sábado, outubro 31, 2015

Nas legislativas elegem-se governos



As eleições legislativas servem para eleger os deputados, ouve-se incessantemente em toda a parte. Um equívoco formal. Se assim fosse, o poder executivo não estaria condicionado pelo Parlamento nem os líderes partidários se apresentariam como candidatos a primeiro-ministro.


Se até à revisão constitucional de 1982 podia haver governos de maioria presidencial, como aconteceu em fins dos anos setenta, a partir daí essas hipóteses esvaziaram-se. Caso algum PR tivesse essa veleidade, ela seria imediatamente chumbada no parlamento, tal como o governo que agora tomou posse deverá ser. Apenas Eanes nomeou governos por sua iniciativa. Todos os outros depois dessas experiências saíram directamente de eleições, com excepção do de Santana Lopes, em 2004. Todos os governos minoritários viram passaram o seu programa quando apresentado na AR.


É precisamente a nomeação de Santana de que me recordo quando vejo tantos adeptos da "maioria de esquerda" dizerem que "a maioria parlamentar é o único garante dum governo estável". Será? Quando o presidente Jorge Sampaio tomou a decisão em mãos, tinha toda a legitimidade para dissolver o Parlamento e convocar eleições. Durão Barroso tinha saído abruptamente, com a popularidade em baixa e o pretexto perfeito, e impôs para o seu lugar o então presidente da câmara de Lisboa, que nem eleito deputado tinha sido, ao invés de propor Manuel Ferreira Leite, Ministra de Estado e das Finanças e nº2 daquele governo. A solução mais avisada e que colhia mais apoios era a convocação de eleições, mas Sampaio preferiu chamar o actual responsável pela SCM de Lisboa para formar governo. Uma solução controversa e duvidosa, mas ainda assim legítima. Boa parte da esquerda, acusou-o de traição (à esquerda), Ferro Rodrigues demitiu-se furioso com a decisão, e ouviram-se coisas como "a democracia está em perigo", ou "o 25 de Abril acabou" (desse vulto da liberdade chamado José Saramago), para não falar de tiradas de mau gosto relacionando a morte súbita de Maria de Lurdes Pintassilgo (horas depois) com a decisão presidencial. Porquê? Porque, segundo diziam, aquele governo não tinha sido sufragado pelo povo, ainda que o fosse por uma maioria parlamentar (além da "traição" de Sampaio, aos ideais de esquerda). Precisamente o argumento oposto ao que utilizam hoje. Isso e o de que Cavaco teve um discurso de "líder de uma seita de direita". O discurso do PR revelou-se muito longe de quem pretende ser o chefe de estado de todos os portugueses, é verdade. Mas muitos dos que o criticam hoje queriam que Sampaio tivesse tido idêntica atitude no sentido inverso.

A ideia de que um governo é efectivamente eleito não só resulta de uma convenção tácita mas também da própria CRP, que impede na prática a constituição de governos de iniciativa presidencial e dispõe que eles são formados com base nos resultados eleitorais. Acresce o facto do sistema eleitoral português ser pouco favorável a maiorias absolutas. Como defende a direita agora e defendeu a esquerda há onze anos, o governo resulta das eleições e sobretudo da formação mais votada. É pela ambição desmesurada de poder a todo o custo que se dão estas crispações políticas. Não que elas não sejam necessárias e por vezes desejáveis. Mas escusavam de surgir no meio destes golpes palacianos. Ao menos em momentos como a questão do aborto defendiam-se valores a sério, por maior que fosse a discussão. Aqui, vemos o cinismo da direita, à beira de perder o escasso poder  que ganhou nas eleições, embatendo na hipocrisia da esquerda, que já acha que as maiorias parlamentares têm valor absoluto e que se permite que pessoas como Catarina Martins façam declarações como "este governo acabou", como se fosse a ela que lhe competisse dizer isso. Pelo meio, a extraordinária declaração de que "empossar um governo de Passos Coelho é uma perda de tempo", contrastando com o tão apregoado respeito pelo parlamento, como se estivesse tudo definido antes do programa de governo ir a plenário, e demonstrando um total desrespeito pelas instituições, o que só demonstra que a esquerda radical permanece igual a si própria, e que na luta pelo poder, não é melhor do que a direita a que tanto se atira (nalguns casos até é pior, como quando vem a sua "superioridade moral").

Ironicamente, a primeira prova de uma estranha união das esquerdas foi a eleição para Presidente da AR de Ferro Rodrigues, exactamente o homem que se demitiu das suas funções partidárias por entender que o presidente da República de então o tinha traído e aos seus princípios ideológicos.

terça-feira, outubro 27, 2015

Levantar a cabeça




Não tenho falado muito do meu Benfica, mas os tempos não estão para grandes comemorações. A equipa comandada por Rui Vitória já tinha um penoso currículo de jogos fora de casa (tirando o inesperado mas espantoso triunfo em Madrid, no Vicente Calderon), mas na Luz somava os jogos por vitórias. Só que a derrota do último Domingo, quando mais precisávamos de ganhar, lançou sérias dúvidas sobre a equipa, o treinador, as suas capacidades e o futuro próximo. Os sinais de recuperação esfumaram-se com o nevoeiro da Madeira, que adiou o jogo com o União, seguido de uma tremida passagem na Taça frente ao Vianense, uma derrota em Istambul com erros parvos, mas enfim, dado o ambiente e o adversário, desculpável, e agora o desastre em plena Luz, frente ao Sporting de Jesus, que urgia vencer, e sobretudo do infame Bruno de Carvalho, um dos mais nocivos elementos do dirigismo do futebol português que me lembro de ver. Até porque aquilo deveu-se mais a demérito próprio do que a um portentoso jogo dos lagartos. Afinal que é que se passou? Uma diferença assim tão abissal dos planteis? Má táctica? Jogadores temerosos de Jesus? Um jogo táctico perfeito deste? Tudo um pouco, e ainda sorte para o Sporting e o natural desalento para os nossos, já de cabeça noutro sítio, como se pôde ver por aquilo que seria o autogolo mais patético que me lembro de ver desde um Rosenborg-Olympiacos, não fosse a estirada de Júlio César.

O desastre não podia vir em pior altura pelas razões atrás ditas, e numa altura de turbulência de jogos, com campeonato, taça e Liga dos Campões a sobreporem-se, e com jogos em atraso. Para mais, o próximo embate para a Taça é exactamente em Alvalade, frente ao mesmo Sporting, numa altura em que também tem a decisiva recepção ao Galatasaray. Com um plantel limitado e alguns jogadores de fora (quem diria que a falta de Nelson Semedo seria tão sentida), não se prevê um mês memorável. A não ser que o orgulho venha acima, e conjuntamente com alguma cabeça, diferentes disposições tácticas e alguma sorte, se possa atirar esta triste recordação para trás. Depois de ultrapassarmos os traumas com o Porto, era o que faltava ficarmos com outros com o Sporting. Uma vitória em Alvalade seria o melhor tónico. Afinal, quem ganhou na casa do Atlético de Simeone pode ganhar em muitos outros recintos. Mas terá de suar muito para o conseguir. A tarefa é hercúlea, sobretudo a psicológica, mas não impossível. Há alguns jogadores que têm de levar umas reprimendas, outros que deviam passar pelo banco (estou a pensar em Luisão, e para isso mesmo é que lá está Lisandro, que cumpre o papel às mil maravilhas), e outros ainda que podiam jogar mais, além do citado Lisandro (Cristante, por exemplo). Alguma coisa terá de ser feita, e é agora que Rui Vitória precisa de mostrar o que realmente vale.
Para os apaniguados de Bruno Carvalho, que acham que nada os travará, e que terão de recuar muito tempo para recordar triunfo semelhante (já há comparações com o bojudo mas inútil 7-1), recordo-lhes que também em tempos de Vale e Azevedo o Benfica ganhou em Alvalade por 4-1. Caso haja dúvidas, a comparação de presidentes não é forçada.

quarta-feira, outubro 21, 2015

O regresso ao futuro com o "Grande Educador"



Hoje, 21 de Outubro de 2015, é o célebre dia em que Marty Mcfly chegou ao futuro, vindo dos longínquos anos oitenta. Não há os carros voadores, skates propulsores, alimentos cozinhados por hidratação previstos pelo filme, e a saga Tubarão há muito que acabou. Pelo contrário, se esteticamente e nos elementos superficiais as coisas nem mudaram assim tanto, a revolução das comunicações e da net mudou a forma de nos interligarmos, como seria impossível, à data, de prever.


O que certamente não se imaginaria nos anos oitenta é que trinta anos depois Arnaldo Matos, o "grande educador da classe operária", estaria de volta para liderar (ou educar?) o MRPP, que quase não mudou nos últimos quarenta anos, a não ser pela saída de militantes que entretanto ganharam notoriedade.

Nos últimos dias tem sido um corrupio no velho partido maoísta, que nestas últimas eleições se destacou pelo slogan "morte aos traidores!" e por ter o médico Pinto da Costa como mandatário nacional. Agora, os comunicados do seu site lamentam os fracos resultados eleitorais, suspendem os membros do Comité Central do partido e o secretário-geral por "incompetência, oportunismo e anticomunismo primário", e marcam um congresso extraordinário para breve. Tudo assinado pelo "camarada Espártaco" (o nome é de antologia) com auxílio da "camarada Marta", e rematado com o potente "Morte aos traidores!". Ao que tudo indica, Garcia Pereira será um dos dirigentes suspensos.

Entretanto, no jornal, agora online, do partido, o Luta Popular, os editoriais têm sido assinados pelo mítico Arnaldo Matos, que não se coíbe de comentar a actualidade política, e não é particularmente meigo com os partidos representados na AR, muito menos com a esquerda e com um eventual governo formado por PS, BE e PCP. Ao que tudo indica, as tumultuosas movimentações dentro de velho partido terão mesmo a ver com um eventual regresso do próprio Arnaldo Matos à liderança. Ou seja, se a linguagem, os propósitos e a estética e o grafismo já eram devedores dos anos setenta, só faltava mesmo lá recolocar o líder carismático que há muito se tinha afastado para se dedicar à advocacia. Definitivamente, a esquerda em Portugal movimenta-se.



Se a moda pega, poderemos ver Jorge Sampaio e Vítor Constância a enfrentarem-se para substituir António Costa, caso a este as coisas não lhe corram bem (só porque Soares talvez não esteja disponível); ou Cavaco, quando sair da presidência, disputar o PSD com Balsemão, se Passos também sair. Portas poderá ser substituído por Freitas do Amaral, enfim de regresso ao CDS, quiçá com a oposição de Adriano Moreira. Jerónimo pode estar ameaçado por Carvalhas, Catarina Martins por Louçã ou Mário Tomé, Paulo Estêvão (PPM) ou José Inácio Faria (MPT) por Gonçalo Ribeiro Telles, o general Eanes a reconstituir o PRD com Hermínio Martinho e Pedro Canavarro, e assim sucessivamente. Nada como os clássicos. É bem verdade quando dizem que o retro está na moda.

terça-feira, outubro 20, 2015

A questão do financimento dos partidos (com agradecimentos e desejos de boa sorte ao Livre).



Um pormenor de que pouco se falou na sequência das eleições, excepto como piada ao Livre, é a questão da subvenção dos partidos.


O Livre/Tempo de Avançar, com fundadas expectativas de eleger deputados, gastou mais de cem mil euros na campanha. Como se sabe, as contas saíram furadas e o movimento nem elegeu representantes nem chegou à barreira dos cinquenta mil eleitores, o mínimo para se receber uma subvenção anual por parte do estado e que liquidaria esse montante. Assim, teve de procurar outros meios para o fazer, com uma espécie de peditório aos seus apoiantes para que contribuíssem para o pagamento. Uma opção que deu origem a alguns remoques trocistas, como a pergunta se não queriam renegociar a dívida, entre outras. Não me parece que o Livre pudesse fazer nada de muito diferente: todos esperavam que metesse ao menos um deputado, e que ficasse com fundos para se ressarcir; as expectativas foram goradas, e por isso recorreram ao crowdfunding. Nada de especial nem criticável.

Mas a notícia deveria servir para repensar o financiamento dos partidos, que continuam a depender sobretudo do financiamento público. Ao todo, e anualmente, os partidos que elegeram representantes para o Parlamento ou que tiveram mais de cinquenta mil votos (casos do MRPP e do PDR) vão receber mais de 14 milhões de euros, aos quais se juntam mais 6,8 de subvenção para as campanhas. Mas este último valor cabe apenas aos partidos com aquele determinado número de votos. Os outros, como o Livre ou o MPT, ficaram excluídos. Assim, os partidos da Coligação receberão por ano perto de 6 milhões de euros, o PS 5 milhões, o Bloco 1,6, os partidos da CDU 1,3, o PAN 2,12 mil euros, e o PDR e PCTP/MRPP cerca de 170 mil casa um (sem contar com a tal subvenção de campanha). Mesmo assim, esse valor já baixou em relação a 2011...

Uma das propostas do MPT (e de outros partidos, incluindo o MRPP, em tempos) era o fim deste financiamento público. É óbvio que o financiamento privado pelos  apoiantes correspondentes tem os seus perigos, sobretudo de pessoas colectivas. Mas dever-se-ia estabelecer definitivamente uma norma que apenas permitisse que particulares singulares, à parte as quotas dos filiados, contribuíssem para os partidos, com respectivas contas descriminadas e sujeitas a recibo, e previamente escrutinadas pelas entidades competentes. O único financiamento público seria uma subvenção de campanha, extensível a TODOS os partidos, tendo em conta, aí sim, o número de votos e os gastos com as respectivas campanhas, de forma proporcional (claro que não se contam aqui os gastos dos eleitos para cargos públicos no desempenho das funções, como as da organização dos grupos parlamentares). Dessa forma, poupava-se o estado a mais gastos, permitia-se que partidos mais pequenos tivessem também alguma ajuda e estabelecia-se um sistema controlado de financiamento privado. Teria os seus riscos, mas seria bem mais justo e menos oneroso para os contribuintes do que o actual. Fica-se sempre a imaginar o que farão o PDR e o MRPP com os actuais 170 mil euros anuais. E percebemos como pode o PCP controlar toda aquela organização (e manter sedes como a da antigo Hotel Vitória, em Lisboa, ou a do prédio  feito de raiz na avenida da Boavista, no Porto), fazer marchas e organizar inúmeros comícios se lhe acrescentarmos o pagamento mais apertado que os seus representantes lhe fazem. O ideal seria que estes fossem os únicos e que não se dependesse sobretudo dos meios do estado.

terça-feira, outubro 13, 2015

Os cem de Ankara valem menos os 16 de Paris?



Fico pasmado quando, depois de no início do ano os noticiários dedicarem horas e horas aos atentados em Paris, de vários chefes de estado e de governo se juntarem em marchas "pela liberdade de expressão" e de até se inventar o bordão "Je Suis Charlie" (que provavelmente poucos compreenderão a sério), se dê tão pouco tempo de antena aos enormes atentados que houve em Ankara. Estamos a falar de um país importantíssimo, em parte europeu, onde foram mortas quase cem pessoas e várias centenas ficaram feridas. Não é propriamente um acidentezinho doméstico. É um ataque el larga escala à população civil de um estado fulcral entre o Médio Oriente e a Europa. Não devia ser tão noticiado como o que aconteceu em França?

domingo, outubro 11, 2015

A "maioria de esquerda"


A propósito das negociações para formar governo e dos contactos que o PS tem mantido à sua esquerda, com a possibilidade real de fazer um acordo com os respectivos partidos representantes, refere-se a eleição de "uma maioria de esquerda" no Parlamento. A história dessa tal "maioria de esquerda" que supostamente vai votar em massa contra um governo de direita já enjoa. De que "maioria de esquerda" é que estão a falar? Da que ganhou a câmara de Lisboa entre 1989 e 2001? É a única que conheço. Basta ir a 1975 para perceber que tudo isso é uma ficção. Só talvez um partido como o Livre se poderia coligar com o PS, isto se tivesse tido apoio eleitoral para isso. A esquerda tem várias naturezas, completamente diferentes entre si, e por isso a apregoada "maioria" é uma história da carochinha. Senão, porque é que não haveria apelos para que o PSD e CDS chamassem também o PNR se este tivesse representantes no parlamento?


Também ouço falar de exemplos noutros países europeus, como o Luxemburgo, ou a Dinamarca, tão bem retratada na série Borgen, em que partidos que não ganham eleições têm uma maioria parlamentar, formando assim governo e deixando de fora o partido que as ganhou. Mas posso também ir buscar os dos países da UE mais falados deste ano, a Alemanha e a Grécia. A CDU/CSU de Angela Merckel ganhou as eleições alemãs sem maioria absoluta, e viu o parceiro favorito de coligações, os liberais do FDP, ficarem à margem do parlamento, com menos de 5%. O SPD ficou em segundo. No conjunto, a esquerda contava com maioria no Bundestag - além dos sociais-democratas, há ainda os Verdes, que até já estiveram no governo, o partido esquerdista Linke (passe a redundância). O SPD preferiu fazer uma grande coligação com a CDU, como já tinha acontecido antes, sem pensar em qualquer maioria de esquerda. 
Na Grécia, como é sabido, o Syriza voltou a ganhar as eleições de Setembro, já despojado da sua ala mais radical. Ficou a seis deputados a maioria absoluta. Tinha várias opções à esquerda, como a coligação onde está o PASOK, os comunistas ortodoxos do KKE, ou o centro-esquerda do To Potami, Preferiu reeditar a coligação com a direita nacionalista do ANEL, de Panos Kammenos, que entrou à justa no parlamento. Também aqui se estiveram a borrifar para uma qualquer "maioria de esquerda", quando teriam toda a legitimidade e força para o fazer. E claro, recordar que em França há um acordo tácito de que a Frente Nacional não receberá apoios da ex-UMP (a direita gaulista e "republicana", como aliás agora tem na designação), e o PSF também não parece inclinado a acordos com a Frente de Esquerda de Mélenchon.

Esquerda e direita continuam a fazer sentido. Mas melhor será falar em "esquerdas" e "direitas", porque são tantas e de tantas naturezas que é impossível falar-se em unidades ou convergências. Que é que liga o PSD e o CDS ao PNR? E o PS ao PCP, o seu velho inimigo, ou ao BE? A colocação num determinado espectro é insuficiente para se poder colar este ou aquele partido. À esquerda, então, ainda se notam mais essas diferenças. Por alguma razão os republicanos perderam a Guerra Civil de Espanha, ou não tivesse o PCE tentado eliminar os trostquistas e anarquistas que combatiam do mesmo lado. Mas ainda falando de Espanha, o recente exemplo da ida de Felipe González à Venezuela para defender opositores políticos presos, sob os insultos e os entraves do regime de Maduro, é bem um exemplo do que pode distinguir a esquerda democrática da radical. é bom lembrarmo-nos disto quando voltarmos a ver o PCP a justificar e defender o actual regime venezuelano.

segunda-feira, outubro 05, 2015

Notas breves das eleições



Ainda na ressaca do meu dia de estreia nas mesas de voto, deixo as seguintes notas:


- Há um ano, António Costa alcandorava-se a líder do PS e andava nas nuvens, os partidos do governo estavam condenados a uma inapelável derrota e o BE a um apagamento progressivo, em detrimento do Livre. Tudo mudou, o que mostra que uma campanha inteligente e sem erros pode fazer milagres.


- Portas teve um discurso cínico, ao seu tom. Passos um discurso de vitória humilde e positivo, a abrir as portas ao PS. Bom sinal.


 - Costa pareceu entrar no palco derrotado, para a pouco e pouco recuperar e afirmar que se mantém à frente do PS. Lançou alguns sinais de que poderá viabilizar algumas soluções com o governo. Sai derrotado mas não morto politicamente. O mesmo sucedeu a Durão Barroso (também ele um "desejado") em 1999, e não muito tempo depois era primeiro-ministro. Veremos se à desilusão sucede a resistência.

- O MPT ficou muito aquém do que pretendíamos. Sem grandes meios materiais e humanos e com uma comunicação social pouco atenta (exceptua-se a TSF), os resultados desiludiram, mas ainda assim ficou acima de formações como o Nós, Cidadãos! e o Agir.

-Dos partidos emergentes, só o PAN, incrivelmente, sobressaiu, ao conseguir um lugar na AR. Como os animais não votam, ignoro qual seja o eleitorado desta formação. Mais incrível é que o LIVRE, tão apoiado por inúmeras figuras públicas e que pretendia tomar o lugar do BE e ser um parceiro de esquerda menos radical para o PS, fica à porta do Parlamento com resultados desoladores. Vá lá, o PDR também falhou o objectivo. Sem representação e dependente dos humores do seu mentor, é de duvidar que este partido dure muitos anos.



-O Bloco elegeu 5 deputados no Porto (efeito da nova Catarina Martins). Com a rotatividade que costuma haver com os seus deputados, é bem provável que o 6º da lista, o actor Mário Moutinho, vá um dia destes parar à AR. Lembram-se dele? Ficou mais conhecido por protagonizar uma série dos anos noventa chamada "Os Andrades".



Mais tarde deixo uns testemunhos mais pessoais sobre estes dias e uma opinião mais demorada sobre os resultados.

sábado, outubro 03, 2015

Nacionalismos com pouca base histórica



Na sequência das eleições regionais/referendários na Catalunha, que deixaram as reivindicações independentistas em banho-maria, recordo que com tantas pulsões secessionistas por essa Europa fora, as de Espanha são exactamente casos que não correspondem a antigos estados, ou então são casos perdidos no primeiro milénio da nossa Era.


O Condado da Catalunha é uma reminiscência dos fins do primeiro milénio, resultante da Marca Hispânica, e que se integrou no Reino de Aragão, que por sua vez se uniria a Castela e Leão na sequência do casamento entre Fernando e Isabel, formando a moderna Espanha. Revoltou-se por diversas vezes contra os impostos e as condições de Madrid, em 1640, quando pela primeira vez se falou numa "república catalã", na Guerra da Sucessão de Espanha, em que apoiou a Casa de Áustria contra Filipe de Anjou (que venceria, instalando os Bourbons no trono), e nas duas breves repúblicas espanholas. Sempre teve pulsões autonomistas e separatistas, mas as breves concretizações duraram muito pouco, não sendo mais que realidades efémeras e falhadas.


O Reino da Galiza é mais um nome honorífico e identitário do que a memória de um real estado. Há quem atribue esse nome ao Reino Suevo, sediado em Braga, e ao reino que se desenvolveu a partir das Astúrias. Na realidade, e embora se possa dar esse nome ao reino dos suevos, o antigo território do Noroeste peninsular é mais conhecido pelo nome do povo que o habitou. Quando ao que surgiu no Séc. VIII, a designação comum é Reino das Astúrias, que depois evoluiu para o Reino de Leão. Numa ou noutra ocasião, ressurgiu o Reino da Galiza, sobretudo como divisão feita pelo soberano entre os príncipes para evitar guerras internas, numa época em que a concepção de estado era bastante diferente da de hoje e era sobretudo o território de um Senhor. A Galiza, apesar de uma forte identidade cultural, acompanhou efectivamente a construção de Espanha, como parte do Reino de Leão, que em 1230 se uniu a Castela, e que nos séculos XV e XVI complementaria as uniões com a junção, por casamento, a Aragão, e a conquista de Granada e da Navarra.


E o País Vasco é o nome que se dá actualmente às províncias Vascongadas, que sempre foram castelhanas, mas que com a expansão da língua basca criaram, com outros elementos culturais, uma identidade própria. Mas a única antiga entidade estatal da região chama-se Navarra, e apesar de muitos bascos a considerarem como parte integrante do Euskadi e de haver falantes de basco na região, a grande maioria dos navarros não é adepta da solução independentista basca. Recorde-se que durante a Guerra Civil de Espanha, a Navarra era um dos bastiões dos nacionalistas, com as suas aguerridas tropas de requetés carlistas, inimigos mortais dos autonomistas bascos.

 (Mapa da Península Ibérica em meados/fins do Séc. XV).

É curioso verificar que estas pulsões separatistas tem mais incidência em Espanha do que noutras partes da Europa. Mas a Escócia também reclama a separação do restante Reino Unido, e há um ano a independência esteve quase a ganhar o referendo. Mas a Escócia era efectivamente um reino independente, que entre algumas anexações pela Inglaterra, só se lhe uniu definitivamente (e por vontade própria) em inícios do Século XVIII. Ou seja, a legitimidade história para obter a independência é muito maior do que a de qualquer região de Espanha. E se há outras regiões com pulsões separatistas sem grande base em antigos estados, casos da "Padânia", da Córsega ou do Ulster, outros há que foram estados reais , duradouros e poderosos, como Veneza, a Baviera,  e a Flandres. curiosamente, nunca ouvi falar de movimentos independentistas numa região que chegou a ser, durante a maior parte da Idade Média, um dos estados feudais mais importantes da Europa Ocidental: a Borgonha.


sexta-feira, outubro 02, 2015

Fim de campanha



A campanha está a acabar. Os partidos dão as últimas, fazendo as arruadas nos grandes centros urbanos, os comícios para apelar desesperadamente ao voto, lançam as últimas cartas, que nunca podem ser notícias bombásticas que soariam a oportunismo e demorariam a digerir, espalham os seus militantes por toda a parte.

Hoje pude ver ao meu redor um bom exemplo do funcionamento de uma grande máquina partidária. Na estação de metro da Trindade, onde o MPT se dirigiu o propósito da sua posição oficial crítica perante o ajuste directo feito pelo governo (á pressa e sem informar as autarquias) para a concessão dos serviços do Metro do Porto, o PS tinha três bancas para distribuição de propaganda e canetas, duas carrinhas, um autocarro de dois andares a expelir discursos de António Costa, inúmeros militantes, muitos deles da JS, com t-shirts próprias, a distribuir panfletos, ou seja, toda a capacidade de um partido grande e com meios. O contraste com a distribuição de panfletos do MPT era enorme. Tratando-se do PS, fazem justiça ao seu plano de "acabar com a austeridade".

Os grandes partidos são assim. O encontro de arruadas de ontem, na baixa do Porto, mostrou isso mesmo. A Coligação, juntando o CDS ao PSD, ainda teve mais militância. A CDU tem o empenho dos seus militantes e funcionários. O Bloco também tem os seus meios, embora a imaginação de outrora pareça um pouco gasta.

Na falta de meios e militância, os que não têm representação parlamentar precisam de mais engenho. Assim, o Partido da Terra, apostou na Campanha "Gonçalo", distribuindo bonecos em que nasce erva em lugar de cabelo, aos quais deu o nome do fundador do partido, Gonçalo Ribeiro Telles, em operações que chamassem a atenção ao público, como as arruadas ecológicas em tuk tuks ou a faixa pedindo a recuperação da ponte Dona Maria Pia.
O Livre apostou nas inúmeras personalidades que o apoiaram, mesmo que algumas não sejam tão conhecidas do grande público. O PDR aposta tudo em Marinho "e" Pinto e em métodos tradicionais, como carros de som, o PNR no medo dos refugiados, fazendo encenações de mulheres de niqab pelas ruas de Lisboa (há mesma imensas refugiadas com tais vestimentas...), O PCTP/MRPP nas frases sonoras, o AGIR nos sucessivos streap-teases de Joana Amaral Dias e em manifestações encapotadas contra o governo (como aquelas dos inquilinos que era encabeçada por Daniela Serralha, nº 3 por Lisboa pelo AGIR, coisa que ninguém se lembrou de referir), o PPM no mediatismo e à vontade de Gonçalo da Câmara Pereira, etc.

Se se confirmarem as sondagens, o PS perderá com uma percentagem de 80% por sua culpa. Campanha errática, confusa, com aqueles suicidas "amigalhaços do BPN" ou "se perdermos, não viabilizaremos o próximo orçamento de estado". Quando se tratou de mudar a mão, era tarde. Até a afonia de António Costa, hoje, na Cervejaria Trindade, se tornou um mau prenúncio. Não aproveitou os erros e a impopularidade do governo, a vitória no debate televisivo e o falhanço recente da venda do Novo Banco. E em contrapartida, a PaF teve uma campanha bem mais profissional, embora sem rasgos de imaginação, sem grandes ondas e Passos Coelho ainda teve o bom senso de afirmar que se não ganhasse viabilizaria o orçamento de estado.

Já agora, um traço comum à esquerda: o uso das palavras "gente" e "confiança". "Gente séria", "Gente de verdade", "gente que não se vende", ou "avança, com toda a confiança" (este começa a ser um clássico da CDU) e "tempo de confiança". Gente de confiança, será a mensagem que a esquerda, involuntariamente, está a passar? Se não quiser formar um governo de conjunto mesmo que a PaF ganhe, talvez. Mas em Portugal, por razões que deviam ser óbvias para qualquer pessoa, e tirando uma situação anormal, nunca haverá qualquer "frente de esquerda".


sábado, setembro 26, 2015

Esclarecimento


Estando a meio da campanha, a uma semana das eleições, impõem-se alguns esclarecimentos. Escrevi há dias um post sobre os novos partidos que se apresentam às urnas a 4 de Outubro. Não falei sobre os que já cá estavam, por serem sobejamento conhecidos, sobretudo os que têm assento parlamentar. Mas há um de que falarei nos próximos dias: o MPT - Partido da Terra. A razão é a de que o autor deste blogue está nas listas do partido pelo círculo do Porto, e obviamente reconhece-se nos princípios básicos defendidos. Ecologia e desenvolvimento sustentável, à partida, liberalismo social, no sentido de que o estado deve ser pessoa de bem, não uma entidade burocrática e todo-poderosa que esmaga os cidadãos e lhes faz um assédio fiscal aviltante (quando não realiza penhoras injustificadas, por vezes contra a lei), e humanismo. Há várias correntes, mas encontram-se todas nestes pontos.

A maior performance eleitoral do MPT coincidiu, como se sabe, com um momento mais infausto, o da participação de Marinho "e" Pinto, que quando viu que não conseguiria o domínio total do partido, desvinculou-se imediatamente para criar o seu próprio PDR. Eurico Figueiredo, veterano destas lides e sempre pronto para novos desafios, seguiu-o, mas assim que percebeu o que seria o PDR, deixou-o para trás para ser cabeça de lista pelo Partido da Terra pelo Porto. Uma boa aquisição, em boa hora. A sua greve de fome contra uma penhora ilegal e a recusa das finanças em cumprir uma ordem judicial pretendia acima de tudo chamar a atenção contra um sistema fiscal bulímico e opaco, e teve alguma repercussão, ainda que com algumas críticas injustas, como a de Luís Osório, ao comparar o streap tease voyeurista de Joana Amaral Dias com o sacrifício de uma greve de fome de uma pessoa na casa dos setenta, com o seu idealismo e o seu voluntarismo. E ouras acções se seguirão. De resto, o MPT tem candidatos interessantes e muito activos na sociedade civil, e alguns apoios de monta, como o de Carmona Rodrigues, ex-presidente da CM e Lisboa, ou Mário Frota. Os recursos podem ser escassos, mas a vontade e os valores são grandes. Esperemos que vinguem.


segunda-feira, setembro 21, 2015

Corbyn e o isolacionismo britânico



Há inúmeras razões para se ficar espantado com a eleição de Jeremy Corbyn para a liderança do Partido Trabalhista britânico. Desde logo, porque já com Ed Miliband o partido tinha virado mais à esquerda, com os resultados que se conhecem. A anterior grande deriva esquerdista, da autoria de  Michael Foot, em 1983, teve resultados calamitosos, e grandes líderes trabalhistas, como Atlee, Wilson, e porque não dizê-lo, Blair, não eram especialmente radicais. Depois, porque várias questões mais "esquerdistas" tinham sido tomadas por novos partidos, como os Verdes, o mais radical Respect, e até o SNP da Escócia ou mesmo os liberais-democratas pré-coligação governamental. E acima de tudo porque boa parte da base em que assentava o "velho" Labour mudou completamente, como as chamadas "classes trabalhadoras", ou quase desapareceu, como a indústria mineira, da qual existem uns rudimentos saudosos.

Mas o que me espanta mais são algumas opiniões de Corbyn do que devem ser as relações internacionais do Reino Unido (que provavelmente preferiria que fosse república unida). Simpatia pelo Hamas e Hezbollah, apoios ao desaparecido Hugo Chávez, defesa do IRA, recusa em qualquer intervenção contra o chamado "Estado Islâmico", e um sentimento isolacionista eurocéptico e anti-NATO (agora já o disfarça, mas em anteriores discursos pronunciou-se tanto contra a UE como contra a NATO, com o desejo de as deixar). Nesse aspecto, o país seria efectivamente uma ilha, a não ser que planeasse algum projecto comum com a Venezuela ou outros estados com igual credibilidade. Sair da UE já traria custos económicos elevados (que opinião apoiará no referendo anunciado de 2017?). Sair da NATO, então quebraria o elo com os Estados Unidos que já dura há décadas - e que segundo McMillan e todos os que se lhe seguiram, era a melhor forma de substituir o império perdido - e com outros aliados e tornaria o Reino Unido irrelevante e à mercê de qualquer ameaça, a começar pelos territórios ultramarinos, embora o novo líder da oposição britânica pareça suficientemente lunático para considerar que as  Falklands deveriam ir para a Argentina mesmo contra parecer dos seus habitantes. Se o futuro do Labour com Corbyn já seria incerto, com estas ideias de política externa não é mesmo de crer que vá muito longe. Cameron e os Lib-Dem devem andar a correr todos os pubs para festejar a nova liderança trabalhista.

quinta-feira, setembro 17, 2015

O essencial sobre os refugiados sírios



Diminuíram um pouco esta semana, como tudo o que é meditático e tem de dar lugar a nova onda noticiosa. Mas continua a divisão a propósito dos refugiados de guerra, sobretudo sírios, e terá forçosamente de continuar. Não é apenas uma moda passageira: é a realidade a bater-nos à porta. Por isso mesmo, fico perplexo com a quantidade de campanhas anti-refugiados, misturando assuntos que nada têm a ver uns com os outros e comparações absurdas e informação descontextualizada ou simplesmente falsa. Basta andar pelas redes sociais para ver vídeos de manifestações de radicais islâmicos em cidades europeias ou de supostos refugiados a espalhar o caos, perguntas tão inteligentes como "porque é que eles não vão para a Arábia Saudita, que tem afinidades com eles?", ou "a Noruega é que é um exemplo, não constrói mesquitas enquanto a Arábia não deixar construir igrejas". O primarismo destas campanhas, bem ao estilo de grupos xenófobos, como o nosso PNR doméstico, é facilmente desmontável com uma breve leitura dos acontecimentos, como esta, ou uma pesquisa sobre a Síria. Infelizmente, parece que muita gente ainda julga que os refugiados sírios, sendo na sua maioria muçulmanos (mas não na totalidade), são todos um bando de fanáticos que pretende pôr bombas pela Europa fora, ou que os infiltrados do chamado "Estado Islâmico" são aos milhares.
 
Convinha saber que esta gente foge em grande parte devido precisamente ao "Estado Islâmico", sobretudo se são cristãos, xiitas, yazidis ou curdos de várias denominações. Noutros casos, foge da repressão da regime de Assad, dos jiadistas da frente Al-Nusra ou muito simplesmente de fogos cruzados e da destruição que assola a Síria há quatro anos. Essa parte será importante para quando surge a sacrossanta pergunta "então e os nossos? Tanta gente com privações ou sem casa e vamos ajudar os outros"? É muito louvável que se queira ajudar "os nossos", mas o problema não é certamente o mesmo: "os nossos" não têm grupos inimigos a disparar em todas as direcções, não vivem entre escombros de guerra e fogos cruzados, bombas ou fanáticos que matam todos à sua frente. Entre pobreza e guerra vai uma grande diferença.
Depois, os sírios não são todos muçulmanos. Parte significativa é cristã (são mesmo das comunidades mais antigas, com alguns falantes de aramaico bíblico) e entre os muçulmanos há inúmeras divisões. A brecha entre xiitas (alauítas, que dominam o poder e as forças armadas) e sunitas nota-se aqui particularmente, e o Irão e as monarquias do Golfo apoiam os respectivos aliados. Mas sejam muçulmanos, cristãos, drusos ou outros, o direito a serem assistidos é o mesmo.
Ah, e as comparações com a Arábia Saudita. Como se a Síria, com o regime castrador e violento que apesar de tudo tem, se lhe comparasse. Além de estar longe de ser unirreligioso, como o pais da dinastia Saud, e de serem proibidas manifestações públicas de outras religiões que não a sunita, não teve a sharia como lei de estado, nem consta que seja um hábito dos sírios, e o regime baathista sempre impôs uma laicidade sob uma cultura mais muçulmana. Não faltam igrejas, na Síria, e só mesmo por puro desconhecimento é que se considerará que a cultura entre os dois países é assim tão idêntica.
 
Por isso, quando virem campanhas sobre o perigo da islamização via sírios, é melhor desconfiar e ver as fontes. Nalguns casos, as mesmas até podem ter sido usadas, como o autor do vídeo em que se viam refugiados a recusar ajuda da cruz vermelha por causa exactamente da cruz. Até que se descobriu que o motivo nada tinha a ver com isso, mas com o facto de estarem há horas sob chuva intensa.
 
E para os que invocam "valores cristãos" para se opôr a todos os que fogem à guerra, recordo a leitura da epístola de Santiago, lido na homilia do último Domingo: "Que proveito há, meus irmãos se alguém disser que tem fé e não tiver obras? Porventura essa fé pode salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e tiverem falta de mantimento quotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito há nisso? Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma"

sexta-feira, setembro 11, 2015

Sobre migrações sírias



A propósito do "perigo de invasão islâmica" supostamente provocado pela vinda de refugiados sírios para a Europa, relembro que em tempos houve um outro grande fluxo migratório desse povo (e de vizinhos libaneses). Destino? Brasil. Instalaram-se sobretudo em S. Paulo, prosperaram, e hoje em dia constituem na sua maioria parte integrante da elite económica, social e política do Brasil. Não consta que lhes tenha dado para o terrorismo (a alguns, como o sr. Maluf, deu-lhes para a corrupção) nem para gangues de favela, e até houve sírios que inspiraram personagens de telenovelas famosas..



quarta-feira, setembro 09, 2015

Guia nada imparcial ou isento dos novos partidos para as eleições de 2015





Depois do Livre (e em certa medida do MAS, que é antes um reaparecimento da FER), temos o PDR e o também já cogitado Nós, Cidadãos, e outros, como formações políticas alternativas ao quadro existente até 2015. Vamos dar uma vista de olhos.


O Livre é a formação que demorou mais tempo a fermentar. É uma ideia com algum tempo, que Rui Tavares ia anunciando nas suas crónicas jornalísticas, desde que rompeu com o BE. Ou seja, um partido que nasceu aos poucos, pretendendo ser uma esquerda com quem o PS se pudesse coligar. Encontrado o nome, juntou-se-lhe alguns "dissidentes" mais moderados do Bloco, o grupo Manifesto, que contava com Daniel Oliveira e Ana Drago, a Renovação Comunista, um conjunto de figuras  públicas - actores, advogados como Sá Fernandes, políticos retirados como José Tengarrinha - e acrescentando o sufixo "Tempo de Avançar" e feitas umas primárias inovadoras mas estranhas (os candidatos a deputados podiam candidatar-se por três círculos diferentes), o Livre aí está, pronto a bater-se à esquerda para poder servir de eventual suporte a um governo PS. A avaliar pelas sondagens, não será fácil. Não há dúvida que é uma alternativa diferente, menos ideologizada, com menos teias de aranha, sem a presença de grupos com heranças de totalitarismos idos, mas a verdade é que o Bloco, no seu início, também apresentava uma imagem semelhante. Em todo o caso, há diferenças entre as duas formações. É importante que haja, já que o eleitor-alvo do Livre é claramente o moderado do BE ou a esquerda desiludida do PS.


O Nós, Cidadãos é um movimento que acompanhei desde a sua génese até à sua legalização, muito recente. Um grupo que partiu do Fórum da Democracia Real, dando origem a um movimento com denominação despolitizada, centrista, reclamando candidaturas de cidadãos ao parlamento, tal como acontece nas autarquias, e baseando-se em parte (como o nome e as cores o comprovam) no Ciudadanos espanhol. Tem como mentores Mendo Castro Henriques, Pedro Quartim Graça (ex-líder do MPT), Rui Rangel, Rosário Epifânio, entre outros, e apoiantes como José Cid. Tem também inúmeros seguidores nas redes sociais, embora, pelo que observei, muitos deles com ideias claramente contraditórias (apelos à abstenção, por exemplo), populistas, ou de simples conversas de café, talvez por em alguns pontos o movimento ser ainda nebuloso ou não se decidir se é europeísta ou não. A ver vamos.


O Juntos Pelo Povo nasceu e alcançou notoriedade na Madeira, conquistando a câmara de Santa Cruz nas últimas autárquicas. Diz-se um movimento nacional por causa da proibição da existência de partidos regionais, por isso as suas possibilidades fora do arquipélago são um enigma. Chegou-se a pensar que concorreria apenas na Madeira coligado com o Nós, Cidadãos.


O PURP - Partido Unido dos Reformados e Pensionistas, criado para defender esse nicho de pessoas, lembra-me outra sigla: PSN, tido no seu tempo, precisamente, como o "partido dos reformados". Chegou surpreendentemente ao parlamento, com Manuel Sérgio, e depois eclipsou-se. Com esse antecedente (até o símbolo, um sol, é igual) e a profusão de partidos que há agora, tenho sérias dúvidas que este PURP tenha grande sucesso.


Depois temos uma das candidaturas mais bizarras que tenho visto nos quarenta anos do actual regime: a coligação Agir. Começou por se chamar Juntos Podemos, uma cópia do partido de Espanha com o mesmo nome, em tudo igual, tendo como figuras de proa Joana Amaral Dias, Nuno Ramos de Almeida e Carlos Antunes (esse mesmo, o das Brigadas Revolucionárias). Mas ainda antes de ser legalizado houve uma cisão com o grupo dos precários de João Labrincha e acusações de que o movimento estava a ser sabotado pelo também recente MAS (a antiga ala esquerda do Bloco, de Gil Garcia), que enviaria militantes para votar nas assembleias do movimento. Amaral Dias e Nuno Ramos de Almeida resolveram então criar o AG!R (assim mesmo, com ponto de exclamação), mas talvez por falta de tempo para o legalizar, coligaram-se com o PTP (sim, de José Manuel Coelho e o do "ninja de Gaia), por sinal fundado por ex-militantes do PSD, ao qual se juntou não oficialmente o regionalista PDA, tido em tempos como de direita, e calcule-se, o MAS e o tal grupo dos precários - após a necessária reconciliação, imagina-se. Para além desta salada russa toda, a notoriedade não vai faltar com a já célebre capa de revista em que Amaral Dias surge nua e grávida, amparada pelo seu namorado, que provocou uma pequena tempestade mediática e desconforto dentro do próprio movimento. Duvida-se é que dê muitos votos. Segunda a própria, a gravidez de risco impede-a de fazer grande campanha eleitoral, por isso perde-se a oportunidade única de a ver em arruadas com José Coelho, até porque é pouco provável que um cocktail partidário deste tipo dure muito tempo.


E por fim, o PDR, Partido Democrático Republicano, do qual Marinho (e) Pinto é dono e senhor. A denominação lembra a de outro partido que dominou Portugal na 1ª república, cujo chefe incontestado era Afonso Costa, que tal como o ex-bastonário, era pouco dado a contraditórios e ideias com as quais não concordasse. Felizmente, Marinho (e) Pinto não domina as forças policiais. Mas além de fundar o novel partido à sua medida, depois de abandonar à pressa o Partido da Terra, pôs todo o tipo de barreiras a listas com as quais não concordava, o que levou à saída de Eurico Figueiredo e a mais uns quantos. Passou assim a dominar a formação (cujo mote é "liberdade, justiça e solidariedade") e candidatou-se por Coimbra, onde reside, garantindo que se fosse eleito abandonaria o Parlamento Europeu (que já zurziu por causa dos vencimentos dos eurodeputados, que continua a auferir). Como as sondagens não o aproximam sequer do número mínimo de votos para chegar a S. Bento, ganhou o pretexto ideal (ou chico-esperto) para permanecer em Estrasburgo. Ainda assim, e dada a notoriedade que ganhou, mesmo que tenha perdido popularidade, é provável que o PDR consiga um ou outro lugar na AR. Veremos por quanto tempo. É que se o PURP parece ser o novo PSN, o PDR assemelha-se a um neo PRD, outro partido semi-populista, constituído por trânsfugas de outras formações, com o objectivo de "moralizar a política portuguesa", e baseado em torno de uma figura com notoriedade. Sucede que o PRD tinha mais apoios e era o partido de Ramalho Eanes, na altura ainda chefe de estado, que tinha bem mais impacto e popularidade que Marinho (e) Pinto. Como sabemos, o PRD teve uma aparição estrondosa, com mais de quarenta deputados, mas esvaziou-se com o rápido passar do tempo, e meia dúzia de anos depois, já sem Eanes, perdia toda e qualquer representatividade, sendo ainda mais tarde tomado pelos nacionalistas (sim, o PNR). O efeito Marinho (e) Pinto pode muito bem ter-se esgotado nas últimas europeias.

domingo, setembro 06, 2015

Mais hipocrisias e o peso da história



Ainda reportando ao post anterior, se há coisa que me irrita profundamente é a eterna tentativa de culpabilizar ocidente por tudo quanto se mau há no mundo, como se outras civilizações fossem compostas por seres celestiais e amigáveis, onde não há maldade nem cobiça. Ao mesmo tempo, reconheça-se que o ocidente, muito embora seja motivo de inveja para outros, teve sérias responsabilidades (não equitativas entre os vários estados) nalguns dos piores problemas que o Mundo atravessa hoje.


Nesta crise de refugiados do Médio Oriente, há um país, em particular, que teve seríssimas responsabilidades e que é o primeiro a fugir delas: o Reino Unido. Em 1920, prometeu, pelo Tratado de Sèvres, um estado ao povo curdo, anulado pelo Tratado de Lausanne, de 1923, que riscou essas aspirações. No Mandato Britânico sobre a Mesopotâmia, até praticamente aos anos 40, juntaram sunitas, xiitas, assírios, curdos e outros no mesmo território que se tornaria no Iraque. Mais uma vez, a ideia de um estado do Curdistão ficou anulada. Muito mais tarde, os britânicos foram um dos esteios da invasão do Iraque de 2003, com os resultados conhecidos, e da Líbia, em 2001, e que indirectamente é uma das causas do êxodo de populações para a Europa. Verifica-se entretanto que é precisamente o Reino Unido um dos países mais renitentes e até hostis a receber refugiados, aproveitando-se talvez da sua condição semi-insular para os rechaçar, o que levou ao enorme acampamento em Calais. Depois de todas as suas responsabilidades nesta fuga em massa de África e do médio Oriente, as autoridades do pais que ergueu o maior império ultramarino de sempre, com possessões em todos os continentes, fecham-se a todos os que procuram auxílio, ao passo que os alemães, sempre tidos como os maus da fita europeus, perpetuamente recordados pelo seu papel funesto nas Guerras Mundiais, mas que não tiveram grande responsabilidade na actual situação, são os que mais lhes abrem os braços. Dá que pensar.



PS: exemplo flagrante do que escrevo no início do post é a recusa de outros países mais a Sul, sobretudo na Península Arábica, em receberem refugiados. Enquanto que no Líbano e na Jordânia esgota-se a capacidade de receber mais gente, os árabes do Golfo continuam a sua política de egoísmo extremo, ao fechar as suas fronteiras a quem foge da guerra (na qual esses mesmos estados têm evidentes responsabilidades). Se esta gente exigir algum tipo de solidariedade no futuro, para eles ou para outrém, que isto sirva de memória posterior.

quinta-feira, setembro 03, 2015

Hipocrisias e "raízes dos problemas"


No meio da vaga de refugiados de África e do médio Oriente que afluem à Europa e por ela tentam circular, nos apelos ao auxílio e nas formas de o fazer, ouço imenso falar na necessidade de atacar na raiz as causas que levaram à actual situação. Não me refiro à guerra no Iraque (que responsáveis políticos como Jerónimo de Sousa e Catarina Martins usaram à exaustão num questionário recente para falar nos refugiados, tentando tirar daí óbvios dividendos políticos), nem sobretudo à guerra na Síria, mas áquela conversa de que "se não tivessem derrubado Kadhafi não havia tanta gente a atravessar o Mediterrâneo". É verdade. O ditador líbio era um tampão à emigração subsariana e tentou usar isso como negociação e chantagem. Mas se não morriam no mar, milhares de pessoas morriam no deserto ou eram recambiados paras as terras de onde fugiam. Falar no antigo regime líbio como um bom instrumento para conter vagas migratórias não passa de outra hipocrisia bem-pensante para acalmar consciências. A diferença é que não teríamos de ver tantas imagens de miséria. Isso mesmo que a Europa esteja longe, bem longe, de ser a única que devia acolher tantos refugiados (outra hipocrisia). Pergunto-me o que farão as riquíssimas monarquias do Golfo Pérsico nestes casos.

Mas falando ainda na resolução deste problema indo às suas raízes, será este um bom exemplo de como o fazer, entre outros?

segunda-feira, agosto 31, 2015

We´ll always have Astúrias beaches








E o solo sagrado de Covadonga também, por isso um dia lá iremos

segunda-feira, agosto 17, 2015

O Verão na Beira interior



Andar pela Beira interior em pleno Agosto pode ser uma proposta interessante. Se for para trabalho rural, na terra, literalmente, mais ainda. O trabalho no campo não tira férias, há que limpar terrenos, regar culturas e em Setembro é tempo de colheitas. Tudo nas horas em que o calor aperta menos, ou seja, entre o meio da manhã e o meio da tarde o sol dá menos tréguas. Pelo meio, vê-se o fenómeno dos emigrantes de volta à terra, as festas populares, a animação cultural proporcionada pelos municípios, e testemunha-se, mesmo que à distância, o grande flagelo do Verão: os incêndios.
E claro, é também um oportunidade de conhecer vilas e aldeias da raia, normalmente fortificadas, muitas com o sufixo "castelo" no nome (Castelo Rodrigo, Castelo Mendo, Castelo Bom, Castelo Melhor), que depois de décadas ou séculos de decadência, estão de novo reavivadas com o turismo e com algumas formas de comércio. A antiquíssima Trancoso, terra do Bandarra, a isolada Pinhel, ("guarda-mor de Portugal", cidade desde o século XVIII e antiga diocese), essa extensa fortificação que é Almeida, Sortelha saída da rocha, o Sabugal, o seu castelo das cinco quinas, as suas capeias arraianas, que têm lugar nesta altura nas aldeias do concelho, e a serra da Malcata, a vigia dos Castelos de Celorico e de Linhares, a fortíssima Sé da Guarda, a dominar a cidade, rodeada por casas nobres, torreões, a judiaria e a taberna do Benfica, as velhas aldeias fortificadas entre a Guarda e Vilar Formoso, Castelo Rodrigo, a pequena Ávila, lá em cima do distrito e do monte que coroa, com as ruínas do palácio de Cristóvão de Moura como se de um chapéu se tratasse, e antes, a aldeia abandonada do Colmeal, cujos habitantes foram despejados num dos mais insólitos casos judiciais, onde agora se constrói um "countryside hotel". Sim, isso tudo e muito mais é a Beira Alta, e só no distrito da Guarda. E ao lado ainda há Espanha e a muitas vezes esquecida mas muito recomendável Ciudad Rodrigo. São os "meses de inferno", mas suportam-se mais do que os meses de Inverno.





domingo, agosto 16, 2015

Recordações da política vilarrealense numa semana amarga





As confusões com a campanha do PS custaram a cabeça ao responsável pela mesma, Ascenso Simões. Por coincidência, outro acontecimento, também nos últimos dias, levou-me a recordar os primórdios da carreira política do ex-Secretário de Estado de António Costa.


Nas autárquicas de 1993 (em que o actual líder socialista concorreu à câmara de Loures, sem êxito, com a célebre campanha do burro e do Ferrari), o jovem Ascenso era a aposta do PS para a conquista da câmara de Vila Real, dominada pelo PSD e cujo único presidente desde os anos setenta, Armando Moreira, se retirava. Pelo partido dominante apresentou-se o vereador Manuel Martins, tido como titubeante e pouco popular. Previa-se um combate renhido entre o candidato inexperiente e o homem do PSD. Lembro-me de ver Ascenso, numa tarde de chuva, com uma mini-comitiva atrás, de cabelo cuidadosamente penteado com gel e pesados óculos a entrar no estabelecimento semi-rural onde a minha família se abastecia, com ar simpático mas rígido, claramente pouco à vontade com a função.
Apesar disso, e dado o candidato laranja também não estar à vontade, acreditou-se que o PS conseguiria mesmo roubar aquele bastião laranja, até porque o CDS apresentava uma boa candidatura e tinha as suas ambições. Até António Guterres se deslocou a Vila Real para ajudar o candidato, que acabou o comício com lágrimas de emoção. No fim, o PSD manteve a câmara por uma unha negra, o PS contentou-se em dividir os vereadores com a maioria e o CDS conquistou apenas um lugar na vereação, ficando como fiel da balança (seria a última vez, até hoje, a conquistarem um lugar no executivo local).
Manuel Martins revelar-se-ia um muito razoável presidente da câmara, lançando obras de vulto, como o teatro, uma rede de museus e o parque fluvial, e moderando um pouco o caos urbanístico de que Vila Real sofria - e ainda sofre. Nas autárquicas seguintes, reeditou-se o combate entre Martins e Ascenso, mas o autarca em funções venceria sem dificuldades, arrasando o CDS e tirando votos ao PS. Depois, a história é conhecida: Ascenso tornou-se líder do PS vilarrealense, passou pelo parlamento e chegou ao Governo de José Sócrates tendo António Costa como ministro, até à saída deste para a CM de Lisboa (ficaram célebres as pancadas amigáveis que o transmontano desferiu sobre Costa, com a emoção, na tomada de posse). Tornou-se uma figura respeitada e ouvida nos órgãos nacionais do partido, de tal forma que o escolheram para coordenador geral da campanha eleitoral que se avizinha. Manuel Martins permaneceu na câmara de Vila Real durante vinte anos, até 2013, em que não se recandidatou por atingir o limite de mandatos. O PS aproveitou e conseguiu por fim conquistar um município que havia quase quarenta anos estava nas mãos do PSD, pelas mãos de Rui Santos.


Lembrei-me dos dois antigos adversários por causa da semana nefasta que os apanhou. Ascenso Simões teve de se demitir do cargo de coordenador da campanha depois dos imensos casos que surgiram, com destaque nas pessoas que apareceram nos outdoors sem terem dado autorização. A sua carreira, que indicava até que seria "ministeriável", sofreu agora um rombo enorme. Mas pode não ser o seu fim. Pior só mesmo Manuel Martins, que morreu subitamente a meio da semana, com apenas 73 anos, quando se encontrava de férias. Ninguém poderia adivinhar que tantos anos depois os dois antigos adversários de Vila Real seriam notícia na mesma semana por tão más razões.

terça-feira, agosto 04, 2015

O(s) meu(s) primeiro(s) encontro(s) com a Volta a Portugal


Dois dias seguidos, dois encontros com a Volta a Portugal em Bicicleta em locais absolutamente distintos (Vila Real, a caminho do Alvão, e Caminha, na marginal, onde já não deviam passar desde os anos 80, segundo dizem), e acima de tudo sem contar com isso. Vale a pena dizer que nunca antes tinha visto a Volta à minha frente. Não há fome que não dê em fartura.