domingo, fevereiro 17, 2019

Um actor imortalizado pelo Youtube


Morreu Bruno Ganz, actor suíço com larga filmografia, que incluiu passagens por Portugal (protagonizou A Cidade Branca, de Allain Tanner) e pelo cinema americano, e sobretudo com alguns dos maiores cineastas alemães, como Werner Herzog e sobretudo Wim Wenders. Curiosamente, os seus dois papeis mais memoráveis tinham a sua acção em Berlim. Num era um anjo apaixonado ("As Asas do Desejo", de Wenders); noutro, um "demónio" tresloucado ("Das Untergang - A queda"). E é sem dúvida mais por este último que será recordado, pela cena que se tornou num fenómeno do Youtube: um ditador acossado, enraivecido e ignorando a sua real situação, cujas reações dão para todo o tipo de legendas. Aqui está um bom exemplo, com Sócrates e as principais figuras políticas portuguesas à mistura.
E no entanto, Ganz merece ser recordado por bem mais coisas. Como o anjo que vela sobre os telhados de Berlim, e que revela sentimentos mais próprios dos mortais.





quarta-feira, fevereiro 06, 2019

Marcelo no Jamaica

Gostava de perceber porquê tanta indignação com a ida de Marcelo ao agora famoso (e famigerado) bairro da Jamaica. Um sindicato da polícia achou que o Presidente tinha tido um "desprezo absoluto" para com eles, os polícias. Ou seja, está a dizer que a gente do bairro é toda ela um bando de criminosos, o que não ajuda nada a refutar o argumento de que não há abuso policial. Uma crítica absolutamente imbecil e contraproducente, como se o presidente tivesse de dar contas à polícia dos sítios que visita.



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Acho muito bem que Marcelo lá tenha ido. Se alguns marginais tiraram fotografias com ele, só posso dar a mesma resposta que ele deu: não tem de pedir cadastro ou CV a cada um que lhe peça para tirar uma selfie (nesse caso dois mandatos não chegariam para tudo). Se queremos que as pessoas destes bairros deixem de se sentir marginalizadas e discriminadas, o primeiro passo é que os mais altos responsáveis políticos apareçam, lhes falem e saibam como é que elas vivem. Assim até podem ganhar alguma noção de hierarquia e respeito pelo estado. Eu sei que o que está na moda são presidentes que só dão atenção à sua facção ou ao seu próprio eleitorado, mas para mim o chefe de estado está acima de grupos e grupinhos e deve dar atenção a todos. Também é por isso que sou monárquico.

quarta-feira, janeiro 30, 2019

A nomeação de 10 de junho


Intrigou-me um pouco a nomeação de João Miguel Tavares para presidir à comissão das comemorações do 10 de Junho deste ano, que se realiza em Portalegre, terra do jornalista. Mas concordo que seja refrescante nomear uma pessoa mais nova, fora do meio político e académico, embora com mediatismo. E percebi mais ainda quando uma brigada de bem instalados, lapas políticas de carreira ou simples engraçadinhos que não se dignam a explicar ao que vêm, enquanto troçam da escolha, tão típicos de "lesboa" (não confundir com Lisboa) se atiraram de imediato à nomeação. Depois disto, só me resta dar os parabéns a Marcelo - e a Tavares, evidentemente - pela feliz nomeação e desejar que as comemorações corram o melhor possível. O país, Portalegre e os organizadores merecem-no. Já os ditos instalados de "lesboa" merecem-no bem menos.

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segunda-feira, janeiro 21, 2019

Os 100 anos da Monarquia do Norte



Passaram dois dias desde que, há cem anos, era pela última vez hasteada a bandeira de Portugal pré-1910 no Porto, pela Junta Provisória do Reino, chefiada por Paiva Couceiro, naquilo que ficou conhecido como a "Monarquia do Norte". Foram mais de 3 semanas em que o Norte do país, até Aveiro e à Guarda, e com excepção de Chaves, voltou a usar a bandeira azul e branca como pendão nacional e a aclamar o Rei D. Manuel como seu legítimo chefe de estado. Parece pouco, mas teve a aclamação entusiástica de multidões e raramente houve confrontos para que a coroa real voltasse aos mastos das bandeiras. Quando pensamos que o movimento de 31 de Janeiro de 1891, que durou algumas horas e teve muito menos sucesso, é tantas vezes recordado e exaltado, lembremos que a Monarquia do Norte, seguida da tomada efémera de Monsanto, em Lisboa, teve bem mais êxito e raramente é referenciada. Eu sei que vivemos numa república e que cada regime homenageia os seus próprios sucessos. É compreensível. Mas é por isso mesmo que a Monarquia do Norte, os seus bravos autores e o clamor que levantaram, numa época de caos e em que chefes de estado e de governo eram mortos a tiro merecem, ser recordados e respeitados.



sexta-feira, janeiro 18, 2019

Momentos históricos


À entrada da reunião da Comissão Política do PSD, Rui Rio e Luís Filipe Menezes abraçaram-se e trocaram palavras amáveis. Depois disto, como não acreditar na paz entre israelitas e palestinianos e na reunificação pacífica das duas Coreias?

quinta-feira, janeiro 17, 2019

15 anos


Se acham que este blogue tem andado demasiado claro, não se admirem: está em plena idade do armário. Um adolescente confuso e irregular.

Sim. A Ágora completa hoje 15 anos. Para blogue, é mais terceira idade do que adolescência. Seja como for, e esteja na faixa etária que quiserem, tem boas desculpas para estas paragens prolongadas. Não se admirem com elas. Mas volta sempre.

E 15 anos é sempre uma idade bonita para uma coisa destas. Olhem que não há muitas da mesma idade.

segunda-feira, janeiro 14, 2019

O equívoco Mário Machado


A famigerada entrevista de Mário Machado por Manuel Luís Goucha (isto dito assim seria digno de um jornal satírico), além de levantar celeuma pela qualidade do entrevistado, dividiu um pouco as hostes da micropolítica. Parece que pelo facto de alguma esquerda bramir contra a entrevista, alguma direita pespega com exemplos aparentemente equivalentes que tiveram honras de entrevistados ou até de colunistas, como Camilo Mortágua, Isabel do Carmo ou Otelo Saraiva de Carvalho. Nuno Melo, cabeça de lista pelo CDS às europeias, por exemplo, é um dos que cai nessa armadilha, mais digna de conversas de rede social. É que tirando talvez Otelo, pela sua ligação às tenebrosas FP-25, é difícil equiparar Machado a qualquer um dos outros, e muito menos a Mariana Mortágua, que surge à baila. O equivalente directo seriam as redes bombistas dos anos setenta, também com crimes nas mãos, como o da morte do Padre Max (já depois do 25 de Novembro), cujos autores nunca foram punidos nem sequer condenados. Um dos prováveis autores morais, aliás, teve um elogio póstumo do mesmo Nuno Melo, o que talvez ajude a explicar  o esquecimento.

A ver se nos entendemos: Mário Machado não é um político, nem representante de um sector político, tirando uma dúzia de neonazis. É um delinquente e um psicopata, preso por associação a grupos de criminosos e assassinos, posse de arma, ameaças, etc. Ultimamente tem arquitectado planos para dirigir a Juve Leo, depois da bela operação  criminosa que as cúpulas da claque sportinguista protagonizaram, e de uma facção de motards, Los Bandidos, não  exactamente conhecidos  por actos de beneficência. Talvez a indignação de alguma esquerda por lhe darem a palavra, desde que não lance mensagens de ódio, seja contraproducente e oportunista. Mas a defesa, ou pelo menos a ausência de crítica de alguma direita, fazendo equiparações abusivas, dá a impressão de que tolera Machado, ou que não se incomoda grandemente com ele, passando a ideia de que ele é o radical do "seu lado". Dar importância política a quem tem somente importância criminal, eis o profundo erro dos que recordam eventuais equivalências do outro espectro.

Mas há ainda outra aspecto esta história toda que me deixa espantado: é a pergunta "acha que faz falta um novo Salazar", e sobretudo que Mário Machado ache que sim, É que com o currículo de desordeiro que tem, o mais provável é que no tempo de Salazar ele fosse posto na masmorra ainda mais anos.
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domingo, janeiro 13, 2019

O momento do Benfica


Bem sei que tenho andado ausente neste início de 2019, mas tinha mesmo de voltar a escrever aqui sobre um assunto grave, e a que já devo uns dias: o actual momento do Benfica. Na verdade estou para falar disso há semanas, mas como os primeiros dias trouxeram a demissão de Rui Vitória, achei por bem esperar mais um pouco.

É verdade que já defendi vigorosamente Rui Vitória. Sempre o achei simpático, até porque raramente caía na arrogância e no desrespeito alheio em que o seu meio é fértil, agarrou a equipa num momento complicado, o pós-Jorge Jesus, com a saída de vários jogadores e o reforço de Sporting e Porto, levando o Benfica a uma excelente época, seguida de outra em que conquistou a "dobradinha", e lançou inúmeros novos valores "fabricados" no Seixal, a grande mácula de Jesus.

Mas a qualidade de jogo, progressivamente, decaiu, até à tortura que era ver o Benfica desta época, já sem a desculpa da falta de investimentos; no ano passado essa desculpa ainda passava, mas não apaga a hedionda temporada europeia, com zero pontos e 100% de derrotas no total dos jogos, ainda para mais com adversários como CSKA de Moscovo e Basileia, não exactamente tubarões.

Depois dos desaires no campeonato e na certeza de que o Benfica não iria aos quartos da Liga dos Campeões, após mais alguns jogos pífios, e com o descontentamento dos adeptos em crescendo, Vieira ainda despediu Vitória, mas depois "deu-lhe uma luz" e conservou-o. Os jogos seguintes, entre goleadas animadoras (Feirense, Braga) e triunfos pela rama, mantiveram-no no cargo, mas a derrota com o Portimonense deu cabo do periclitante situação do treinador. Já não havia volta a dar.

Percebeu-se também que a questão financeira (isto é, a indemnização a pagar) estaria acautelada pelo interesse de um clube árabe, que o Vitória não recusou. Resolvida a saída, houve que tratar da continuidade. Bruno Lage, o treinador da equipa B, a fazer uma boa época, era já cogitado pelos adeptos. Aliás, já quando Rui Vitória estivera "despedido" por horas, tinha-se falado nele, com uma equipa técnica onde também constavam Luisão e Júlio César, que tinham dada por finda a carreira como jogadores. Ao que parece, Vieira não estava lá muito convencido, porque andou (embora agora o negue, com alguma cara de pau) à procura de outros treinadores, como José Mourinho, Leonardo Jardim ou Jorge Jesus. Deste trio só Jardim valeria a pena. Mourinho está insuportável, precisa de parar e de reactualizar para voltar a ser o grande técnico que era, e quanto a Jesus, depois da sua saída, seria um golpe baixo ele voltar em triunfo ao clube. Acresce que também ele já teve melhores dias. Como nenhum deles, ou outro, que se saiba, quis ou pôde vir, ficou Lage. Provavelmente seria a melhor escolha possível dadas as circunstâncias.

Quanto ao plantel, pode-se dizer que no início da temporada era o mais completo do campeonato e que dava todas as garantias, até pela sua extensão. Agora, sabemos, é grande demais, tem alguns jogadores sobrevalorizados, e mais do que reforços, precisa de um emagrecimento. Samaris, que de há uns tempos para cá se limita a distribuir faltas, está em fim de contrato, e qualquer venda em janeiro, fosse por que valor fosse, seria sempre uma compensação e pouparia no seu salário. A situação de Salvio está acautelada, mas por causa das graves lesões ao longo da carreira, o argentino não é o mesmo jogador de há uns anos, e provavelmente a renovação era para ganhar alguma compensação no futuro e não para ver um jogador que custou bastante e é "da casa"sair a custo zero. Já Facundo Ferreira, que veio a peso de ouro, pouco ou nada tem mostrado, e deveria no mínimo ser emprestado; Castillo mostrou ainda menos, mas tem menos minutos jogados. Preferia ficar com este e emprestar o argentino e o seu compatriota Lema, que não se sabe porquê não é convocado e quer mesmo sair. Seferovic, o suíço esforçado mas tosco, tem-se mostrado uma agradável surpresa, e obviamente tem de ficar. Pena que o jovem sérvio Jovic vá definitivamente permanecer em Frankfurt...Corchia, lateral direito que veio emprestado para disputar o lugar (e bem preciso era) com André Almeida, parece padecer de algum problema físico, mas agora é tarde para sair. E Varela, que passou de titular a espectador de bancada, também merecia alguns minutos fora. Deste modo, emagrecia-se a equipa e lançava-se aos poucos novos valores como Ferro, Kalaika, Florentino. Tem a palavra o novo técnico, assim lhe dêem poderes para tal, e que consiga ao menos uma taça, já que o campeonato parece difícil. 

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segunda-feira, dezembro 31, 2018

Um dia para os refugiados


Todos os números demonstram que de ano para ano chegam menos refugiados à Europa. De 2015 em diante, os números são claramente mais baixos. E no entanto ainda são pretexto para discursos inflamados de ódio e publicações em páginas manhosas de autores não identificados nas redes sociais (ou de oportunismos descarados pela barricada adversária, aquela que escreve "refugiados bem vindos, turistas vão-se embora").  

Este ano o Prémio Nobel da Paz coube, e muito justamente, a Denis Mukwege, um médico congolês que ao longo dos anos tem tratado milhares de mulheres violadas nas terríveis e quase ignoradas guerras que assolam a região dos Grandes Lagos de África; e Nadia Murad, uma rapariga iraquiana yazidi que se viu escravizada e vítimas das maiores sevícias pelos membros da seita conhecida como "Estado Islâmico", depois de ver a sua família massacrada pelos mesmos, e que conseguiu fugir do seu cativeiro para a Alemanha. Um médico tratando de mulheres refugiadas no seu próprio país (ou dos vizinhos mais pequenos) e uma refugiada vítima de uma das maiores pragas dos últimos anos. A distinção que lhes coube relembra como os refugiados nem sempre são "invasores" nem migrantes económicos, mas sim, na maior parte dos casos -  daí o estatuto que detêm - pessoas que fogem da guerra e da morte quase certa, sempre em condições dramáticas e difíceis de suportar para a maioria dos que vivem na Europa ocidental. Por vezes ficam e até se superam. Eles ou os descendentes. 
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No mesmo dia do anúncio dos prémios, a 6 de Outubro, decorriam as cerimónias fúnebres de Charles Aznavour, na catedral arménia em Paris, com honras de estado na presença das mais altas figuras de França e da Arménia. Aznavour era uma das grandes figuras da música francesa, um resistente e uma voz que parecia eterna, e também uma das grandes figuras da francofonia. Mas era igualmente filho de refugiados, que como milhares de outros arménios, se refugiaram em França fugidos do genocídio do povo arménio perpetrado pelos turcos durante e depois da I Guerra, designação ainda hoje negada no país. O cantor apoiava a diáspora dos arménios e as suas causas e entrou mesmo em filmes que recordavam a desdita de que foram alvo (em Ararat, por exemplo). 
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Assim, no mesmo dia em que o Nobel da Paz era atribuído a refugiados e seus protectores, assistiu-se à despedida de um filho de refugiados que se tornou num dos mais queridos artistas do país que acolheu os seus pais. Uma coincidência feliz e simbólica, que podia e devia ter sido mais realçada.
Um bom ano de 2019 para todos

sábado, dezembro 29, 2018

Nomes tradicionais


Ele há coisas esquisitíssimas: então não é que os nomes próprios mais atribuídos em 2018 foram João e Maria? As pessoas lembram-se de cada uma…

Mas felizmente ainda há pessoas normais. Segundo as últimas notícias, a filha recém-nascida da actriz Rita Pereira chama-se Lonô, nome de uma divindade havaiana. Haja quem preserve as boas e velhas tradições portuguesas.

quinta-feira, dezembro 13, 2018

E uma greve de chico-espertos?


Este ano a época natalícia confunde-se com a época grevista. Há dias, um noticiário começou falar das greves em curso e só aos vinte minutos é que mudou de assunto. Havia-as de enfermeiros, estivadores, guardas prisionais, oficiais de justiça, bombeiros, funcionários da RTP, transportes públicos (como não podia deixar de ser), etc, etc, etc. Para além desta vaga grevista toda ao mesmo tempo - depois da aprovação do Orçamento, note-se -  reparei que a maior parte era às sextas e segundas-feiras, e nalguns casos em dias de ponte. Caros grevistas, bem sei que esse é um direito que lhes assiste, mesmo que que por vezes abusem dele. Mas logo nesses dias? Isso já ultrapassa largamente a falta de vergonha. Para quando uma greve ao chico-espertismo?

sexta-feira, novembro 30, 2018

Um desporto francês


Muita gente fica admirada com a "violência" das manifestações dos "Coletes Amarelos" em França, como se fosse um fenómeno raro por aqueles lados. O caso é sério, mas não é exactamente o Maio de 68 e menos ainda a Revolução Francesa. Manifestar-se com certa agressividade é uma velha tradição no hexágono: desde a Jacquerie da Idade Média, continuando com a Fronda, a Comuna, e claro, as referidas Revolução Francesa, que realmente mudou o país, e o Maio de 68, e muitíssimas outras pelo meio, é quase um desporto nacional, ao lado do ciclismo e do futebol.
Aí em meados da década passada assisti a uma manifestação bem no centro de Paris., perto da Ópera Garnier Eram bombeiros, com umas exigências quaisquer. Vinham de uniforme, capacete, e em alguns casos de machado em punho. A impedir a sua marcha, barreiras policiais e camiões de água. Quando se lançaram os jactos de água actuaram e conseguiram travá-los por uns momentos. Mas logo os bombeiros voltaram à carga e aí a polícia não esteve com meias medidas e usou o gás lacrimogêneo. Eu andava a fotografar os acontecimentos e apanhei em pleno com aquilo. Garanto-lhes que a experiência não é nada aconselhável. Refugiado no átrio de um edifício vizinho, a lavar a cara num bebedouro que julguei na altura oportuno (pior a emenda que o soneto), junto a uns japoneses atemorizados, ouvia ao lado um veterano com ligeiro ar tardo-anarquista, desdenhoso: "isto não é nada, jeunne homme. Eu estive no Maio de 68, e aí é que era".

Os jornais do dia seguinte deram umas breves notícias ao acontecimento. Era mais um entre tantos outros semelhantes.


quarta-feira, novembro 21, 2018

O inclusivo



Pedro Filipe Soares, o infeliz líder parlamentar do Bloco, escreveu ontem no Público um artigo a louvar a "linguagem inclusiva", sendo exemplo disso a expressão que ele usou na convenção do seu partido: "camaradas e camarados". A esse tipo de linguagem, para "mudar mentalidades", já George Orwell lhe deu um nome no "1984": chamou-lhe novilíngua. Seja como for, não deixa de ser estranho vermos alguém afirmar-se "inclusivo" dias depois de afirmar que "não fala da direita porque esta não conta para o futuro do país". E Pedro Soares, conta para o quê, para além da invenção de novos termos?

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quarta-feira, novembro 14, 2018

Cobras e bonsais


Tocar nos clássicos é tarefa delicada. Fazer sequelas muitos anos depois é um caminho provável para a catástrofe. Mas se forem retomados sem se levarem demasiado a sério, para mais com os protagonistas originais, e se estes envelheceram bem (ou o suficiente para voltar ao sítio onde foram mais ou menos felizes), podem surgir daí resultados interessantes. Ah, e se os papeis do "herói" e do "vilão" levarem ali umas voltas e se confundirem, melhor ainda.

Trinta e tal anos depois do início, Karaté Kid está de volta, agora em forma de série do Youtube. Com os protagonistas agora cinquentões (finalmente o Ralph Macchio tem um aspecto parecido com a real idade dele), as filosofias de vida e de guerra, e todos os paradoxos ligados à pertinente questão "afinal quem é o bom e quem é o mau".


quinta-feira, novembro 01, 2018

Voluntariado ao frio


À porta do cemitério, já perto da hora do fecho, e no alto da escadaria de granito na base da qual estão inúmeras bancas de venda de flores, três ou quatro voluntárias da Liga Portuguesa contra o Cancro cumprem a sua missão, pedindo donativos em "troca" do autocolantezinho da instituição. Estão claramente enregeladas, porque está um tempo desagradável de quasi-chuva, mas mesmo assim não perdem o sorriso e a modéstia, enquanto conversam e vão mostrando os seus smartphones umas às outras (também é preciso passar o tempo). Já ali estão há umas horas e não recebem nada por isso, excepto gratuitidade nos transportes públicos (só hoje e ontem, desde que com identificação da campanha). E lembra-me quando há muitos anos passei pela mesma experiência, antes de achar que tinha outras coisas que fazer, porventura bem menos importantes.
Ao contrário do que dizia a outra, o voluntariado não é treta nenhuma. Treta é inventarmos muitas vezes desculpas para não o cumprirmos.

domingo, outubro 28, 2018

Tentar compreender o Brasil político


Nas últimas semanas tenho andado febrilmente a ler e reler coisas sobre a vida política no Brasil. Não somente nos jornais e noticiários actuais, mas também na net (não tanto as redes sociais, embora também sejam importantes para se perceber os humores, mas mais artigos antigos, jornais online, vídeos preciosos que se encontram no Youtube, dados wikipedianos, opiniões), e na biblioteca possível. Voltei aos tempos de Vargas e JK, passei pela ditadura militar, pela redemocratização e pelo percurso efectuado desde então. Para tentar perceber enfim o que o Brasil político, porque é que se prepara para eleger uma personagem tão inquietante como Bolsonaro e porque é que a alternativa que sobra é o agora tão detestado PT (esta última premissa ajuda a perceber a segunda).

A primeira ideia que vem à memória, tal como dizem algumas publicações do país, é que estas eleições não são exactamente inéditas e trazem memórias de há uns tempos. A disputa de 1989, as primeiras presidenciais em quase trinta anos no novo regime democrático, surgia numa altura negra para a economia brasileira, não tanto o desemprego que se observa hoje, mas uma hiperinflação e a consequente recessão económica, com um presidente impopular (Sarney), tal como agora (Temer), e que só acedera ao Planalto por ser vice do presidente anterior (naquele caso, a morte de Tancredo antes da tomada de posse, agora, a destituição de Dilma pelo Congresso). Nas eleições, disputadas por um grande número de candidatos, surgiu um jovem turco de direita, Collor de Mello, por meio de um pequeno e pouco relevante partido, com uma enorme e eficacíssima rede de propaganda e um discurso alertando para o "perigo vermelho"; a postura agressiva e o discurso pré-ditatorial diferenciam-no de Bolsonaro, mas as outras características estão lá; com ele passou à segunda volta o carismático líder de um partido de esquerda "de massas", com base na cintura operária de S. Paulo, mas que ainda atemorizava muitos pelas associações com o comunismo, que naquele tempo fazia a sua espectacular derrocada; sim era Lula da Silva, e não é preciso  mostrar as semelhanças com a actualidade (mesmo que a personalidade seja muito diferente, Lula não é Haddad e vice-versa?). Em terceiro, e fora da segunda volta, ficou o candidato do PDT, de centro-esquerda, um experiente político com uma carreira executiva de respeito, mas desbocado e abrasivo, e então como agora tentou em vão tentou superar o PT; a descrição de Brizola de 1989 aplica-se a Ciro Gomes; Ulysses Guimarães, o "pai" da Constituição brasileira, na altura candidato pelo proeminente PMDB, é comparável a Geraldo Alckmin, do PSDB, pelos apoios que teve e pela fraca votação que recolheu (e que pelo seu passado executivo e pelos partidos que o apoiam tem muito também de Mário Covas e); Marina, a candidata ecológica, teve um antecessor chamado Fernando Gabeira (cuja filha, Maya Gabeira, é uma conhecida surfista que por pouco não desapareceu nas ondas da Nazaré). E assim sucessivamente. Falta saber se Bolsonaro também se envolverá em moscambilhas e verá o movimento que o apoia voltar-se contra ele, como sucedeu a Collor.


A outra conclusão que se retira é que ainda que haja imensos partidos no Brasil - no congresso são uns vinte e tal, com siglas e nomes parecidos - a sua real força é apenas formal. Bolsonaro ganhou dezenas de milhões de votos com o apoio de dois "nanicos" partidários. Por outro lado, Geraldo Alckmin, ex-governador de S. Paulo, o candidato apoiado pelo PSDB (até agora o grande partido de oposição ao PT, e que em tempos esteve no poder), pelo PP  pelo DEM - os dois grandes partidos da direita tradicional - teve menos de 5%. E Henrique Meirelles, apoiado pelo grande partido kingmaker do centrão, o velho PMBD, teve pouco mais de um por cento. Ou seja, a ideia de partidocracia no Brasil não existe, porque são sobretudo votos de ocasião ou barrigas de aluguer para muitas candidaturas, o que se prova pela velocidade com que a maioria dos políticos muda de sigla - Bolsonaro e Ciro, por exemplo, já estiveram em meia dúzia de formações diferentes. Paradoxalmente, e na altura da sua derrota, o PT provou que é o único partido brasileiro com uma máquina estruturada e com um apoio fiel do eleitorado, mesmo sem Lula estar presente, o que poderá ser importante no jogo político dos próximos anos.

Os brasileiros votam sobretudo em caras e em personalidades fortes. Collor, Lula, FHC, como tem tempos votaram em Getúlio e em JK de Oliveira. Agora preparam-se para votar em Bolsonaro. O ex-capitão tem apoios corporativos fortes, dos sectores militares aos grupos de jovens turcos da nova direita, como o Movimento Brasil Livre. E a aposta nas redes sociais e nos meios de comunicação instantânea e de massas, como o WhatsApp, tem-se revelado uma mina num país em que as pessoas lêem poucos jornais e acham que a informação "está na internet". Tudo isso num panorama em que as pessoas se cansaram da corrupção extrema, da violência sem fim, da queda da economia. Claro que o PT não é o único culpado, como se comprova pelo mandato Temer. Mas  está igualmente na origem desses problemas, e obviamente grande parte da população não quer votar em quem não sabe sequer fazer um mea culpa e continua com a tese única do "golpe". além disso,  aquelas manifestações sempre a bater nas mesmas teclas "direitos LGBT" e sei lá que letras mais, a "transfobia", as minorias, etc, pouco dizem à esmagadora maioria dos brasileiros, mais preocupados com problemas gerais do país. Por cada uma dessas manifs, Bolsonaro devia ganhar mais uns milhares de votos. E pouco se ouviu falar de temas ecológicos, como o perigo que ameaça a Amazónia. E também não se subvalorizar deve o factor "desilusão": o partido e o homem que anunciavam uma nova era (e que durante uns anos lá se ia cumprindo) revelaram-se afinal iguais aos outros.

E no meio desse turbilhão, há cento e quarenta milhões de eleitores - 14 vezes a população portuguesa - que podiam colocar do avesso todas as análises feitas sobre as eleições e mostrar que estes escritos são tão válidos como muitos outros. Aguardemos.

sexta-feira, outubro 12, 2018

Um esclarecimento e três reflexões


Considerando que é digna de reflexão por mais do que um motivo, não resisto a escrever sobre uma das notícias que, entre um turbilhão de outras mais, varreu os noticiários e as páginas da net. Falo do questionário feito a alunos do ciclo preparatório da escola Francisco Torrinha, que tanta celeuma deu.

Antes de mais, há que dizer que o questionário não é uma "fake new", como já ouvi dizer.  O tal documento foi mesmo distribuído como "ficha sociodemográfica" a alunos do 5º ano (ou 1ª ano do ciclo preparatório, como quiserem), com 9 a 10 anos, perguntando logo à cabeça o sexo e a identidade de género (homem, mulher ou "outro"), se namorava actualmente ou se já tinha namorado antes e se se sentiam atraído/as por "homens, mulheres ou ambos". Repito, isto era o questionário a crianças de 9 e 10 anos. Por acaso sei quem são os pais da criança em questão, e sei também como começou e se espalhou a notícia: numa mera conversa de Whatsapp de amigos, em que se discutem os mais variados assuntos, na sequência da qual o amigo que tinha revelado o questionário a colocou na sua página de Facebook, explicando o seu contexto. O post teve imensos comentários, começou a ser partilhado de forma crescente, qual bola de neve, e no dia seguinte já tinha centenas de partilhas, algumas aproveitadas abusivamente por forças políticas. Não demorou muito até que os jornais se referissem ao assunto, as televisões fizessem directos em frente ao Torrinha, o Ministério da Educação "apurasse informação" e as redes sociais prolongassem a discussão (como quase nenhuma aprovação do documento). A notícia chegou mesmo à Catalunha, com uma breve notícia no La Vanguardia. 
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Mas o caso merece reflexão por três razões: a primeira é saber porque que é que estas perguntas foram feitas nesta fase escolar a alunos desta idade que previsivelmente nunca namoraram e que não fazem ideia do que é a "identidade de género" ou "atracção por ambos". Qual é a finalidade do mesmo? Para que serve? E que dados ou resultados práticos se podem extrair daqui? Se é para confundir as crianças, provavelmente acertaram no alvo; se o propósito é mais ideológico, então é caso para preocupação; falava aqui há dias desta tendência para a sexualização da infância, como se se estivesse a formar um exército de autómatos programados e não a tratar de pessoas cujas fases etárias deviam ser acauteladas; e a propósito, é caso para pedir que o Torrinha não organize, no âmbito da "estratégia nacional para a Cidadania e Igualdade de Gênero", visitas guiadas dos alunos do 5º ano ou de outro à exposição de Mapplethorpe, em Serralves, ali a poucas centenas de metros, na outra ponta da "Marechal". A demonstração prática do questionário teria certamente efeitos desastrosos.

A segunda é recordar que no ano em que entrou em vigor uma nova lei de protecção de Dados Pessoais - que deu origem, aliás, a um bombardeamento maciço de emails de tudo quanto era empresa ou associação, a pedir consentimento para o tratamento dos dados - possa haver uma interferência tão visível nestes dados, mais a mais sendo crianças e tocando em elementos absolutamente íntimos e que ainda nem sequer estão devidamente desenvolvidos.

A terceira é, mais uma vez, a velocidade a que certos assuntos se propagam nas redes sociais: este começou num grupo de whatssap que nem sequer é muito grande, e colocado no Facebook, formou uma vaga surfada depois pela comunicação social tradicional, até fora de Portugal. Tudo isto em menos de 24 horas. Não tinha testemunhado tão de perto estes efeitos, mas é suficiente para causar admiração, e porque não dizê-lo, alguma apreensão. De qualquer maneira, e ao contrário do que ouvi nalguns comentários, não é preciso nenhum Bolsonaro nem nenhum candidato a protoditador para se fazer ouvir: basta a sociedade civil reagir, sem notícias falsas, e colocar as questões devidas em casos de suspeitas de abuso de poder.

domingo, outubro 07, 2018

Saudosistas da Espanha de 1936


Enquanto no Brasil há muitos que desejariam o retorno da ditadura militar, entre os quais o candidato mais bem classificado nas sondagens das presidenciais da próxima semana, em Espanha há quem sonhe com o regresso da 2ª República dos anos trinta e a sua política anticlerical e antirreligiosa (a que chamam eufemisticamente "laicismo"). Não contente com a já aprovada exumação de Franco da basílica do Vale dos Caídos, o Podemos veio agora apresentar ao governo minoritário de Pedro Sánchez o seu plano urbanístico para o local: nada mais nada menos do que demolir a grande cruz de pedra que encima o conjunto (que consideram "simbologia fascista"), tirar dali os restos mortais de José António Primo de Rivera (fuzilado no início da guerra, pelo que faz parte das vítimas da mesma), arrebatar a basílica que ali existe para o controlo público para que sirva de "memória democrática" e "dessacralizar o espaço", obviamente mandando embora os monges beneditinos que por lá se encontram.



A ideia não é exactamente nova e já teve outras variantes, como a do movimento que pretendia que o estado se devia apoderar da mesquita-catedral de Córdova para a transformar num "espaço de cidadania laico". Todos estes grupinhos, com o Podemos à cabeça, são legatários directos dos movimentos anticlericais que, em especial nos anos trinta, foram responsáveis pela morte de milhares de clérigos e pela destruição de monumentos religiosos, incluindo catedrais (como a Sagrada Família, em Barcelona), igrejas, mosteiros, seminários ou qualquer outro tipo de simbologia cristã, de que o "fuzilamento" do monumento ao Sagrado Coração de Jesus no Cerro de los Angeles se tornou exemplo cabal. Aliás, não é invulgar vermos alguns elementos do Podemos, alguns com responsabilidades de destaque, com simpáticos cartazes com igrejas a arder acompanhados das palavras "ardereis como en el 36". Por isso, os planos apresentados não são propriamente de espantar.



Parece que o governo não está muito para aí virado, mas nunca fiando. Para aguentarem o escasso apoio parlamentar, podem ceder nalguns pontos. Mas aí comprariam uma severa guerra com boa parte da sociedade espanhola e dariam novo lastro a um PP enfraquecido. Com o problema da Catalunha nas mãos, não é muito aconselhável arranjarem sarilhos vindos de outro lado.



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