sábado, agosto 31, 2013

Entretanto, a bola volta a rolar


O derby de amanhã contra o Sporting, que entrou no campeonato a matar, é tudo menos propício, mas terá de ser ultrapassado. Se o problema actual é Jorge Jesus, então mais vale lembrar que com ele o Benfica já venceu a lagartada por sete vezes, e perdeu apenas uma. As estatísticas valem o que valem, mas à falta de melhor, temos de nos agarrar a alguma coisa.
 
A vitória no último suspiro contra os de Barcelos deu talvez novo ânimo ao Benfica 2013-2014, mas não resolveu de maneira nenhuma os problemas, que, repito, se devem acima de tudo à permanência de um Jesus desgastado e fora de prazo. Os sérvios resolveram, claro, e ninguém lhes nega qualidade, mas o Benfica não pode contar apenas com eles (sobretudo se houver saídas, coisa que parece inevitável). De qualquer modo, se o balão de oxigénio tiver servido para alguma coisa, Salvio estiver em forma e Markovic apto a jogar, as esperanças em surpreender o Sporting aumentam consideravelmente. A propósito, o rapazinho que veio do Partizan continua a mostrar que é uma escolha acertada. Ainda diziam que o Benfica estaria interessado no Bruma, que até joga na mesma posição. Mas para que raio quereríamos o Bruma?
 
Entretanto, o sorteio para a Liga dos Campeões, em que reaparecemos no pote 1, pôs-nos de novo na rota do Paris Saint Germain, agora em versão patrocinado pelos petrodólares do Qatar. Contra Ibrahimovic, Lavezzi, Cavani e Thiago Silva, o Benfica terá um enorme desafio para evitar tantas ameaças. Pontos a favor: os emigrantes que vão sempre aos milhares dar o seu apoio, e as ridículas regras politicamente correctas, que os responsáveis do PSG resolveram estabelecer aos seus associados, e que pretendem fazer do estádio uma solene sala de ópera (um destes dias escrevo sobre isso).
Contra o Olympiacos, não faltam argumentos desportivos. Será preciso que os jogadores se abstraiam do ambiente infernal que vive sempre que o clube do Pireu joga em casa, e afastar a memória da última visita áquele estádio (que de bom só teve esta sátira). Esperança: que Roberto, recentemente transferido para o clube dos estivadores de Atenas no estranho negócio com o Atlético de Madrid, jogue e retribua alguns dos frangos que sofreu ao serviço do Benfica.
O Anderlecht é um clube de história respeitável, e o confronto que servirá para desempatar os resultados entre belgas e portugueses. Os mauves não são um adversário muito temível, nem têm uma equipa comparável com a do Benfica, mas contam com um ponta de lança sérvio muito promissor que fazia dupla com Markovic no Partizan.
 
Pede-se que passem à fase de eliminatórias. Num ano atribulado, já seria bom, e seria sempre um encaixe financeiro simpático. Tudo o que for para além disso é brinde.

sexta-feira, agosto 30, 2013

Obama e Hollande querem-se mesmo queimar?


Não tenho a menor dúvida de que o regime baathista de Assad, se não lançou um ataque químico, não seria por falta de vontade que evitaria fazê-lo. Afinal de contas, o regime irmão de Saddam divertia-se a gasear insurgentes no Iraque, e o pai Assad nunca teve hesitações em esmagar qualquer revolta através dos meios mais brutais.
 
Mas desconfio das "acções" que algumas potências ocidentais preparam para evitar acontecimentos como os verificados nos últimos dias. Recordo que em 2001 a resolução da ONU destinava-se apenas a criar uma zona de exclusão aérea para evitar que a aviação do regime líbio massacrasse os revoltosos, mas a França e o Reino Unido aproveitaram para efectivamente derrubar Kadhafi, apoiando os "combatentes pela liberdade", e com isso espalhar o caos. Agora observam-se novas complacências para esses mesmos combatentes, desta vez na Síria, mesmo que muitos sejam jihadistas que não hesitam em, por exemplo, executar publicamente frades e outros "infiéis". Isso parece pouco importar a Hollande e Obama - poderia falar em Cameron, mas avisadamente a Câmara dos Comuns recusou qualquer intervenção militar na Síria. Obama e Hollande, tão incensados aquando das respectivas eleições, preferem teimosamente avançar para o terreno. Surpreende sobretudo no francês, que depois de intervir (aí sim, com todo o propósito) no Mali, parece não perceber a nebulosa intensa em que se vai meter. Ou será que o "homem simples" afinal de contas já está acometido da síndrome da "grandeur de France", que desde De Gaulle não cessa de perseguir os presidentes do Hexágono?
 
As nações europeias deviam era preocupar-se com a quantidade de milicianos jihadistas nascidos no seu território, e que depois de doutrinação religiosa  em campos educação e madrassas no Paquistão, seguiram para o terreno para combater o regime de Assad, envolvidos em redes extremistas islâmicas. Novas serpentes podem estar a sair de imensos ovos aqui à nossa porta. Quanto a Obama, arrisca-se a perder todas as credenciais que apressadamente lhe deram (lembram-se do Nobel da Paz?). Entre Assad, o Irão e o Hezbollah, e os jihadistas apoiados pela Arábia Saudita, venha o Diabo e escolha. Mas o demo, que já lá anda há dois anos, parece estar com dificuldades em decidir-se. Esperemos que não tenha soprado ao ouvido de Obama e Hollande.
 
 

domingo, agosto 25, 2013

Imagens dos dias que correm


 



Os dias correm quase literalmente, levados pela furiosa nortada que sopra aqui pelo litoral do Minho. Por um lado é bom, porque revigora as mazelas resultantes das festividades populares que aqui há quase diariamente, de Caminha a Ponte da Barca. Por outro, levam tudo pelo ar, proíbem oficiosamente a entrada na praia e fazem-nos dar voltas à cabeça sobre como ocupar o tempo (alternativas não faltam, falta é decisão a tempo e horas). Agora que cheguei aos 35, a antiga "meia-idade", devia começar a organizar mentalmente melhor o meu tempo, de forma a perdê-lo menos, coisa que faço com mestria. Por estes dias, entre praias, nortadas, viras e gastronomia local, também se perdem muitas horas a olhar para ontem. Mas afinal de contas, as férias são isso mesmo. E pelo meio vou encontrando coisas novas nestas terras que conheço desde sempre, como trechos do Caminho Português da Costa -  de Santiago - que passam entre o mar e as floresta e nos quais nunca tinha reparado. Vendo bem, os dias que correm não são tempo nada mal gasto.


 

segunda-feira, agosto 19, 2013

A tirania militar de volta ao Egipto




No Egipto, a efémera "Primavera Árabe" esfuma-se a olhos vistos. A deposição de Morsi não resultou em nenhuma "agora sim, democracia" com que alguns líricos sonhavam. Afinal de contas, o presidente tinha sido eleito por mais de metade dos eleitores, e a sua deposição seria sempre antidemocrática, por muito que as suas origens na Irmandade Muçulmana provoquem desconfianças. Quiseram instalar um governo "laico" no seu lugar e as consequências estão à vista: protestos em massa dos apoiantes do presidente deposto, reacção duríssima por parte das forças armadas, centenas (ou milhares?) de mortos nas ruas, e agora até a ameaça dos militares em ilegalizar de novo a Irmandade Muçulmana e os partidos que dela fazem parte, e que tiveram os votos de mais de metade dos egípcios. Por causa disso, Mohamed el-Baradei já se demitiu do cargo de vice-presidente interino. Aquilo a que assistimos não é uma democratização do país, já que isso só poderá acontecer com a inclusão dos islamitas, nunca os marginalizando: o que se passa é que o Egipto está à beira de voltar a ser um regime militar, com até 2011, porventura mais duro do que era antes da queda de Mubarak. Aqueles que aplaudem a intervenção das forças armadas, incluindo as suas acções mais violentas contra supostos extremistas islâmico,s estão na realidade a caucionar um regime igualmente tirânico e sem real base popular. Não é mais "democrático" ou pluralista massacrar cristãos, islamitas, apoiantes dos militares ou liberais. Em qualquer dos casos, estamos perante medidas despóticas e tirânicas. Parece que não se lembram do lamentável casos da Argélia, em que depois de anularem as eleições ganhas pelos islamitas e ilegalizarem os partidos vencedores, se verificou uma feroz guerra civil que deixou marcas profundas no país. além disso, como se pôde verificar durante o século XX nas "democracias populares", os regimes laicos não são necessariamente mais benignos que os religiosos. Entre Saddam e Khomeiny, viesse o diabo e escolhesse. Ao menos Morsi não quis ilegalizar partido algum. Aguentem-se agora com o regresso da ditadura militar.

domingo, agosto 18, 2013

A época começou como se imaginava



Começou a época 2013-2014. Não tive tempo de fazer um pequeno apanhado do que possa ser o Benfica desta nova época, mas também não era preciso, porque a equipa começou exactamente como o previsto: perdendo. Se nas outras épocas o Benfica empatava sempre na primeira jornada, desta vez conseguiu perder num terreno difícil mas onde até tem alcançado bons resultados. A equipa não jogou horrorosamente mal, não tinha Salvio e Markovic, não jogou pior que o adversário e ainda contou com a habitual arbitragem prejudicial do duvidoso Jorge Sousa. Mas teve uma incrível falta de objectividade no momento do remate, jogou atabalhoadamente e em alguns momentos muito devagar e teve novos erros defensivos que foram fatais. Jorge Jesus, mais uma vez, parecia longe...
 
A pré-época já deixava o credo na boca, mas desde que se soube que Jesus tinha renovado por mais dois anos, com o mesmíssimo (e alto) salário, depois do final calamitoso da época passada, que se previa que a coisa não ia correr bem. A querela com Cardozo, o homem de área do Benfica dos últimos anos (e o mais influente em duas décadas), cujo problema ficaria resolvido "até 17 de Julho", mas que se arrasta indefinidamente, deixou um balneário tenso, um goleador desaproveitado e despeitado e uma enorme ausência na frente de ataque. As aquisições duvidosas (Mitrovic, Fariña, Loló) misturam-se com as acertadas (Markovic) e com as que se espera que venham a render, dada a qualidade técnica dos jogadores (Sulejmani, Lisandro Lopez). Há excesso de jogadores no plantel e quase nenhuma venda para equilibrar as finanças e pagar os avultados empréstimos; existe o receio fundado dos melhores saírem no fim da época de compras, deixando a equipa coxa; os jogadores formados no clube, mesmo os que demonstram qualidade, como Miguel Rosa, são dispensados em proveito de estrangeiros desconhecidos; realizam-se negócios obscuros, torneando a boa fé comercial e a dos sócios, como a estranhíssima troca de Roberto (que se julgava do Zaragoza) por Pizzi, do Atlético, e imediato empréstimo deste ao Espanhol de Barcelona; e a relação entre os jogadores e um treinador desgastado e esgotado, que parece que ficou apenas para amealhar um bom pé-de-meia, parece tensa q.b.
 
Assim sendo, a derrota não surpreende. Até pode haver queixas a fazer da arbitragem, mas é sabido que quando o Benfica está mais frágil isso acontece com maior frequência. O grande culpado não se chama Jorge de Sousa, mas Jorge Jesus, um treinador que está a mais e que se tivesse a convicção do seu dever, teria saído pelo próprio pé, em lugar de ser sustentado pela vontade teimosa de Luís Filipe Vieira. Se se aguentar pouco tempo no banco, como alguns prevêem, contra a sua vontade, que seja Vieira a pagar-lhe a indemnização. Os benfiquistas estão fartos das humilhações causadas pelas invenções do mister, da bazófia, das mãos cheias de nada, das desilusões constantes. Se já se concluiu que a época começou torta e jamais se endireitará, então ao menos que as finanças do clube sejam poupadas das opções de Vieira. É o mínimo. Se nem isso se cumprir, então terá que haver uma seriíssima mudança no clube.

quinta-feira, agosto 15, 2013

Gibraltar ou os telhados de vidro espanhóis

 
A polémica internacional deste Verão é o regresso à questão de Gibraltar. Espanha decidiu apertar o controlo fronteiriço ao "rochedo" em resposta a uma barreira de blocos de cimento que impedirá a passagem dos barcos de pesca espanhóis. Agora, filas e filas de carros esperam para sair de Gibraltar. O Reino Unido já reagiu, e o habitual desbocado Boris Johnson, Mayor de Londres e possível futuro líder do Partido Conservador, atroou aos espanhóis um Hands out of our rock, com o seu peculiar estilo, através do Telegraph.
 
A verdade é que Gibraltar é uma zona franca, que domina a entrada do Mediterrâneo e ocupa uma posição estratégica de relevo (passe a piada com a altura do rochedo), como se verificou na Segunda Guerra. Não é muito cómodo para Espanha e para todos os que pretendem acabar com o colonialismo, uma vez que se trata de uma autêntica colónia. Mas nunca percebi esses ímpetos anti-colonialistas quando os próprios "colonizados" não pretendem mudar de situação. No caso particular de Gibraltar, tratou-se da cedência daquele espaço à Grã-Bretanha no culminar da Guerra da Sucessão de Espanha, (muito embora as pretensões espanholas tivessem vencido, com ascensão de Filipe de Anjou ao trono), a título perpétuo, excepto por vontade britânica, há precisamente trezentos anos. O Direito Internacional retira por isso qualquer fundamento a Espanha, e mesmo que nos anos sessenta (numa época em que muitos estados do Terceiro Mundo alcançaram a independência e dirigiam o seu voto contra os antigos colonizadores) a ONU tenha feito aprovar uma declaração sobre a necessidade de rever o estatuto de Gibraltar, o certo é que os locais decidiram, por um quase consenso, em conservar-se tal como estavam. Alguém se atreve a contrapor os princípios da contiguidade dos estados e do anti-colonialismo ao do primado do Direito e da autodeterminação?
 
Pelos vistos, Espanha atreve-se, como se fosse um país recente do Terceiro Mundo e não uma das maiores potências coloniais de sempre. Para mais, resolveu pedir a colaboração da Argentina, lembrando-se das pretensões de Buenos Aires sobre as ilhas Falklands, que estão numa posição semelhante à de Gibraltar (ou seja, a população local não tem a menor ideia de trocar a jurisdição de Londres pela da Argentina). Pena que não se tenha lembrado que os argentinos já fizeram uma manifestação de força que redundou em humilhação e derrota, levada a cabo pela sinistra ditadura militar, numa fuga para a frente de nacionalismo para ganhar popularidade. Em diferente situação, mas também a precisar de balões de oxigênio de popularidade como de pão para a boca. o Governo de Mariano Rajoy, escaldado pela caso Barcenas, precisa de uma pequena trica internacional. Não se lembrou que os argentinos acabaram da pior forma. Claro que ninguém está à espera de uma batalha naval, de uma invasão do rochedo pelos Tercios, nem por um novo Drake e destruir a armada espanhola. O que a Espanha pode ganhar é uma nota de rodapé de ridículo na história deste Verão, já que nada parece sustentar as suas pretensões, e muito menos o caso argentino. Para mais, têm telhado de vidro de sobra: Ceuta, ali em frente, e Melila, também são exigidos por Marrocos (já viram se os espanhóis controlassem ambas as portas do Mediterrâneo, Gibraltar e Ceuta?). E a isso ainda podíamos acrescentar o caso da "nossa" Olivença, onde ainda há réstias de língua portuguesa e que os tratados internacionais nunca atribuíram aos vizinhos. Problemas de sobra para quem exige um território como se fosse um pobre país explorado por todos. Até os mitos estão contra Espanha, neste caso: diz a tradição que Gibraltar, território onde coexistem espanhóis e ingleses, judeus e marroquinos, portugueses e genoveses, pertencerá à Grã-Bretanha enquanto houver macacos (os únicos da Europa em liberdade)  no rochedo. Se Espanha não estiver disposta a fazer um crime ambiental...
 
 

quarta-feira, agosto 07, 2013

O Jocker bloquista de Bessa Leite


Sigo afanosamente campanhas eleitorais, sou a favor de criatividade e imaginação (e se for sem o auxílio de empresas de marketing e imagem mais valor terão), de frases e imagens criativas e apelativas do potencial eleitor, não só para apelar ao voto mas para fazer germinar uma qualquer ideia na cabeça do passante. Mas há algumas que de tão originais acabam por ser de gosto duvidoso. É o caso do cartaz do candidato do Bloco à Câmara do Porto, José Soeiro, pintado na rotunda de Bessa Leite. O slogan tem o seu interesse, embora seja claramente direccionado para o habitual votante bloquista. Mas aquela cara do candidato lá estampada tem qualquer coisa de animalesco e apalhaçado ao mesmo tempo. Se fizermos uma metáfora cinematográfica, faz lembrar o sinistro Jocker, na versão Eath Ledger, ou o Chewbaca de A Guerra das Estrelas. Bem sei que os cartazes do Bloco nem sempre primam pela elegância estética, mas este, que foi certamente pensado e delineado com alguma preparação, até porque é exemplar único, faz com que se pergunte que raio terá passado pela cabeça de Soeiro e dos artistas que pintaram isto. Em tempos, o PSR, espinha dorsal do actual BE, tinha campanhas imaginativas e que atraíam a atenção, mesmo que os resultados eleitorais fossem inconsequentes. Agora, a tradição da criatividade mantém-se, mas com campanha tão esquisita, dá-me ideia que os resultados também não vão ser famosos. Nas autárquicas elegem-se pessoas, senhores directores de campanha do Bloco, não vilões de banda desenhada.
 
 

segunda-feira, agosto 05, 2013

Símbolos dos eighties que se vão

 
 
Os anos oitenta registaram grandes perdas nos últimos dias de Julho. Não só Fernando Martins, o presidente do Benfica que teve a brilhante ideia de contratar Eriksson (com o êxito que lhe é reconhecido), fechou o grandioso terceiro anel da Luz e recuperou a moral a uma equipa que tinha acabado de perder 7-1 para o seu maior rival, levando-a a conquistar o título daquele ano. Também desapareceu Dennis Farina, habitual em séries policiais, que ora fazia de gangster, ora de polícia. Foi precisamente no papel de um cop, o temerário Mike Torello, que protagonizou uma famosa série policial dos anos oitenta, Crónica do Crime (ou Crime Story), numa América pujante e mitificada dos anos cinquenta, sempre numa luta interminável de morte contra o impiedoso vilão Ray Luca, e que teve um final algo abrupto. Lembrei-me precisamente da série e da sua banda sonora quando soube da sua morte. Ficou o genérico, como recordação.
 
 

Pibulls e juízes a iniciar a silly season


A silly season está aí, não haja dúvida. Mal chegou Agosto e surgiram logo notícias a comprovar a época com estrondo, em situações caracterizadas pela total ausência de bom senso e lucidez mínima.
 
A notícia da entrega provisória do célebre Zico - o pitbull que matou uma criança em Beja, há meses - à associação Animal, por força de uma providência cautelar, para o "reeducar", levou a sua dirigente máxima à total excitação, de tal forma que decidiu rebaptizar o animal de "Mandela". Razão?  Segundo os animalistas, "tal como o líder sul-africano este cão também é um símbolo de liberdade. Esteve preso sete meses sem saber porquê, tal como Mandela esteve preso mais de duas décadas". Não me lembro de ver o autêntico Mandela a estraçalhar criancinhas, nem me parece que o cão tenha promovido a paz e a reconciliação entre comunidades, mas é difícil pedir discernimento a esta gente, obcecada que está em proteger tudo o que é "pessoa não-humana" (parece que os indianos, que tratam melhor as vacas do que as crianças, têm a mesma ideia). Mas e se a acção principal não proceder, a providência cautelar (que, recorde-se, tem efeitos provisórios e temporários) caducar, e o cão for mesmo abatido, que irá dizer a Animal? Foge com o cão? Dá-lhe o nome de Cristo ou de um mártir qualquer, passando o referir-se-lhe como uma vítima da luta pela "causa animalista"? Valha-os Deus...
 
No mesmo dia, outro caso, o da decisão do tribunal da Relação do Porto, que obrigou uma empresa a reintegrar um trabalhador que tinha sido despedido por estar com um grau excessivo de álcool no horário de trabalho (e ser protagonista de um acidente, com outro colega também com os copos). Pode-se discutir se o despedimento seria ou não uma sanção demasiado gravosa, mas atente-se no acórdão, de uma tribunal que até já absolveu um violador comprovado: "Note-se que, com álcool, o trabalhador pode esquecer as agruras da vida e empenhar-se muito mais a lançar frigoríficos sobre camiões, e por isso, na alegria da imensa diversidade da vida, o público servido até pode achar que aquele trabalhador alegre é muito produtivo e um excelente e rápido removedor de electrodomésticos". Se isto fizer jurisprudência, bem podemos ir todos aos bordos para o respectivo trabalho para "esquecer as agruras da vida" e ser mais "produtivos". Aliás, se acreditam tão piamente no que decidiram, os doutos juízes da Relação deviam seguir o seu próprio acórdão, para se empenharem e ficarem mais produtivos, de forma a acelerar os procedimentos da justiça e tirá-la da sua eterna morosidade. É de perguntar se não teriam experimentado tal método alcoólico quando redigiram o acórdão. Não me espantava nada.

PS: para completar o ramalhete, ainda tivemos o caso de Américo Piçarreira, um assassino condenado a vinte nos de cadeia por matar uma mulher e os dois filhos menores num assalto (mas que beneficiou de uma redução de pena), que entretanto já tinha fugido outra vez e feito uma data de assaltos, e que agora fugiu de novo aproveitando uma precária, com ameaças de morte a quem o tentasse capturar. Felizmente apanharam-no antes que conseguisse fazer mais vítimas. Gostava de saber quem são as bondosas autoridades responsáveis pela liberdade temporária de um infanticida que mostrou por mais do que uma vez estar longe da redenção. A Justiça, para cumprir o seguimento escrupuloso da Lei, precisa antes de mais de bom senso. É por não o haver que acontecem casos aberrantes como estes (ao passo que um ladrão de galinhas tem muitas vezes menos sorte). Esqueceram-se disso nas aulas do CEJ ou não faz parte da formação?

sábado, agosto 03, 2013

Resumidamente, Rio partiu tudo


A entrevista que Rui Rio deu à RTP acabou por ser muito mais contundente do que eu esperava. Críticas implícitas ao governo e à candidatura de Menezes, apoiada pela clique mais aparelhista do partido, seriam expectáveis. Mas o que se ouviu foram torpedos directos ao alvo: Maria Luís Albuquerque, a quem Rio não reconheceu condições nem "capacidade" para o cargo que ocupa (pela história dos swaps, da SRU, e não só); o próprio PSD, que acusou de apoiar uma política municipal durante 12 anos e querer vir agora defender o contrário; e Menezes, evidentemente, que teme que vá "destuir tudo o que fizeram em 12 anos", deixar um problema gigantesco em Gaia e a quem acusou de lhe fazer oposição por tudo e por nada, mais que a própria oposição. Se dúvidas havia do que Rui rio pensava do PSD actual, e sobretudo de quem o seu partido quer pôr à frente da câmara do Porto, ficaram agora completamente desfeitas. Será difícil substituir a Ministra das Finanças quando só ocupou o cargo há um mês, mas ao menos que os eleitores do Porto tenham compreendido o que os espera caso o bipolar Menezes ganhe, por desgraça, as próximas autárquicas. E se alguém quisesse um resumo do que Rio disse na entrevista, bastaria duas palavras: partiu tudo.

terça-feira, julho 30, 2013

O Imperador e a rendição

 
 
 
Já deve estar a sair das salas de cinema, mas há que dizer que nesta época em que quase só se encontram blockbusters de super-heróis recauchutados, comédias requentadas e fitas animação (nada contra, excepto reincidirem em chamar Smurfs aos Estrumfes), o filme Imperador é um autêntico oásis.
 
Não faltam toneladas filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. Do pós-guerra na Europa, esses anos tão duros de renascimento das cinzas,  encontram-se alguns clássicos como O Terceiro Homem, Ladrões de Bicicletas, ou mais recentes, como O Bom Alemão, de Soderbergh, por exemplo. Mas acerca do Japão, da sua rendição, as enormes mudanças políticas e militares, a reconstrução depois do pesadelo atómico sobre Hiroshima e Nagasaki, e o milagre económico que se seguiu, pouco há, a não ser Hiroshima meu Amor. É possível que haja outros, até na filmografia japonesa, mas desconheço por completo.
 
Em Imperador, o cenário de destruição e de humilhação pela derrota está sempre presente. Os americanos sentem-no, mas querem varrer por completo o espírito militarista japonês, sempre com Pearl Harbour na memória. Mas o que realmente se nota é a força das instituições e dos cerimoniais, e o carácter divino e inalcançável do Imperador Hirohito, que nunca se deixava ver, e muito menos recebia estrangeiros na sua presença. A sua voz tinha-se ouvido pela primeira vez na rádio, para enorme espanto e terror dos japoneses, anunciando a rendição - mas sem nunca usar essa palavra. Mas o Imperador mantinha-se longe da vista, no seu palácio. A enorme desafio das forças americanas, chefiadas pelo truculento Douglas McArthur (interpretado por Tommy Lee Jones), e obter dados que provem ou não que Hirohito teve responsabilidade na desencadear das hostilidades, nomeadamente nos ataques de Pearl Harbour, e se consequentemente deve enfrentar o Tribunal como criminoso de guerra, o que poderia levar à pena de morte (aplicada de resto a Hideki Tojo e outras altas figuras do regime militarista japonês). E nesse caso, a uma revolta generalizada dos nipónicos e a impossibilidade de reconstrução do país, unido em torno da figura do Imperador.
 
Como se sabe, as provas foram inconclusivas. O filme mostra isso mesmo, de forma competente. Pelo meio também aparece a costumeira história de amor, para dar um toque de "romantismo" e assim quebrar o ambiente cinza de destruição. Até hoje, não se sabe se Hirohito terá tido real interferência no desencadear da guerra. Mas teve com toda a certeza no advento da paz. Quando se decidiu pela rendição, e por anunciá-la aos nipónicos via rádio, enfrentou a ira dos ultras do regime, para quem render-se era impensável, e para quem a honra militar estava acima do próprio Imperador, contra quem desencadearam até um motim. Mas após a inaudita declaração radiofónica (note-se que ainda hoje é muito raro o Imperador falar aos japoneses, como aconteceu com os desastres de Fukushima), o Japão, completamente arrasado, teve de hastear a bandeira branca. Hirohito aceitou as condições que lhe ofereciam, e até quebrou todos os protocolos ao aceitar encontrar-se com McArthur, apertar-lhe a mão, deixar-se fotografar ao seu lado e declarar-se único responsável pela guerra, se tal servisse para ilibar o seu povo. O general americano, sabiamente, poupou-o a qualquer julgamento, mas com a Constituição imposta pelos americanos, o Imperador passou a ser um monarca constitucional e não já uma figura divinizada e quase imaterial. Ainda assim, manteve-se no trono do Crisântemo até à sua morte, em 1989. Pôde assistir ao completo renascimento do seu país e à sua ascensão como uma das mais fortes economias globais. Apesar das dúvidas que se mantêm sobre o seu real responsabilidade na guerra e nos crimes cometidos pelo Império, a sua decisiva intervenção na rendição e na derrota dos mais fanáticos militaristas permitiu salvar o Japão de desgraças ainda maiores. E indubitavelmente, ao humilhar-se perante o inimigo e aos aceder à perda do estatuto de que gozava até aí, também a ele se ficaram a dever as décadas de ouro que os japoneses viveram depois da guerra que desencadearam e que quase os aniquilou.
 
 

sexta-feira, julho 26, 2013

Santiago manchado


A tragédia aqui ao lado, em Santiago, impressiona não só pela proximidade e pelos números brutais (já iam em oitenta mortos, e ainda há vários feridos graves), mas também pelas aparentes causas do acidente - a passagem numa curva a mais do dobro da velocidade aconselhada, o que parece demonstrar que podia perfeitamente ser evitado. Mas impressiona também por acontecer logo na véspera do dia de Santiago, o dia nacional da Galiza. E u próprio estive para ir a um evento ligado ao Caminho Português de Santiago, propositadamente marcado para hoje. Um desastre destes é sempre atroz, mas não consigo imaginar época pior para acontecer. Durante os próximos anos, este dia, por norma de alegria e comemoração, e de grande afluência de peregrinos nos anos de Xacobeo (quando o dia 25 calha num Domingo), vai certamente empalidecer.
 


(Na foto acima, evocação de Santiago Matamouros, frontaria da Igreja de Santiago, Tavira).

 

quinta-feira, julho 25, 2013

Corrigindo erros antigos



A nova composição do governo - afinal de contas aquilo que estava previsto antes da intervenção de Cavaco Silva - tem algumas vantagens. A divisão dos Ministérios da Agricultura e do ambiente em dois titulares é a correcção de um disparate que só teve lugar por causa do tacticismo partidário na hora de dividir pastas e que apenas deu acrescidas canseiras à voluntariosa Assunção Cristas (que para mais nem é especialista nas matérias). Jorge Moreira da Silva é um especialista em questões ambientais e alterações climáticas (era relator desta matéria no Parlamento Europeu e também passou pela ONU) e a sua entrada para a cadeira só peca por atraso. Além do mais, fica também com a energia a seu cargo, aliviando o outro super-ministério, o da Economia, que perde ainda a pasta do emprego para Mota Soares, noutra correção positiva.
 
Precisamente, na Economia, entra Pires de Lima, um ministeriável há anos. É verdade que conhece muito bem as empresas e os empresários e que tem uma larga e recomendável experiência atrás de si, e que será a pessoa indicada para se entender com Paulo Portas, que na prática fica com boa parte das matérias económicas. Mas soa um pouco a injustiça a saída de Álvaro Santos Pereira, que era realmente um OVNI quando cá aterrou vindo do Canadá, e não gozava de grande respeito dos media, mas que até teve iniciativas interessantes, como as que fizeram reviver a indústria mineira, entre outras, ou que permitiram um reequilíbrio da balança comercial.
 
A grande surpresa é a nomeação como Ministro dos Negócios Estrangeiros de Rui Chancerelle de Machete, um antigo nome grado do PSD, afastado das primeiras fileiras da política nacional desde o Bloco Central e que desde então se tem dedicado à Fundação Luso-Americana. Mas apesar dessa surpresa inicial, a ida de Machete para as Necessidades faz algum sentido: depois de ser apelidado durante semanas de "bando de garotos", convidar um veterano era a melhor forma do Governo se tentar livrar dessa "acusação". Por curiosidade, depois do falhanço da solução de Cavaco Silva, é precisamente um homem da velha guarda do PSD pré- Cavaco (e seu antigo opositor) que agora sobe a MNE e Ministro de Estado. E Paulo Portas, entretanto, quase suplanta o PSD. Ele há coisas...
 
 

quarta-feira, julho 17, 2013

Um estalinista nas redes sociais


 Via Estado Sentido, pude ver o belo comentário que Miguel Tiago, deputado do PCP que mais parece um cruzamento de porteiro de discoteca com um vendedor de sapatos na feira (ou um estivador, cuja greve eles apoiaram tanto), colocou aqui há uns tempos no Facebook. Eu nem acho que postagens destas mereçam grande importância, mas depois do escarcéu por causa de uma piadinha inócua de Carlos Abreu Amorim, abriu-se a comporta da crítica.

O notório saudosista da Revolução de Outubro diz isto: "A corja que despreza a constituição que se ponha a pau. É que se o meu direito à saúde, educação, pensão, trabalho, habitação, não valem nada, então também os seus direitos à propriedade privada, ao lucro, à integridade física e moral deixam de valer! E nós somos mais que eles."

É um belo texto digno de um totalitário convicto. Defende obviamente a actual Constituição, como se ela não tivesse elementos datados de um período político especial, em que o PCP tinha forte influência, e estivesse acima de todas as discordâncias, sem que se pudesse mudar nada. Exibe a sua faceta mais comunista, dando a entender que os direitos que enumera têm de ser todos assegurados pelo Estado (ou seja, caberiam aos organismos estatais, por exemplo, empregar toda a gente para que não houvesse desemprego, como na URSS), e que não existem como direitos negativos (aqueles que o Estado não pode proibir os cidadãos de os exercerem); e que os direitos à propriedade privada, etc, pertencem a pessoas completamente diferentes, como se não fossem direitos fundamentais e gerais, e coubessem apenas "aos poderosos". Só que o direito de propriedade também pode ser sobre uma horta ou um par de rezes, que asseguram o mesmo direito à alimentação a que o deputado Tiago se refere.

Exibe a sua faceta de controleiro e brigadista, ao fazer ameaças à integridade física de seja lá quem for. E quer fazer as pessoas passar por parvas, ao afirmar que "somos mais que eles". "Somos" quem? Que eu saiba, o PCP só tem 13 deputados (a par dos apêndices Verdes e Intervenção Democrática), a CDU teve menos de 8% nas últimas legislativas, e mesmo que as sondagens actuais sejam favoráveis, não conseguem chegar sequer aos níveis de 1987. Ou considerar-se-à Miguel Tiago uma pobre vítima como o "povo" de que se acha o máximo representante? Pobrezinho, como deputado que é deve estar a passar por imensas dificuldades. Esquece-se também de que é tanto representante do Povo como qualquer outro deputado eleito. E que o salário que lhe pagam com o dinheiro dos contribuintes e o seu estatuto não admitem que faça ameaças físicas seja a quem for.

Depois da referida piada inócua de Abreu Amorim a gozar com os "magrebinos" (entre os quais me incluo), escândalo que o levou a pedir desculpas públicas, seria de esperar que Miguel Tiago optasse no mínimo por algum recato depois da divulgação desta bazófia estalinista. Mas não. Ao que parece, e desta vez no twitter, classifica quem a mostrou de "bloggers de extrema-direita " pagos "pela Assunção Esteves". Não sei o que será pior: se a falta de senso e de decoro de certos agentes políticos, se a compreensão e tolerância de que gozam, em comparação com outros que aparecem logo trucidados na imprensa. 


segunda-feira, julho 15, 2013

Uma vingança de Cavaco sobre Portas?


Ainda dentro da solução que Cavaco Silva encontrou, fico a pensar com os meus botões: Paulo Portas, pelas responsabilidades que tomaria, esteve quase a cumprir o seu velho sonho de suplantar o PSD. Cavaco Silva puxou-lhe o tapete e impediu que o alcançasse. Será que o PR se lembrou das capas do Independente, das vésperas angustiantes das sextas-feiras, que o governo cavaquista vivia em sobressalto com os possíveis torpedos mediáticos que seriam lançados daquele autêntico órgão de oposição à direita daquele PSD, dos estragos que provocaram? Fica a dúvida se no subconsciente Cavaco Silva não terá cedido a velhos impulsos que estavam escondidos, escolhendo uma via mais sinuosa (e que impede o CDS de aumentar a sua importância) para resolver a crise governamental.

quinta-feira, julho 11, 2013

Incompreensões e cenas tristes, eis o Portugal dos últimos dias


Ontem pensei que tinha percebido bem a mensagem de Cavaco Silva. Hoje, afinal, depois de ler as notícias e ouvir alguns comentários da especialidade, confesso que afinal não percebo muito bem. é melhor esperar e observar, e talvez daqui a uns dias compreenda melhor. Até lá, continuaremos com certeza a ser ultrapassados pelos acontecimentos de hora a hora.
 
Entretanto, depois dos patéticos aplausos nos Jerónimos, temos agora o lançamento de panfletos e os berros de slogans de "demissão" e outras coisas envolvendo "fascismo" em pleno Parlamento, pela entourage da srª Ana Avoila. Será que se perderam completamente as noções de saber estar e do respeito por locais em que se exige algum decoro?

D. Manuel e os Jerónimos mereciam melhor



Ao ver na televisão a primeira missa celebrada por D. Manuel Clemente, como Patriarca de Lisboa, nos Jerónimos, e o friso de convidados nas primeiras filas (que incluía Cavaco, Passos e Portas), pensei logo que apareceriam inevitavelmente os comentários quanto à "violação da laicidade". Dito e feito: em caixas de comentários de jornais e blogues, vieram logo os guardiões da "sua" laicidade, bramindo contra a "incrível promiscuidade entre estado e Igreja", que mais lembrava "tempos medievais" e "o salazarismo". A esse propósito, houve uns quantos que compararam D. Manuel Clemente a D. Manuel Cerejeira, o que prova que a ignorância e a estupidez opinativas se propagam à velocidade da luz. Ainda por cima, o novo Patriarca falou durante a Missa do exemplo das populações do Norte, que "bem nos pode inspirar a todos, pela capacidade de resistir, recomeçar e inovar": mais protestos, desta vez porque "promoveu o separatismo", ou então era porque o Norte "tem mais reaccionários e beatos do que o Sul (que como todos sabem, é um modelo ímpar de desenvolvimento)". Está visto que para alguns, elogios às populações do Norte equivalem a tentativas de achincalhar o Sul. Mas que terá esta gente para ser tão ressabiada?
 
Entretanto, ouviram-se palmas à entrada de Cavaco e de Passos Coelho. Mário Soares, na versão decadente e radical que lhe conhecemos agora, acusou os "capangas" do Governo de serem os autores dos aplausos, e D. Manuel Martins de não os ter impedido "começando mal" o seu mandato, num evento que relembrava os tempos "em que o fascismo" andava colado à igreja. Palavras de um primo-republicanismo e de um facciosismo para quem a Igreja só é aceitável se estiver submetida aos joelhos do laicismo, e  a direita só pode ser aplaudida por "capangas", pois que o povo, o bom povo, estará sempre do lado dos "laicos, republicanos e socialistas".
 
Este jacobinismo não é novo nem, como disse no início do post, inesperado, e manifesta-se em ocasiões em que o ódio político anda à tona do vapor de água. Ficou parado nos anos setenta, tem constantemente de ir buscar vocabulário que contém coisas como "fascismo", Salazar", "Idade Média", "beatos", e agora até vão desenterrar o Cardeal Cerejeira para o compararem a ...D. Manuel clemente. De D. António Ferreira Gomes ou D. António Barroso é que esta gente não se lembra. Nem que o aproveitamento político que fazem também viola a laicidade.
 
Verdade seja dita que quem aplaudiu também não tinha muito a noção de onde estava. Como disse Azeredo Lopes, uma Igreja (e logo aquela) não é um local para se aplaudir nem para se apupar, muito menos para se fazer chicana política. Até porque demonstrou uma clara falta de respeito para com o novo Arcebispo de Lisboa. Este, ao contrário do que disseram os detractores de ocasião, quando lhe perguntaram o que achou dos aplausos aos políticos presentes, limitou-se a responder: "terá de perguntar isso a quem aplaudiu, porque nessa altura estava na Sacristia a paramentar-me". Simples e cortante. Os Jerónimos e D. Manuel mereceram a solenidade e o cumprimento de quem lá estava, mas dispensavam as vénias subservientes e as criticazinhas ocas que se ouviram. Que Deus lhes perdoe.
 
 

segunda-feira, julho 08, 2013

Para uma belíssima história de espionagem (real)


As histórias de espionagem têm sempre umas lascas de romance amoroso ou de humor. A da fuga de Edward Snowden para países pouco dados à liberdade de expressão, além de irónica, parece querer juntar uns pozinhos que a podem tornar ainda mais apetecível: agora é Anna Chapman, a "Mata-Hari russa", a sensualíssima espia presa nos Estados Unidos e recambiada para a Rússia numa troca de espiões, que se quer casar com Snowden para que este adquira cidadania russa que impeça qualquer extradição para os EUA. O americano, que está há vários dias na zona de trânsito do aeroporto de Moscovo, não se negou a este plano (e alguém o pode criticar?), que pode pôr fim à sua fuga. Chapman já tem uma história que seguramente dava um bom livro ou filme (rave partys e casamentos em Inglaterra, espionagem em Nova York, actividades na juventude do partido do poder na Rússia como recompensa, etc), e esta novidade promete um bom desenvolvimento. Espera-se que John Le Carré ou qualquer autor de semelhante gabarito se cheguem à frente para redigirem esta belíssima (como a protagonista) história de espionagem que já está praticamente escrita.
 
 
 
 
 

sábado, julho 06, 2013

A jogada mais arriscada de Portas



A história de Paulo Portas não é das mais virtuosas, embora seja das mais interessantes da política deste regime (as duas coisas terão provavelmente proporção directa). São bem conhecidos os seus ataques, por vezes injustos e exagerados, quando dirigia o Independente, a forma como aos poucos retirou o apoio a Manuel Monteiro, ocupando-lhe sem seguida o lugar à frente do partido, ou como rebentou com a AD que acordara em conjunto com Marcelo Rebelo de Sousa, ou ainda o golpe contra a liderança de Ribeiro e Castro. São também por demais conhecidos os rocambolescos casos com a Universidade Moderna, com o processo de aquisição dos submarinos alemães, com as fotocópias do Ministério da Defesa, etc. É verdade que pelo meio lhe puxaram o tapete algumas vezes (o próprio Monteiro, com a saudosa história da caneta que não escrevia para não votar em Portas para líder parlamentar), e nunca como neste Governo, em que o desrespeito de Passos Coelho e Vítor Gaspar pelo CDS se tornou mais que evidente.
 
Ainda assim, a jogada de Paulo Portas teve riscos mais que evidentes, a começar pelo trambolhão das bolsas e da subida vertiginosa das taxas de juro (os mercados, como sempre, "enervaram-se"), e por não ter dito nada ao partido nem aos mais próximos. Os riscos eram que o Governo caísse ali mesmo, como teria acontecido caso Coelho tivesse dado azo à sua louca ideia de prosseguir sozinho. Agora, depois de todas as ameaças de instabilidade, Portas conseguiu forçar a sua nota nas negociações. Com o beneplácito de Cavaco, conseguiu ser nomeado Vice-Primeiro-Ministro, um cargo que já não existia há vinte anos (o último fora Eurico de Melo) e ainda ficar responsável pelas negociações com a Troika (que fica a fazer Poiares Maduro?) e pela anunciada reforma do Estado. Prefiro, obviamente, que seja ele a tratar destes delicadíssimos dossiers do que um qualquer génio de gabinete ou um Relvas qualquer. Portas ganhou, para já, a sua parada e fica com quase tantos poderes como o Primeiro-Ministro, mesmo que não se saibam quais as outras alterações governamentais. Mas ao mesmo tempo, perdeu boa parte da face: afinal, a sua saída do Governo não era assim tão "irrevogável", a não ser que nos convença de que se estava referir ao cargo concreto de MNE. Mas também não seria a primeira vez: lembram-se de quando ele disse que o CDS "não tinha emenda" e que não queria ser candidato a líder, e passados dias lá estava ele a ser empossado à frente do tal partido "sem emenda"?
 
Ao menos que o país fique a ganhar com estas alterações políticas surgidas com a enésima jogada política arriscada de Portas.
 
PS: a definição e competências de um Vice-Primeiro-Ministro pode ser encontrada na recente Enciclopédia da Constituição Portuguesa (Quid Juris, pág. 390), por Francisco Pereira Coutinho. A de Primeiro-Ministro também lá se encontra (pág. 293), tendo sido escrita pelo autor destas linhas.

quarta-feira, julho 03, 2013

Vão marcando a data


Está um homem aqui posto em sossego a pensar em postar sobre as maravilhas do nosso país quando de súbito a realidade, que não pára, se antecipa. Ou neste caso, antecipa certos actos, como a demissão de Paulo Portas, apenas prevista para daqui a uns tempos. Estaria já por dias, a ser calculada para o melhor momento, ou terá sido a saída de Gaspar (melhor dizendo, a sua substituição por Maria Luís Albuquerque) a gota de água num copo que já desde a história da TSU ameaçava transbordar? As versões de Pedro e Paulo são contraditórias. A verdade é que Portas tem um registo interessante de facadinhas dadas, mas ao longo destes dois anos teve várias ocasiões de experimentar as que lhe eram discretamente atiradas por Passos, Relvas, Gaspar & Cia. E a paciência tem limites. Houve alturas em que o vimos como nunca o víramos antes, sem saber bem o que fazer. Até que bateu com a porta, e com ele os outros ministros do CDS.


Ficando o PSD em minoria, contando na melhor das hipóteses com pontuais apoios do CDS no Parlamento, a melhor solução seria a demissão de Passos Coelho e a nomeação de outro governo, com base na mesma maioria e que de preferência se estendesse ao PS. Mas o Primeiro Ministro inviabilizou totalmente essa hipótese, a manter-se teimosamente à frente do governo. Não percebeu que o seu tempo está contado. Deve ser das pouquíssimas pessoas em Portugal e não entender isso. Numa época de profunda crise, temos um político sem a menor habilidade, instinto ou inteligência política a governar-nos. O resultado, a curto prazo, é fácil de prever: eleições. Marquem a data para o provável dia 29 de Setembro. Juntando-se às autárquicas, sempre se poupam uns euros.