro como ver anúncios a uma companha cubana na final da Super Bowl. Seria uma provocação ao Real Madrid (a Qatar Airways patrocina o Barcelona)?

Dizem-me que afinal a transportadora qatari é uma das patrocinadoras da FIFA. Talvez assim se compreenda: a grande organização do futebol mundial é de tal forma poderosa que consegue romper bloqueios e tensões internacionais e impor publicidade em países que tanto por razões políticas como económicas certamente a não desejariam. E assim fica um exemplo eloquente de como uma organização mundial não-governamental tem mais influência e poder do que muitos estados, mesmo os mais endinheirados.



domingo, dezembro 17, 2017

O Benfica no Inverno


Não tenho falado muito de bola aqui, e não admira. Com o Benfica a fazer uma época tão modesta e apagada, as minhas atenções futebolísticas voltam-se para os relvados estrangeiros. Mas vale a pena recordar o que têm sido os disparates acumulados nos últimos meses para evitar repetições nos próximos anos.
O Benfica do ano passado já não era uma coisa fabulosa, com jogadores que não renderam o que se esperava, como Rafa e Carrillo, mas servia para vencer o campeonato, como aconteceu, e justamente. Este ano, venderam-se Lindelof, Semedo, Ederson e Mitroglou sem que nenhum dos seus lugares fosse devidamente preenchido. Percebo que o Benfica precise de fazer dinheiro para diminuir o volume de dívida e que tenha de aproveitar as chorudas ofertas que vêm da Premier League e de outros campeonatos abonados. Mas que tenha um pouco de tino no momento de contratar novos jogadores para os lugares em falta. O exemplo da tentativa de substituir Nelson Semedo é ilustrativo: cinco jogadores foram já utilizados no lugar, além dos que foram contratados para a mesma posição e nem sequer entraram em campo, e ao fim e ao cabo, é o "bombeiro" André Almeida que preenche o lugar, nem sempre com bons resultados.

O problema é que os resultados foram ainda piores que os esperados. A (falta de) performance na Europa é aterradora, dando-nos a pior época de sempre, com humilhantes zero pontos, apenas ao alcance das mais medíocres equipas que jogaram por sorte na competição, fazendo do Benfica o pior cabeça de série da história da competição. Para além da vergonha, do dinheiro que se perde e da queda expectável nas tabelas das melhores equipas da Europa, era particularmente importante fazer uma carreira decente este ano nas competições europeias depois da campanha lançada pelos departamentos de propaganda de Porto, sobretudo, e do Sporting (logo a seguir aos responsáveis destas entidades terem reatado relações meio às escondidas). Seria a melhor resposta a uma campanha em tudo poco clara, mas infelizmente correu tudo ao contrário.

Agora fala-se da entrada de novos jogadores e da saída de outros, como os fiascos "Gabigol" e Douglas (este nem chega a sê-lo, de tal forma estávamos avisados da sua fraquíssima aptidão a defender, o que o torna num novo Okunowo, que jogou no Benfica nas mesmas condições, ou num novo Dudic), o que mostra bem a péssima preparação da época, que nem em cima do joelho deve ter sido feita. O campeonato corre menos mal, mas o Benfica está também fora da Taça de Portugal, embora com bastante infelicidade à mistura, diga-se, e não está muito bem na Taça da Liga. Mesmo com mais folga, dificilmente alcançaremos o tal "penta". E diga-se em abono da verdade, não o merecemos muito. Melhor seria começar já a preparar a próxima época, aproveitando alguns dos bons valores do Seixal que jogam na equipa B, além de Rúben Dias.

Mas já que falei em jogadores de saída, não posso deixar de referir um que merece uma palavra: Júlio César. O veterano guarda-redes brasileiro é dos jogadores com mais títulos de sempre no futebol mundial  - só lhe faltou mesmo a Taça do Mundo em selecções - e nos três anos que jogou na Luz sempre defendeu a camisola do Benfica com honra e profissionalismo, até as condições físicas o permitirem. É daqueles jogadores que vejo sair do clube com pena. E nas suas despedidas, o guarda-redes também parece já saudoso. Um abraço, Júlio César.

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quinta-feira, novembro 23, 2017

A espectacular superioridade da candidatura de Lisboa sobre a do Porto


É uma pena esperada que a candidatura do Porto à Agência Europeia do Medicamento não tivesse ganho. Mas não é por isso que se pode dizer desde já que a de Lisboa, descartada em Junho pelo Governo, tivesse sido vencedora. Sim, houve muito quem defendesse a tese "se Lisboa fosse candidata a receber a EMA teria muito mais hipóteses de ganhar do que o Porto".


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Sim, o Porto perdeu, ficou em sétimo e em boa verdade só por muita fé é que se pensaria que podia ganhar. A candidatura tinha alguns aspectos vagos e dificilmente podia ombrear com outros concorrentes. Mas pensar que Lisboa tinha mais hipóteses é outra quimera. Até agora, vi escrito vezes sem conta que Lisboa era uma das preferidas, que tinha muito mais possibilidades de ganhar, etc. Pois bem, não vi um único argumento que me demonstrasse essas tais hipóteses.

O Luís refere por exemplo que a Agência só podia ir para uma capital. Ora a cidade que chegou ao fim com mais pontuação foi Milão, só preterida em sorteio posterior a favor de Amsterdão. O Porto ficou a par de Atenas e à frente de capitais como Viena, Helsínquia, Sófia, Bucareste ou Varsóvia. Se ser capital nacional era mesmo um requisito (e isso não aparecia em parte nenhum, senão não concorreriam cidades que não o são), ou houve distração por parte das entidades responsáveis ou então era apenas uma condição simbólica. O que só mostra que a candidatura do Porto era melhor do que o que se pensava.

O Embaixador Seixas da Costa, também aludido pelo Luís, acha que "Lisboa era a única cidade portuguesa com condições potenciais para albergar" a agência. Mais uma vez não nos são apresentados critérios, excepto o da "visibilidade execional que a cidade está a ter por toda a Europa". Se a razão é essa, recordo que a também o Porto tem neste momento uma visibilidade internacional que provavelmente nunca antes tinha conhecido. Não por acaso, foi eleito, por três vezes em seis anos, "melhor destino europeu". Vale o que vale, mas a votação que lhe permitiu o tri-galardão teve sobretudo votos estrangeiros a favor. Não sendo um argumento de enorme peso, demonstra que também a visibilidade portuense está em alta. E não esquecer, evidentemente, a repercussão que a eleição de Rui Moreira teve, com honras de reportagem e entrevista por parte de jornais como o Le Monde e o New York Times.


O Diogo recorda-nos que os funcionários da EMA preferiam ir para Lisboa. Podia ser um argumento com algum peso. Simplesmente, diz-nos a notícia, tratou-se de um inquérito interno revelado apenas pelo presidente da Apifarma, e sem que os resultados fossem "publicados ou comunicados aos estados-membros". Ou seja, temos apenas a "revelação" do sr presidente da Apifarma, sem qualquer confirmação. Aliás, ouvimos muitos falsos alarmes ao longo deste processo. Ou não se lembram do favoritismo ser atribuído a Bratislava?

De resto, não ouvi quaisquer outros argumento que atestassem as enormes hipóteses de a candidatura Lisboa ser tão melhor que a do Porto. Pelo contrário, ouvi os habituais desabafos de que "era a capital", a maior cidade", "essas coisas devem ficar onde têm mais representatividade (Sic)", etc. Excepto talvez um: o de que Lisboa teria mais linhas aéreas. É um facto. Mas para além do aeroporto de Pedras Rubras apresentar melhores condições, é bom lembrar que a supressão de várias e importantes linhas aéreas do Porto partiu daquela empresa que não sabemos se é pública ou privada chamada TAP, com explicações frouxas e atabalhoadas.

Por outro lado, há um argumento que se não é exclusivo, joga pelo menos com bastante força contra a candidatura de Lisboa: o facto de já lá haver duas agências europeias. Só uma cidade tem mais do que duas: Bruxelas. Tirando a "capital da UE", e na possibilidade remotíssima de ganhar, Lisboa tornar-se-ia a única cidade com três agências, o que seria uma caricatura chapada do centralismo à portuguesa.

Assim sendo, explica-se melhor a atitude do governo, que depois de escolher Lisboa, mudou subitamente para a candidatura do Porto: sabia-se que nem uma nem outra teriam quaisquer hipóteses. E tentou-se assim dar uma aura de descentralização de fachada. Mais penoso ainda: viram-se deputados, como Catarina Martins, a retorquir que o facto de outras cidades, como o Porto, Braga e Coimbra não serem também candidatas era um ultraje, depois de eles mesmo terem votado em Lisboa.

Mas talvez estas discussões e estas candidaturas tenham trazido algo de bom: tal como aconteceu com o Festival da Eurovisão (que ficou, e muito bem, no Parques das Nações), discutiu-se para que cidade portuguesa determinado organismo/evento internacional viria, embora só depois de se emendar a mão à simples escolha de Lisboa, apenas porque sim, sem mais. É uma atitude saudável que doravante terá de fazer parte das escolhas dos decisores políticos. O resultado final pode perfeitamente ser Lisboa, mas que haja uma avaliação e um debate prévio sobre a matéria em questão. Senão arriscamo-nos a ficar sempre tão centralizados como a Hungria ou a Grécia. Ou talvez nem isso: é que a Grécia conta com três agência europeias e nenhuma delas sequer fica em Atenas. Afinal é bem verdade que Portugal não é a Grécia.

Já agora, se me permitem, ficou-se a saber que a desconcentração de serviços é uma tarefa hercúlea. Não sei se a mudança da administração e de parte dos trabalhadores da Apifarma de Lisboa para o Porto se justifica e a que títulos. Também não acho, nem nunca achei, que desconcentrar fosse tirar de Lisboa e colocar no Porto, como se a grande falha não fosse litoral/interior. Mas ao ver os queixumes e as reclamações com o "triste destino" dos trabalhadores, que, horror, podem até ter que ir trabalhar para o Porto, não posso deixar de pensar nos milhares e milhares que ao longo de gerações tiveram que abandonar as suas raízes e as suas famílias e migrar para a capital e para os seus subúrbios crescentemente lotados, sem que nunca ninguém tivesse elevado a voz para os defender nem para contestar a sua migração quase forçada. Talvez agora se comece a pensar nisso.

segunda-feira, novembro 20, 2017

Os últimos vilões


Este fim de semana morreram Charles Manson e Toto Riina, dois assassinos sinistros (o primeiro um perfeito psicopata, o segundo o mais impiedoso dos mafiosos), sem quaisquer barreiras morais. Ao mesmo tempo, assistimos à morte política de Robert Mugabe, um dos ditadores mais lunáticos das correntes décadas. Os últimos dias foram arrasadores para os grandes vilões que ainda sobravam do século XX.

segunda-feira, novembro 13, 2017

O que me ficou do jantar do Panteão


É claro que fazer jantares no Panteão é patético e de gosto duvidoso. É claro que fait divers destes dão cada vez mais azo a oportunismos políticos, seja do Governo ou da oposição (a última pérola é de Gabriela Canavilhas, uma das mais notórias yes woman do PS). E é claro que é deste tipo de coisas que se alimentam as sempre insaciáveis redes sociais, sendo que esta polémica partiu precisamente de um blogue - o de Seixas da Costa (não sei se também terá publicado no Facebook).

Mas duas coisas me ficaram: uma delas é, como escreveu o Rodrigo Adão da Fonseca, que os nossos governantes e os nossos organismos públicos reagem actualmente sobretudo sob a pressão das tais "redes sociais" e respectivos estados de humor, sobretudo quando estão indignadas, o que nos leva a uma caótica e mesmo degenerada noção de "democracia directa"; a outra é que se os tais web summiters, ou lá como lhes chamam, não perceberam minimamente onde estavam, é porque a sua visão somente apontada à tecnologia, a um certo tipo de empreendedorismo e ao culto da "informalidade" faz tábua rasa de qualquer conceito de sacralidade e de respeito pelo passado e pela memória. Ou seja, um caldo de economicismo e de modernidade a todo o custo baseada na tecnologia, que recorda os "progressistas" do século XIX, que não hesitavam em derrubar traços medievais existentes, como castelos, palácios ou igrejas, para construir as suas particulares visões de futuro e de "civilização". Não admira que as suas reuniões se tenham vindo a fazer em Portugal.

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terça-feira, novembro 07, 2017

A Webb Summit, um evento de "estatistas"


Aqui há uns anos, João Carlos Espada desenvolveu uma imaginativa teoria, segundo a qual o uso de gravata estava directamente ligada à (menor) intervenção do estado na sociedade e a "formas de conduta decente": quanto mais se usava gravata - além de outros acessórios - menos se era a favor da intervenção do estado: quanto menos se usasse, mais se seria favorável ao "estatismo".

Estava hoje a olhar para os intervenientes no palco e nas primeiras filas da plateia do Web Summit, a gigantesca conferência de tecnologia e empreendedorismo a decorrer em Lisboa, e a notar como a maioria usava o padrão dos grandes empreendedores do nosso tempo (leia-se também geeks ou nerds, à falta de melhor tradução portuguesa): óculos de massa, t-shirt, jeans, provavelmente sapatilhas - ténis, para os menos familiarizados. Mesmo os convidados, como Guterres, apareceram sem gravata. No meio disto tudo, o único que estava engravatado, tirando alguns orientais pouco apreciadores de informalidades, era António Costa. Usando-se a teoria de Espada, poder-se-ia considerar que toda aquela aglomeração de gente estava ali para exigir a intervenção do estado, ou seja, mendigar algo do estado. Costa, a máxima autoridade da administração pública, apoiado por toda a esquerda, seria o defensor da sociedade livre e destatizada, o paladino do governo mínimo e da defesa dos cidadãos e consumidores perante uma máquina burocrática e insaciável com o rosto do "monstro" do funcionalismo público. Até que o Primeiro-Ministro, decerto receoso das reacções dos parceiros políticos e de acusações de neoliberalismo, tirou a gravata para parecer menos desenquadrado do ambiente. O Professor Espada ficou certamente desiludido, mas António Costa lá salvou a honra de parecer não só estranho ao que o rodeava, mas sobretudo um defensor do intervencionismo mínimo do estado.
Claro que tudo isto resulta de uma teoria excêntrica e de uma situação casual, que inverte a realidade. Mas podia ser uma boa metáfora do investimento público feito até agora pelo governo mais à esquerda desde 1975.

sábado, novembro 04, 2017

Agradecer aos catalães pela Restauração? E aos outros?


Uma das trivialidades que mais se tem repetido nos últimos tempos, a propósito da situação na Catalunha, é que Portugal "deve a sua independência" aos catalães, em razão da revolta que por lá estalou em 1640 ter permitido que as tropas espanholas se concentrassem naquele território e se desviassem deste rectângulo mais a oeste. Conceitos de independência à parte, os defensores desta tese nem notam que estão a reduzir Portugal a um mero estatuto regional e a colocar uma nação velha de séculos ao lado de regiões que nunca foram estados, e que circunstancialmente têm um grupo grande que o pretende formar um.

É bizarro que se considere sequer que os seguidores de Pau Claris tivessem pensado um segundo que fosse em Portugal. Mas e se a tese da gratidão que devemos aos catalães fosse correcta? Nesse caso, pecaria por defeito. É que seria mais fácil escolher quem é que não estava em guerra com a Espanha nesses anos quarenta do século XVII do que o contrário, incluindo (ou sobretudo) nos seus próprios domínios.

A década começou com a Guerra dos Trinta Anos contra a França, as Províncias Unidas (Holanda), um ex-domínio que procurava manter, e os adversários dos Habsburgos em geral, além de algumas batalhas navais com a Inglaterra. Os tercios espanhóis, uma máquina de guerra temível ao tempo, combatiam nos Pirinéus, na Flandres, nos Países Baixos e na Alemanha, e obtiveram alguns êxitos, como a tomada de Breda, imortalizada por Velasquez.

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Em 1640 rebentou a referida revolta catalã, ou "Guerra dos Segadores", que começou por ser uma revolta popular contra os abusos das tropas aí estacionadas, e que acabou por levar a Generalitat a proclamar a República e a aclamar posteriormente Luís XIII como soberano. A revolta e a perda de território para o inimigo levaram a que Espanha deslocasse mais tropas para a região, que seria recuperada (parte dela, já que Perpignan ficou para os franceses) apenas em 1659. É este o pretexto para se dizer que "Portugal deve a sua independência à Catalunha".

Mas ao contrário do que se pensa, a Catalunha não foi a única rebelião ibérica. Uma conspiração andaluza, encabeçada por Grandes de Espanha, começando pelo nobilíssimo Duque de Medina Sidónia  (irmão da já então Rainha de Portugal D. Luísa de Gusmão), impediu que tropas espanholas se concentrassem perto de Portugal. A conspiração acabou por ser descoberta e os seus autores punidos com o cárcere e perdas de bens e regalias, mas ficou na dúvida quais os reais motivos da conjura, havendo quem creia que se pretendia mesmo a secessão da Andaluzia com Medina Sidónia como novo soberano de Sevilha, com o auxílio do real cunhado.

Mais tarde, em 1648, outro grupo de conspiradores, estes em Aragão, veriam também os seus planos desfeitos. Aqui a conjura era ainda mais ambiciosa: pretendia, com auxílio de França e Portugal, separar o velho reino de Aragão de Castela, apoiando a Catalunha, oferecendo alguns territórios aos franceses e a Galiza a Portugal. Infelizmente para os galegos, também esta não conseguiu ir avante.

Por essa altura já tinha rebentado a revolta contra os vice-reis de Nápoles, na época também sob a coroa dos Habsburgos, chefiada pelo pescador guerreiro Manasiello. Num primeiro momento, as tropas no terreno sufocaram a revolta e liquidaram Manasiello, mas pouco tempo depois houve novo levantamento, que levou à proclamação da república "régia" de Nápoles, entregando o título de Doge a Henri de Guise. A situação durou menos de um ano, até que os espanhóis, comandados pelo Infante D. João José de Áustria, tomaram de novo a cidade sem grande resistência, depois de uma estratégia de paciência e de conquista gradativa. Só em fins do século XVIII Nápoles teria o seu primeiro rei nascido em sol italiano.

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Para se ficar com uma ideia mais ampla dos sarilhos com que Espanha se deparava na época, e se não se quiser percorrer grandes calhamaços de história,os livros de Arturo Perez Reverte, nomeadamente os da saga do Capitão Alatriste (que também existe em filme, com Viggo Mortensen a interpretar o vigoroso mercenário, e em série), onde entram figuras reais como Francisco de Quevedo e o Conde-Duque de Olivares (figura contra a qual boa parte destas revoltas se dirigiu) são um bom guia da situação

Ou seja, se queremos agradecer a quem, pela sua oposição desviou as atenções e os recursos da temível força terrestre espanhola, devemos agradecer não apenas aos "nossos irmãos" catalães, mas também aos "nossos irmãos" franceses, holandeses, flamengos, napolitanos, e também a alguns andaluzes e aragoneses. E os que formarem movimentos secessionistas terão todos a nossa solidariedade. A gratidão é uma virtude muito bela e não devemos excluir ninguém.

terça-feira, outubro 31, 2017

Surrealismo na Catalunha


Não sendo marxista, parece-me que aquela máxima atribuída a Marx - "a História repete-se, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa" - se deve atribuir à situação na Catalunha. Depois, de, como fuga para a frente e sem saber o que fazer, rodeado pelos que o acusavam de "traidor", Carles Puigdemont ter submetido um voto ao parlamento catalão, sem metade dos seus deputados, daí resultando uma "declaração unilateral de independência" que logo desencadeou o processo da suspensão da autonomia catalã pelo governo nacional e a marcação de eleições para Dezembro, temos a aparente fuga do ex-presidente da Generalitat para Bruxelas. Para mais, para se encontrar com os "companheiros" independentistas flamengos, e, segundo alguns, para ali arranjar asilo político, coisa desmentida pelo próprio. Mas a impressão de exílio apressado passou pela cabeça de muitos, sobretudo depois de um secretário de estado belga ter lançado a ideia da concessão de asilo a Puigdemont.

Seja como for, é mais um episódio desta história de doidos que se desenrola na Catalunha desde há umas semanas. A declaração unilateral é provavelmente o acto mais estúpido de todo este processo, mais do que as investidas da Guardia Nacional no dia 1 de Outubro. Este passeio de Puigdemont é igualmente ridículo. O Podemos, entretanto, não sabe que posição há de tomar. E Mariano Rajoy parece estar a aprender com os erros recentes e teve uma atitude equilibrada e raciona, que poderá produzir os seus frutos caso não descambe. 

Uma das melhores descrições do que se passa ouvi-a no outro dia, a propósito da exumação de um celebérrimo artista catalão: bastou desenterrar Salvador Dali para que o surrealismo espalhasse logo. 

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terça-feira, outubro 24, 2017

Dias de inferno na terra.


Não escrevi muito nos últimos dias. Nesse tempo, meio país ardeu, 45 pessoas morreram, um ministério caiu sem contemplações e houve uma moção de censura contra o Governo, que sem surpresas não passou. Desde as horas tardias de Sábado, dia 14, com uma noite em que a temperatura alta já era motivo de conversa, até terça, às primeiras horas de madrugada, quando a chuva veio finalmente pôr termo ao inferno que tantas populações viviam, o fogo destruiu quase todo o centro e uma pequena parte do Norte do país. É impossível que ninguém tenha notado - excepto nas ilhas, e não sei se no Algarve - quando a coluna de fumo afectou mesmo o Reino Unido. A atmosfera era pesada e cinzenta. De manhã, algumas estradas à volta de Braga ainda estavam fechadas, viam-se colunas de fumo que se levantavam e a estrada para Guimarães ainda tinha amplos espaços a fumegar, com a supervisão dos bombeiros. Sorte a minha, que não tive de passar o que outros passaram. Todo o vale do Dão ardeu, além de boa parte de Lafões, do Pinhal Interior e da mancha verde perto da Marinha Grande conhecido em todo o país como Pinhal de Leiria, essencial na aprendizagem da história na escola. Dezenas de pessoas morreram, outras ficaram feridas, centenas de casas, algumas de primeira habitação, arderam, bem como dezenas de empresas, sustento de tantos municípios. As imagens de desolação e do horror após esse inferno terrestre estão por toda a parte. O rasto de destruição é incomensurável. Para mais, calhou-nos um primeiro-ministro insensível que só soube gaguejar desculpas burocráticas, uma ministra do Interior sem condições psicológicas, sapiência ou competência para o cargo, e uma protecção civil aos papéis, sem dispor de meios nem de aviões para combater os fogos. 
Ficam relatos na primeira pessoas, como o do José Maria Montenegro, que felizmente conseguiu que a casa de família, em Tourais, Seia, se mantivesse. Menos sorte tiveram os meus primos Henriques Simões, de Poiares, que viram a sua centenária casa dos Moinhos, onde ainda havia arquivos dos primórdios do concelho, e onde tinha nascido o meu tio-avô Augusto Henriques Simões, arder quase por completo, restando as paredes, alguns anexos e a capela. Também as velhas casas perecem. Ironia das ironias, Poiares é precisamente o município de onde é originário e ao qual presidiu durante quase 40 anos Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses. 

Foto de João Pedro Pimenta.
Guimarães, 16 de Outubro de 2017- A estátua do Conquistador parece curvar-se à bandeira a meia haste.

segunda-feira, outubro 09, 2017

Ainda as autárquicas - os efeitos nacionais


Quem ainda acha que as eleições autárquicas são meramente actos municipais engana-se redondamente. Claro que á partida as pessoas votam em função das suas realidades locais. Mas para além dos efeitos nas câmaras (e consequentemente nas áreas metropolitanas e comunidades intermunicipais), assembleias municipais e freguesias, os efeitos das autárquicas influenciam muitas vezes a vida nacional e os governos.


Na cronologia das nossas eleições municipais, verificamos que depois das de 1976, que repartiram  as autarquias pelos diversos partidos (com larga incidência do PSD e CDS no Norte, Centro e ilhas, do PCP no Alentejo e "cintura industrial" de Lisboa, e o PS mais transversal mas mais estabelecido no Centro e Algarve), os sucessivos resultados foram influenciando a política nacional, algumas vezes de forma imediata. Assim, as autárquicas de 1982 foram o pretexto para que o CDS rompesse com o PSD, determinando o fim da AD, que tinha baixado substancialmente, e o posterior surgimento do Bloco Central; as de 1993 reforçaram a vitória do PS de 1989 (embora depois destas o PSD revalidasse os 50% dos votos da maioria absoluta que já vinham de 1987) e permitiram que António Guterres consolidasse a sua liderança no PS, antes de chegar a primeiro-Ministro; as de 1997 implicaram a demissão de Manuel Monteiro da chefia do CDS-PP e a sua substituição por Paulo Portas; as de 2001 também iam levando à saída do próprio Portas, mas a hecatombe do PS levou antes à demissão de Guterres, do Governo e do partido, e à posterior alteração da situação política; as de 2013 permitiram que António Costa recebesse o suplemento necessário para meses depois se guindar à liderança do PS, além de surpreenderem parte do país desatento com a eleição do movimento independente de Rui Moreira para a câmara do Porto; e finalmente as de 2017 implicaram a saída de cena de Pedro Passos Coelho, após sete anos à frente do PSD, quatro dos quais como Primeiro-Ministro.

Como se vê, as autárquicas têm bem mais implicações do que a mera atribuição dos destinos de uma dada autarquia: permitem estudar a situação política e não raras vezes alterá-la. E também fazem emergir figuras que depois ocupam o centro do terreno, ou servem de trampolim para cargos mais altos, como a câmara de Lisboa tão bem comprova. Os últimos 40 anos da vida política portuguesa foram bastante influenciados por estas eleições que antigamente eram realizadas sob o frio de Dezembro e agora passaram para esta calidez de princípios de Outono. Balsemão, Guterres e Passos que o digam.

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domingo, outubro 08, 2017

Ainda as autárquicas - e os maoístas que recebem dinheiro do estado?


Ainda gostava de saber como é que um partido cujo líder nunca aparece e que escreve missivas ameaçadoras a insultar os adversários e a enaltecer o terrorismo islâmico, não raras vezes sob pseudónimos ridículos, que organiza congressos clandestinos, que nunca atende a chamadas telefónicas nem a toques de campainha na sede, que chama "traidores" a todos os adversários e que, sendo contra a democracia e clamando pela "revolução operária", recebe mais de 180 mil euros anuais de subvenção do estado, participa nas autárquicas sem que ninguém lhes pergunte nada. Não haveria nenhum jornalista que perguntasse aos candidatos do MRPP o porquê de Arnaldo Matos se esconder, quais os seus propósitos para as autarquia, e já agora, o que era feito de tal subvenção que pelos vistos coincidiu com a tomada do poder do partido por dementes?

sexta-feira, outubro 06, 2017

Análise global aos resultados autárquicos


Algumas análises das autárquicas feitas pelos actores políticos pecam pela ligeireza. Não é lá muito rigoroso dizer-se que "á uma vitória dos partidos que sustentam a maioria e uma derrota para a direita" (e menos ainda a lengalenga da CDU do "reforços de posições", que finalmente tiveram de ultrapassar). A verdade é que o PS é o grande vencedor e o CDS o outro vencedor. O PSD e a CDU são os grandes derrotados e o Bloco, se ganha um lugar em Lisboa, fica a milhas de reconquistar Salvaterra e redemonstra não ser um partido com implantação municipal.

O discurso de derrota do PSD constituiu um autêntico pré-anúncio de demissão de Pedro Passos Coelho. O agora líder cessante estava há muito desgastado, o aparelho partidário e os "barões" estavam saturados e o seu prazo de validade já tinha passado. As autárquicas foram o golpe final. Se pensou que os resultados seriam menos negativos, então não lhe restaria mesmo qualquer alternativa. Não só foram péssimos como o PSD perdeu o controlo nas grandes áreas urbanas e a indefinição sobre os candidatos a Lisboa revelaram-se ainda mais desastrosas do que o inicialmente previsto. Nada se salvou. Finalmente percebeu que a saída era inevitável. Entretanto, começou a guerra da sucessão, que poderá ser curta se só Rui Rio, o único confirmado, avançar.

O PCP perdeu muito, em sítios inesperados (Almada acabou por ser a estocada final, já que a sua perda por escassos votos para Inês Medeiros só se confirmou quando a noite já ia avançada). Perdeu câmaras simbólicas, coisa que ninguém apostaria, cerca de dez, perdeu votos, percentagens, vereadores, juntas de freguesia. Desta vez não houve "discurso de consolidação" que lhes valesse. E as reacções não têm sido nada boas. Ainda por cima, quando o PS tanto evitou bicadas aos socialistas. Mesmo Assim, Jerónimo acusa o PS e o BE, ameaça não fazer qualquer acordo nas câmaras que perdeu, e não certamente por acaso já se ouvem ecos de greves anunciadas convocadas pela CGTP.

O CDS, sozinho, não teve grande votação, mas se juntar uns pontos das coligações com o PSD obtém números razoáveis. Pedia-se que Assunção Cristas tivesse mais de 10% em Lisboa e que mantivesse as cinco câmaras. Conseguiu mais e 20% na capital, o melhor de sempre deste partido (em coligação com MPT e PPM), ainda melhor que o também segundo lugar em 1976 e que permitiu a Abecassis encabeçar a AD depois vencedora, e adicionou Oliveira do Bairro à contabilidade (mantendo, como sempre, Ponte de Lima). O CDS confirma a inversão iniciada em 2013 da queda acentuada na política local que se verificava desde os anos oitenta e Cristas confirma e reforça a sua liderança e eclipsa a imagem de Paulo Portas, cortando as últimas amarras. É doravante a líder quase incontestada do partido. 

O Bloco confirma-se como pequena força autárquica: teve mais votos e mais vereadores, ganhando a aposto Ricardo Robles em Lisboa e tendo contribuído para a derrota da CDU em Almada, mas falhou a entrada na executivo no Porto e ficou a anos-luz de reconquistar a sua antiga câmara de Salvaterra de Magos. Terá de esperar por outros "desertores" de esquerda.

Os independentes deram cartas. Rui Moreira ganhou de novo e com maioria absoluta, Isaltino arrancou Oeiras ao anterior movimento que o apoiava, em Portalegre ou Estremoz mantiveram as respectivas câmaras eme locais como Águeda ou Terras de Bouro conquistaram novas. "Verdadeiros" ou gente que bateu  porta com o ex-partido e regressa para se vingar, as candidaturas independentes vieram para ficar.

E o PS? O PS ganhou. Largamente. Maior vitória de sempre numas autárquicas, maior número de câmaras, de vereadores, de deputados municipais, de juntas de freguesia, manteve concelhos como Lisboa, Sintra, Gaia, Funchal, Gondomar, Coimbra e Barcelos, reconquistou Matosinhos, Beja, e Chaves, entre outros, e alguns municípios onde nunca tinha ganho, como Almada, Mirandela, Paredes e Marco de Canaveses. Só no Minho é que as coisas correram pior, com a perda de alguns concelhos. O problema é que a vitória poderá ter sido demasiado grande e provocado feridas na Geringonça, nomeadamente no PCP, que já vocifera e prepara algumas greves via CGTP. É esperar para ver.


terça-feira, outubro 03, 2017

Tem a palavra o Rei


Na Catalunha assistimos a acontecimentos contraditórios e caóticos: o governo nacional a reagir à paulada, com cargas policiais desproporcionadas e excessivas que não auguram nada de bom; o governo regional a fazer um plebiscito violando a constituição, o estatuto autonómico e as próprias regras da assembleia regional; o dito plebiscito feito em urnas transparentes, com boletins trazidos de casa e eleitores a votar mais do que uma vez; protestos contra Piqué no treino da selecção espanhola, minando ainda mais o ambiente; e o presidente da Generalitat a anunciar uma futura "declaração unilateral de independência" quando a maioria dos eleitores recenseados nem votou (e os que votaram fizeram-no sabe-se lá em que condições), e nem sequer houve observadores internacionais, como se exige nestes casos. No fundo, mais uma vez chocaram o autoritarismo castelhano e o anarquismo catalão; noutras ocasiões em que tal aconteceu, mesmo quando conseguiram resolver o diferendo, houve sangue pelo meio.

Perante isto, e com a cegueira de parte a parte, impõe-se a intervenção do órgão mais livre e mais respeitável de Espanha: a Coroa. Felipe VI tem o dever de falar e de actuar como o obriga a Constituição. Tal como o seu Pai, que em 1981 usou as suas prerrogativas de soberano para acabar com um golpe de estado militar e consolidar a democracia.
PS: O Rei falou, enfim. Teve um discurso duro e não hesitou em acusar a Generalitat pelos acontecimentos que se têm passado. Talvez preferisse algumas palavras de conciliação, mas também tinha que marcar uma posição. Afinal de contas, é o garante da unidade da nação.

segunda-feira, outubro 02, 2017

O grande vencedor?


Ao ver as capas dos jornais, dir-se-ia que o grande vencedor destas autárquicas é Fernando Medina. Que é o PS no seu conjunto não restam quaisquer dúvidas, e só alguém muma dimensão paralela o poderá negar. Que Medina ganhou também não. Mas ser o grande destaque? Medina perdeu a maioria absoluta e 9% em relação há 4 anos, mas parece que todos se esqueceram disso (e Assunção, sem o PSD, apenas juntando o PPM ao CDS e MPT, teve quase tanto como Fernando Seara em 2013). Além do mais, teve todas as facilidades e mais algumas, entre apoios, divisão dos adversários, boas notícias para o Governo, etc. Entretanto, Rui Moreira não só voltou a ganhar como subiu até aos 44% e conquistou a maioria absoluta. Teve um caminho muito mais espinhoso, não tinha os meios nem os apoios que Medina teve, em termos de partidos apoiantes só contava com o CDS e o MPT a seu lado, e para mais, até as sondagens lhe foram adversas - as mais favoráveis ficaram aquém do resultado real. No entanto, parece que a única matéria de destaque é o seu discurso. E o PS, que teve um extraordinário resultado no Grande Porto (tirando a perda de Vila do Conde), fica arredado da governação da cidade por culpa do pecado da gula da sua direcção nacional. Ao mesmo tempo, o PSD, que até há 4 anos governou esta cidade com maioria absoluta, teve um resultado irrisório. E diga-se o que se disser das crí­ticas de Moreira, a culpa não cabe só a Álvaro Almeida, que realmente, e para o bem ou para o mal, não tem um perfil muito político. Por outro lado, os partidos mais à esquerda tiveram também fracas percentagens: a CDU por pouco ficava pela primeira vez fora do executivo. Talvez seja a altura de se ir renovando, pese o bom currículo de Ilda Figueiredo. O BE subiu um bocadinho, mas como sempre ficou fora. Pela 4ª vez, Teixeira Lopes ficou à  porta da vereação. Também aqui deviam pensar em fazer algumas mudanças, até porque dá ideia que o Bloco no Porto só tem actores ou sociólogos.

Ainda sobre as sondagens e seus erros: trabalhei muitas vezes para as sondagens do CESOP da UCP, de urna às costas ou de computador à  ilharga, por terras remotas e por subúrbios que desconhecia. Conheço os métodos rigorosos que utiliza, e por isso é que as suas previsões são as mais certeiras (foram os únicos a prever o triunfo de Moreira há 4 anos, e também os primeiros a prever a revalidação da maioria cavaquista em 1991). Desta vez, ao dar empate com o PS, falharam redondamente. Prova-se que as crí­ticas de Moreira tinham razão de ser. Espero que tenha sido um percalço sem continuidade e que voltem ao rigor e exigência que sempre tiveram.

Foto de João Pedro Pimenta.