Ó vós que celebrais o dia de S. Valentim com florzinhas, versos lamechas e "escapadelas românticas", lembrai-vos que hoje é igualmente dia de S. Cirilo e S. Metódio, que sendo ortodoxos e tendo criado o alfabeto cirílico, são também santos para a Igreja Católica e co-padroeiros da Europa. E em dias como este, em que há sérias tensões, fendas e tambores de guerra na Europa, particularmente na ortodoxa, mais necessário se torna invocá-los.
segunda-feira, fevereiro 14, 2022
quarta-feira, fevereiro 02, 2022
Depois das eleições, com duas conclusões
Não vale a pena vir para aqui fazer as análises das eleições porque podem encontrá-las para todos os gostos nos jornais, na TV, no Facebook, nas rádios e podcasts, nos twitters desta vida, etc. Seria uma perda de tempo. Basta dizer que o PS teve uma maioria acima das melhores previsões de António Costa, ganhando totalmente a sua aposta, que o PSD teve um resultado inversamente proporcional às expectativas do PS, que o Chega como tem sido hábito cresceu muito mas sempre aquém das previsões de Ventura e que os liberais cresceram mais do que o objectivo, O Bloco cai com estrondo e vê o seu volátil eleitorado fugir, ao passo que a CDU continua a o declínio inexorável, o CDS fica sem rede e vê um futuro sombrio, o PAN afinal é um epifenómeno de modas e Rui Tavares conseguiu capitalizar a sua imagem para o Livre. Pronto, já está. Eis as minhas reflexões pós eleitorais enquanto deambulava pela zona onde mora o Zé Albino, essa grande figura destas eleições. Não posso é ficar contente com os resultados na sua globalidade.
sexta-feira, janeiro 28, 2022
António Costa não é nenhum indiano
Para além de todas as críticas a António Costa (merecidas, em grande parte), há uma coisa que francamente não suporto: é quando lhe chamam "monhé", "chamuças", "indiano" ou até "preto". Além de serem "argumentos" de tasco e declaradamente racistas - aqui não há qualquer dúvida - são próprios de gente que ou nunca saiu da terrinha ou não conhece o seu país e a cultura que deu ao Mundo.
António Costa não é indiano. É português, filho de um goês, tal como outros membros do seu governo, de governos anteriores, de outros partidos, como o Prof. Narana Coissoró, e de tantas áreas da sociedade. Só por aí se pode ver a importância de Goa e dos goeses nas elites portuguesas. Não é à toa que se fica mais de 400 anos num território. Goa representa o que de melhor a presença portuguesa deixou no mundo: uma mistura da cultura lusa e indiana, traços sólidos de civilização e uma população preparada, instruída e trabalhadora. É o melhor exemplo do que a lusofilia e a portugalidade podem apresentar. E se poucos que lá moram falam a língua portuguesa, os nomes de família conservaram-se orgulhosamente.
Os limites da graxa
Muitos ficaram eriçados com a expressão que Rosa Mota usou em relação a Rui Rio, chamando-lhe "nazizinho (e isto para não usar uma "palavra feia", que nem quero imaginar qual seria), num encontro de António Costa com "figuras da cultura e do desporto". Não é para menos, porque é um exemplo cabal do reductio ad hitlerum que coloca sempre a discussão no fundo do poço. Mas o que me chamou a atenção, entre outros elogios e genuflexões a Costa, foram as palavras de Válter Hugo Mãe. Repare-se no tom entre o delicodoce e o piroso: Rui Rio representa o "inverno cultural" e o "sorriso sereno mas seguro" de António Costa "mudou radicalmente o clima em Portugal", trazendo "a Primavera".
Imensas críticas justas poderão ser feitas a Rio pela presidência no Porto, principalmente na política cultural ou na sua ausência. Já se sabe que em campanha eleitoral os "agentes culturais" adoram fazer-se notar junto dos candidatos, quase sempre à esquerda e particularmente com o PS. Influências que vêm de França desde os tempos de Mitterrand e de Lang, e mínguas da cultura, efectivamente. E também é consabido que Válter Hugo (não era com minúsculas que ele assinava?) gosta imenso de se promover e é o autor mais auto-comercial do meio, sem prejuízo do seu talento e da sua escrita. Mas a manteiguice e o graxismo da cultura à política têm limites. Frases como aquela são dignas dos noticiários norte coreanos dedicados ao Supremo Líder, ou lá como lhe chamam. Não sei se Hugo Mãe está assim com tanta dificuldade em vender os seus livros, mas escusava de se rebaixar a este ponto de submissão. É patético, penoso e provoca vergonha alheia, até porque a cultura, com a actual incumbente do ministério, nem se tem portado muito bem e a migalha do orçamento que lhe é dedicada está muitíssimo longe da quimera dos 1%. Mais uma razão para se manter alguma noção do ridículo. Com a agravante de que para um escritor, o estilo não é digno nem para contos de revistas do coração.
quarta-feira, janeiro 19, 2022
Dezoito
Esquecimento imperdoável. Este blogue completou dezoito anos de vida, a 17 último, e eu não dizia nada.
Significa pois que já blogo há 18 anos, desde aquele longínquo Janeiro de 2004, e que A Ágora atinge a sua maioridade. Está de parabéns: é uma bonita idade, até porque acredito que não haja muitos blogues no activo (como se este tivesse uma actividade por aí além, mas pronto) que tenham atingido a maioridade civil. Mas dezoito anos já ninguém lhos tira.
domingo, janeiro 09, 2022
Os psicopatas americanos no Congresso
American Psycho, ou Psicopata Americano, é um romance, chamemos-lhe assim, escrito no início dos anos noventa por Bret Easton Ellis que retrata de forma crua, amoralmente ostensiva e exaustivamente descritiva a idade de ouro dos yuppies na segunda metade dos anos oitenta, no pré-crash de 1987. A narrativa centra-se no modo de vida de Patrick Bateman, um financeiro de Wall Street com menos de trinta anos, de início mais nas suas obsessões materiais - a casa, a decoração, os aparelhos de alta fidelidade, os produtos de beleza e de higiene, o culto do corpo, os fatos, as gravatas, os restaurantes de luxo, as drogas, as amantes e as prostitutas - e mais à frente na sua faceta (ainda) mais negra que justifica o título da obra, tudo entrecortado pelas detalhadas críticas musicais dos músicos favoritos da personagem, que surgem como curiosa Hybris normalmente em situações inesperadas.
O livro, já de si um sucesso comercial e de crítica, foi adaptado ao grande ecrã em 2000, com Christian Bale a compor um impressivo Bateman num desempenho que projectou a sua carreira. Como já se percebeu, o protagonista espelha uma ganância e uma obsessão materialista tais (de que é exemplo o seu acesso de fúria só porque os correligionários têm cartões de apresentação mais caros e polidos que os dele, o que terá consequências funestas) que é capaz de transformar Gordon Gekko, outra personagem fictícia deste peculiar mundo dos yuppies, num voluntário caridoso. É claro que nem todas as partes das descrições torrenciais de Ellis puderam ser transpostas para o filme, mas o essencial manteve-se.
Uma das alusões na obra a figuras reais, mais presente no livro que na película, é o culto do peculiar universo que rodeia Bateman pelos bilionários ostensivos, em geral, mas com uma especial admiração: Donald Trump. Sim, Trump e as festas que ele dá, os locais que frequenta e os seus carros. Trump é o modelo, a bússola e farol, aquilo que esta mole de gente endinheirada, entediada e amoral pretende ser.
Recordei-me de novo do livro/filme e das suas alusões a propósito do primeiro aniversário da invasão do Capitólio por aquela horda estranhíssima e alucinada, que deixou como resultado cinco mortos e uma imagem de ultraje e vergonha à democracia americana, mais própria de um país do interior de África. Tinham vindo de vários pontos dos Estados Unidos, numa das alturas mais gélidas do ano, para ouvir o discurso de Trump em frente ao congresso. Um discurso aliás de acusação e de incitamento directo contra a câmara legislativa, na senda da não aceitação do resultado das eleições de dois meses antes e das alusões a supostas fraudes. As palavras eram demasiado explícitas para que não se possa ligá-las ao que sucedeu a seguir. Aliás, até parecia que alguns adoradores trumpistas, mesmo deste lado do Atlântico, já o estavam a pressentir, referindo-se a "demonstrações do triunfo do "America First" que iriam surgir em Washington. Até tinham razão, como se viu.
Trump flutua entre um instinto político eficaz e uma mitomania que se torna pública muitas vezes. Era sem dúvida este último sentimento que o dominava naquele dia. Provavelmente, no embalo daquele discurso a meio caminho entre um ditador sul-americano e o general Custer lançando ordens contra os índios, não previu que as consequências pudessem ser tão funestas. Mas foram (por pouco não o foram para o próprio Mike Pence) e são indissociáveis do seu discurso de raiva que levou aquela mole desvairada habituada a "informar-se" no Qanon a cometer um acto tão grotesco.
O contraste entre esta gente e a retratada em American Psycho é gritante, a começar pela forma de trajar e a acabar na capacidade económica. As respectivas mundividências também são abissalmente diferentes. O que as une é a admiração e a confiança quase ilimitada em Trump, embora por razões diversas. Mas é bem mais compreensível vinda dos segundos, já que Trump é ele próprio um símbolo do materialismo (e de muito exibicionismo, como se observa na sua Trump Tower e no seu avião, por exemplo) e da ganância de um lado mais perverso do "sonho americano", além de ser nova-iorquino e de ter vivido quase sempre na Big Apple. Já da parte dos invasores do Capitólio é bem menos lógico, pois falamos de gente mais proveniente do Midwest e do Deep South, menos cosmopolita e mais susceptível a propaganda e com muito menos poder económico. Trump e a fauna de Wall Street estão a anos-luz desta massa de proletários sem rumo, em muitos casos desprezando-os até, e são o oposto aos princípio cristãos (com uma interpretação muito própria do cristianismo, é certo, muito WASP) e aos modelos de família por eles defendidos.
Em suma, Patrick Bateman admira Trump não só pelas suas posses mas sobretudo por não olhar a meios para atingir os seus fins e por possuir um ego do tamanho do mundo - pela fortuna, antes de mais, e depois pelo poder político - o que o faz sentir-se quase uma divindade omnipotente perante os outros seres que o rodeiam. Combina o dinheiro, o poder e o sexo, a avaliar pelas suas bravatas. Aquela frase de que "podia dar um tiro a alguém na Quinta Avenida que não perdia um voto" seria certamente do agrado de Bateman e poderia perfeitamente ser dita por ele. Ao criar a personagem, Ellis pôs muito de Trump nela, embora não pudesse prever que uma tal levaria à invasão do Capitólio. Com a diferença de que Patrick sabe certamente muito mais de música popular contemporânea do que Donald.
sexta-feira, dezembro 31, 2021
O resumo da blogosfera lusa
Nos últimos dias do ano entretive-me com este pequeno livro, da colecção Francisco Manuel dos Santos, que resume a história da blogosfera portuguesa. Trouxe-me à memória anos (sobretudo entre 2003 e 2011) de posts, leituras, discussões e personagens até então desconhecidas, muitas das quais chegaram a postos de grande visibilidade, seja nos jornais, na TV ou até no governo, como Ricardo Araújo Pereira, Pedro Mexia, Rui Tavares, João Galamba, Daniel Oliveira, Luís Aguiar Conraria, além dos já consagrados Pacheco Pereira e Vasco Pulido Valente, entre outros que se dignaram a blogar. Os blogues serviram para que quem tivesse alguém coisa a dizer, nem que fosse pela arte de bem escrever e não tinha acesso aos meios tradicionais, o pudesse fazer, com grande ganho de causa. Não vou agora enumerar nem "linkar" exemplos da blogosfera, que de resto o livro cumpre, mas para quem está dentro do meio é uma visita gratificante e um pouco nostálgica, além da escrita bem humorada do autor nos permitir alguns sorrisos e mesmo algumas gargalhadas.
Infelizmente, as redes sociais tiraram muita da riqueza discursiva e um certo jargão que existia na "comunidade blogosférica". Em todo o caso, recordei pessoas e discussões que há muito não me vinham à memória. O livro não é exaustivo mas é completo. Eu não consto da extensa lista de bloguistas enumerados, mas o Delito de Opinião, onde continuo a escrever, sim, a par deste espaço chamado A Ágora, em que vos escrevo e que está quase a chegar à maioridade. Posso dizer que é um livro que gostaria de ter escrito, mas que o autor, Sérgio Barreto Costa, cumpre muito bem.
quarta-feira, dezembro 29, 2021
O exorcismo de Jorge Jesus
Há uns tempos que não falava aqui do Benfica. Confesso que pelo plantel que temos e depois da saída de Vieira, esperava bem mais desta época. Afinal de contas, a única grande diferença para a anterior é o acesso e a passagem aos oitavos de final da Liga dos Campeões. Tudo o resto permanece igual. Ou permanecia, até ao dia de hoje, em que finalmente acabou um projecto feito à pressa apenas para servir de troféu eleitoral a Luís Filipe Vieira. Não lhe serviria de muito. A contratação de Jorge Jesus demonstrou ser um erro desde o início. O "catedrático da bola" sai sem honra nem glória, apenas com o consolo de ter superado o são tão admirado Barcelona - o que, convenhamos, não é uma proeza por aí além nos tempos que correm. Deixa o Benfica apenas depois de transbordado o copo, com uma derrota vergonhosa com o Porto e por causa de conflitos com os jogadores, e logo Pizzi, que ele próprio trouxe para a Luz. Ainda por cima o Flamengo estava disposto a dar dinheiro pela sua contratação, e agora é o Benfica que tem de pagar o salário até ao fim da época, coisa que não deverá acontecer. Nos últimos dias, e esfaimados por um técnico português, os urubus rubro-negros viraram-se para Paulo Sousa, de que provavelmente já se arrependeram (e Sousa fica mal visto na Polónia, coisa que não é propriamente incómodo para um benfiquista), mas é crível que Jesus volte ao Brasil, noutras paragens.
O Benfica fica agora à guarda de Veríssimo, que na outra experiência como interino não mostrou lá grande coisa. Para mais assume o cargo depois de saber da morte da mãe. Tente-se então continuar a época com o que resta de dignidade, a começar por novo jogo em casa do Porto, mas convinha pensar na próxima temporada e em quem a assumirá. Então, poder-se-á pensar igualmente em negociar Pizzi e Almeida, e eventualmente Cebolinha, se não melhorar, e em não renovar com Taarabt. Sangue novo precisa-se, e nesse ponto talvez Veríssimo seja importante. Do mal o menos, definitivamente conseguiu-se exorcizar o fantasma de Jorge Jesus, que antes tinha assombrado Vitória e Lage. Agora já não assombra mais ninguém.
quinta-feira, dezembro 23, 2021
Uma colectividade de bairro de uma cidade transmontana
As pequenas colectividades contam muitas vezes a história dos locais que representam. Como a do Bairro Latino, clube desportivo do bairro dos Ferreiros, que desce abruptamente desde a imponente ponte metálica até à velha ponte de Santa Margarida, de pedra, ambas sobre o Corgo. Diz-se que um conjunto de estudantes de liceu locais encontrou algumas semelhanças entre o Quartier Latin de Paris e o seu bairro dos Ferreiros, zona de artesãos e, dizia-se, de casas de má fama, e impulsionados pelo Dr. Otílio de Figueiredo, Pai do Professor Eurico de Figueiredo (sim, o líder mais radical da greve estudantil de 1962 e mais tarde deputado do PS antes de passar a outros partidos, como o PDR e o MPT), resolveu criar um clube com o nome de Bairro Latino, dando conta que a rua principal e as ruelas que a ladeavam eram tantas como as línguas latinas. Apesar de muito eclético e de ter várias modalidades de salão e exteriores nunca teve um campo de jogos próprio nem nunca conseguiu ombrear com o vizinho maior, o SC Vila Real, que não lhe permitia jogar no mítico campo do Calvário. O Bairro Latino quase desapareceu, mas voltou a conseguir sede própria, próxima da antiga (onde ao que parece as francesinhas estavam ao nível das do Cardoso, lá em cima na "bila"), onde hoje funciona a Agência de Ecologia Urbana, mesmo à entrada da velha ponte sobre o Corgo (e por baixo da metálica), símbolo maior do velho bairro que representa.
O SC Vila Real, pelo contrário, além de campo próprio (agora até tem dois, ambos com nomes curiosos, Calvário e Monte da Forca), possui o seu próprio bar/loja no espaço nobre do centro da cidade (última foto) e continua a ser a principal agremiação desportiva da cidade.
Seja em aldeias, lugares, vilas ou bairros de cidades, as pequenas colectividades, constituídas em associações, grupos, agremiações e uniões acrescentados dos inevitáveis "desportiva", "recreativo", cultural", etc, constituem um elo de ligação das comunidades, uma oportunidade para a prática desportiva, para difusão cultural ou de informação ou o simples convívio, que no fundo é o que mais importa. São absolutamente essenciais em qualquer sociedade e para todas as idades. Quando desaparecem, extinguem-se também com elas ligações, amizades, práticas rotineiras, exemplos de vida e sobretudo muitas histórias. Quando isso acontece, é a antevisão do declínio das sociedades locais que representam, a não ser quando outras as substituam com sucesso.
As duas pontes: a de Santa Margarida e, lá em cima, a ponte metálicaterça-feira, dezembro 14, 2021
Frederico e o legado que Hitler destruiu
Agora que há um novo chanceler na Alemanha e que Angela Merkel deixa o cargo que tanto tempo ocupou, é uma boa ocasião para falar de leituras recentes. Li há pouco tempo a biografia de Frederico II, o Grande, por Nancy Mitford. Aconselho vivamente, embora seja uma edição complicada de encontrar em português, dado que era dos Livros Cotovia, editora desaparecida há pouco tempo. A autora, ela própria proveniente de um conjunto muito biografável de irmãs, acedeu aos então pouco acessíveis arquivos das antigas RDA e Checoslováquia, obtendo um conjunto de documentos notável para a construção da vida do homem que reinou sobre o Brandeburgo-Prússia durante quase meio século.
Sempre achei que Frederico fosse a personalidade mais interessante do século XVIII. Conhecia, entre outras coisas, a sua enorme capacidade na guerra, a sua habilidade política, os seus interesses e contribuições para a filosofia e para a música, os anos que Voltaire passou na corte prussiana, a terrível relação com o seu pai, a sua sexualidade ambígua e o seu tão personalizado lar de Sans-Souci, que visitei há já muitos anos. Mas desconhecia outros elementos do seu pensamento e da sua política que não são aqueles que normalmente se atribuem à Prússia.
Era o modelo de Déspota Iluminado, é certo. Ainda assim, poucos estadistas da sua época se atreveriam a dizer que "sendo o soberano faço o que me apetece, e o povo diz e reza a quem lhe apetece". Assim, todos os livros eram livremente vendidos na Prússia, quaisquer que fossem as suas ideias. As discussões eram livres e a liberdade de culto também. Sendo um dos líderes mais importantes do protestantismo, embora pouco religioso - na realidade, mais deísta que religioso - Frederico não via com bons olhos o catolicismo, mas para mostrar a sua tolerância e acolher migrantes católicos, mandou construir uma enorme igreja católica no centro de Berlim, que ainda hoje lá está. Uma das políticas era precisamente a de acolher gente de fora para povoar os territórios pouco povoados da Prússia Oriental, ou de novos territórios adquiridos. Desta forma, e seguindo uma política iniciada pelo seu pai, Frederico Guilherme I, acolheu protestantes fugidos do Sacro Império, sobretudo de Salzburgo, mas também católicos, judeus, diversas seitas cristãs, e a todos deixou construir os seus templos. Chegou a afirmar que se fosse preciso, permitiria migrantes muçulmanos vindos da Turquia e construir-lhes-ia uma mesquita (uma ideia que antecedeu em duzentos anos a imigração turca para a Alemanha).
Frederico defendia também a mistura de raças. Achava que era fundamento de civilização e que produzia pessoas inteligentes. É certo que a necessidade é que originou tanta imigração, já que perto de um décimo da população do reino tinha perecido com a terrível guerra dos Sete Anos. No fim do seu reinado, um sexto dos súbditos nascera no estrangeiro.
Também promoveu sérias reformas em termos de direitos e de sanções penais. Era ele que ratificava as penas de morte, que nunca eram numerosas, e nunca condenou mulheres. Aliás perdoou a um criado que tentou envenenar a sua bebida, e castigou-o enviando para o exército. Numa ocasião, passando nas ruas de Berlim, reparou numa caricatura sua no alto de m poste. À sua chegada, os transeuntes pararam logo de rir, atemorizados, ao que frederico disse para colocarem o boneco mais abaixo pois assim poderiam vê-lo melhor. Logo no início do reinado aboliu as torturas civis, que considerava cruéis e inúteis. A excepção era o exército, onde havia castigos severos, como chicotadas.
O mais espantoso disto é que tendo sido Frederico a tornar a Prússia numa potência europeia e a lançar as sementes do nacionalismo alemão, que fariam cem anos mais tarde os estados alemães juntar-se ao reino dos Hohenzollern, formando o Reich, aquela tenha ficado com uma tal fama militarista e bárbara que tenha mesmo acabado por ser extinta após a II Guerra. Para mais, é frequentemente ligada a Hitler, tal como o espírito alemão. O mentor do nazismo comparou-se nas campanhas que o levaram a chanceler, a Bismarck e a Frederico II.
As únicas semelhanças serão talvez algum ímpeto guerreiro e de conquista, que levaram o rei da Prússia a vitórias brilhantes mas a algumas duras derrotas, como quando russos e austríacos ocuparam Berlim, duzentos anos anos anos de os primeiros o voltarem a fazer, com mais êxito. Também Dresden sofreu um primeiro bombardeamento arrasador, mas aí efectuado pelos próprios prussianos. De resto, Frederico contou muitas mais vitórias que derrotas e revelou-se um hábil diplomata quando teve de o demonstrar, reconciliando-se com os seus inimigos nos últimos anos, em especial a sua grande adversária Maria Teresa de Áustria.
É incrível como é que a Alemanha se viu enredada naquele pesadelo totalitário e apocalíptico quando um dos seus grandes obreiros tinha ideias absolutamente opostas. Como se o século XX tivesse regredido para níveis que no século XVIII achariam intoleráveis. O que mostra que o carácter e a cultura dos povos não é sempre igual nem se pauta sempre na mesma direcção. Há heranças que se quebram e que se esquecem. Há rumos que degeneram povos. Que o povo alemão tenha tido um Frederico e mais tarde um Hitler, que destruiu o legado do primeiro e que era em tudo o contrário (embora felizmente os chanceleres do pós-guerra também fossem completamente diferentes), aí está para o provar e para afirmar que certos ferretes que se colam estão longe de ser justos.
sexta-feira, dezembro 03, 2021
Florença e Gondomar
"Florença ao domingo é como Gondomar sem estátuas."
domingo, novembro 28, 2021
Das eleições no PSD
Rui Rio voltou a ganhar a presidência do PSD. Fica-me a dúvida: se perder as legislativas, permanece no cargo? Pareceu-me ouvi-lo dizer há tempos que não faria sentido perder duas legislativas e continuar no cargo. De resto, não me lembro de nenhum líder do PSD ou PS perder duas legislativas seguintes e continuar, tirando o caso de Mário Soares conta a AD, até porque eram intercalares e sabia-se que haveria nova eleição no ano seguinte. E se Rio não ficar, Rangel candidata-se de novo à liderança?
quarta-feira, novembro 03, 2021
Notas antigas reactualizadas à situação vigente
Há uma série de anos, no saudoso ano de 2007, teci em sede própria umas breves considerações sobre a natureza do PSD e a confusão ideológica que sempre demonstrou, dando a ideia de que o melhor seria dividir-se, indo a parte (mesmo) social-democrata para o PS, a liberal formaria um novo partido e a mais conservadora ou democrata-cristã fundir-se-ia com o CDS, criando um partido de direita mais sólido semelhante ao PP espanhol, com as devidas adaptações.
Passados estes anos, não vejo grandes saídas para o PS, tirando talvez alguns autarcas, mas mudanças destas há sempre. A constituição de um partido liberal verificou-se, mesmo sem grandes nomes do PSD, ao contrário do que aconteceu com uma nova formação da direita radical, liderado por um ex-militante laranja. Já quanto à parte da fusão com o CDS, inverto o conselho, ou antes, dirijo-o agora ao CDS: se é para a minimização e a depuração das facções que não interessam à liderança de ocasião, mais vale que se separem e que se juntem a outras formações. Sempre ajudaria a clarificar o panorama partidário português, mesmo que à custa de um histórico da democracia portuguesa. Que pode sempre continuar a existir com a dimensão de outro histórico, o MRPP. Quem sabe se um dia não viria a reganhar a relevância que já teve.
sexta-feira, outubro 22, 2021
Os painéis entre os seus
A obsessão da vida de Almada Negreiros realizada: a obra maior da pintura portuguesa na obra maior da arquitectura nacional, no seu espaço mais nobre.
sexta-feira, outubro 01, 2021
Outras consequências da conquista de Lisboa
Ainda sobre as autárquicas, a conquista de Lisboa pela coligação liderada pelo PSD pode ter outras consequências a médio prazo. Dizia-se, aquando da apresentação de Carlos Moedas como candidato, que uma eventual vitória poderia ser um trunfo para Rui Rio mas também uma ameaça, já que o ex-comissário europeu seria então uma forte hipótese para a liderança do partido.
Julgo que esse cenário é improvável. Recém chegado à câmara, e com muito trabalho pela frente, Moedas não deve estar certamentea pensar em liderar o partido. É verdade que a presidência da CML é tida como um trampolim para voos maiores, com propriedade, tendo em conta os casos de Sampaio, Santana e Costa. Mas será ainda muito cedo para pensar em algo mais, até porque não faltam outros candidatos à liderança laranja. De resto, Rio marcou pontos com as suas escolhas certeiras, como Coimbra e Funchal, e, evidentemente, a capital.
É no outro partido do poder que este resultado pode ser mais determinante. Perdida de forma inesperada a governação Lisboa, o seu grande trunfo, Fernando Medina viu certamente esfumar-se qualquer veleidade a chefiar o PS no pós-António Costa. Isso abre ainda mais o caminho a Pedro Nuno Santos, que com a sua combatividade e o conhecimento (e controlo) do aparelho socialista, vê crescer amplamente as suas ambições a liderar o partido no futuro.
Sucede que, a ser este o cenário, aliás provável. Pedro Nuno herdará um PS desgastado pelo poder e pelos inúmeros problemas com que se deparou, alguns por culpa própria. Além disso, representa uma ala mais esquerdista do partido. O sempre decisivo eleitorado de centro, talvez agora menos numeroso, não deixará de olhar para o PSD como alternativa óbvia. Rio ou qualquer outro líder do partido terá então uma boa oportunidade para ganhar o poder, ou pelo menos de ficar em primeiro, a reboque e por via indirecta da conquista de Lisboa.
quinta-feira, setembro 30, 2021
Uma questão maior
Já houve vários resumos às autárquicas, partidárias e locais, já se falou na vitória amarga do PS, na derrota doce do PSD, no esvaziamento da CDU, no CDS que se equilibra em arames, no Bloco que continua sem peso autárquico, nos razoáveis mas demasiado histéricos ganhos do Chega, no voto urbano da IL, no peso dos independentes, mas não vi nenhuma análise profunda aos nomes dos candidatos do Alentejo.
Permitam-me então felicitar, no Alandroal, Aranha Grilo (será entomólogo?), que bateu Saruga Matuto; Pena Sádio, de Estremoz; em Mora, 45 anos de presidência de PCP acabaram com o triunfo de Calado Chuço sobre Fortio Calhau; no Redondo, Fialho Galego soube fazer frente a Palma Grave e Rega Recto; em Vendas Novas, Hortelão Aldeias não logrou a reconquista; já na ducal Vila Viçosa, Ludovico Esperança ganhou a autarquia calipolense fazendo jus ao nome, para desconsolo de Canhoto Consolado e do desventurado Ventura Mila.
sexta-feira, setembro 17, 2021
A "desprestigiante" desconcentração
Os doutos juízes do Tribunal Constitucional, excepto dois (por acaso conimbricenses), não querem que a sua casa seja transferida para Coimbra, assim como o Supremo Tribunal Administrativo, porque, entre outros argumentos banais, alegam ser um "grave desprestígio". E também alegam que esses casos só se passam em estados com estrutura federal, como a Alemanha ou a Suíça.
quinta-feira, setembro 16, 2021
Jorge Sampaio
A propósito da morte de Jorge Sampaio, discordei dele em váriadas ocasiões, mas tinha aspectos de que muito poucos políticos se podem gabar. Claro que vai ficar como uma das figuras políticas cimeiras das últimas décadas, desde o seu papel de líder estudantil e advogado, depois como líder da oposição (de início parecia-me Vítor Constância de cabelo ruivo) e presidente da CML até Belém. Curiosamente a sua maior derrota aconteceu em 1991 contra Cavaco Silva - que lhe rendeu agora um dos elogios mais sentidos - e a sua maior vitória, nas presidenciais de 1996, também. Teve como ponto alto o seu papel na crise de Timor, e como ponto mais baixo a trapalhada com Santana Lopes, antes e depois de o nomear. Como legado mais recente deixa o seu trabalho em permitir que refugiados pudessem continuar os seus estudos.
Mas para além disso era um gentleman da política, naquele registo que parecia racional, low profile e legalista (no 25 de Abril resolveu ficar em casa, quando estava tudo na rua, porque era isso que o MFA estava a pedir, e chegou a dizer que se escolhesse lema seria "dura lex sed lex") mas que facilmente se emocionava. Deixo dois exemplos: numa visita à faculdade onde eu estudava, ouviu-me a perguntar, quase irado e à sua frente, porque é que o 1 de Dezembro não tinha mais destaque, ao que respondeu serenamente, com uma resposta que aceitei, dando a entender que também o lamentava. E quando ganhou as presidenciais pela primeira vez, ao chegar à varanda onde iria discursar à multidão que o vitoriava, mandou antes de tudo com autoridade retirar um enorme gigantone que representava e ridicularizava Cavaco Silva.
Sobre o momento mais polémico da sua presidência, a nomeação de Santana Lopes e a dissolução do Parlamento seis meses depois, convocando as eleições que depois dariam o poder a Sócrates, relembro que apesar das críticas que a direita lhe teceu então, ficaram ainda assim aquém das que a esquerda lhe disparou ao decidir convidar Santana a formar governo. Provavelmente a maioria acha hoje que ele faria melhor em convocar logo eleições (e o PSD em escolher a então segunda figura do governo, Manuel Ferreira Leite, para o liderar, quatro anos do que sucedeu mais tarde). Mas decidiu não o fazer e com isso atraiu a fúria da esquerda. Ferro Rodrigues demitiu-se da liderança do PS nesse mesmo dia, indignado com a decisão presidencial. Saramago disse que "a democracia acabara em Portugal". Francisco Louçã afirmou que era "o princípio do fim do 25 de Abril". Na festa do Avante desse ano usaram-se t-shirts anti-Sampaio. E como na noite seguinte, precisamente, morreu de súbito Maria de Lurdes Pintassilgo, não faltou quem dissesse explicitamente que se deveria ao desgosto da decisão de Sampaio. Em suma, provavelmente nunca nenhuma figura da esquerda (nem da direita) portuguesa atraiu tanto os ódios do seu espectro político como Jorge Sampaio. Curiosamente, muitos destes correligionários aplaudiram dez anos depois a constituição da "geringonça", que, tal como no governo Santana, se baseava numa maioria parlamentar.
Que o "cenoura", como lhe chamavam carinhosamente, descanse em paz.
quinta-feira, agosto 19, 2021
Cinema com visão
Com o ingresso de Messi no PSG, lembrei-me de uma cena do filme Le Concert, uma comédia em que uma hilariante orquestra russa constituída por judeus e ciganos vai tocar a Paris. A meio, quando um oligarca se prontifica a financiar a viagem da dita orquestra em troca de poder tocar a meio, a mãe do milionário surge de rompante e descompôr o filho, aconselhando-o antes e meter-se no futebol, qual Abramovitch, a investir no Paris Saint Germain e a comprar Messi para o clube francês. O filme é de 2009, ainda Messi tinha 22 anos e o PSG estava longe de ser milionário.
12 anos depois tudo se concretizou. A única diferença é que os investidores são árabes Qataris, não russos. O cinema pode adivinhar o futuro ou é uma deliciosa coincidência fruto de uma imaginação fervilhante que se tornou real?
quarta-feira, agosto 11, 2021
As bolhas geracionais
Na época de confrontos e polarizações a que temos vindo a assistir, só nos faltava o confronto geracional. Mas é o que está a acontecer. Além dos problemas directos, a pandemia parece estar a criar um crescente azedume entre as gerações mais velhas e as mais novas.
Não que seja apenas do último ano. É possível que com diferentes educações e uma comunicação demasiado virtual as fracturas já durassem há mais tempo. Vimo-lo com as referências, aqui há uns anos, da "peste grisalha". E vimos também a insuportável e birrenta frase de uma Greta Thunberg transfigurada pela raiva, o inesquecível How dare you, ao acusar os políticos de lhe terem "roubado a infância".
Há pouco tempo, por ocasião do dia dos avós, vi uma data de desabafos na net, incluindo uma daquelas coisas que algumas pessoas passam numa cadeia de mensagens, em que o neto perguntava ao avô como tinham vivido sem internet, telemóvel, etc, ao que o avô respondia que em compensação antigamente viviam com "dignidade, compaixão, bondade, humildade", etc, dando a ideia de que a geração do neto não tem quaisquer qualidades (reparo que ao afirmar que a sua geração tem todas as qualidades não é bem um sinal de humildade). Ao mesmo tempo, vêem-se nas redes sociais imensas recriminações às gerações mais novas por, em tempo de covid, juntarem-se, encontrarem-se, beberem em conjunto e outas malfeitorias. Alguns chegam a dizer que deviam era estar trancados em casa ou ajudar às tarefas da mesma, embora ignore se quem escreve tais coisas tenha algum estudo aprofundado sobre os trabalhos domésticas dos mais novos.
Todas estas recriminações geracionais, dos que desprezam os mais velhos e os tratam como trapos por aparentemente não terem "utilidade" aos que se estão nas tintas para os mais novos e acham que eles têm as mesmíssimas necessidades dos mais idosos podiam provocar mero desprezo ou até algum sarcasmo, mas causam-me apenas tristeza. Parece que são exactamente os extremos geracionais que são mais postos de lado pelos que estão a meio, que também terão as suas queixas (Sérgio Sousa Pinto falava há pouco com imensa graça da nossa geração dos anos noventa como estando entre "gerontes donos disto tudo e unicórnios imberbes"). Os velhos porque não são úteis, numa classificação utilitarista e hiper-materialista, e porque "ficam com as reformas todas", e os mais novos porque são "irresponsáveis" e "florzinhas de estufa".
Contra mim falo, porque também isso já me passou pela cabeça em momentos egoístas e menos felizes. Mas a verdade é que esta incompreensão mútua, a existir, e se não for uma miragem do que se vê na net, é tóxica e não ajuda nem a uns nem a outros. Quando se começa a falar dos mais novos como "gente irresponsável", amiúde acompanhada dos auxiliares "no meu tempo" e "esta juventude de hoje", é sinal claro de envelhecimento, numa clara imprepração para o futuro. E quando vemos as acusações às gerações anteriores de terem deixado "uma herança pesada" às que se seguem, como a menina Thunberg, à qual, entre outras coisas, deixaram um sistema escolar que ao que parece ela não quis aproveitar, ignoramos tudo o que de bom deixaram, quando tantas vezes mesmo as má herança tiveram origem em intenções nobres.
Sim, os mais velhos não pensaram só neles. E sim, os mais novos têm percepções diferentes, como em todas as gerações, e não são piores por isso. Os velho têm direito ao conforto, à compreensão e ao respeito. Os jovens a igual compreensão e a fazerem disparates e "irresponsabilidades" próprias do crescimento e da formação de carácter. Não compreendê-las é ficar-se na sua própria bolha geracional, sem perceber o passado de uns nem relembrar o seu próprio. Não é preciso que se compreenda e aceite tudo. Mas ao menos não julguemos que a nossa geração é que é bestial.
PS: a minha geração "rasca" não é definitivamente melhor, mas olhem que os tais anos noventa em que crescemos deixam saudades. Porque havia esperança e optimismo para todas as gerações.
sábado, julho 17, 2021
A redenção pela bola
Se as história de superação são apelativas, mais ainda se tornam se lhes forem acrescentadas certas concidências e acasos. O Euro 2020 que acabou há dias é disso exemplo.
Julgava que a superação seria a de um homem, Gareth Southgate, o actual treinador de selecção inglesa. Até agora, nunca a Inglaterra tinha ganho um jogo nos 90 minutos na fase a eliminar dos Europeus. Normalmente ficava-se pelo primeiro jogo (o guarda-redes Ricardo que o diga), tirando em 1996, quando a competição teve lugar precisamente em em solo inglês e ultrapassaram a Espanha nos penaltys. Só que nas meias finais jogaram contra a velha rival Alemanha, em Wembley, empataram a um golo e nas grandes penalidades um jogador inglês falhou, impedindo a sua seleção de chegar à final perante o seu público. O seu nome? Gareth Southgate.
Um quarto de século depois, Southgate levou a seleção inglesa pela primeira vez à final de um Europeu, tendo deixado pelo caminho a Alemanha, com um emotivo 2-0. Passadas as meias, de forma algo duvidosa contra uma aguerrida Dianamarca, a Inglaterra lá chegou a uma final, ainda por cima (e como quase todos os jogos que disputou) em Wembley, quase como em 1996 - quase porque se demoliu e reconstruiu o mítico estádio. E o povo enchia o estádio, ignorava os casos crescentes de covid e cantava, em fervilhante entusiasmo, It´s Coming Home, do célebre hino dos Ligthing Seeds Three Lions (A partir dos vinte segundos do video abaixo vê-se Southgate a falhar o penalty; noutra versão, a original, de 1996, aos 30 segundos a seleção inglesa marca um golo à portuguesa, defendida pelo malogrado Neno).
Mas se não houve redenção por um lado, ela veio de outro. A equipa técnica da Itália é constituída quase em exclusivo por velhas glórias da Sampdória de Génova, como Roberto Mancini, Gianluca Vialli, Lombardo ou Evani. E precisamente em Wembley, em 1992, na final da Taça dos Campeões perdida para o Barcelona de Cruyff, Mancini e Vialli, a dupla de ataque, os "gemelli del gol", jogaram juntos uma última partida. Vialli prossseguiu uma carreira de sucesso na Juventus, Mancini na Lazio e ambos foram mais tarde técnicos de sucesso em Inglaterra. Até se reencontrarem na equipa técnica da selecção, um pedido expresso de Mancini, e que como se viu no Domingo, até pelo ambiente da equipa, voltou a dar resultado. 29 anos depois de perderem o título europeu de clubes em Wembley, ganharam o de selecções. É só isto, a redenção? Apenas o pretexto. Porque Vialli, já com funções na Azzurra, sofreu um canco no pâncreas, um dos mais difíceis de debelar, recuperou, teve uma recaída, e finalmente venceu-o completamente, sem mais vestígios. Chegou a dizer numa entrevista que "tinha vergonha de estar tão feliz", quando Itália sofria a primeira e mortífera vaga da pandemia. Um ano depois da sua recuperação, GianlucaVialli, que protagonizou uma destas superstições em que o futebol é fértil, no mesmo lugar onde não tinha sido feliz anos antes, voltou a festejar, em lágrimas, com todas as razões do mundo para o fazer, ou no mínimo com muito mais razões do que apenas um penalty falhado.
sexta-feira, julho 09, 2021
O florentino do Benfica
quinta-feira, junho 17, 2021
Importações da Hungria
segunda-feira, junho 14, 2021
Um imortal do 6-3
Bem sei que o já saudoso Neno esteve em jogos marcantes, como o 2-0 de César Brito ao Porto, os 3-1 ao Arsenal em Highbury, o 4-4 em Leverkusen ou quando o Vitória de Guimarães bateu o Parma (onde como homólogo tinha um jovem Buffon) por igual resultado. Foram dois jogos em que o "Júlio Iglesias português" não sofreu qualquer golo.
Mas prefiro lembrá-lo num jogo em que nem esteve particularmente bem e até sofreu 3 golos, mas que terá sido, possivelmente, o mais grandioso da sua carreira: o 6-3 ao Sporting. Basta dizer que era um dos homens do 6-3 para ficar desde logo imortalizado. Isso para além de ter nascido na primeira cidade erigida pelos portugueses em África e de ter morrido na cidade-berço de Guimra~es, num triste 10 de junho. Um abraço, Neno.
sexta-feira, junho 11, 2021
Tarzan como comentador
Há uma epidemia nacional há muito espalhada e que contamina sobretudo comentadores de tv e treinadores de futebol. Não vejo medidas profilácticas, alertas para o contágio, barreiras para impedir a progressão e muito menos curas. O Dez de Junho também devia servir para se falar deste flagelo.
quarta-feira, junho 02, 2021
Festivais, polémicas e coincidências
Regressou na semana passada o Eurofestival da Canção. Pela primeira vez, julgo eu, Portugal apresentou-se com uma canção em inglês. Não percebo porque é que numa prova musicial em que se colocam a julgamento representantes de países não se exige que cantem nos idiomas respectivos, ou se houver mais do que um, nalgum deles. A verdade é que os suecos Abba já ganharam por cantar em inglês, e depois de ter visto alguns concorrentes, os representantes portugueses deste ano, comandados por um senhor com pinta e nome artístico de índio norte-americano, estavam longe de envergonhar.
O que me pergunto é se em tempos de políticas identitárias, culturas de cancelamento e revisões da História, os representante portugueses poderiam ser os Da Vinci, que há cerca de 30 anos, e com assinalável notoriedade, puseram um país a cantar "já fui ao Brasil, Praia e Bissau..." no tema "Conquistador", em cujo videoclip surgiam em destaque o Padrão dos Descobrimentos, o navio Sagres, a Cruz de Cristo e outros elementos capazes de espalhar o horror na convenção do Bloco de Esquerda e em boa parte do festival (não digo todo porque as diferentes sensibilidades surpreendem-nos). Tenho sérias dúvidas que começasse por passar no crivo do festival nacional, antes de ir ao internacional. A verdade é que os Da Vinci, que até aí eram um grupo pop-electrónico-futurista, seguiam o caminho traçado pelos Heróis do Mar, e tal como a banda de Pedro Ayres de Magalhães e Pregal da Cunha, tiveram amplo sucesso, embora mais efémero.
A música e respectivo video recordaram-me a polémica de há poucos meses, lançada por Ascenso Simões e as suas diatribes violentas sobre o Padrão dos Descobrimentos e outros monumentos com o cunho do Estado Novo (numa, particularmente infeliz e que ele se apressou a corrigir, dizia que no 25 de Abril "devia ter havido mortos").
E recordaram-me outra coisa, não sei se por coincidência ou não: os primeiros padrões, possivelmente os mais conhecidos, foram erguidos por ordem de Diogo Cão, na exploração à foz do Zaire e à costa do que é actualmente Angola. O próprio Diogo Cão (e um padrão) estão entre as personagens do Padrão dos Descobrimentos. E de onde é que Diogo Cão era originário? De Vila Real, onde tem justamente uma estátua erguida em pleno Estado Novo, com estética própria da época. Mais abaixo, na principal praça da cidade, fica a casa onde se supõe que terá nascido o navegador, mesmo ao lado da câmara municipal. Câmara essa que foi nos anos noventa disputada duas vezes por...Ascenso Simões, ele mesmo, no arranque da sua carreira política. Diga-se que as duas tentativas, aliás contra o mesmo candidato vencedor do PSD, redundaram em insucesso, se bem que da primeira tivesse ficado perto, fruto da troca de autarcas, mas só vinte anos depois é que o PS conseguiria finalmente ganhar na capital transmontana.
sábado, maio 29, 2021
Para uma final britânica perfeita
Uma pena que estejamos na situação em que estamos, com o distanciamento, as máscaras e etc, senão, como aperitivo para final da Liga dos Campeões, podíamos ter uns cantares ao desafio entre Mr. Damon Albarn, dos Blur e do Chelsea, e Mr. Noel Gallagher, ex metade dos Oasis e do Manchester City. Não sendo possível, Go citizens.
quarta-feira, maio 19, 2021
Gente sem condições
terça-feira, maio 11, 2021
O Sporting de Amorim e Varandas
E confirmado o titúlo de campeão, resta dar os parabéns ao Sporting. São justíssimos vencedores, com uma equipa de miúdos e um ou outro jogador experiente, treinados por um também novíssimo Rubén Amorim (é só a parte que me custa, um confesso benfiquista levar o Sporting ao título) que, com mais ou menos dificuldades conseguiram fazer dos lagartos novamente campeões ao fim da maior seca de sempre - 19 anos.
É também uma bofetada desportiva nos Pintos, nos Vieiras e nos Salvadores, nos Conceições e Jesus e em todos os que se achavam donos do futebol, e last but not least, nos Brunos de Carvalho e nos seguidores que ainda tem, os mesmos que agora andam a comemorar despoletando confrontos e pancadaria, a ralé brunista da invasão ao centro de estágios. É bom não esquecer que Bruno de Carvalho é que era o modelo de "líder", o "vencedor", o que ia fazer do Sporting campeão...E afinal de contas o seu sucessor e opositor, Frederico Varandas (o Dr. Watson português, já que como o fiel assistente de Sherlock Holmes também tem o posto de capitão e esteve em missão no Afeganistão como médico do exército) recolheu os cacos, teve de montar nova equipa, apostou com grande risco em Amorim e agora colhe os louros. Uma grande lição de como se pode ser vencedor sem andar com discursos incendiários, bravatas ou truques baixos, e, espero eu, com seguidores no futebol português.
PS: só tive pena que o Sporting se tenha sagrado campeão vencendo o Boavista, que ganhou o seu único título de campeão há exactamente vinte anos, em 2001 (isto da passagem do tempo...) e que agora está numa situação periclitante no campeonato. Espero que os do Bessa se aguentem.




