sábado, outubro 31, 2020

Travar os turcos


A avaliar por algumas leituras rápidas, o culpado destes casos de terrorismo que ocorreram em França nos últimos dias é de Emmanuel Macron e das suas declarações. Só que Macron não incitou ninguém à violência; limitou se a dizer o que devia ser dito: que aquele país tem regras, que não podem ceder à violência de fanáticos e que quem não gostar de viver naquela sociedade não pode impôr regras e tem de se sujeitar às vigentes, dentro do sistema democrático e da liberdade de expressão que este concede.

 Se há alguém que tem de ser condenado é em primeiro lugar Recep Erdogan, um dos maiores incendiários do nosso tempo. Só este ano já enviou tropas para a Líbia para proteger a sua facção, reconverteu a Santa Sofia, outrora maior igreja da cristandade e nas últimas décadas um museu, em mesquita, apoiou o Azerbaijão na guerra contra a Arménia na questão do Nagorno-Karabakh nvectivando os arménios de forma inaceitável (um chefe de estado turco a dizer coisas semelhantes aos arménios equivale à chanceler alemã a insultar judeus) e agora diz que Macron tem "problemas mentais" e apela ao boicote à França; ou seja, a França é atacada no seu território por extremistas gritando "Alá Akhbar"e ainda recebe ameaças deste fulano. Relembre-se que nos anos anteriors já tinha um extenso currículo com a repressão aos curdos, a participação na guerra da Síria (onde atacou mais os curdos que o Daesh, por vezes até favorecendo este último nos ataques que realizava às YPG), a reacção à tentativa de golpe de estado de 2016 com a prisão de milhares de pessoas, tentou fazer comícios às populações emigrantes turcófonas em países europeus a quem, perante a evidente recusa, acusou de serem "nazis", etc, etc. Por importantes que sejam as relações comerciais com a Turquia, já é tempo de pôr essa sinistra criatura no seu lugar e de chamar os bois pelos nomes. Se assim não for, o sultão de opereta vai continuar a insultar e a incendiar impunemente, aproveitando-se de qualquer fraqueza para estender a sua influência neo-otomana. Agora talvez se perceba porque é que a Grécia tem uma fatia tão grande do PIB reservada à defesa.

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terça-feira, outubro 13, 2020

As Bodas de Prata da Britpop

 

Ah, os anos noventa. Depois da nostalgia dos oitenta, eis que a última década do século também desperta saudades, até porque invoca um tempo de paz, prosperidade e optimismo (coisa com que nem todos concordarão, sobretudo na Sérvia, Rússia ou Ruanda). E olhando para os tempos sombrios que atravessamos, essa sensação nostálgica ainda se acentua mais.

Como todas as décadas do último meio século, a cultura pop teve uma influência tremenda. O surgimento dos cinemas em multiplex, a TV por cabo, a entrada em cena, ainda que lenta, da internet (e dos telemóveis), e claro, a música, com os concertos de estádio e os festivais a replicar-se em cada Verão. A música pop, em especial, assistiu a uma melhoria visível em relação aos anos oitenta. Se ainda havia vestígios fortes do hard-rock orelhudo (de que os Gun´s Roses, com hercúlea popularidade, que aliás ainda se mantém, foram demonstrativos), surgiam outras correntes, mais despojadas e substantivas, como o Grunge, da região de Seattle, tendo os Nirvana, Pearl Jam e Soungarden como embaixadores itinerantes, grandemente influenciados pelo indie-rock dos Pixies e dos Sonic Youth.

No país que tinha inventado a pop-rock moderna, o Reino Unido, dominava o desânimo nos primeiros anos, passada que estava a época dos Queen, Pink Floyd, e também de Thatcher e dos Smiths, aliás (algo malevolamente) influenciados pela Dama de Ferro. Mas aí a chegar aos idos da década, e com um primeiro travão do Grunge, os britânicos começaram a ver uma luz. E ela tornou-se especialmente ofuscante no Verão-Outono de 1995, há precisos 25 anos, quando irrompeu a que ficou conhecida como a Batalha do Britpop, essa nova corrente que resgatava os Beatles e outros artista dos Swinging Sixties.

A imprensa musical britânica, bastante pujante à época mas desejosa de uma boa novela épica, aproveitou os novos lançamentos de dois grupos emergentes para criar uma guerra pop. Os Blur consolidavam a sua obra depois do excelente Parklife e os novatos Oasis lançavam-se ao "difícil segundo disco" após o prometedor Definitely Maybe, ambos de 1994. Antes do lançamento dos discos propriamente ditos vieram os singles, ainda em Agosto de 1995, com propaganda à altura, qual combate no ringue. Assim se cunhou a "Batalha da Britpop" e começou a rivalidade. Para mais, as próprias características sociológicas dos dois grupos prestavam-se a isso: de um lado os londrinos Blur, de Damon Albarn, de classe média e pólos Ralph Lauren; do outro, a classe operária pós-industrial de Manchester dos Oasis dos irascíveis irmãos Gallagher . O single dos Blur, Country House, venceu o primeiro assalto a Roll With It. Mas com os álbuns seria diferente. 


The Great Escape, dos londrinos, saiu logo em Setembro e teve enorme sucesso da crítica e do público, no Reino Unido (e vendas medianas na Europa). Em Outubro saiu (What´s the Story) Morning Glory, dos mancunianos, bem considerado pela crítica e um estrondoso sucesso comercial tanto no Reino Unido (onde ainda hoje é dos álbuns mais vendidos de sempre) como na Europa e nos Estados Unidos. A ajudar à festa, trocas de provocações e de críticas azedas, em especial vindas dos Gallagher, que nem entre si se entendiam. De qualquer das formas, a rivalidade teve tal impacto que os britânicos discutiam qual das duas era a maior banda pop-rock do Mundo, e consta que os nomes dos manos Gallagher, Liam e Noel, foram dos mais atribuídos às crianças do país em 1996, ano em que a Inglaterra recebeu também o europeu de Futebol, que curiosamente marcou o regresso da Selecção Portuguesa às grandes competições oficiais.


Mas nem só à rivalidade Blur-Oasis se limitava a Britpop. Na altura surgia a Terceira Via, protagonizada pelo emergente, sorridente e europeísta Tony Blair e o seu New Labour, prestes a abocanhar os despojos do imenso desgaste dos Conservadores. A Britpop também tinha a sua Terceira Via, com os Pulp, que por aqueles dias lançavam o fabuloso Different Class, com Jarvis Cocker dançando enquanto entoava Disco 2000 e Common People (diz-se que directamente inspirada pela mulher de Varoufakis). E embora não tivessem discos novos em 1995, os Suede também tinham direito ao seu galardão de pioneiros do gênero musical da moda. Outros aproveitaram a onda, como os Elastica, James, Ocean Colour Scene, Kula Shaker, The Verve, etc. E diga-se que esses meses nem foram propriamente destituídos de qualidade no que toca à pop-rock. Também em Outubro de 1995, igualmente há um quarto de século, os Smashing Pumpkins revelavam o superlativo Mellon Collie and the Infinite Sadness, e os Radiohead, a quem também tentaram erroneamente ligar à Britpop, tinham lançado The Bends.



Cavalgando a onda do estilo em voga e da Cool Britannia, Tony Blair chegou ao poder em 1997. Precisamente a altura em que a Britpop começava a esmorecer, sendo progressivamente substituída por outras correntes. Os grupos continuariam as suas carreiras, nalguns casos separando-se e voltando a
juntar-se (menos os Oasis, à espera da reconciliação dos irmãos), mas o êxito de meados dos anos noventa tinha ficado para trás, embora artisticamente tornassem a apresentar projectos válidos. De qualquer maneira permaneceu a memória desses saudosos meados dos anos noventa, protagonizada por personagens carismáticas, antes da música desmaterializada. Os protagonistas da Britpop estão vivos e activos, ao contrário da maior parte da brigada do Grunge, e comemorar as suas Bodas de Prata impõe-se numa altura mais sombria. Teremos com certeza mais novidades deles. Hurrah pela Britpop!

segunda-feira, setembro 14, 2020

Já não se fazem campeões como (nas pandemias de) antigamente

Estava há dias a ver imagens do jogo do campeonato francês entre o PSG e o Marselha, treinado por André Villas-Boas, que acabou com a vitória deste último em pleno parque dos príncipes, e que acabou com uma animada sessão de pancadaria. Mesmo com o regresso de Neymar, Di Maria e de outros que ficaram uns dias fora por terem acusado positivo para o covid (impressionante como esses jogadores recuperaram depressa), mostraram muito pouco e o craque brasileiro ainda levou um cartão vermelho, pelo que mais valia que não tivesse jogado. Como seria de esperar, os marselheses comemoraram à chegada dos seus jogadores, o que não espanta visto o ódio meridional local a tudo o que é parisiense, tanto que até há quem envergue camisolas com o símbolo do Olympique e, no lugar do nome, um lacónico "anti-PSG".

Já é a segunda derrota do Paris Saint-Germain, apenas três semanas após jogar a final da Liga dos Campeões, depois de ter perdido na semana passada em Lens, com uma equipa desfalcada dos melhores jogadores devido à covid (ontem já não tiveram essa desculpa). Mas reparei numa grandessíssima coincidência. É que tinha lido há tempos uma memória que me apareceu do clube dominador do futebol gaulês nos anos 50, o mítico Stade Reims, que em 1957, em plena pandemia da gripe asiática (já aqui estabeleci paralelos entre essa epidemia e a actual), se apresentou precisamente em Lens com a equipa "dizimada" por causa da gripe, tendo de jogar com vários amadores. Ainda assim conseguiu ganhar num terreno adverso, o mesmo em que o PSG, só com profissionais bem pagos, falhou. Ou seja, aqui podemos suspirar pelos "outros tempos": é que já não há campeões franceses com estofo como antigamente.




sábado, setembro 12, 2020

Brechas súbitas em previsões a longo prazo


Só há umas semanas é que vi finalmente AI - Artificial Inteligence, de Spielberg. O filme data do Verão de 2001 e mostra como uma criança-robot pode adquirir emoções e capacidade de amar e sentir afeição pelos outros. É tocante e ao mesmo tempo perturbador, como é sempre que se toca nesta temática.

Mas o filme seria supostamente uma tentativa de antecipar o futuro. A certa altura, e para obter respostas, a criança artificial (Haley Joel Osment, o miúdo-actor daquele tempo) desloca-se pelo ar na companhia de Gigolo Joe (Jude Law no papel de um robot com função correspondente ao nome) até uma cidade abandonada e isolada por causa da subida dos oceanos, nos confins do mundo habitável, que não é outra senão Nova York. Um dos vestígios que restam por sobre as águas são as torres gêmeas do World Trade Center. As mesmas que, ironia cruel, ruiriam em pó e chamas semanas depois do lançamento do filme, passaram hoje 19 anos.
Convenhamos que para um filme supostamente premonitório esse desaparecimento tão precoce do futuro imaginado retira alguma credibilidade, embora mais por má fortuna do que por incapacidade de previsão. Mas tornou reais outros dos medos já tinham sido sublinhados noutros filmes-catástrofe. Veremos é se essa antevisão da inteligência artificial também não resistirá ou se pelo contrário contém algo de premonitório.

sexta-feira, setembro 11, 2020

Vicente Jorge Silva

Fiquei surpreso com o desaparecimento de Vicente Jorge Silva. Costumava ler os artigos dele e já me tinha dado conta de que ultimamente rareavam. Provavelmente um dos jornalistas portugueses mais importantes do último meio século - esteve nos dois jornais que mais leio, o Expresso e o Público, que fundou - influenciou-me também por outra razão.

Quando tinha aí 16 anos estive nas manifs contra as globais, uma decisão da então ministra da Educação Manuela Ferreira Leite. Foram milhares e milhares de alunos do liceu a desfilar pelo Porto, qual cortejo da queima das fitas liceal. Recordo-me de ir na parte da frente do ajuntamento, de chegar à igreja de Santo Ildefonso e de ver lá em baixo multidões a descer a rua dos Clérigos. Pelo meio apareceram uns cartazes contra a ministra particularmente obscenos, demasiados maus até para uma porta de quarto de banho público. Esses cartazes surgiram na capa do Público do dia seguinte, o que levou o então director, Vicente Jorge Silva, a escrever em editorial a célebre frase "estaremos perante uma geração rasca?". Por ter estado nesses acontecimentos e fazer parte dessa geração é que me senti directamente visado, e durante bastante tempo, pode dizer-se, não ia com a cara do jornalista, até que me passou. As acções foram rascas, é verdade, mas a geração, quero crer, não. A expressão ainda hoje é utilizada.
Vicente Jorge Silva era um apaixonado pelo cinema e concretizou o sonho de realizar uma longa metragem, Porto Santo. O filme não teve grande sucesso (o próprio Público o afirma hoje, a saudosa Grande Reportagem também achou isso na altura), mas à guisa de homenagem fica aqui o único excerto que encontrei da fita, que alguma televisã bem podia passar um dia destes:



sábado, setembro 05, 2020

O novo (e surpreendente) discípulo da China

 Lê-se e não se acredita, nesta altura do campeonato pandémico. O estado de Victoria, na Austrália, vai prolongar o estado de emergência por seis meses. Não é semanas, é meses, e só porque o parlamento chumbou a vontade do executivo que era de MAIS um ano. Isso depois de vermos cenas de cidadãos a serem selvaticamente presos pela polícia por terem tido de sair de casa por algum motivo, ou de, há poucos dias, uma mulher grávida ser detida na sua própria casa por escrever comentários contra o lockdown vigente.

Na Austrália tanto criticaram a China no início e agora têm uma política ainda mais restritiva. A diferença é que na China vigora um regime totalitário, e na Oceania um (suposto) regime democrático, o que torna as coisas ainda mais graves. Já é suficientemente mau que o bloqueio continue por meio ano (e se antes disso não houver mais casos? Prolongá-lo-ão?). A retaliação contra quem se lhe opõe é digna de qualquer regime autoritário. Ao mesmo tempo, sabe-se agora que o país vai enfrentar a sua maior recessão dos últimos sessenta anos, com uma queda brutal do PIB. Ainda assim, a segunda região mais populosa, com algumas dezenas de casos de covid pelo meio, pretende andar mais meio ano em estado de emergência. A China está mesmo a ganhar a parada e não é na economia: é no modelo político.


A mão americana na desestabilização das relações China-Austrália |  AbrilAbril

quarta-feira, setembro 02, 2020

Lugares verdadeiramente históricos

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Os lugares e monumentos, testemunhas do passado e da História, moldaram o povo que somos hoje.


Falo, como já certamente repararam, daquele casarão amarelo torrado à esquerda. Ali começou Jorge Mendes a sua carreira de agente futebolístico, quando, ao explorar a discoteca Alfândega, conheceu o jovem guarda-redes Nuno Espírito Santo, que, entre investidas nos bares da Rua Direita e farto dos humores de Pimenta Machado, queria mudar de ares. Mendes tratou de tudo, levou-o num processo turbulento de Guimarães para o Deportivo da Corunha e mais tarde para o Porto, e ainda hoje Nuno, agora treinador do Wolverhampton, é representado por ele. Não fosse esse encontro e as carreiras de Cristiano Ronaldo, Mourinho, Di Maria, James Rodriguez e tantos outros seriam provavelmente diferentes.

Já agora, na casa em ruínas à esquerda, em baixo, nasceu o "Presidente-Rei" Sidónio Paes, uma das figuras mais marcantes da 1ª república. Deixou como legado à terra que o viu nascer um bolo de amêndoa e ovos que é altamente aconselhável.

Não interessa nada, mas a meio, entre a Rua Direita, a torre do relógio e a muralha em frente ao rio vemos a matriz de Caminha, do séc. XV, um dos mais belos edifícios religiosos em Portugal, com o seu exterior gótico e, dentro, um tecto de madeira em estilo mudéjar, com inúmeros motivos marinhos.

terça-feira, agosto 11, 2020

Líbano, o paraíso perdido e destruído


As coisas mudam mesmo num espaço de semanas. No início do ano, à boleia de um convite a uns amigos para que iam dar uma conferência na universidade jesuíta local, planeava ir ao Líbano em Junho, se possível, apesar da contestação social e das muitas manifestações que lá havia. Entretanto, meteu-se o covid pelo meio, a separar o Mundo e a impedir viagens e a ideia ficou anulada, mas quem sabe, talvez noutra oportunidade...
Há dias, Beirute, a "Paris do Levante", ficou parcialmente em escombros, a fazer lembrar a guerra civil dos anos 80, mas aqui bastaram uns segundos para a destruição, com dezenas de mortos (já vão em mais de 160) e milhares de feridos. Os hospitais ficaram danificados e sem luz. O porto, principal entrada do comércio naquele país descendente dos fenícios, está arrasado, ainda com cadáveres por baixo dos destroços, e as reservas de cereal, destinadas à esmagadora maioria dos libaneses e armazenadas naquele silo mesmo ao lado da explosão, foram ao ar. Já não bastava o covid -  que lá até nem tinha sido muito intenso, até agora -  a contestação social e a tradicional divisão entre grupos político-religiosos e agora isto. E os protestos voltaram, ainda mais acirrados, levando à inevitável queda do governo. Não vai ser fácil constituir um novo executivo, tendo em conta as dificuldades extremas para consertar o país, se é que tem conserto, acrescidas da confusa divisão de poderes, mais religiosa que política, que obriga a que a presidência do país, a chefia do governo e a presidência do parlamento caiba, respectivamente, a um cristão maronita, um muçulmano sunita e um xiita.
Eis como os nosso planos mais lúdicos podem mudar de forma completamente inesperada. Há meses estudava a geografia de Beirute, os pontos mais interessantes de Tiro, Sídon, Biblos ou Tripóli, e os caminhos para os vales dos cedros e para Balbeek mais os seus templos superlativos. Agora só se vêm ruínas, destruição, motins e epidemias. Como se as pragas bíblicas tivessem atingido aquela faixa de terra tão perto da Galileia. Provavelmente os meus planos de conhecer aquele lindíssimo país, que podia ser um paraíso e é momentaneamente um inferno, vão ficar adiados por muito mais tempo. Que até lá se reerga, como depois das guerras internas.

quinta-feira, julho 16, 2020

Comparações úteis com o passado


Já ouvi não sei quantas vezes comparações da pandemia do Covid-19 com a Gripe Espanhola de há cem anos, que matou milhões pelo Mundo e dezenas de milhar em Portugal, por causa da possibilidade de uma "segunda vaga" mortífera. Mas do que percebi poucas comparações se podem estabelecer. A Gripe Espanhola aconteceu sobretudo como consequência da Grande Guerra, com os parcos sistemas de saúde e as economias destruídas, numa época em que as pessoas não tinham os meios de higiene, a nutrição ou os meios hospitalares que têm hoje. Os soldados vinham das trincheiras num estado deplorável  traziam com eles a epidemia. Ainda por cima a doença veio com uma carga bacteriológica num tempo em que não havia antibióticos. Ou seja, uma tempestade perfeita.
O covid será provavelmente mais próximo da dimensão da Gripe Asiática de 1957/58, de que os nossos pais e avós se lembram. Começou na China, depois veio pela Austrália, Irão, entrou na Europa pela Itália, França...tal como agora, com a diferença de que chegou no fim do Verão. O início das aulas teve de ser adiado, tal era a quantidade de alunos doentes, e as fábricas ficaram a meio gás. Segundo os dados oficiais, morreram mil e tal pessoas em Portugal, embora como não houvesse os testes nem o SNS como o conhecemos esse número esteja com toda a certeza subavaliado. Em França contabilizaram-se na altura onze mil e tal mortos, mas nos anos recentes chegou-se à conclusão de que seriam bastante mais, assim como no Reino Unido, com mais de trinta mil na altura. Nos Estados Unidos passaram os cem mil. Isso numa altura em que havia menos população, a média de idades era mais baixa e havia por isso menos "comorbilidades". Mas ainda em 1957 criou-se uma vacina, que diminuiu muito a intensidade da pandemia, e meses depois praticamente desapareceu. Ao todo, terá deixado perto de dois milhões de mortos em todo o mundo.
Quais as diferenças? Provavelmente o facto de não haver tanta informação instantânea (pouca gente tinha televisão, por exemplo), de não circular tão depressa entre os vários continentes e da Ásia ser mais subdesenvolvida e portanto ter sofrido mais. E também dos sintomas durarem menos dias que o actual covid (a minha Mãe, que na altura era miúda, esteve cinco dias de cama). Talvez por isso os países não se tenham fechado tanto e a economia tenha sofrido menos. Mas o Mundo não acabou, a Europa e os EUA continuaram prósperos e os anos sessenta seriam animados. Além disso, demonstrou-se que uma vacina não precisava de anos e anos para ser concebida. Ou seja, esta pandemia do Covid é um assunto sério, mas não apocalíptico, mais ao nível da Gripe Asiática (ou da de Hong Kong, dez anos depois) e menos com a fulminante Gripe Espanhola. A importância da História é que nos ensina com a experiência passada.
Deixo-vos com alguns links em francês e inglês, com mais informação:

Today, we refuse to accept sickness and death” - Linköping University

segunda-feira, julho 13, 2020

Quando a abstenção decide eleições


Três meses e meio depois a França lá conseguiu realizar a segunda volta das eleições municipais, que tinham ficado a meio por causa da pandemia, depois da polémica primeira volta (por não ter sido adiada). Como resultado, os ecologistas tiveram vitórias retumbantes, conquistando Bordéus, Lyon, Besançon, Tours, Poitiers, tomando parte na manutenção de Paris por parte da esquerda e na sua conquista de Marselha. O Partido Socialista resiste à queda na irrelevância mantendo Paris, com apoio dos ecologistas, como se viu, e ainda Montpellier, Rouen, Rennes, Lille e parte da banlieue da capital. Depois de anos terríveis, com a perda da presidência, de quase todos os deputados e até da histórica sede da rue Solférino, e da sangria de militantes, os herdeiros de Mittérrand e da SFIO ganham aqui algum fôlego. A direita tradicional gaulista dos Republicanos ganha muitos municípios mas de escassa importância, com excepções como Toulouse ou Metz, e revela também um declínio crescente, depois de durante décadas ter sido a grande força política françesa. À esquerda do PS mantêm-se alguns bastiões tradicionais do PCF à volta de Paris e no Sudoeste. A extrema-direita ex-FN mostra que as municipais também não são o seu terreno favorito, conservando alguns municípios no Sudeste. E por fim o centro, dominado pela Republique en Marche, do Presidente Emmanuel Macron, revelando fracos resultados e escassa implantação local, confirmando que é um movimento ultra personalizado na figura do(s) seu(s) líderes. Teve como escasso sucesso a eleição de Édouard Philippe por Le Havre e pouco mais.

Dois factores fulcrais nesta eleição, um que não é surreendente, e outro que sendo-o, talvez se relaccione com o outro. O primeiro é a abstenção, esperada dada a prevalência da pandemia, embora num clima menos pesado do que o da primeira volta. O segundo são os resultados extraordinários dos ecologistas. Poderá a abstenção ter jogado a seu favor? É bem possível. Note-se a queda dos Republicanos, por exemplo, e a perda de importantes domínios municipais. É um partido assente em eleitores normalmente mais velhos, fieis ao partido ou às suas sucessivas existências. O mesmo se poderá dizer do Partido Socialista, que até sofreu uma sangria em forma de pequenos movimentos formados pelas alas mais jovens. Quanto à ReM, como se disse, está demasiado centrado em Macron e tem escassa representação local. Assim, e por causa do receio da epidemia, muitos eleitores mais velhos optaram por não votar. Os ecologistas recebem por norma um voto mais jovem, e com a ida às urnas de gerações mais novas, é bem possível que a balança se tenha inclinado para o seu lado. Neste caso, o receio da situação terá levado a que parte do eleitorado se abstivesse, permitindo assim uma mudança política (e em parte geracional).

É uma nota interessante e ao mesmo tempo ligeiramente inquietante: pode uma situação extra-política levar a uma alteração numa eleição? Há o caso de Espanha em 2004, quando o PP, já pronto a ganhar as eleições, acabou por perdê-las na sequência dos atentados de Atocha e da forma como o seu governo geriu a situação. Mas aí ainda dependia dos próprios. Aqui não, uma situação alheia influencia uma parte do eleitorado e dá azo a alterações políticas de alguma monta. Repare-se que nas eleições dos últimos dias na Polónia (presidenciais) e em Espanha (regionais) a votação até subiu e ganhou quem já lá estava. O oposto do que se passou em França. É por isso razoável pensar que um evento extra-politico pode mesmo mudar o curso de uma eleição, seja porque é retumbante e altera o sentido de voto, seja porque leva a que uma parte do eleitorado não vote.

Entretanto, fica a nota, os ecologistas ajudaram a esquerda a conquistar Marselha, antes reduto dos Republicanos. Mas na cidade da Provença a figura que domina as atenções da cidade não é nenhum político, nem sequer a nova maire. Nestes tempos de epidemia, o infecciologista e académico Didier Raoult, dos mais reputados na área, tem ganho uma especial proeminência, pelas suas declarações pouco ortodoxas, por ser um dos teóricos do tratamento à base de hidroxicloroquina e pela sua figura bizarra, que lhe valeu a alcunha de Panoramix. Se se candidatasse à chefia do município de Marselha, ganharia decerto com enormíssima maioria. Até já serve de motivo para tatuagens.

Actualités | Le 18:18 - Le professeur Raoult toujours dans le cœur ...

quarta-feira, julho 01, 2020

Bruno Lage


O futebol nacional já me andava a atrair pouco, e agora, transformado em jogos-treino para cumprir calendário, é que não me interessa minimamente. Vou sabendo dos penosos resultados do Benfica quase a rir-me, porque se há ano em que não custa perder o título é precisamente este. Mas soube ontem que Bruno Lage se tinha demitido, depois de péssimos resultados qeu já vinham de antes da interrupção. Estranho: Lage há um ano era um treinador vitorioso, elogiado por todos, que tinha reconquistado o título quando isso já era impensável e que apresentava uma atitude e uma disposição rara num técnico do nosso sofrível desporto. Tudo passou. Os resultados voltaram a ser maus, Lage parecia à deriva, o que transparecia na equipa, e o discurso passou a ser redondo, repetitivo, sem chama, a lembrar os últimos tempos de Rui Vitória, e no fim até perdeu um pouco a compostura. Ainda se pensou que resistia ao fim da época, mas nem isso. Não percebo bem o que falhou, se Lage, se a direcção, ao não lhe dar o que ele pretendia, ou os dois. As saídas de Jonas e de Félix não justificam os erros clamorosos na defesa. E depois há aquele suspeita de que a equipa não estava com ele, e quando assim acontece, é fatal.


Seja como for, não me esqueço do espírito de conquista que Bruno Lage trouxe à equipa, da sua honestidade e bonomia, da reconquista do campeonato, a que pude assistir, e até agora, quando pôs o lugar à disposição. Só me resta mandar-lhe um abraço e desejar-lhe todas as felicidades.

Bruno Lage: "A minha intenção é ver o jogo no meio dos adeptos ...

quarta-feira, junho 24, 2020

S. João eclipsado


Este dia, ou antes, esta noite é esperada todo o ano. No Natal pensa-se que "só/ainda faltam seis meses para o S. João" (segundo a Bíblia, João Baptista nasceu seis meses antes de Jesus, daí o dia). Quando chega Junho, o Santo António já é uma antecipação; aos poucos vão-se vendo cartazes a anunciar a data, descobrindo majericos à venda, instalam-se palcos, carrosseis e carrinhos de choque na Baixa, Boavista, Foz, Fontainhas e por todo o Porto. E chegada a noite, vêem-se fogareiros a assar sardinhas, famílias ou bairros inteiros a instalar mesas compridas nas ruas e largos, ouvem-se os primeiros martelinhos e começa-se a avistar as luzes dos balões no ar. Assim se inicia a noite mais longa do ano, colada ao solstício, com o epicentro perto do rio, com os bailaricos habituais, da Ribeira até à Foz, passando por Miragaia e Massarelos. No fim, a habitual dificuldade de voltar para casa, sem carro, táxi ou Uber; a solução é mesmo uma caminhada já a ver a alvorada.
Era a noite mais esperada do ano. Agora é igual a todas as outras, nesta época miserável de gente desfigurada nas ruas. Pela primeira vez desde que há registos (e os primeiros vêm de Fernão Lopes, no séc. XIV), não haverá festas de S. João no Porto ou em parte alguma. Ainda hoje vi um entristecido Germano Silva a referir que nem o Cerco do Porto, nem as revoltas ou as outras epidemias todas pararam o S. João. O Covid conseguiu-o. Não sei o que se passa de diferente, mas isto impressiona pela sua dimensão. Pensar que pela primeira vez em séculos não haverá S. João (ou outras festas populares) perturba e entristece. Era daquelas coisas que nos fazia viver. E agora nem sabemos quando voltará, neste mundo em que um surto de 40 contagiados na China é imediatamente notícia. Estamos no meio de uma desgraça inédita ou ficamos mais paranóicos?

DGS divulgou hoje as medidas para os festejos de São João. Porto e ...

PS: soube entretanto que o S. João já tinha tido outras paragens, por razões similares, como a peste bubónica de 1899 (não creio muito, porque só a detectaram em Julho) e outras maleitas.

segunda-feira, maio 18, 2020

José Cutileiro - In Memoriam


Entre outras qualidades havia duas que apreciava particularmente em José Cutileiro: tinha, tal como eu tenho, um tipo de escrita com frases longas e adjectivadas (embora lamentasse não usar muitas vezes o artigo definido) e escrevia os magníficos obituários do Expresso, o espaço In Memoriam, amiúde de figuras excêntricas de que nunca antes tinha ouvido falar, ou de que não saberia à altura que tinham morrido se não os tivesse lido. O último saiu precisamente ontem, com destaque para Iris Love e Little Richard, o criador da célebre Tutti Frutti

Cutileiro era formado em antropologia e destacou-se como diplomata (sem ser de carreira), exercendo cargos de relevo na Comissão de Paz para a Jugoslávia, uma missão quase impossível, onde nfelizmente as suas ideias para a Bósnia não vingaram, e como secretário-geral da UEO. Para além dos cargos oficias, mantinha colunas nos jornais e na rádio, como a supracitada ou o Visão Global, da Antena 1, e claro, as da personagem A.B. Kotter (que influenciaria outros cronistas-fantasma no futuro, alguns ainda em actividade), recolhidas na colectânea Bilhetes de Colares. 

É muito estranho pensar que nos deixou o autor dessa necrologia de elite, embora já me tivesse ocorrido quem os faria quando ele por sua vez partisse. Esperemos que o espaço não fique em branco para além da próxima semana. E também quem fará o epitáfio jornalístico do próprio Cutileiro. Seja quem for, não será a mesma coisa.

Expresso | José Cutileiro, o embaixador que testemunhou a mudança ...

sexta-feira, maio 15, 2020

Os modelos "lá de fora"


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Muito se tem discutido o "modelo sueco" de relaxamento face à pandemia, para mais depressa adquirir imunidade de grupo e manter parte da economia a funcionar. Não pondo em causa a legitimidade das autoridades científicas e políticas locais, tenho sérias dúvidas quanto a esse modelo, não só por sabermos pouco ainda sobre a imunidade a um vírus novo e porque as economias nunca têm grandes resultados se o resto do mundo está a meio gás, mas sobretudo porque até agora os números da letalidade têm sido pouco encorajadores. Com mais ou menos o mesmo número de contagiados oficiais que Portugal, a Suécia tem 3 vezes mais os mesmos óbitos. Até agora, a experiência não parece ser de grande sucesso.

É verdade que os próprios admitem alguns erros. Mas mesmo que o modelo fosse usado noutros países (o que os seus vizinho nórdicos se recusam a fazer), é preciso tomar em devida conta as diferenças culturais nas diferentes sociedades, coisa que parece esquecida em prol da "economia", globalização, etc. E isso não significa necessariamente maior civismo ou "adiantamento" da parte dos suecos. Como as relações familiares e sociais, por exemplo.
Sei do episódio por conversas de família, embora já fosse nascido. Resumidamente, numa altura perto do Natal, uma parente da nossa saudosa prima Eivor (a nossa prima sueca, de geração mais velha) veio a Portugal e ficou maravilhada com as reuniões familiares, os encontros, a preparação para a consoada, etc. Na Suécia, dizia, nada daquilo tinha lugar. Os laços familiares eram completamente diferentes e muito mais distantes. Claro que o Natal existe na Suécia, como em boa parte do Mundo, mas de uma forma mais distante, sem que a grande maioria tenha festas de família, num país já de si frio, o que pode justificar o elevado número de suicídios.
É por isso que importar um determinado modelo, já de si discutível no país de origem, pode não fazer qualquer sentido e trazer males maiores. A natureza humana pouco muda, o Mundo é global, a Europa é unida, mas as diferenças culturais, ainda que esbatidas, permanecem e acabam sempre por vir à superfície. É bom que quando olhamos para o que vem "lá de fora" não pensemos que é tudo melhor e que os nossos hábitos são necessariamente "incivilizados". Para isso já basta essa velha e perniciosa mania dos portugueses de dizerem constantemente mal do próprio país.

sexta-feira, abril 24, 2020

O Irão e a Austrália ficam no mesmo hemisfério

A propósito da questão da sazonalidade do covid, estava ontem a ver um artigo de um "jornal de referência" que duvidava da mesma porque o vírus tinha atingido em força a Austrália e o Irão, porque são "terras quentes".

Ora bem: a Austrália realmente recebeu o vírus no Verão, embora até nem tenha sido assim tão atingida (tendo começado bem antes, tem números claramente melhores que os nossos, tanto em contaminados como em mortes, e a maioria já recuperou). Mas o Irão estaria assim tão "quente"? A antiga Pérsia apanhou com isto em força em Fevereiro, sobretudo na região mais a Norte, onde fica Teerão e a cidade santa de Qom, principal foco da coisa. Não é preciso ir muito longe para se concluir que a neve nas montanhas da região, ali para o Elburz, não é propriamente artificial, e verificar que a temperatura média por ali entre Fevereiro e Março vai de 0 a 15 graus, com um clima frio e seco, o mais apropriado para este vírus. Quentíssimo, como se vê.
Às vezes o jornalismo de rigor devia preocupar-se em ser realmente rigoroso e não só a apregoá-lo.

sexta-feira, abril 17, 2020

Pragmatismo político em tempo de crise


A prova de que as ideologias não morreram é que as encontramos em todas as discussões da actualidade, e a pandemia que atravessamos não é de modo algum excepção. Com menor ou maior discrição, erguem-se vozes a vituperar o neoliberalismo e o seu abandono dos cidadãos e das funções essenciais do estado, a começar pela saúde, ou o socialismo, responsável pela crise, pelo seu encobrimento e pelas suas respostas ineficazes. Isto a juntar às inevitáveis teorias da conspiração, em que se vê de tudo. Já encontrei dedos apontados aos chineses, aos americanos, a Bill Gates, à maçonaria, ao globalismo e não há de faltar muito para que se incluam George Soros, os judeus (com a sub-secção dos Rotschild), os extreterrestres e os Iluminatti.

Mas o que interessa aqui é mesmo a ideologia. É sabido que em graves crises a tendência é para unir esforços e dar-se importância ao pragmatismo. Veja-se o governo nacional no Reino Unido, durante a II Guerra, em que Churchill formou um Gabinete de Crise e um governo de unidade nacional chamando Clement Attlee para número dois, além de outros membros dos partidos Trabalhista e Liberal. Em tempos da maior ameaça, com as ilhas britânicas como único baluarte europeu contra a agressão nazi, houve necessidade de reunir forças na luta contra a ameaça à pátria e a civilização.

Lembrei-me disso depois do discurso de Páscoa de Boris Johnson, quando saiu do hospital. Para além dos elogios pessoais aos enfermeiros Luís "near Porto" e à neozelandeza Jenny, que tanto ecoaram nos respectivos países, o primeiro-ministro não se cansou de exaltar e elogiar o afamado Serviço Nacional de Saúde britânico. Tem a sua graça ver estes elogios da parte de um líder conservador. O National Healthcare Service é, não nos esqueçamos, uma criação do governo trabalhista pós-guerra de Attlee, que sucedeu a Churchill (que voltaria a tomar o lugar do trabalhista depois). Na altura, muitos acusaram a "deriva socialista" da medida, mas o certo é que mais nenhum governo, nem o de Thatcher, que apostava na diminuição do peso do estado, se atreveu a acabar com ela, ainda que tivesse havido cortes, emagrecimentos e concorrentes. O serviço nacional de saúde tornou-se ele próprio num instituição britânica, que como se sabe, são coisas particularmente defendidas naquele país. Como dizia alguém recentemente, o National Healthcare Service é "the closest thing the english people have to a national religion", não esquecendo a igreja anglicana.

Tem o seu significado ver essa criação trabalhista de Attlee ser tão elogiada por um primeiro-ministro conservador, logo Boris que tantas vezes evoca Churchill, sobre quem até escreveu livros. A sua experiência recente no hospital ajudou, claro. Mas em tempos de crise, repito, opta-se pelo pragmatismo em lugar das trincheiras ideológicas. As ideias e a política não desapareceram, mas pode-se extrair o que de melhor há nelas - neste caso, um serviço nacional de saúde forte e preparado e a contribuição generosa da sociedade e dos particulares. Ambos são necessários e preciosos. Não para se curvar perante unanimismos mas para unir esforços no sentido de defender a nação, os cidadãos e o bem comum.

Churchill and socialist Attlee putting country before party is ...



quinta-feira, abril 16, 2020

Dias sombrios para a literatura sul-americana


Terríveis dias para a literatura sul-americana, estes. Hoje perdeu-se Luís Sepúlveda, que até tinha provocado uma onda de pânico há pouco mais de um mês, na Póvoa, quando veio ao festival Correntes d´Escrita, e afinal ninguém mais ficou doente, só ele. Escreveu um punhado de boas obras e lembro-me em especial de um excelente livro de viagens Mundo no fim do Mundo, de que cheguei a escrever uma pequena recensão no jornal da faculdade, há já muitos anos, ou do Diário de um Killer Sentimental, espécie de romance policial noir com laivos de humor.

E ontem deixou-nos Rúben Fonseca, de morte natural, que tinha uma escrita seca, dura, directa. Criou o advogado/detective/boémio Mandrake e o "romance histórico" Agosto, sobre os últimos dias de Getúlio. Se pesquisarem no youtube encontram as respectivas adaptações televisivas. E é irónico como no Dia Mundial da Arte desapareceu o homem que escreveu A Grande Arte.

quinta-feira, abril 09, 2020

Da glória à tragédia no espaço de dias


Decididamente há tristes ironias. Aquilo que se passou num curto espaço em Bérgamo é uma delas.

Como se sabe, a província de Bérgamo e a cidade que lhe dá o nome estiveram no epicentro da pandemia do Covid-19 na Lombardia, que por sua vez era a região com mais casos e mortes de Itália, que era o país mais atingido da Europa, que substituiu a Ásia como epicentro da pandemia no Mundo. Ou seja, a província de Bérgamo durante algumas semanas foi o coração da epidemia que corre o globo, a zona onde os doentes não paravam de chegar aos hospitais, já de si em ruptura, o local para onde todos olhavam com temor e espanto. Causaram especial comoção as imagens de camiões militares a transportar caixões, a meio da noite, quando as morgues estavam já ocupadas. A situação dramática de Bérgamo e da Lombardia está a aliviar aos poucos, embora longe de estar controlada. Mas os difíceis dias de Março vão deixar marcas na cidade e na região, uma das mais ricas de Itália e da Europa.

E no entanto, nas semanas anteriores à chegada da doença à Europa, Bérgamo era notícia por razões bem mais felizes. O clube de futebol da cidade, a Atalanta Bergamasca Calcio, já tinha tido uma prestação soberba na época passada, de tal forma que se classificou para a Liga dos Campeões em terceiro lugar no campeonato, à frente do mais poderoso vizinho Inter de Milão, e teve o melhor ataque da prova. Este ano ainda assombrava mais o Calcio e a Europa, proporcionando um futebol de ataque como raramente se vê no tão defensivo campeonato italiano, obrigando os seus adeptos a levantar-se vezes sem conta, tantos eram os golos marcados. Na série A esmagava - e não apenas vencia - boa parte dos seus adversários. Vejam-se estes números: 7-1 à Udinese, 7-2 ao Lecce (fora), sete a zero ao histórico Torino, em pleno Comunale de Turim, e cinco humilhantes secos ao muito mais prestigiado vizinho, o outrora poderosíssimo A.C. Milan. Para além disso, estava a fazer boa figura na Liga dos Campeões. Depois de um arranque em falso, em que perdeu os três primeiros jogos por números esclarecedores, virou completamente e conseguiu, por uma nesga, classificar-se para os oitavos de final da Liga dos Campeões, atrás do Manchester City. Nunca nenhum clube o conseguira perdendo os três primeiros jogos do grupo. E já nos desafios a eliminar, os de Bérgamo deram 4-1 ao Valência no S. Siro, casa emprestada pela exiguidade do seu estádio, e 4-3 na segunda mão, na cidade espanhola, em jogo à porta fechada, já com o Covid a fazer estragos. Festejou-se entusiasticamente o resultado da primeira mão, com milhares de adeptos a vitoriar a equipa, e os jogadores também comemoraram a passagem aos quartos de final. Que por causa disso poderão nem vir a acontecer.

Atalanta, boom di abbonamenti Oltre 5mila in soli tre giorni in ...

É que esse momento mágico da Atalanta estará directamente ligado às semanas de chumbo que se abateram sobre a Lombardia. O vírus já tinha entrado dissimuladamente no Norte de Itália, e o jogo em que a Atalanta recebeu o Valência, com mais de quarenta mil adeptos no S. Siro, a festejar ruidosamente cá fora depois, muito contribuiu para a sua disseminação - se é que não terá sido o detonador e causa principal do que se seguiu. Tanto que dias depois vários jogadores do Valência ficariam contaminados no jogo à porta fechada, embora curiosamente só um dos da Atalanta tenha sido atingido.

Assim, um feito que trouxe a pequena cidade lombarda para as bocas do mundo pelas melhores razões acabou por ser completamente ultrapassado por uma situação dramática no espaço de dias, situação para a qual concorreu. Do céu ao inferno num curtíssimo espaço de tempo. Uma queda imprevisível mas especialmente amarga. Precisamente por isso, e adivinhando a dificuldade de se concluírem os campeonatos interrompidos, já há petições em Itália para que a Atalanta seja declarada campeã da série A, mesmo que não estivesse em primeiro no campeonato (mas tinha o melhor ataque, com setenta golos marcados), e até há quem lhe queira dar o troféu mais desejado, a Liga dos Campeões. Se dar o título de campeão europeu parece exagerado e até de gosto duvidoso, a atribuição do campeonato italiano à equipa que mais espectáculo deu parece justíssima, à imagem do que aconteceu ao malogrado Gran Torino em 1949, cujo futuro radioso acabou entre destroços na colina da Superga. Seria um magro consolo para tudo o que Bérgamo sofreu, mas para além de compensação, seria um reconhecimento justo aos que respeitaram o público não se rendendo ao futebol cínico e resultadista e um pequeno incentivo, ainda que amargo, para o futuro.

Atalanta: 6 Players You Should Know After Their Historic Champions ...

terça-feira, março 31, 2020

Cercos do Porto, uma tradição


Batalha da Serra do Pilar durante o cerco do Porto (1832) | Porto ...

Quando se sabe hoje que afinal o Porto tem metade dos contaminados que nos atribuiam ontem, a ideia peregrina de fazer um "cerco sanitário" raia ainda mais o absurdo. Ainda por cima na cidade que mais depressa tomou medidas preventivas, como o fecho da maior parte dos serviços, ainda antes da pandemia ser declarada. Devem pensar que é algum tipo de tradição. Já estamos habituados ao método. De século a século, o Porto apanha sempre com um cerco (os dois últimos foram o célebre Cerco em 1833, na guerra civil entre liberais e absolutistas - e à falta de um Fernão Lopes tivemos Garrett e Herculano a testemunhá-lo - e o também cordão sanitário à peste bubónica em 1899). Mas lá porque já temos experiência não quer dizer que tenhamos de levar mais vezes com esta brincadeira, senhora DGS.

sábado, março 28, 2020

Num silêncio ensurdecedor


Para a Cidade e para o Mundo. Mais do que nunca, mais do que as celebrações formais da Páscoa e do Natal, ou da eleição de um novo Sumo Pontífice. Com o Santo Padre carregando todo o peso da humanidade, como Jesus a carregou em tempos.

A imagem pode conter: céu, ar livre e água