sábado, maio 28, 2005

A TV, os adeptos, as suas cores e o triunfal regresso do Liverpool

Numa semana fértil de bola, e completando o regresso à glória dos míticos clubes de vermelho, o Liverpool venceu ontem o AC Milan numa empolgante e incerta final da Liga dos Campeões. Vinte e um anos mais tarde, os rapazes de Anfield Road voltaram a erguer a máxima Taça do futebol europeu, novamente frente a italianos.
Cheguei a casa ainda antes da partida começar. Esperava ver, antes da bola começar a rolar, a entrada dos jogadores, momento sagrado e inesquecível, e as coreografias das claques. Sempre achei que os cânticos, as bandeiras e os enormes lençóis eram um espectáculo dentro de outro, embora pense que os elementos das claques deveriam ficar-se pelas (pacíficas) acções de bancada, para evitar cenas deploráveis como as verificadas na Baixa do Porto no último Domingo. Mas os aspectos visuais valem quase tanto como o jogo em si.
O problema é que desde há uns tempos para cá as TVs quase nunca mostram o público presente, excepto em pequenos flashes e de forma secundária. Preferem focar a cara reservada dos técnicos, ou o acne de um qualquer jogador, ou até aspectos do relvado. Mas nada da vibração nas bancadas. Para mais os realizadores televisivos passam o tempo a fazer repetições que não interessam nada e passam à pressa pelos principais lances dos jogos (relembre-se o fantástico golo de Manniche no EURO 2004, vedado em directo aos telespectadores por repetições de um mero canto). Mas isso ainda percebo, pela pressa que há em escolher as melhores situações de golo. O não filmar as coreografias é que, sinceramente, me fica atravessado. Ainda por cima tínhamos em confronto um conjunto de adeptos de cânticos esmagadores perante outro cujos efeitos visuais são dos melhores que se podem ver em qualquer estádio. Ficam dois pequenos exemplos da malta de Anfield Road e dos rapazes de S. Siro.





Claro que a parte mais importante é o próprio jogo. E este não desiludiu ninguém: um Milan esmagador na primeira parte, a fazer antever um novo recorde em finais (pertença dos próprios milaneses), e um Liverpool com uma capacidade de reacção fabulosa, a empatar a partida e a levá-la para as grandes penalidades, em que Dudek (guarda-redes que eu já vi, ao vivo, sofrer um dos melhores golos jamais marcados em competições europeias), aos saltos, levou a melhor sobre o desconcentrado Sevtchenko e o especialista na matéria Dida.
O Liverpool voltou à glória muitos anos depois. Merecidamente. Mais do que os homens do sr. Berlusconi, ainda que se chamem Maldini ou Rui Costa.



com a cortesia do Terceiro Anel

segunda-feira, maio 23, 2005

Campeões enfim!



Como escrevi no post anterior, sofreu-se muito no jogo do título. No segundo tempo, com o empate a uma bola, o nervosismo era dominante, os cânticos tímidos e as provocações boavisteiras constantes. Eu estava pessimista, pensando que ainda iríamos perder o desafio. Um amigo meu, sentado ao lado, só queria saír dali. Mas a entrada de Mantorras deu novo ânimo à equipa. Subitamente, a notícia do golo da Académica provocou ondas de alegria e pôs o público a gritar "campeões, nós somos campeões!". Ainda me atrevi a dizer que faltavam uns minutos, mas retorquiram logo que o jogo das Antas tinha acabado e que o título estava ganho. Ainda assim, só ao apito final é que soltei um brado pela conquista do título há tanto tempo esperado (saí do estádio quase rouco, com tanto "ninguém pára o Benfica" e tanto "SLB, glorioso SLB"), abraçando-me ao meu amigo e aos anónimos adeptos que me rodeavam. Os jogadores deram a volta triufal ao estádio, perante o delírio da massa vermelha. Antes do fim do jogo, ainda houve uns boavisteiros mais truculentos, desejando avidamente a nossa derota: de nada adiantou, os adeptos axadrezados saíram calados e a festa ficou só para nós. Um momento único, uma sensação de alívio-dúvida-pelo-momento-em-questão formidável.

Só tive pena de ter ficado largas dezenas de minutos à espera da camioneta do Benfica, quando afinal ela saíu por outro lado, e mais ainda por não ter ido a Pedras Rubras. Mas o mais importante era mesmo o jogo, e a esse não faltei.

O título é mais que justo: com um plantel curto e espremido, Trapatonni conseguiu, com o seu pragmatismo, dar-lhes a confiança necessária e o empenho mínimo para ganhar o campeonato. Não houve aqui "colos" nem ajudas extra. Com um Porto irreconhecível e um Sporting irregular, o Benfica aproveitou e levou o título. O técnico italiano está de parabéns, assim como os jogadores e demais elementos técnicos (não esquecendo Rodolfo Moura). E, claro, Luís Filipe Vieira e também, imagine-se, José Veiga.

Os nossos sonhos serão doravante vermelhos. Em matéria de futebol, podemos dormir descansados: o título está enfim em boas mãos. Onze duros, penosos e difíceis anos depois.

E lá fora a festa ainda dura...

Ps: a festa durou até ás tantas, não sem que um punhado de trogloditas agredissem adeptos benfiquistas na baixa do Porto e na Rotunda da Boavista, queimando cachecois e atirando objectos. O facto do seu líder se auto-apelidar "Macaco" explica o porquê dos gestos (e feições) simiescos daquelas criaturas. Que, diga-se de passagem, formam a guarda pretoriana da direcção do FCP e são por ela financiados e apoiados. O que não deixa de ser bastante revelador.

Ps2: tive há pouco a oportunidade de, num relance, cumprimentar Giovanni Trapatonni e de lhe agradecer o título (além de não resistir a pedir o respectivo autógrafo). Não queria deixar de o fazer antes deste grande senhor deixar o Benfica, como parece provável. Afinal não é todos os dias que se está frente a frente com uma lenda do futebol, sobretudo quando essa mesma lenda deu ao nosso clube o título por que esperávamos à anos.

domingo, maio 22, 2005

Para a glória ou para o desastre

Amanhã (hoje, pelas horas que já são) jogam-se os últimos desafios do campeonato. O Sporting, já se sabe, está afastado da corrida, e, depois da semana a todos os títulos arrasadora que atravessou, tem apenas a hipótese de ir ao segundo lugar. O Braga só mesmo com sorte é que fica em terceiro. Assim sendo, restam apenas dois candidatos ao título: o SLB, que se desloca ao Bessa, e o Porto, que joga em casa com a Académica. O grau de dificuldade dos dois jogos é, como se pode ver, abismal.
A vitória da semana passada sobre os lagartos, no esfuziante anfiteatro da Luz, com a ajuda do Labreca, pôs uns quantos adeptos a buzinar Lisboa fora, como se o campeonato estivesse ganho. A euforia era compreensível, depois de semanas a ouvir os sportinguistas a afirmar alto e bom som que iam ganhar à Luz, mas no seu lugar teria mais calma. Disse isso mesmo a um amigo, que mal acabou o jogo me telefonou eufórico a pedir que lhe comprasse bilhetes para o Bessa. Porque os jogos têm mais de noventa minutos e, pelo menos no início, são onze contra onze. Porque não é verdade que o Bessa vá estar todo vermelho, como por aí se diz (e que estivesse: não significava nada); porque os nervos e a condição física podem traír os jogadores do Benfica, além do capítulo da finalização também não estar famoso. E porque o Boavista não é uma equipa qualquer, já esteve em primeiro e não aceitará ser o bombo da festa, além de que, tudo o indica (e o treinador Barny não desmentiu), os salários em atraso dos jogadores axadrezados devam ser pagos por generosa mão vinda das Antas em caso de vitória.
Por isso, não estou assim tão confiante, antes pelo contrário: as dificuldades vão ser mais que muitas, e só com toda a concentração e força anímica os jogadores do SLB vão ser capazes de ultrapassar a situação. Nestas coisas costumo ser pessimista, talvez fruto da derrota no EURO 2004, ou devido ao facto de estarmos perante um objectivo há tanto tempo perseguido que até parece bom demais para ser verdade. Estive mesmo prestes a vender o meu bilhete, mas pensando melhor seria uma cobardia, agora que o meu clube tem oportunidade de ser campeão, ainda por cima a escassas centenas de metros de minha casa. Sim, irei ao Bessa, apesar de toda a tensão que rodeia este jogo e o do Dragão, e das ameaças de um grupo de delinquentes que dá pelo nome de SD. Pode ser a glória, pode ser também a tristeza e a humilhação e o desânimo, mas nem eu nem os milhares de benfiquistas presentes viraremos a cara enquanto pudermos ser campeões.
Haja Deus!


O estádio onde o Benfica terá a grande prova de fogo. O sítio onde vou ficar é na bancada da direita, em baixo.

A propósito do Bessa, muito se falou na semana passada da freguesia contígua, Lordelo do Ouro, por causa do seu desbocado pároco e do tenebroso caso da pequena Vanessa. Ouvi várias menções à freguesia como sendo "a terra". Por certo pensavam que era uma qualquer aldeia nos arredores do Porto. Fica o esclarecimento: Lordelo é uma freguesia da cidade do Porto, onde se situam Serralves, a Casa das Artes e onde eu moro, e por onde amanhã entrará a camioneta do Benfica rumo ao Bessa. Percebido?

E para concluír o assunto futebol, fica o meu sincero abraço de solidariedade aos lagartos que tão ingloriamente perderam a final da UEFA no seu estádio. É pena, mas os tipos do CSKA foram mais cínicos e inteligentes. É um péssimo fim de época para o Sporting, mas julgo que os esperam dias melhores. E talvez outras finais, de desfecho mais feliz.

sexta-feira, maio 20, 2005

Guiné em óleo-Fula

Não é preciso ir à bruxa para adivinhar o que se vai seguir na Guiné-Bissau com a auto-proclamação de Kumba Ialá como "Legítimo" Presidente da república do país. Se pensarmos que o exército está dividido e exprime opiniões ambíguas, que há uma infinidade de candidatos à presidência e que um deles é Nino Vieira, além de haver um suposto Supremo Tribunal de Justiça cujas decisões são, no mínimo, aberrantes, nada mais há a esperar que uma nova guerra civil, com novos assassinatos inter pares e novas fugas em massa da população. A desgraça naquele PALOP parece não ter fim, apenas intervalos.
Argumentam alguns apoiantes do sr. Ialá que a sua destituição foi uma "usurpação do poder popular e da Democracia". É óbvio que os senhores ignoram que a primeira condição para a existÊncia de uma democracia é a separação de poderes, e não apenas o voto em urna. E que os verdadeiros usurpadores são aqueles que ignoram as fronteiras entre esses poderes e os tomam para si, à margem de toda a legitimidade e respeito pelas instituições democráticas.

Ialá pretende mudar a capital de bissau para Fula. Assistiremos ao nascimento da Guiné-Fula? Até hoje, só tinha conhecimento do óleo. É a concorrência...

sábado, maio 14, 2005

Impressões do dia

Duas decisões de última hora levaram-me a sensações completamente diferentes nesta semana.

No último dia de exibição no Rivoli, assisti à peça "Visitando Mr. Green", do americano Jeff Baron. Diálogos com humor misturados em amargura, confissões, memórias, cumplicidades. E a oportunidade de ver ao vivo o grande Paulo Autran, sublime como sempre no papel de velho e rabugento judeu, esquecido no seu modesto apartamento novaiorquino, e a promessa Dan Stulbach, competente como o economista que é obrigado, em virtude de um acidente que provocou, a prestar trabalho comunitário, isto é, a visitar semanalmente o solitário Mr. Green (a vítima do atropelamento). Além de assistir ao espectáculo, ainda tive a sorte de encontrar os actores à saída, de falar uns minutos com eles, e, fiel e inevitavelmente, de ficar com os respectivos autógrafos - cumprimentar Autran é algo que nunca tinha imaginado . A digressão passaria ainda por Famalicão e acaba em Lisboa. Não percam pois a oportunidade, caros alfacinhas.



Já ao caír da noite decidi, por proposta de amigos, ir a Fátima pela primeira vez na véspera de um treze de Maio. Nunca fui demasiado devoto do Santuário, por achar que se pratica mais a crendice que a religião, o excessivo culto aos símbolos, que se dá mais relevo à Virgem e se secundariza Deus, e, claro, que muitos se aproveitam da devoção que o local provoca para fazer o seu negócio ou ganhar uns €uros extra. E depois, as multidões excessivas são sempre um factor de risco e de temor.
Sim, as tais multidões estavam lá (até SAR o duque de Bragança e família), e para se entrar no recinto era um sarilho. Mas uma vez lá dentro a circulação nem era difícil. E a Procissão das Velas é admirável, com um ambiente feérico e mágico digno do local, entranhado pelos cânticos marianos. A devoção e a Fé estavam lá, mas sem o histerismo colectivo que em ocasiões como esta resolvem entrar em cena. Claro que havia alguma beatice, bem como alguns dos elementos que atrás citei, os negociantes infindos, as pessoas a tentar furar com os carrinhos de bébé, ou pior ainda, o bispo do Porto a ler trechos da Missa. Mas ainda, a visão daquela massa ordenada e crente, com inúmeros peregrinos estrangeiros no meio, a serena adoração à Virgem, e a ameaça de violentos aguaceiros que apenas se concretizaram durante a viagem fizeram com que , pelo menos em parte, me reconciliasse com Fátima.

Por falar nisso, é um tipo de fé completamente diferente que anda a transtornar o país, sobretudo aquele que clubisticamente veste as cores da bandeira nacional. Prefiro nem dizer nada - excepto que amanhã se poderão abrir as portas do Paraíso ou desabarem as abóbadas dos céus- mas apenas e só recomendar a todos os benfiquistas que antes do faiscante derby de amanhã leiam o último Domingo Subjectivo do João Gonçalves. Leiam-no, devorem-no, absorvam-no, guardem-no, emocionem-se; ganhemos ou não, é um incentivo dos melhores.

E já que falámos de religião, parece que há um clima de indignação geral com as estapafúrdias declarações do padre durante a Missa de Sétimo dia da menina brutalmente morta no Bairro do Aleixo (recordo: "o aborto é mais grave que um homicídio destes, porque uma criança de cinco anos pode sempre gritar"). Não falamos de um clérigo xiita, mas de um sacerdote que, por sinal , até é o pároco da minha freguesia, Lordelo do Ouro. Mas se é quem eu penso, julgo que tenho a explicação: o dito clérigo é acima de tudo simplório, e muitas vezes nem medirá o que diz, ou nem verá o alcance das suas palavras. Só que manter um pároco que não controla os seus próprios dislates é um perigo que a Igreja corre. A Igreja e os paroquianos, bem entendido.

terça-feira, maio 10, 2005

Imperdoável esquecimento

Como pude eu esquecer-me de postar sobre os sessenta anos do que aconteceu entre oito e nove de Maio de 1945? Imperdoável.



Diga-se o que se disser, que se instalou a guerra fria, o domínio bolchevique em meia Europa, a deslocação de milhões de alemães através do Velho Continente, etc, certo é que este foi talvez o dia mais feliz da história da Humanidade.

domingo, maio 08, 2005

Breves notas (inter)nacionais

Bem sei que Paulo Portas passou de "Paulinho das feiras" a "homem com posse de estado" (seja lá isso o que fôr); que foi o maior pesadelo do cavaquismo, não hesitando em achincalhar os nomes de certos governantes; que alcandorou Monteiro, ajudou-o a criar o PP e depois ocupou-lhe o lugar (com grande mestria, aliás); que não raras vezes mudou de opinião consoante o assunto fosse a Europa, a lavoura, o liberalismo ou a Base das Lages; que tratou maquiavelicamente assuntos como a AD de Marcelo e algumas relações no governo de Durão; e que, por fim, se deslumbrou com as suas visitas aos EUA na qualidade de Ministro da Defesa, dando o total apoio à intervenção no Iraque.
Sim, sei tudo isso. Mas ainda assim não percebo como pode Portas ser condecorado por Donald Rumsfeld sem um sentimento mínimo de náusea. Receber louvores do teórico do embuste das ADM no Iraque e responsável político pelas sevícias de Abu-Grahib e outros casos revoltantes (que numa atitude de total indignidade recusou demitir-se, recebendo mesmo elogios rasgados da sumidade que preside aos EUA) não é motivo de orgulho, mas de embaraço. Se pensarmos que a tal medalha, a ser atribuída, caberia antes a Figueiredo Lopes, ex-ministro da Administração Interna, é mesmo caso para perguntar quais as reais razões de tamanho destaque. E também quem será o financiador da anunciada "Fundação de Direita" em Portugal. Do mui depauperado orçamente de Estado dos EUA? Mr Rumsfeld não se pode eximir à resposta. Mas Portas bem pode mostrar um sorriso mais amarelecido. É que o Secretário de Estado norte-americano já cumprimentou todo o tipo de pessoas, mesmo as menos recomendáveis.



Já agora, devo dizer que Tony Blair merece a vitória que os britânicos lhe atribuíram, ainda que com derrapagens. De facto, o New Labour soube reformar a social-democracia (provando que afinal o modelo social europeu não estava assim tão esgotado, precisava era de uma certa flexibilização), melhorou o investimento público em áreas fundamentais que a Srª Tatcher tinha cortado e devolveu ao Reino Unido um certo civismo perdido nos anos 80. Os conservadores nem como piada eram uma alternativa credível, e os Liberais democratas têm de crescer um pouco para o serem. Pena é Tony que se tenha deixado enredar naquela escabrosa história do Iraque, com suicídios, inquéritos e acusações da BBC à mistura. Veremos se irá agora cobrar a dívida à Administração do outro lado do Atlântico, que bem o merece.
Mas apesar desses erros estratégicos, Blair eleva-se acima da mediocridade que ultimamente tem caracterizado as lideranças europeias (e americanas, já agora). Schroeder é incapaz de travar a recessão e o desemprego que se vivem na Alemanha, e dá a imagem de um líder fraco e influenciável. Chirac, esse, il est plutôt mediocre, descarado manipulador e abaixo de toda a suspeita. Berlusconi é parecido, mas ainda pior, com ligações a grupos mais ou menos mafiosos, ao futebol e a movimentos neofascistas ou separatistas. Aznar governou de forma eficaz, mas em troca pediu o silêncio dos espanhois em casos como o do Prestige, Iraque e atentados de 11 de Setembro. Zapatero parece querer tornar Espanha no paraíso dos transsexuais, além da irresponsável saída do Iraque e de uma excessiva deriva à esquerda. Por cá, já se sabe: Sócrates é uma incógnita, apesar dos sinais positivos, Santana era um inconsciente e Durão deu à sola sem ter cumprido nenhuma das suas promessas, alcandorando-se na presidência da Comissão Europeia, sem estado de graça e já com inúmeras gaffes. Outros haverá, melhores ou piores, mas creio ser possível afirmar que a qualidade governamental deTony Blair está claramente acima da média. No momento, é do melhorzinho que se arranja.
Ignoro é se a Srª Tatcher já voltou das suas férias forçadas em Veneza, propositadamente para não assistir a nova vitória do Labour. é compreensível: afinal, deve ser penoso não poder abrir as janelas e contemplar os desempregados, os sem-abrigo e outros"parasitas" logo pela manhã.

quarta-feira, maio 04, 2005

Queimava

Os estudantes da academia do Porto estão em plena queima das fitas. O clímax do evento deu-se hoje, com o tradicional cortejo de terça-feira, que pára meia cidade e leva milhares ao delírio. Goza-se uma semana de total liberdade, de excessos, de figuras tristes que ficarão para a posteridade. Vestem-se normalmente uns pólos com as cores do respectivo curso, trajes académicos até com um sol abrasador, "kits de caloiro" que incluem chupetas e toucas, e outras roupagens ridículas. O cortejo é um desfile de carros alegóricos onde se entoam palavras de ordem a louvar a respectiva faculdade ou a apoucar as outras (os mimos entre Engenharia e os diversos cursos de Direito são particularmente excitantes), bebe -se cerveja aos litros, tiram-se fotos com a família e salta-se nas escadarias do Palácio da Justiça. Por vezes o tempo não ajuda, e é ver tudo a fugir para baixo dos telheiros mais próximos, a improvisar guarda-chuvas ou a pura e simplesmente continuar a "curtir" com a água a escorrer, como se estivesse o melhor dos tempos. Depois, claro, há os jantares de "confraternização" ou de refúgio da caminhada do cortejo, a ida para o "queimódromo", os concertos (aos quais a maioria nem liga, excepto se fôr de qualidade superior, como o dos James, ou, para os caloiros, a presença no palco de Micaela ou Ruth Marlene) , as barracas, cada uma com um nome mais estrambólico ou uma "nova" bebida mais alcoólica, e o inevitável INEM, de onde partem as ambulâncias com uma carrada de gente com vodka a mais.
A confusão nesse recinto poeirento e desolador (desde que se saíu do mais verdejante Palácio de Cristal) é mais que muita, o perigo de brigas é real, sobretudo se tivermos em conta os níveis de alcoolémia, os velhos encontros são múltiplos, bem como as novas "amizades"; vêem-se sempre cenas inéditas, como tipos de traje a dormir no chão, à chuva, com um sapato a servir de almofada, ou centenas de vozes cantando "SLB, Glorioso SLB..."
Para quem é finalista há um sentimento de fim de festa (por isso mesmo mais acentuada), de nostalgia precoce, e de um sem-fim de compromissos, como o baile de finalistas, a missa da bênção das pastas, a entrega de insígnias, o Serrote (representação onde se goza com os professores do curso), o levar as bengaladas na cartola à laia de felicidades, mesmo que partam do Dr. Rui Rio à passagem da tribuna, etc. Para quem começa é todo um mundo novo que se abre, uma maior boémia, mas também o início de uma certa responsabilidade, e um conjunto de queimas que se seguirão, todas diferentes das anteriores.
Hoje, ao ver passar estudantes de todas as cores, feitios e anos a caminho do cortejo, não pude deixar de sentir uma ponta de nostalgia por todas essas situações que também vivi ao longo do meu curso. Só voltei a uma noite no queimódromo desde que me formei, e dei-me logo conta que estava já desfasado daquela realidade. Aquilo era agora para outros, não para mim. Até posso lá voltar, mas sempre com uma ponta de tédio, mesmo porque aqueles que comigo trilharam o caminho jurídico-estudantil estão também eles completamente afastados dessas vidas. Deixemos pois os estudantes gozar essa semana de insensatez e inconsciência, pois que ser algum está desprovido desses atributos. Apesar da chatice dos cortes de trânsito, da música em altos decibeis (de minha casa, a uns cinco kms, identifico as músicas dos Xutos) e das reclamações dos "futricas", talvez por nunca terem tido a oportunidade de passar pelo mesmo.
Por mim podem estar à vontade. Manter-me-ei como um mero espectador de circunstância, definitivamente fora desse mundo que agora pouco me diz mas ao qual já pertenci

quinta-feira, abril 28, 2005

Sósias ao longo dos séculos

Estava ali a ver uma série na TV sobre Mussolini e lembrei-me da célebre constatação quanto ao cinema da época 2004/2005: este é o ano dos biopics. Não é certamente o caso desta "soap" sobre o Duce, mas tal afirmação só será verdadeira se pensarmos que os tais biopics são os filmes mais visíveis, com mais promoção e mais estrelas (actores/realizadores) envolvidos, já para não falar dos prémios.
Mas o que me espanta mais é o desdobramento de certos actores em personagens várias, completamente diferentes entre si, até fisicamente. O exemplo de Bob Hoskins, que interpreta o Duce, é talvez o mais notório. Observando a sua ficha, reparo que além do líder fascista já esteve na pele de João XXIII, Nikita Krushev (precisamente o contemporâneo oposto), só para referir os que sabia, e ainda de Noriega, Jonh Edgar Hoover, Laventry Beria. Na mesma série, Sir Anthony Hopkins é o conde Ciano, figura grada do fascismo e genro de Mussolini, mais tarde caído em desgraça. Outro habitué dos biopics, Hopkins, que além de Ciano já foi Ptolomeu do Egipto (em Alexandre, mais um filme do gênero), Picasso e dois presidentes americanos (Quincy Jones e Nixon). Figuras reais que, como é visível, têm tudo a ver uns com os outros.
Um outro corredor de fundo do gênero surge-nos numa estreia desta semana. Geoffrey Rush é agora Peter Sellers (cujos papeis foram tudo menos reais), depois de ter sido o pianista David Helfgott, o que lhe valeu um Óscar, o Marquês de Sade e Trotsky. Neste último caso, também inserido num biopic, Frida, pode-se ver Salma Hayec como Khalo, Alfred Molina como Diego Luna e, como amante deste último, a italiana Valeria Golino, que também já entrevi como Calpurni, a tão citada mulher de César.
Também amante do ecletismo real na sétima arte é Gary Oldman. O actor britânico tornou-se conhecido pelo seu papel de Vlad Tepes (sim, existiu mesmo) na versão de Drácula realizada por Copolla. Antes disso já tinha sido Sid Vicius e Lee Oswald (em JFK), e nos anos seguintes resolveu encarnar Pilatos e Beethoven. Não sei se este último era por saudades de fazer outra personagem "musical", mas é duvidoso, se pensarmos que Sid Vicious seria tudo menos músico.
Há ainda actores que não só não se parecem fisicamente com as figuras que tentam imortalizar como também pouco fazem por isso, apesar da excelência das suas interpretações. Como os meus muito apreciados Jeremy Irons, a fazer de Kafka, ou da "Musa" Cate Blanchett, como Katharine Hepburn (interpretação já aqui descrita), ou ainda no mesmo filme, O Aviador, DiCaprio como Howard Hughes. Ou Peter O ´Toole, que se tornou autenticamente no rosto de T. E. Lawrence - da Arábia - mas que causa estranheza quando o imaginamos travestido de dois Césares, Caligula e Augusto, Conan Doyle e Von Hidenburg. Já Ben Kingsley, como Ghandi, ou Bruno Ganz, como Hitler, no recém-chegado Der Untergang, são o retrato perfeito das reais personagens que interpretam, por muito que isso custe ao segundo.
Mas o campeão dos biopics arrisca-se a ser Liam Nesson. É que depois de ter sido Oskar Schindler, Rob Roy, Michael Collins e Alfred Kinsey, parece que irá reencarnar em Lincoln num projecto de Spielberg. E entre o pacífico sexólogo e o malogrado presidente americano que venceu a guerra civil vai um passo não tão curto como isso.
Garanto que não inventei nenhum destes papeis: eles podem ser facilmente comprováveis no guia do costume.
Seria no entanto curioso pensar nos actores adequados para outras interpretações da vida real. No hipotético filme de Mel Gibson sobre Fátima, por exemplo; veríamos a miudagem que pulula nas novelas da TVI a fazer de Pastorinhos? Nicolau Breyner, que até é conservador, como Afonso Costa? Ou Albert Finney (olha outro que já vi como Churchill e João Paulo II)? E Eunice Muñoz como Irmã Lúcia de Jesus nos seus tempos mais recentes?
Mas a minha proposta é menos canónica e mais entusiasmante: proponho que daqui a uns dois, três anos se faça um filme sobre José Mourinho e o seu sucesso futebolístico, já que se fala na posta de Hollywood no desporto-rei. O técnico sadino poderá ser interpretado por George Clooney, Abramovitch pode ser Edward Norton bem caracterizado, Wesley Snipes como Didier Drogba, Jake Gyllenhaal como Paulo Ferreira, James Woods no papel de Pinto da Costa (se conseguiu ser Giulliani também pode ser o líder Andrade) e Philip Seymour Hoffman como José António Camacho. E ainda Jammie Fox fazendo de Aloísio e Tom Selleck como Reinaldo Telles. Só faltava saber quem ficaria na pele de Vale e Azevedo e sobretudo do célebre Hélder dos Super-Dragões, o autor das simpáticas missivas que deixaram Mourinho muito comovido na final da Liga dos Campeões. Com um treinador que aceitasse o projecto (tanto de se dava ser Eastwood como Ron Howard) estavam criadas as condições para um blockbuster à maneira, que faria o nosso país inchar ainda mais de orgulho e de superioridade.

quarta-feira, abril 27, 2005

Emoções

Contra as expectativas formadas até às quatro da manhã de Sábado, Ribeiro e Castro subiu à liderança do CDS-PP, derrotando os "vencedores antecipados", o aparelho partidário e a Geração Altis. Telmo Correia acabou por ver a presidência fugir-lhe por entre os dedos, culpa talvez das suas hesitações nestes dois meses e de algum cinzentismo que nunca conseguiu afastar. Deu-me um gozo incrível ver as distritais, essas fontes de boys e de clientelismo provinciano, ficarem às aranhas com o triunfo dos históricos (e já agora por ver que o inefável João Almeida, esse ícone do vazio de ideias, não logrou chegar a Secretário-Geral). As bases preferiram o regresso do velho CDS que a continuidade da linha PP, no que se poderá traduzir de certa forma numa derrota pessoal de Paulo Portas, a caminho da sua voluntária travessia do deserto. E assim veremos à frente dos "centristas populares" alguém que andou lado a lado com Freitas do Amaral e que ficou conhecido pelo seu lugar em Estrasburgo e pela sua polémica vice-presidência no Benfica, em que teve o bom senso de bater a porta na altura certa.

Por falar no Glorioso: vai grande a polémica por causa do jogo com o Estoril. Depois de todas as críticas por causa da mudança do lugar do jogo (que permitiu ao clube da linha arrecadar a sua maior receita de sempre), que não se podia realizar nem no Restelo, nem no Estádio Nacional, ou em Leiria, e muito menos na Luz e em Alvalade, os protestos recaíram no árbitro, porque, como era sua obrigação, expulsou um jogador merecedor de dois amarelos e outro por palavras que só ele saberá quais são. Acresce ainda o facto de o Estoril ter realizado um(!) remate em todo o jogo e de praticamente ter dado mais atenção ás canelas dos jogadores do Benfica que à bola, redondo objectivo de qualquer embate. Os comentários finais da equipa técnica do Sport...Estoril-Praia roçaram o patético, com acusações de que o árbitro"tinha uma camisola do Benfica e chuteiras vermelhas". Com certeza que Litos pretendia que cada pontapé dos seus jogadores fosse alvo de um delicado pedido de moderação por parte do juíz. A propósito, seria bom lembrar que a equipa da Linha é a que mais cartões tem visto ao longo da época, o que ajuda a explicar muita coisa. E que fez a vida negra a Benfica, Porto e Boavista mas perante o Sporting teve estranhos adormecimentos, por muito que o intragável irmão da Drª Manuela Ferreira Leite o negue.
Ah, mas claro: já ouvi a teoria de que os canarinhos teriam feito faltas de propósito para serem admoestrados e terem ficado reduzidos em número. Ou que o Benfica já os teria provocado premeditadamente para colher esses resultados. Brilhante! Brilhante teoria da conspiração, a juntar às restantes 458.
A realidade, porém, é que talvez os adeptos não-benfiquistas (onde se incluem muitos claramente anti-) estejam preocupados com o facto deste ano o jejum poder finalmente acabar. Qualquer outro clube atrairia metade dos protestos que o Benfica fomenta. Assim sendo, temos de nos habituar. Nós e os outros. A simples calúnia e a verdadeira indignação sempre andaram lado a lado.
E só para lembrar: os profetas das desgraças, aqueles que usm como lema "o Benfica está a afundar-se cada vez mais" com um sorriso afivelado nos lábios, também previam que Manorras jamais voltasse a pisar um relvado. E muito menos que já levasse cinco golos nesta altura.

Percorri enfim o interior da Casa da Música. A luz e o brilho são as principais características daquele edifício, cuja real dimensão é bem maior do que aquilo que parece visto de fora. Aguardo um espectáculo com qualidade que não esgote em duas horas para comprovar as condições acústicas (fantásticas, segundo dizem) do gaveto da rotunda da Boavista.

PS: o caríssimo Carlos Loureiro, do Blasfémias, faz uma referência (e acrescenta o respectivo link) de A Ágora. O post provocou ligeiras e pertinentes interrogações nos comentários. Um grande agradecimento ao Carlos deste ponto da blogoesfera.

quarta-feira, abril 20, 2005

Bento XVI

Quando, depois de três quartos de hora de expectativa, me revelaram o nome do novo Sumo Pontífice, as primeiras coisas que me vieram à cabeça foram: "não se podia restaurar a utilidade primordial do palácio de Avignon?" ou "que teriam os cardeais em mente?", e ainda "D. José Policarpo já pode voltar para o seu Patriarcado".



Ratzinger não era, definitivamente, o nome que queria ou esperava para chefiar a Igreja Católica nos próximos anos. A sua ideia de centralismo, o seu horror aos alegres ritos que acompanham as celebrações litúrgicas em diversos países, como o Brasil, o seu dogmatismo, apesar da sua preparação intelectual e teológica, ou o seu cinzentismo levam-me a crer que não haverá um grande aumento de católicos nos próximos anos, salvo talvez na Alemanha. Não direi, como pensei no início, que a Igreja tenha recuado cinquenta anos, até porque as prerrogativas do Vaticano II não vão ser anuladas. Mas tudo indica que não avançará grandemente. Dir-me-ão que a Igreja é composta por dogmas e por uma doutrina fixa e imutável. Sem dúvida, mas nem tudo o que a compõe é dogmático e rígido. Aparte certas matérias a Igreja pode e deve avançar no plano das ideias e da moral, sem que isso implique uma ruptura. Se assim não fosse, nunca o Vaticano II se teria realizado, nem os Papas teriam saído dos seus palácios de Roma para ir ao encontro dos homens em todo o Mundo.
É também curioso ver como os mais satisfeitos com esta eleição foram os mais empedernidos ateus ou conservadores. Os opostos atraiem-se, mais uma vez. Tirem as vossas próprias conclusões.
Resta-me esperar que o Espírito Santo guie o novo Papa, e que, assim como a sua ascensão ao Trono de S. Pedro constituiu uma desilusão amarga, o seu pontificado se torne numa agradável surpresa.



PS: a este propósito aconselho vivamente as ultimas reflexões de Pedro Mexia no Fora do Mundo. Ainda que "pessoais", estão disponíveis publicamente.

terça-feira, abril 19, 2005

Ainda sobre a Casa

Além das críticas à Casa da Música que referi no post anterior, isto é, as razões economicistas, ouvi durante este fim-de-semana outro tipo de verberações e frases de reprovação. Só consegui apanhar os últimos segundos do Eixo do Mal, ainda a tempo de puvir José Júdice a apelidar o nosso novo pouso musical de "coreto", "que só servia para o Lou Reed", etc. Quer-me parecer que estes e outros exemplos de despeito que pude testemunhar não são mais do que manifestações de invejazinha mal disfarçada, a tão apregoada invejazinha dos portugueses, tão visível agora. Júdice mora, ao que julgo saber, no Algarve, e decerto que o facto de não ter tanta obra para mostrar (excepto as horribilidades de Sagres e a casa emprestada do Estoril) lhe pesou na alma. E quem diz Júdice diz outros, como os representantes da inteligentzia lisboeta (peço desculpa, mas tal coisa existe mesmo), talvez ofendidos pela valor nacional - e internacional - da Casa da esquina da avenida com a rotunda, como se uma obra não pudesse ter o mesmo valor em Celorico da Beira como no Chiado.
Despeito diferente teve Rui Veloso. O pai do rock português mostou sentimentos amargos em relação à obra, talvez por não ser ele a estreá-la , e chegou mesmo a menosprezar a vinda de lou Reed, com um desdém patético. É estranho, mas julgo que na canção que tornou conhecido o Rui, o Chico Fininho descia a rua ao som do mesmo Lou Reed. Seria o mesmo? Ou os tempos é que são outros?

E, e antes que me esqueça, não são só os eventos musicais que conservam financeiramente a obra: a julgar pela afluência no último fim-de-semana, e não só por causa dos Xutos e dos Pluto, a Casa promete também tornar-se um novo incremento à movida nocturna portuense, graças aos novos quatro bares à disposição. Os noctívagos assim o permitam.

sexta-feira, abril 15, 2005

A Casa

À hora a que escrevo, a Casa da Música abriu enfim as suas portas e o seu "espaço acústico" ao público. muitos anos de espera, milhões de euros, despedimentos, demissões, avanços e recuos, obras sem fim, e sobretudo muita paciência depois, o "Iceberg", "meteorito", ou o que quer que lhe chamem, é uma realidade palpável, notória e imponente.
É certo que a localização e a forma foram tempestuosamente contestadas (não falando da sua gestão). Eu próprio franzi o sobrolho à destruição da velhinha "garagem" dos eléctricos dos STCP, ao projecto de Koolhaas, que mais lembrava (e lembra) um iceberg, ou à sua elevada altura, que ultrapassa a da coluna Guerra Peninsular, na Rotunda da Boavista, monumento central de toda aquela zona, e que como tal devia ficar abaixo dos edifícios que a rodeiam.
Pior que isso foram as obras intermináveis, que fecharam parte da Avenida da Boavista durante uma eternidade, cobriram a zona de pó e fizeram-na parecer um cenário de guerra e devastação. O vasto estaleiro de obras é sem dúvida uma má recordação para o comum dos portuenses (ainda me lembro do rasgão que fiz no fato, ao ir para o trabalho, no último Verão, num arame que delimitava o estaleiro, uma vez que não havia passeio), mas todos os tormentos - excepto os das chamas infernais- têm um fim. E este acabou hoje.
O Porto tem agora um novo ex-líbris cultural, a par de Serralves. Se nos lembrarmos dos teatros S. João, Sá da Bandeira - em renovação- Campo Alegre, dos restaurados Rivoli e Carlos Alberto e até do Pé-de-Vento concluímos que no Porto há já uma oferta de espectáculos muito razoável. A Casa da Música veio completar essa oferta, apesar da lacuna de só excepcionalmente comportar espectáculos de ópera. Além do mais espera-se que se torne uma referência na arquitectura internacional, coisa que parece estar a conseguir, tendo em conta os elogios e as reacções que obtém lá fora. Aliás, Koolhaas acabou de ganhar o Prémio Europeu de Arquitectura, vencendo Souto Moura, que concorria com o seu Estádio Municipal de Braga.
Como não podia deixar de ser, alguma blogoesfera de serviço veio imediatamente questionar o financiamento futuro da Casa, exigir punições tremendas para os culpados da derrapagem financeira e soltar os habituais"quem paga a conta é o estado". Ainda que com alguma razão, não seria de mau tom falar do projecto em si e do que trará à cidade do Porto e ao país, pelo menos hoje, sem estar sempre a referir os custos do obra. A não ser, claro, que defendam o imobilismo cultural. E advoguem a demolição da Casa. Por aí se pode ver qual o grau de sensibilidade artística e estética destes senhores: zero.
Mas, polémicas à parte, ela aí está, resplandecente e majestosa, feérica e original. Todos nós, portuenses, estamos também de parabéns, pela paciência que tivemos ao longo destes cinco anos de obras. O resultado final é compensador e digno de orgulho. Quando vier ao porto, a Música já tem Casa onde ficar.

terça-feira, abril 12, 2005

Factos e mitos

Não, não vou falar do facto de Marques Mendes ter enfim atingido o topo da laranja, pondo fim a uma longa carreira de yes-man; nem tão pouco do PSD ser ainda mais populista que supunha (mais até que o BE), ao dar tantos votos a Menezes. E muito menos no mito do cavaquismo reaparecido, do sá-carneirismo nevoento e esvoaçante ou do borgismo ascendente.
Não. Falo de coisas sérias. Coisas a que o comum dos patrícios deu mais atenção. O que mostra as reais prioridades da Pátria.

Os factos: o Benfica, depois de uma primeira parte equilibrada e de uma segunda controlada, em que encostou o adversário à sua área, acabou por sofrer ingloriamente um golo nos descontos, silenciando a onda vermelha que o seguira até aos Arcos. Quem não marca arrisca-se a sofrer, todos o sabemos, mas também era escusado ser depois dos 90. Sobretudo por uma equipa que pouco tinha feito na segunda parte além de defender. Resta-me a consolação de que não passou de uma finta do destino, que a jogar assim o SLB não deixará escapar o título, e que uma derrota até pode ter sido o melhor dos tónicos, para travar eventuais triunfalismos. Até porque para se ser campeão tem de se saber sofrer.
Outro facto: no derby portuense, o Boavista derrotou o FCP, que, na realidade, não é apenas uma sombra do ano passado: é um cadáver. Tive a oportunidade de assistir ao jogo in loco, e de constatar a indigência futebolística, a falta de motivação e a ausência de qualquer entrega por parte da equipa das Antas. A claque, que do outro lado do anfiteatro axadrezado ainda se manifestou até ao golo, passou quase toda a totalidade da 2ª parte em silêncio sepulcral. Do lado onde estava, bem entendido, os adeptos boavisteiros não se cansaram de mimosear os vizinhos com novos cânticos, e à saída dava-se conta que era a 1ª vez que o Boavista vencia o Porto nos dois jogos do ano. Para a história, portanto. E para a classificação.
Mais um facto: com um mau jogo, vendo a arbitragem anular mal um golo ao adversário e marcando num golpe da mais pura das sortes, o Sporting lá ganhou ao Beira-Mar. Dias da Cunha, antes do jogo, criticara a arbitragem. E assim ganharam três pontos, que oportunamente voltarão a ser seis, claro.
Ainda mais um facto: o Braga voltou a ganhar. Fora, ao Estoril. Muito cuidado com eles. Isto aplica-se sobretudo ao Sporting, como é evidente, que ainda se tem de deslocar à velha Bracara Augusta.

Os mitos: o mito de que "o Sporting joga o melhor futebol do campeonato" deve-se a jogos como os contra o Boavista (dois), Rio Ave, Estoril ou Penafiel (fora, como é óbvio), mas cai valentemente por terra quando são relembrados os confrontos com Marítimo, Leiria (os dois), Belenenses, Porto (Dragão) ou Penafiel (em casa). Isto é, um meio-mito, se a designação fôr aceitável. Se por vezes Liedson, Viana e Cª produzem torrentes de golos e jogadas vistosas, outras há em que se arrastam inconsequentemente pelos relvados. Ontem foi bem um desses casos, apesar da vitória.
Ligado a esse jogo podemos também falar do mito de que "o Benfica está a ser ajudado pelo arbitragem". Ah, claro, tinha de nos calhar a nós, fatalmente. E tinha de ser logo em ano de Apito Dourado, essa sinistra maquinação da PJ para prejudicar o Porto, impedindo-o injustamente de ser beneficiado pela arbitragem. Estranho é que precisamente na altura em que o Benfica está isolado na liderança não se lhe possa apontar grandes benefícios vindos dos apitos. Em Vila do Conde tivemos uma arbitragem discreta, que só pecou em não ter mostrado amarelo a Junas, por entrada dura sobre Geovanni. Contra o Marítimo anularam um golo limpo a Nuno Gomes. E em Setúbal o erro maior foi o fechar dos olhos a um penalty favorável ao SLB. Andamos sem dúvida a ser levados ao colo. E se nos lembrarmos do jogo da Luz contra o Porto, então...

Mas nada consegue ultrapassar ou ser mais contundente que o célebre mito de que "o Benfica anda a ser levado ao colo pela comunicação social", o meu favorito. Já há dias o Bom Selvagem dizia que o Jogo andava subrepticiamente a fazer campanha para destabilizar o Benfica. Era bom que fosse apenas o orgão não-oficial do FCP, até porque a esse já estamos habituados, bem como ao Record, que todos os dias persiste em nos colocar um novo jogador no plantel, ou em fazer saír alguém. Não. A negação do mito vem precisamente dos "civis", dos não-desportivos. Vejamos por exemplo o Público: basta ver os diversos editoriais reservados à bola para nos depararmos com frases como "o Benfica não tem estofo de campeão", "os encarnados espremeram a equipa toda" (este já data do início da época), "a classificação do Benfica é mentirosa", etc. O caso mais grave terá sido no Benfica -Sporting para a Taça (os 3-3), em que o jornal afirmava no dia seguinte, sem qualquer pudor, que o árbitro "tinha cometido erros apenas contra o Sporting". Uma apreciação reveladora, tanto mais que quem tiver boa memória se lembrará que nesse jogo o juíz perdoou a expulsão a Barbosa, permitiu um golo em off-side de Liedson e acabou o jogo antes de se esgotarem os minutos de compensação, no momento em que o Benfica fazia um ataque perigoso. Assim não o entendeu o jornal diário, que curiosamente não referiu na sua edição de ontem (link "pagável", como sabem, pelo que peço que recorram ao velho papel) o facto do Beira-Mar ter marcado um golo limpo ao Sporting, que teria dado um precioso ponto. Mas lá está, o árbitro desta vez "não errou para o mesmo lado". Refira-se ainda que o editor de desporto do Público, Bruno Prata (por sinal um óptimo escriba), é um assumido portista, bem como o único cronista residente de futebol - o Blind Zero Miguel Guedes, aos Sábados. O mesmo se passa no Expresso, com Manuel Serrão, que dispensa apresentações, ou com as habituais antevisões jocosas de José António Lima aos jogos do SLB. No DN, o editor Duarte Moral é um lagarto dos quatro costados, e o seu parceiro cá do burgo, o JN, é um fiel acompanhante das aventuras e desventuras portistas, normalmente com honras de primeira página. Quanto à Capital e ao Correio da Manhã, não os sigo o suficiente para saber quais as cores predominantes nos seus editoriais. O mesmo digo a propósito das rádios (embora devesse de vez em quando ouvir o velhinho Bola Branca).
Já as televisões é o que se sabe: a RTP trata da Selecção e dos europeus, furtando-se assim a ambiguidades clubísticas, a SPORT-TV é conforme lhe dá, a SIC cultiva de há uns tempos para cá uma linha claramente hostil ao Benfica (relembrar por exemplo, o vergonhoso caso Ricardo Rocha, em que a estação de Carnaxide tentou passar a ideia falsa de que o SLB ficaria sem Taça e sem segundo lugar), e só a TVI poderá se acusada de ser mais parcial no que ao vermelho diz respeito. Além de A Bola , claro, o nosso orgão não-oficial. Onde apesar de tudo aparece semanalmente um Miguel Sousa Tavares em estado de delírio, acusando tudo e todos de conspirarem contra o FCP (apesar do próprio, em grande contradição, reconhecer os erros e opções do seu clube), ou, pior ainda, afirmando que o Benfica "só vai ser campeão por Decreto". Se assim fôr, espero que depois nos esclareça a todos qual é o tal "Decreto" em que está previsto o vencedor do campeonato. Ou quais são as forças que impedem o FCP de ganhar os títulos a que é candidato, mesmo que não jogue patavina.
Parece-me é que julgar que a TVI e a Bola constituem toda a comunicação social, esse tenebroso mundo que leva o SLB ao colo, fica um pouco aquém da realidade. Não passa de mais um dos famosos mitos (ligado também ao do "Salazar") que se convencionou espalhar, tal como desde Domingo se ouve dizer que "o Sporting só depende de si próprio" (e o Benfica, não?) ou que "vamos ganhar à Luz e ser campeões". Sim, muitas e enormes certezas têm os caríssimos lagartos. Mas também me lembro de outra situação, em que o Sporting era a equipa "que melhor futebol praticava", tinha um óptimo plantel, estava apenas a um ponto do Benfica e do seu "medroso treinador" e ia jogar o jogo do título perante os rivais, com tantas certezas como agora. Aconteceu em 93-94, o "medroso" deu um banho de táctica ao "intelectual", o SLB goleou por 6-3 e sagrou-se campeão. Ah, e o campeonato acabou no Bessa. Como agora.Não esquecer em que há alturas em que a história se repete. E a certas pessoas não falta gana, nem talento nem lata para o fazer.



PS: eu não digo? Na ânsia de encontrar alguma coisa que comprometa o SLB, Sousa Tavares, jocosamente, diz que o Estoril é amigo por pretender jogar o desafio contra o Benfica no seu campo de treino, o Estádio Nacional. Pena é que o Miguel não se lembre que o estádio do Estoril é pequeno demais para os numerosos adeptos do SLB que se prevêem, e que os responsáveis da linha pretendem acima de tudo uma bilheteira generosa, coisa que o Coimbra da Mota não lhes proporcionaria. Ainda por cima, sabe-se agora que o jogo se vai realizar trezentos Kms abaixo, no Estádio do Algarve. E agora? Irá MST acusar o Louletano e o Farense de serem amiguinhos do Benfica?
E para que conste, o Comércio do Porto trazia ontem em grandes parangonas que "Benfica e Sporting tinham sido apanhados nas malhas do Apito Dourado". Afinal, o que havia era "escutas telefónicas suspeitas a Valntim Loureiro". Só que a notícia não é desenvolvida. Ao jornal escapa o facto de provavelmente todos os dirigentes terem feito telefonemas suspeitos ao Major. A questão é saber se envolvem crimes e corrupção à séria. E tem graça, sobretudo depois da lista de arguidos e testemunhas estar pronta, sem que qualquer dirigente dos clubes em questão faça parte do grupo dos primeiros.
Mas depois já se sabe: a comunicação social "anda toda com o Benfica ao colo".

sábado, abril 09, 2005

A bênção póstuma


Realizaram-se hoje as solenes exéquias ao Papa. De todo o Mundo e de todas as raças milhões de pessoas vieram prestar a última homenagem a João Paulo II. Nunca uma cerimónia fúnebre tinha atraído tão grande número de líderes mundiais e religiosos. Nunca um homem foi alvo de tamanha manifestação de respeito. Bastaria este facto para atestar a importância do pontificado que agora acabou.
Mas o que é realmente assombroso no meio disto tudo é o poder póstumo do Santo Padre. Então não é que na enxurrada de chefes de estado e de governo que se cruzaram se vislumbraram dois gestos inéditos? Primeiro quando o presidente israelita, Moshe Katzav, cumprimentou o líder sírio Bashar al-Assad, uma rara imagem entre dois estados que se guerreiam mutuamente; mais surpreendente ainda foi o cumprimento e breve troca de palavras entre o mesmo Katzav e o presidente Khatami, do Irão, possivelmente o país mais hostil do mundo face a Israel. Ainda que não passem disso mesmo, são gestos de um incrível simbolismo. Mesmo depois de morto, João Paulo II prosseguiu com êxito a sua missão de paz no Mundo.
E já que se fala nas relações (ou na sua ausência) Irão-Israel, aconselho este anúncio israelita, revelado pela Rua da Judiaria. Uma autêntica obra de arte publicitária, mostrando mais uma vez os resultados da imaginação e da criatividade quando está ao serviço de causas nobres. Poderá de novo a Vida suplantar a Arte? Pelo que viu hoje, não é totalmente impossível.


Nem de propósito: a questão da morte do Papa e da sua sucessão é algo que me deixa um pouco confuso. Nunca conheci outro Papa, e a imagem que tenho do sumo Pontífice está indelevelemte ligada a João paulo II. Pois bem, via Tugir, cheguei a este site em que é possível descobrir qualquer uma das famosos capas da Time, através da sua data. Ocorreu-me ver qual seria no dia do meu nascimento. E o assunto não podia ser mais actual, e, em simultâneo, mais ligado ao homem que agora nos deixou e de quem o mundo acaba de se despedir. Ora vejam lá...



Isto é só para mostrar que as apostas são escusadas. Felizmente, os prognósticos da Time estavam errados.

segunda-feira, abril 04, 2005

Karol



João Paulo II, o Papa, morreu enfim. Anos de agonia e sofrimento físico - que não moral ou psicológico - acabaram ao princípio da noite de sábado. O homem com o nome de nascimento Karol Wojtyla fechou os olhos. A sua obra, porém, permanece, e o seu legado terá de ser administrado de forma séria e corajosa. Tão corajosa como a forma como este polaco de sorriso sereno (e com o seu quê de traquinas) serviu Deus e as suas convicções até ao fim.
Uma coragem a que não deve ser alheio o facto de ter sido privado dos seus pais ainda muito novo, e, pior ainda, de se encontrar no epicentro da pior guerra da história da humanidade. Na sua Polónia, onde assistiu aos horrores do nazismo e do Holocausto, e à tentativa de destruição dos povos eslavos e judeus, seguida da ditadura comunista, devidamente vigiada por Moscovo. A experiência (e resistência) vivida sob o totalitarismo, aliada à sua eleição, inspirou o movimento revolucionário Solidarnosc e tornou-o uma das figuras-chave na queda das "democracias populares" de Leste.
Além do comunismo, o Papa atacou igualmente outros sistemas aviltantes do ser humano, como o capitalismo selvagem e o materialismo sem rosto. Pronunciou-se sempre contra a guerra, em especial a invasão do Iraque. Lutou contra a pena de morte e as violações aos direitos humanos em todo o mundo, não hesitando em dizê-lo em frente aos responsáveis. Estabeleceu pontes entre todos os credos, pediu publicamente, de forma humilde, perdão por todas as situações em que a Igreja não protegera o ser humano, como nas perseguições religiosas, em especial face aos judeus; ele, que vira o horror diante de si, disse na Terra Santa, sobre o Holocausto: "Nunca Mais".
Viajou por todo o Mundo, indo de encontro às pessoas, aos mais desfavorecidos, àqueles que precisavam de esperança, aos que sofriam. Perdoou a quem o tentou matar, não se encolheu perante os que o insultavam publicamente, como o radical reverendo Paisley, no Parlamento Europeu. Esteve junto de figuras menos recomendáveis, como Fidel, Pinochet ou Tarek Aziz, porque a sua luta era contra sistemas e injustiças, não contra as pessoas, e por isso mesmo não se afastava de ninguém.
Situações houve em que parecia desfasado do seu tempo, como a recusa total do ordenamento das mulheres ou de métodos de controlo da natalidade. Mas uma Igreja que esteve parada durante séculos não pode mudar radicalmente em apenas 50 ou 60 anos. Será através dos tempos que as mudanças se farão, se necessárias forem, sem ceder nos seus pontos fundamentais a influências externas, em especial de quem nem sequer partilha a Fé Cristã. E jamais se poderia pedir a um único Papa que reformasse por completo a Igreja, sobretudo se rodeado por uma Cúria com ideias difusas e algo fechada, num universo de mais mil milhões de católicos. Acima de tudo, pedir que o João Paulo II renunciasse a alguns dos princípios por que sempre pugnara seria a maior das vilezas e a mais pungente desonestidade intelectual.
A forma como resistiu sempre às doenças que o minavam, ao inevitável avançar da idade, para continuar a sua peregrinação e ir ao encontro dos que dele necessitavam, é simplesmente notável. Muito se falou na possibilidade da sua renúncia (hipótese com que eu próprio concordava), por visível incapacidade. Mas o que o Papa pretendia era mostrar que também na velhice e na doença , tantas vezes escondidas e tidas como sinal de vergonha e de opóbrio num mundo reservado áqueles que têm "sucesso" e imagem vitoriosa, havia dignidade e esperança. E foi essa a sua última grande vitória. Até ao fim manteve-se firme no seu posto, cumprindo a sua missão no Mundo, e recusando mesmo ser transferido para um hospital, preferindo uma morte digna e natural, como sempre defendera, em lugar de prolongar por escassos dias uma vida artificial.
Deus sabe quem tomará os destinos da Igreja. E recebeu agora João Paulo II, que toda a vida O serviu da melhor maneira que pôde e soube. O Papa que veio da Polónia ganhou definitivamente o seu lugar na história. E a Igreja permanecerá sólida e firme sobre a Terra, defendendo a dignidade do Ser Humano e a Palavra de Cristo.

sábado, abril 02, 2005

O admirável mundo da vida aquática



The life aquatic with Steve Zissou (desculpem lá mas recuso-me a nomeá-lo pelo título que lhe deram em Portugal) é para mim, apesar de estarmos ainda na Primavera, um ou O filme do ano. Não, não me vou demorar sobre a "temática da paternidade", a que todos os críticos aludiram, às semelhanças e diferenças com os anteriores trabalhos do realizador Wes Anderson - do qual aliás só conheço The Royal Tenembauns (que sim, tem óbvias parecenças, sendo a maior delas é a de haver um grupo heterogêneo à volta de uma figura tutelar, porém deprimida). Bastava que no filme fossem colocados elementos fantásticos, deliciosos, únicos, como os que revela: explorações oceanográficas, ataques de piratas filipinos (com motivos nipónicos), viagens de hidroavião, balão e mini-submarino, festivais de cinema italianos, festas de smoking, champagne e vestido comprido à mistura com barretes vermelhos de grumete, medalhas portuguesas, tripulações multinacionais (alemães, sikhs, brasileiros), tubarões-jaguar, e sobretudo Bill Murray, Cate Blanchett (a incontornável Musa) e ainda Willem Dafoe, Angelica Houston, Owen Wilson e Jeff Goldblum (um bom regresso depois de anos de desaparecimento). Tudo ao som de David Bowie, traduzidas para português do Brasil por Seu Jorge. burlesco, comovente e magnífico, ao mesmo tempo. Apanhem-no se ainda puderem.

PS: o post poderá ser inoportuno no momento em que todos os católicos acompanham o sofrimento do Santo Padre. Mas o mundo não cessa de rodar, e também precisamos de uns momentos de distração e fantasia.

sexta-feira, abril 01, 2005

Requícios pascais

- Uma celebração litúrgica nocturna na igrejinha da paróquia, nas faldas da serra, tem muito mais significado do que se fôr rezada pelo Bispo na Sé da Diocese. É necessário, no entanto, que o celebrante não seja daqueles que por tudo e por nada ameace os fieis com as labaredas do Inferno, e que o coro não se exprima com agudos em demasia. Posto isto, informo que entre a população feminina que acorre a tais celebrações de aldeia, tanto encontramos respeitáveis senhoras de lenço negro e orgulhoso buço como jovens de ar gentil e corte de cabelo agradável.

- Maldizia eu o facto da chuva só ter aparecido exactamente nos dias em que a não desejava, quando eis que um meteorologista vem dizer ontem, com um ar de assistente novato, que nos últimos dias só tinha havido precipitação significativa "no Minho e na região de Bragança". Nada no Douro, portanto. O que significa que a carga de água que apanhei em cima quando vinha desesperadamente a patinar Almacave (Lamego) abaixo, com medo de descer aos tombos, era pura imaginação. Ou o barulho da chuva a caír durante a noite, bem como a lama que repetidamente me enterrava as botas, ou os rios - como o Corgo - e riachos a correr furiosamente em direção ao Douro foram mera alucinação. Terei então de consultar um bom psicólogo, ou então perguntar o que se passa com os discípulos de Anthímio de Azevedo.

- Na Grande Reportagem da semana passada vinha uma carta de alguém que incensava a atitude do Padre Serras Pereira, com o sugestivo título de "aviso aos pecadores". Nela, o seu autor afirma que "os católicos modernaços são espertalhões", porque "procuram as regalias da religião sempre pecando a torto e a direito enquanto assobiam para o lado". Fala ainda no dito Serras Pereira, "pronto a fazer imperar os bons costumes religiosos", elogia os "ideais do Partido Nacional Renovador", e conclui com um fero "podem fugir mas não se podem esconder".
Das duas uma: ou o criador desta epístola é alguém senil ou maníaco-obsessivo; ou não é, está no seu perfeito juízo quando escreve tais palavras, e faz tábua rasa da desautorização de que Serras Pereira foi alvo por parte de D. José Policarpo, o que me recorda igualmente duas situações descritas nos Evangelhos: a primeira é a da mulher adúltera (Lucas 7, 36-50); é óbvio que para atirar tantas "pedras" como as que traz na mão a pessoa em questão jamais cometeu pecado algum, salvo talvez o pecado da presunção. A outra situação é a do homem que reza de pé, para que todos o vejam, e que agradece a Deus o facto de não ser "como o resto dos homens", como o publicano que, de cabeça baixa, bate no peito (Lucas 18, 9-14). Para quem não sabia como era, o indivíduo que escreveu aquela carta mostrou o que é ser um fariseu dos nossos tempos.

quinta-feira, março 24, 2005

Há exactamente dois anos, o insólito




Sim, em fins de Março vi com grande pasmo um nevão caír sobre as colinas helénicas, no fim de uma madrugada em que por razões de deslocação aérea tive de me manter acordado. Ganhei assim uma enriquecedora experiência, a de esperar mais de duas horas dentro de um avião que manifestamente não estava ainda preparado para o forte nevão que cobriu a região da Ática. Mas posso apostar que nunca a Ágora esteve tão encantadora como nesses dias em que do Olimpo se decretou a alvura geral.



Outras notas:

- Os rapazes de verde levaram de vencida os de azul (sim, aqueles que, perante a incredulidade geral, são apelidados por uns poucos de "Campeões do Mundo", embora não se saiba o porquê da designação). O feito provocou sorrisos do lado de cá da barricada, além de choros e ranger de dentes para algumas sumidades. Certo é que os primeiros arriscaram um mínimo, e os segundos não se percebeu bem o que foram lá fazer. Depois disto, as preocupações reduzem-se aos meus caros vizinhos do Bessa e aos aguerridos arsenalistas do Minho, que poderão sempre causar contrariedades.

- Continua a gritaria por causa da questão "vai-ou-não-o-governo-subir-os-impostos-e-se-sim-quais-são". Pela minha parte, acho que percebi bem o recado: a prioridade será diminuir a despesa pública, e só em caso de absoluta necessidade é que se tentará aumentar a receita (para a qual poderá contribuir a perseguição à fraude fiscal e o fim do sigilo bancário). Há questões a esclarecer, sem dúvida, mas esta nem tinha assim tantos motivos para esgares de terror. Mas também admito que as alterações ao PEC tenham contribuido para desinquietar os espíritos.

-Lamento, mas na minha modesta opinião não têm razão. Porquê Babies, porquê Common People, se teremos sempre Disco 2000, simplesmente uma das mais grandiosas criações de todos os tempos da música pop? Então Deborah, os seus desencontros e atribulações não lhes dizem nada? Oh, céus.

-Amanhã, partida para o Portugal semi-profundo, o do interior próximo, para gozar os dias de Semana Santa. Como tal, uma Santa Páscoa para todos

domingo, março 20, 2005

Vitória 0 - Benfica 2



Continuamos lá em cima

Mais uma noite de sofrimento - relativo, até Geovanni marcar o segundo - com lesões, penalties não marcados, expulsões, frangos e um público vibrante, especialmente o que puxava pelo SLB, e que não se coibiu em encher o estádio. Mais uma final ganha.
Esperemos pois, calmamente, pelo resultado do jogo entre os rivais do costume, para saber se um iguala o outro e ficam os dois a relativa distância do SLB, ou se um fica definitivamente afastado do título, enquanto o outro conserva ténues hipóteses de lá chegar. E, claro, pelos delírios e conspirações do Dr. Dias da Cunha, ou as acusações engasgadas e escorrendo raiva do sr. Pinto da Costa. O que eu sei é que um dos mais vitoriosos treinadores da história do futebol, tantas vezes criticado e assobiado, e que tantas dúvidas provocou quanto às suas capacidades (mesmo a mim, que ainda que simpatizasse com ele, achava que os seus métodos não eram adaptáveis ao Benfica) ou até à sua sanidade mental, vai a pouco e pouco aproximando-se dos seus objectivos e pode mesmo juntar mais uns troféus à sua já extensa colecção. A Raposa pode ser Velha, mas não perdeu as faculdades e bem pode dar umas lições a uns quantos novatos.

segunda-feira, março 14, 2005

Amadeus recordado




A RTP-1 passa hoje o filme Amadeus, de Milos Forman. Curiosamente, já esta semana o
Babugem tinha publicado um post sobre o novo DVD da obra, os vinte minutos a mais e o raro reconhecimento recíproco entre público e crítica por uma obra tão grandiosa. Não podia estar mais de acordo: o filme é uma obra-prima, com efeitos visuais e sonoros fabulosos, mudanças de ritmo impecáveis, e interpretações magistrais de F. Murray Abraham e Tom Hulce (dois actores um pouco esquecidos, sobretudo o segundo). Dado a contar histórias sobre personagens marginais, de mentalidade questionável e relativamente obscuras (casos de Larry Flint e Andy Kauffman), Forman dedicou-se então ao genial compositor de Salzburgo, de dados biográficos incertos, que morreu aos trinta e seis anos muito longe do reconhecimento póstumo. A personagem central é no entanto Salieri (Abraham), o compositor da Corte de Viena. O seu talento musical, que sempre pretendeu que fosse um dom divino, é totalmente esmagado pelo de Mozart, embora ele seja o único que o na realidade o reconhece. Daí advêm a inveja profunda, a renegação de Deus, as tentativas de minar o trabalho daquele que o trucida com a seu génio, dádiva divina que a ele, Salieri, lhe fora negada.
Forman lança também a dúvida sobre se a morte de Mozart terá sido ou não responsabilidade do músico italiano. O final parece desmentir tal culpa, mas a vontade, a intenção, estão lá, e disso se penitenciará Salieri para o resto da sua vida.
Pelo meio, assiste-se às famosas tropelias de Wolfgang, às suas partidas infantis, à relação imatura com a sua mulher, Constanze, à vida desregrada e à permanente e severa censura do seu pai, Leopold, bem como aos ambientes da corte imperial de Joseph II, filho de Maria Teresa e melómano amador. E também a algumas óperas do compositor, em especial D. Giovanni, composta e revelada ao público em Praga, na Boémia natal de Forman. Tudo sob a inimitável risada de Mozart, pueril, sarcástica, com o seu quê de inocência mefistofélica.
A coincidência TV-DVD não se fica por aqui. Quando assisti ao filme, há escassos meses, e por VHS, mal acabei de o ver, dei uma vista de olhos ao Euronews: o canal noticioso mostrava a reabertura solene do La Scala de Milão, depois de uns anos de obras, com a mesma obra que estreara o tatro no Séc. XVIII: Europa Riconosciuta, do compositor italiano...Salieri. Murmurava-se, no final, que seria a reabilitação do rival de Amadeus. Mas outros, franzindo o sobrolho, declaravam secamente, entre termos como "assassino" e "Mozart", que Salieri só seria tocado de novo num teatro relevante daí a mais duzentos anos. Não por ser um "compositor menor", note-se, mas pela maldição a que está votado por grande parte dos melómanos. O seu nome dificilmente se livrará desta conotação lendária, embora possa ser suavizada. Prova-se mais uma vez que a música faz parte do domínio dos sentidos, da loucura, do génio, e de inúmeros ódios e paixões. E é, evidentemente, mais um caso em que a Vida imitou a Arte.

sábado, março 12, 2005

Recordações vagas

Volto a mencionar o Acidental. É difícil entender este blog. Os últimos posts falam das trapalhadas do governo, mesmo antes de tomar posse. Uma delas é a "nega de Seguro" (sejamos sinceros, alguém se lembrou mesmo de convidar o jovem ancião para o governo?). Não percebo; ainda há uns meses, mais precisamente em Julho, os mesmos blogers defendiam acerrimamente as trapalhadas de uma tomada de posse ministerial. Em especial quando uma senhora a atrasou, por, ao que consta, ainda não saber qual a Secretaria de Estado que lhe caberia em sorte, mesmo que por antecipação já fizesse parte do governo, fosse qual fosse a sub-pasta. Humores...

É claro que O Acidental não mudou tanto de um ano para o outro como o actual campeão europeu. Há de facto alterações que surpreendem pela sua brusquidão. Sobretudo quando esta é quádrupla.

PS: definitivamente, é uma obsessão. A nova "trapalhada", segundo PPM, mentor do Acidental, é o facto do pai de Sócrates ter acusado o filho de elitismo, pelo que se pode ver que "isto não começa nada bem". Pois não. Acreditando nisso, até nos esquecemos das confusões diárias do Governo de Santana, tomada de posse incluída. Ou devíamos ser obrigados a esquecer. Está visto que o neo-estalinismo de centro-direita veio para ficar, o que explica o horror de Portas pelos votos dos trotskistas, a apenas um por cento dos votos (sem esquecer que os marxistas-leninistas ainda ficaram à frente).
A Pátria está preocupadíssima, raladíssima com as declarações de Fernando Pinto de Sousa, pai de Sócrates. Com isso e com o futuro de Paulo Portas, bem entendido.

quarta-feira, março 09, 2005

O governo, Freitas, e o retrato dele

O anúncio do novo governo provocou as reacções esperadas. Não houve pavor, mas também não se viram declarações emocionadas. O PSD vogou entre o benefício da dúvida e a crítica pela crítica, mas dos incongruentes Menezes e Guilherme Silva pouco havia a esperar. O Bloco de Esquerda, que ainda não percebeu que é apenas o quinto partido mais votado, desatou a falar nas promessas eleitorais e a fazer uns esgares de dúvida. O PCP, inevitavelmente, acusou o executivo de conter elementos "neo-liberais" (vá lá que não lhes chamou fascistas). O CDS-PP atacou por todos os lados, mas 90% das críticas eram dirigidas a Freitas do Amaral.
A ausência maior é, como não podia deixar de ser, a de Vitorino, que já deixara a ameaça implícita naquela sonante declaração terminada por um "habituem-se". Ninguém percebeu se quererá seguir uma carreira mais "privada" ou mais pública, que vá para além do seu lugar na AR. Já Pedro Silva Pereira e António Costa (novo peso pesado) eram absolutamente previsíveis, assim como Manuel Pinho. Correia de Campos deixou uma boa imagem nos tempos em que ocupou a pasta que a si regressa, e é olhado com bons olhos pelos sectores da saúde. Alberto Costa, pelo contrário, pela inabilidade que demonstrou à frente do MAI é visto com desconfiança, embora Rogério Alves tenha treinado uns elogios de ocasião. Freitas do Amaral, que confesso que foi uma surpresa para mim, é um peso pesado com experiência no cargo e conhecimento de causa. O facto de se afirmar que "é um anti-americano" e "esteve contra a guerra do Iraque" (ele e a maioria da população portuguesa estiveram contra uma guerra baseada naquela armas de destruição maciça que ninguém descobriu) não me deixa minimamente preocupado, até porque a maioria desses críticos tem uma tal admiração por W Bush que imediatamente revelam o porquê das censuras.
Os restantes nomes não conheço, exceptuando Augusto Santos Silva, de quem tenho muito boa imagem, e Jorge Lacão (rotulado com um "yes man"), e a quem foram esntregues pastas mais instrumentais. Espero pois pela actividade governamental. E que só dialogue o estritamente necessário.

A propósito de Freitas: depois das atitudes revisonistas exibidas num qualquer congresso, o CDS-PP revelou de novo os seus complexos edipianos, ao enviar o retrato do seu fundador para o Largo do Rato. Ao que parece, só se conservam os de Amaro da Costa (que nem chegou a ser líder) e de Paulo Portas. Gostava era de saber o que é que terá feito Adriano Moreira para que lhe fizessem a desfeita; talvez por estar contra a invasão do Iraque, pelo que no Caldas reagiram com sentimentos tudo menos cristãos.
Não é preciso escrever mais para dizer que é uma atitude indecorosa, insensata e da mais baixa política. Quem trai as sua origens, perde a sua memória; quem perde a memória perde igualmente os valores que apregoa.

Ainda por falar no PP: Diogo Belfort Henriques postou no Acidental uma piada clara à nomeação de Freitas do Amaral,  considerando que o Hezbollah e a França são os novos aliados de Portugal. Se do primeiro bem só exigimos distância, não percebo porque é que o segundo é um "novo" aliado; será que o país com a maior comunidade portuguesa no estrangeiro, e que é provavelmente o nosso maior contribuinte dos fundos comunitários era nosso inimigo e não o sabíamos?
Lamento, mas a posta é muitíssimo infeliz. DBH já escreveu coisas bem mais oportunas e interessantes. É pena que agora se socorra da ligação de um blog estrangeiro assumidamente anti-francófono e, no seu gênero, de um fanatismo repulsivo, que por sentido de decência e respeito para com os leitores não "linkarei". Espero é que agora não venham as desculpas de "não é nada anti-francófono, é só contra o Chirac...", porque o sentido do post não engana. Se no lugar de Chirac estivesse Bush e se falasse dos EUA nos mesmos termos, o que não seria de acusações de anti-americanismo! E, neste caso, com inteira razão.

terça-feira, março 08, 2005

Falando ainda de cinema

O Aviador está visto. Ao contrário da opinião reinante, que o considerou "apenas um bom filme", ou pior que isso, creio sinceramente que daqui a umas décadas será recordado como "um clássico do seu tempo". Leo está muito mais crescido, é um actor de corpo inteiro, e começa a dar razão a quem o disse em tempos que era um prodígio. A carinha laroca e juvenil não o ajuda muito em relação à crítica (Jude Law sofre do mesmo problema), mas é crível pensar que daqui a uns anos
esse preconceito estará definitivamente posto de lado. Cate, a Musa, está ao seu nível; Katharine Hepburn tem uma recriação (e quem sabe, uma sucessora) que certamente apreciaria. Os demais secundários também cumprem, sobretudo num elenco tão rico que inclui Kate Beckinsale, Jonh C. Reily, Alec Baldwin, Allan Alda, Ian Holm, Willem Defoe (curto papel, mas mais importante do que parece) e principalmente o referido Law, num fantástico Errol Flynn. Cint pode ser um justo vencedor da estatueta reservada ao melhor realizador do ano, mas se tivesse voado para Scorsese, tal não seria razão para cóleras excerbadas - além de que corrigiria uma antiquíssima injustiça.

Próximas fitas: Sideways, em princípio, mas também se fala de Ray. E pelo caminho, Kinsey ficou igualmente visto. Interessante como explicação científica e social dos hábitos sexuais numa América que despertava, ainda a virar a cara e de credo na boca, para essas matérias. Os mais púdicos achá-lo-ão algo escatológico, embora a escatologia seja, necessariamente, um dos elementos essenciais do filme. É pena, de qualquer forma, que não focassem mais a reacção pública que o Relatório Kinsey provocou naqueles dias e naquelas paragens. Sob toda a análise científica, há uma profunda análise social que fica aquém do pretendido.

Por falar em filmes que não atingiram as expectativas: o Babugem disserta sobre Shattered Glass (verdade ou mentira, na versão portuguesa), filme que andou pelas salas aí por alturas da última Páscoa e que narra a história verdadeira do jovem e promissor Stephen Glass na New Republic, do seu apogeu e descoberta de que a maioria dos seus artigos era, no fim de contas, meras falsificações ou mistificações puras. Algumas reportagens de Glass (Hayden Christensen, o novo Anikin Skywalker) eram sublimes, como a do hacker pré-adolescente contratado por uma empresa de informática, mas alguém - uma publicação rival - compreendeu que no caso, 2 + 2 não era igual a 4 e iniciou uma prolongada investigação que descobriu toda a série de embustes com os quais o repórter deslumbrava a sua redacção.
Por entre um percurso sinuoso e a descoberta cada vez mais evidente das mentiras de Glass, além das habituais investigações jornalísticas próprias de uma publicação de sucesso (com uma redacção, aliás, toda ela extremamente jovem, aparecendo Chloë Sevigny à cabeça), constroi-se um enredo sólido, começando numa personagem que podia ser qualquer um de nós,e que cativa pela sua boa disposição, bonomia e genialidade. Mesmo quando se começa a perceber que Glass inventou as suas histórias, olha-se para ele como alguém com uma imaginação fértil, que se meteu ali de livre vontade e que se vai embrenhando numa espiral de muitas mais mentiras, optando pela fuga para a frente. É um mistificador com génio, o que temos ali, alguém que para entreter a opinião pública e os leitores se atreveu a mentir, mas em nenhum momento se vê um criminoso, um escroque.
A grande falha é sem dúvida o desaparecimento de Glass depois da sua saída da New Republic, o não se saber o que realmente passou na cabeça do repórter, o que pensava quando se atirou aos mirabolantes "furos" jornalísticos de que era autor, a verdadeira reacção quanto à descoberta das suas "petas". Fica-se sem saber se a personagem principal é mesmo Stephen Glass ou o seu director (Peter Sarsgaard), que irá ao cerne da questão até descobrir toda a verdade; conseguimos entrar no espírito deste último, mas não da personagem à volta da qual o filme gira. Como se o embuste se prolongasse, sem explicação plausível.
De qualquer maneira, aconselhável a todos, sobretudo se trabalharem numa redacção de um jornal. Resta dizer que Stephen Glass não desperdiçou o seu talento e escreveu um livro autobiográfico, em que apenas alterou os nomes das personagens, relatando todos os factos, e, graças a uma espantosa reviravolta, conseguindo de certa forma voltar à tona.

um dos filmes mais badalados dos últimos tempos, Finding Neverland, chegou a ser considerado "o filme do ano". Passe o óbvio exagero, até porque a obra até tem o seu quê de despretensioso, vê-se sem problemas de maior, com Jonhy Depp e Kate Winslet em papeis competentes (mas nada que desse para ganhar o óscar), para não falar do rapazinho amargurado filho desta última, e algumas cenas onde não se distingue bem o real do imaginário (a recriação de Peter Pan em casa de Winslet), alguma dose de magia, encanto, ternura, etc. Mas fica a curiosidade: o realizador, Marc Forster, aqui num registo de um lirismo suave e infantil, tornou-se conhecido pelo seu filme anterior, Monsters Ball (que deu o óscar a Halle Berry), cru, violento, misturando sexo, morte e remorso, completamente o oposto do seu trabalho mais recente. Haverá apenas um ponto em comum, a redenção e o amor que rompe por entre a desconfiança e o ódio, mais evidentes em Monster´s Ball. Mas fica a curiosidade: em que é que assentará a próxima obra do realizador, que parece estar no caminho do sucesso? Podemos uma continuidade de um destes dois filmes, ou nova surpresa? Estaremos perante um novo Kubrick - não na mesma dimensão, claro está- cujas obras constantemente variavam em gênero? Fica a questão, a resolver um dia destes numa qualquer sla de cinema.

quarta-feira, março 02, 2005

Óscares versão 77


Sim. Vi-os do princípio ao fim. Só me escapou o pequeno qui pro quo entre Sean Penn e Chris Rock. O mestre de cerimónias, entre guinchos e provocaçõezinhas, lá conseguiu guiar a sessão. Mas Billy Crystal faz sempre falta. E não é de esperar que ele regresse tão cedo. Não só por estar ocupado com 700 Sundays, na Broadway. Apenas porque já está cansado, e segundo o próprio, "I ´ve done that all my life". Isto ouvi eu da boca do próprio, num episódio a desenvolver nos próximos dias, quando falar da prometida viagem de há umas semanas atrás.
 
Gostei de ver o regresso dos velhos Jeremy Irons (também nas telas, com "O Mercador de Veneza" e "Being Julia") e Robin Williams. Adam Sandler irritou-me profundamente. As músicas não eram grande espingarda, com uma exaustiva Beyonce e um incrível Banderas + Santana, dignos de interpretar a música do "Menino-Guerreiro". Os Country Crows, que nem aprecio muito, safaram-se, talvez por serem os intérpretes originais.
 
Prémios: os secundários Morgan Freeman e Cate "A Musa" Blanchett deram-me as maiores alegrias. Jamie Fox julgo que também não desmerecerá - os outros, à excepção talvez de Eastwood, terão as suas oportunidades. Já Swank, apesar de merecido, repete-se, ainda que com uma carreira curta e intermitente; precisará sempre de papeis másculos? Gostava mais que Annette Benning tivesse sido a contemplada; a decepção era visível nos olhos da mulher de Warren Beaty. Para próxima têm a obrigação de ser justos com ela. Como não o foram com Scorsese muitas vezes, embora desta vez Clint merecesse mais o prémio. Está visto que os óscares não querem nada com Marty, embora o futuro o possa desmentir. Já os óscares de Melhor Argumento Adaptado, para Sideways (tenho bastante curiosidade em vê-lo, confesso), e o de Argumento Original, para Charlie Kauffman (não haja dúvidas que é original) ficaram, parece-me, bem entregues.
 
Mais bonitas: Natalie Portman; Annette Benning; Emmy Rossum; Penélope Cruz (apesar do penteado); Kate Winslet. Já Gwyneth Paltrow, Hale Berry (aqueles compridíssimos cabelos não caiem bem nem a uma nem a outra) e Hillary Swank podiam estar melhor. Não dei pela presença de Julianne Moore, Catherine Zeta-Jones, Liv Tyler ou Angelina Jolie. Nem da grande Maryl Streep. Mas pronto, veio Giselle Bundchen a acompanhar Di Caprio. Como compensação não pode haver melhor. Mas continuo na minha (e este senhor é da mesma opinião) : derramando o seu natural encanto, qual digna sucessora da verdadeira Hepburn (com a já referida Streep pelo meio), Cate, a Musa, mantém uma aura especial que a põe acima de qualquer outra. O amarelo-limão que envergava acentuava ainda mais o seu brilho. Lá onde estiver, no panteão reservado aos imortais, quem sabe se junto às verdadeiras estrelas, Khatarine sabe que a sua memória e o seu mito ficaram em boas mãos. Como aqui ficou expresso uns minutos antes do início da cerimónia, não há imagem da sessão deste ano que me pudesse deixar mais satisfeito.



PS: sim, houve aqui umas alterações de última hora, em especial no que toca às imagens, mas creio que a "economia de posts" valeu a pena.

terça-feira, março 01, 2005

Chamada de atenção

O Fora do Mundo publicou enfim os resultados da votação para as vinte melhores bandas portuguesas de sempre. Também dei a minha modesta contribuição, e se não me engano a referência isolada aos Pinhead Society é minha(assim como a contribuição para os Radar Kadafi, os Táxi, os Loto ou os Lulu Blind). Mas é bom ver que a minha primeira escolha coincidiu também com a da maioria das votantes. Mais uma vez a democracia funcionou. A bem da pátria, os senhores que comemoram 25 anos de carreira viram o seu rosto e voz chegar à bonita idade de meio século, e, ó milagre das coincidências!, no mesmo dia, foram considerados a melhor banda portuguesa de sempre. A isto é que se chama consagração.

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Daqui a pouco

Daqui a meia hora começa a cerimónia dos óscares. Um evento cujos resultados só conhecia nas notícias da rádio despertador, mas que ultimamente me tenho esforçado por acompanhar passo a passo (o que implica sono redobrado no dia seguinte). No ano passado lá consegui ficar até ao fim, para ver as nada surpreendentes atribuições. Este ano a coisa já dá para apostar. Scorcese ou Clint? Swank ou Benning? Ray ou Howard? Shreck ou Incredibles (é assim que se escreve, não é?)? Owen ou Freeman? É mesmo nesta classe de secundários que está uma das minhas maiores expectativas. É certo que Natalie Portman tem uma actuação memorável e arriscada em Closer. É igualmente verdade que não ainda vi O Aviador. Mas de qualquer forma, gostava muito de ver a senhora que encarna esta outra senhora da imagem de baixo com uma estatueta na mão.



Se não fôr possível, fica para outra noite. Mas aí terá de ser a principal. Como as quatro que a senhora de cima ganhou.

domingo, fevereiro 27, 2005

Delgado por ele próprio (mas com alguma razão)

Também Luís Delgado veio esta semana dizer, em defesa do "Pedro", o contrário do que andou três anos a apregoar: que Durão Barroso tinha sido mau primeiro-ministro, que não tinha cumprido as suas promessas, nomeadamente a do choque fiscal, e que por fim tinha abandonado o país depois da promessa de não o fazer. É certo que dos comentários de Delgado pode-se esperar tudo, mas normalmente o seu facciosismo tem certa coerência. Desta vez resolveu renegar tudo aquilo que tinha sido o seu cavalo de batalha nas meses que antecederam a chegada de Santana Lopes ao poder.

Mas incoerente ou não, reconheça-se que tem a sua razão. Durão poucas promessas cumpriu, recorreu ao discurso da tanga ao mesmo tempo que disfarçava a falta de cumprimento da sua promessa de um governo de estrelas, não aplicou nenhuma das medidas a que se propunha, não conseguiu controlar o défice, mas tão somente disfarçá-lo, e por fim teve a edificante conduta que se sabe: depois de uma estrondosa derrota nas europeias (uma "banhada", segundo Marcelo Rebelo de Sousa), e de dizer que tinha "percebido a mensagem do povo português", Durão tansmutou-se em Barroso e abalou para a Comissão Europeia. Para o seu lugar impôs, sem admitir novas eleições nem pedir a opinião a ninguém, alguém que sabia não ter as menores qualidades para o cargo (nem tinha sido eleito deputado nessa legislatura), quando a sucessão só deveria ser feita na pessoa do seu número dois, ou seja, Ferreira Leite. Fala-se em irresponsabilidade e fuga para a frente. Fala-se em vingança pessoal, para queimar um adversário de longa data. Se se trata deste último caso, então é ainda mais grave; Barroso terá andando a brincar com o futuro do país por meras razões pessoais (e de sentimentos que são tudo menos nobres). De qualquer forma, o Presidente da Comissão, que sofreu grandes dificuldades para formar a sua equipa e a quem uma revista alemã recentemente chamou "Sr. Banalidades" não terá vida fácil quando regressar ao país. A memória pode ser curta, mas há actos que pela sua leviandade dificilmente se esquecem.
Santana por ele próprio

É verdade: Santana Lopes, que passou dois meses a queixar-se amargamente da dissolução da AR e da alegada conspiração de Jorge Sampaio veio agora dar-lhe razão, que sim senhor, o povo português demosntrou como a decisão presidencial tinha sido acertada. Se alguém duvidava da volatilidade e alternância das opiniões do Primeiro-Ministro cessante, ficou agora definitivamente esclarecido.
Mas é claro!

No Eixo do Mal desta noite falou-se da sucessão de Paulo Portas à frente do CDS/PP. Entre os vários nomes do costume, ouviu-se, sussurrado entre sorrisos, a mágica solução: Nuno Fernandes Thomaz. Ex-Secretário de Estado do Mar (cujos conhecimentos se deviam ao facto de "gostar de ir à praia e andar de barco"), infeliz candidato a deputado por Santarém (uma ligação devida ao facto de lá ir "para visitar uns amigos"), para o qual queria um Museu da Bíblia e "um parque temático como a Eurodisney, é o candidato ideal para levantar a direita portuguesa do chão. Como é possível que ninguém se tenha lembrado disto antes?
Piadinha pós-eleitoral

Nem com a bênção de Christo, nem fazendo campanha nos EUA com pendões laranja, o PSD conseguiu ganhar as eleições.



(Central Park, New York, Fevereiro 2005)

The Gates: obra de Christo, montada no Central Park, numa extensão de várias dezenas de milhas de estruturas cor-de-laranja. Só até amanhã.

sábado, fevereiro 26, 2005

Agora sim

Dá-me ideia que os problemas técnicos que afectavam este computador (e consequentemente o blog) estão sanados. A melhor notícia do dia (além claro, da confirmação de que Jorge Coelho não fará parte do governo).

A pior é, sem margem para dúvidas, o agravamento do estado de saúde do Papa. Mesmo com as melhoras anunciadas, tenho receio que não sejam as suficientes para que o Sumo Pontífice consiga exercer regularmente as suas funções.

Parabéns ao Sporting, por finalmente mostrar que também consegue bons resultados a nível europeu. O SLB, pelo contrário, saiu de forma inglória, por culpa de um CSKA interessante mas longe de ser um colosso europeu. Segunda joga-se no sempre escaldante terreno do Porto; este Benfica não me dá grande confiança, mas o certo é que o visitado já nem se lembra quando é que ganhou pela última vez em casa, além de que quase que pede licença para marcar um golo, invariavelmente por um jogador que não preenche as características de ponta-de-lança. A ver vamos. De qualquer forma, nesta altura o futebol nem é o que mais me distrai.

Santana demitiu-se, como já tinha dito. Os candidatos a liderança do PSD prometem fazê-lo voltar "ao centro-esquerda social-democrata". Assim sendo, em que é que o PSD se distinguirá do PS?

No CDS-PP continua o tabu. Telmo Correia, Pires de Lima, Nobre Guedes e Lobo Xavier estão indisponíveis para a liderança. A não ser que Nogueira Pinto avance, só mesmo Portas poderá suceder a si mesmo. embora haja sempre a vaga possibilidade de aparecer outra nova geração - como a de Monteiro/Portas - a querer marcar posição (não, não estou a pensar de forma alguma em João Almeida, nem em ninguém em especial) .

Millon Dollar Baby não será o melhor filme da década, mas os velhos Clint e Freeman estão melhores que nunca, já para não falar desse prodígio que surge de cinco em cinco anos chamado Hillary Swank. Em fim-de-semana de Óscares, é uma séria ameaça a Scorcese e ao seu Aviador, que conto ver antes de Domingo.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Noite eleitoral

Ainda com dificuldades técnicas no computador, farei alguns comentários breves à noite eleitoral. Não que sejam assim tão necessários como isso, nem tenham a perspicácia, acerto e pertinência da (soberba) cobertura minuto a minuto feita pelo Blasfémias. Apenas porque me apetece, e nada mais.

O vencedor é claro: Sócrates. Sem fazer muito por isso, levou o PS à maioria absoluta, sozinho, sem necessidade de depender de ora em diante de eventuais acordos com uma esquerda mais assanhada. Ultrapassou a campanha mais maldizente de que há memória, mostrou um partido unido e tem agora a oportunidade de demonstrar o que vale. Não se lhe pedem milagres, mas tão só medidas corajosas e sensatas que tornem o país um pouco mais civilizado.

O PSD, ou melhor, Santana Lopes, é o grande derrotado. Como se previa. As pessoas não são tão distraídas como o quiseram fazer crer e mostraram um enorme manguito à irresponsabilidade e leviandade do PM que tínhamos. A hora é de regenerar. E de rolarem cabeças. Pacheco Pereira e Miguel Veiga ajudam a sustentar o cutelo. Marques Mendes pretende ser o carrasco-mor. Outros surgirão, com as mesmas intenções. Mas o enfant, que de terrible já nada tem, não pretende caír sem luta. Menezes e Jardim ajudá-lo-ão? Morais Sarmento e Arnault serão mesmo fieis, ou não tardarão a assobiar para o ar?

Aqui há uns meses imaginava-se a total derrocada do vetusto PCP. Supreendentemente, Jerónimo de Sousa aguentou-se e aproveitou a boleia da viragem à esquerda. A tal imagem de autenticidade acabou por dar os seus efeitos, sobretudo a Norte, onde o PC teve mais ganhos em deputados. Resta saber por quanto tempo travará a inflexão descendente. Para já, pode dormir descansado.

Sem sofrer uma derrota catastrófica nos números, o PP não atingiu nenhum dos seus objectivos. A ideia de que nada tinham a ver com o desnorte do governo não pegou. Um Paulo Portas de desespero contido resolveu passar a outro ciclo, mas sinceramente não se imagina quem lhe possa suceder. O PP, como a sigla indica, é um one man party. Fora do poder, voltará aos tempos das feiras e da defesa da lavoura? Aproveitar-se-à do apoio do Independente, sempre disponível, voltando a ser um partido de combate? O futuro dos conservadores é talvez um dos assuntos mais interessantes a acompanhar nos próximos tempos.

BE: a maior subida do noite, em votos e mandatos. O movimento composto por neo-trotskistas (mas não só) consolidou-se na AR, e quase que conseguia um nono mandato por Braga. Mas a maioria absoluta do PS deve impedir muitas veleidades. Têm contudo razões para festejar.

Pequenos partidos: mais uma vez, nada.O Dr. Monteiro não faz mesmo a diferença. Garcia Pereira também não. Os únicos a rir foram o PPM e o MPT, depois de terem sido engolidos pelo PSD.
Gozo da noite: Alberto João Jardim, sentindo o peso da derrota (à última da hora, perdeu um deputado para o PS), vociferando contra "os poderes corporativos de Lisboa". Não lhe ocorreu que tivessem sido antes os poderes populares do país a correr com o seu partido.

Mau perder do dia: ver os posts de Paulo Pinto de Mascarenhas, Inês Teotónio Pereira e Jacinto Bettencourt no Acidental. A saída do poder provocou choro, ranger de dentes e sentimentos ressabiados. Discursos do tipo "somos os únicos com honra", ou "num país civilizado o CDS/PP tinha 100% dos votos" provam bem a falta de fair-play e de espírito democrático que por ali se instalou. E já que falam em não saber ganhar, relembro as palavras que Paulo Portas dedicou ao PS nas legislativas de 2002: "Perderam! É bem feito! Vão-se embora!" Apenas encontro paralelo na arrogância de certos elementos do BE, ao referir-se aos derrotados de agora. Só que atitudes destas acabam por ter um custo. Hoje aconteceu ao PP. Amanhã sucederá o mesmo ao BE. Sem a vantagem de ter passado pelo governo antes.

Adenda: tive de colocar umas palavras e corrigir alguns erros. Soube agora que Sanatana decidiu abandonar a liderança do partido. Tomou enfim uma decisão sensata.

sábado, fevereiro 19, 2005

Chatices várias e desabafos

Com alguns problemas no meu pc, não tenho tenho podido actualizar o blog como queria, e muito menos escrever os posts que pretendia sobre a "windy City". No fim da uma semana que simultaneamente marca o fim de uma aborrecida e suja campanha eleitoral, e em que desapareceu a última das testemunhas vivas de Fátima (desaparecimento aproveitado de forma oportunista pela direita, com a patética interrupção de campanha, e pela esquerda radical, com um anti-catolicismo mal disfarçado, sempre a lembrar o Estado laico para se atirar ao luto nacional, como se uma religiosa não fosse simultaneamente cidadã portuguesa e não representasse tanto para tantos portugueses), e estando a passar por uma medonha constipação, vou tentar ordenar textos e imagens para que para a semana já possam constar no ecrã. Até lá, uma última nota, já que hoje acaba mesmo a campanha: dê por onde der, não votarei, seja em que cenário for, em Pedro Santana Lopes; alguém que durante os anos em que ocupou cargos públicos se limitou a promover a sua imagem com óbvios custos para os dinheiros públicos, que demonstrou uma incrível incompetência a todos os níveis, que se deu mal com a imprensa livre, que não mexeu uma palha para chegar ao poder com mérito, que levou o PSD ao seu momento mais baixo de sempre, e que protagonizou uma campanha eleitoral de boatos, acusações infundadas e ameaças à comunicação social e ás sondagens, esse alguém cujos maiores suportes são Jardim e Menezes, merece uma ampla derrota no Domingo. Porque nem o país nem o seu partido precisam dele à frente. De insultos à inteligência estamos todos fartos. Já se consentiu demasiado ao homem que um dia quis vender Serralves aos construtores civis (e impedido a tempo por Cavaco Silva). A mediocridade tem limites.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Regresso (e depressão)

O regresso à pátria não podia começar de forma mais penosa. Já no aeroporto, a comunidade lusa pronta a embarcar era facilmente reconhecível pelos seus "tipical" bonés, bigodaças, por praguejar alto e por um incrível ar de deslocados. Em pleno voo, num compacto de notícias da RTP, apareceram, em lugar de Braga-Benfica dessa noite, José Veiga e Pinto da Costa a trocar os piropos do costume, num registo torpe das duas criaturas. Até à chegada, no entanto, não tive mais percalços do gênero, já que tanto o filme que passavam (Sky Captain, um entertenimento delicioso que me tinha escapado nas salas de cinema) como o livro que lia e até as primeiras páginas do jornal português oferecido à entrada me recordavam a cidade que deixara para trás. Mas é claro que à chegada outras surpresas desagradáveis me estavam reservadas, como a saída do boarding para o voo do Porto (uma coisa mínima), o autocarro que levava ao avião, que demorou um quarto de hora a arrancar, e a patética amostragem dos passaportes ao SEF, à chegada a Pedras Rubras, depois de se ter vindo de ...Lisboa! Sempre gostava de saber como é que é possível exigir-se o documento em voos internos a cidadãos portugueses.
Enfim, ás 9 da manhã, depois de uma noite na ar e em salas de embarque, estava em casa. Mas numa posterior abordagem aos jornais guardados nestes dias, reparei que a campanha eleitoral tem sido a mais rasteira de que há memória, com boatos, calúnias, insultos, incoerências (mas isso já é costume) ou a mais incrível das loucuras, como a de Nobre Guedes apelar aos populares de Coimbra para impedirem Sócrates de entrar na cidade. Felizmente, estive doze dias afastado de todas estas enormidades. Difícil vai ser aguentá-las até Sábado.

Já agora: alguém me explica porque raio é que, havendo nos aeroportos portugueses mangas de embarque para os aviões, se continuam a usar os mesmos velhos e desconfortáveis autocarros de ligação. As mangas servem para quê? Fazer vista ao turista incauto, para mostrar que somos um país civilizado? Se era assim, escusavam de as comprar. Sempre se evitava um pouco mais de défice.

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Enfim

Nem esta assim tanto frio, apesar dos resquicios de neve que ainda subsistem. E o Carnaval, nem ve-lo!

PS: como ja devem ter reparado, nao tenho um teclado nacional. Ha que colocar os assentos nos respectivos lugares, SFF.

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Por motivos de ausência (para paragens bem mais frias que estas), nos próximos dias vai-me ser difícil actualizar o blog. Provavelmente só mesmo daqui a umas duas semanas. Mas podem sempre passar por aqui, para encontrare pequenos posts escritos à pressa entre o gelo e a neve, e deixar os vossos pertinentes comentários. Nem que sejam anónimos. Contribuam, vá!