domingo, novembro 02, 2008

"Um ambiente de terrível hostilidade"
Tenho seguido a campanha eleitoral com moderado interesse, embora ele tenda a subir nestes últimos dias, e não com fervorosa curiosidade ou constante busca de novas notícias ou sondagens via net ou televisão. Dentro daqueles que lhe dedicaram maior atenção, destaca-se O Cachimbo de Magritte, talvez o melhor blogue de pensamento pró-conservador que temos disponível. Habituado à qualidade das discussões e da fundamentação das ideias que aí se defendem, tenho estranhado o tom acintoso e demagógico com que alguns novos escribas têm abordado a dita campanha.


Já se tornou quase moda criticar os posts de André Pessoa, mas a verdade é que eles traduzem o que de mais faccioso e exacerbado existe nos redneck portugueses. Desde a colecção de posts sobre " do ódio", até às acusações de que "Obama é a negação da democracia", passando pela "denúncia" de supostas gaffes do candidato que se prova não o serem, mostra-nos que há mais admiradores de Ann Coulter a escrever em português do que eu julgava. Depois, há os inevitáveis comentários, em que alguns anónimos completam a mesma toada com comparações da campanha de Obama com a de Salvador Allende, e até com Hitler (!), afirmações de que o "obamismo" é uma traição à América que só pode ser impedida pela "grande mulher" Sarah Palin, e ainda com acusações de que haverá votos comprados. Desaparecido há alguns dias, o incrível André Pessoa (bastas vezes secundado por Nuno Lobo) brinda-nos no seu último post sobre o assunto com a fantástica ideia que Andrew Sullivan, um dos mais conhecidos bloggers conservadores dos EUA, representa "a loucura da esquerda americana". E mais abaixo deixa-nos outra pérola: "se apoiantes de McCain inventam ataques e precisamente porque o ambiente e de terrivel hostilidade". Estão justificadas todas as invenções possíveis e imaginárias: "um ambiente de terrível hostilidade". Decerto que os comícios onde Sarah Palin acusa Obama de terrorismo e logo surgem alguns apaniguados a gritar "mata", além daqueles que acham que o democrata nem sequer é americano, e que os simples nomes Obama e Hussein o tornam logo num perigoso islamista, não cabem no conceito de hostilidade de Pessoa. Pelo contrário, são plenamente justificadas. O que eu gostava de saber é se algumas invenções da campanha de Bush contra McCain nas primárias de há oito anos também tiveram lugar num "ambiente de terrível hostilidade".

A única coisa que se conclui é que todo este desespero perante a derrota provável (mas não certa) do candidato do partido que levou os Estados Unidos ao atoleiro nos últimos anos revela, parafraseando o notável André Pessoa, a loucura de alguma direita portuguesa.

quinta-feira, outubro 30, 2008


Apologia do francês como língua



Leio a primeira parte deste post e não posso conter o desacordo. É certo que o francês é uma sombra do que era. Na Indochina, poucos são os mais novos que o falam, no Pacífico restringe-se aos "departamentos ultramarinos", na América do Sul contenta-se com a Guiana. Mas ainda é língua de peso na Europa, onde mais a Leste a francofonia tem autoridade, em África, especialmente no Magrebe, e no Quebec. Além do mais, o "soçobrar como língua literária" parece-me exagerado. Para quem pensava isso, eis o Nobel distinguindo Le Clezio. E depois, um idioma que tanto contribuiu para a literatura universal não perde a sua grandeza de um século para o outro. As farsas de Rabelais, os dramas de Corneille, as comédias de Moliére, os ensaios de Montaigne, os pensamentos de Montesquieu e Voltaire, o romantismo de Hugo e Lamartine, o realismo de Zola e de Sthendal, as aventuras dos Dumas, as novelas de Daudet, o universo de Proust, a experiência de vida de Malraux, o existencialismo de Camus e Sartre, tudo isso é matéria sem a qual a Europa e o Mundo não seriam o que são hoje.

É precisamente a "industrialização da cultura" que torna o francês mais rarefeito. Ligado a uma certa ideia de elegância e de allure, nega-se hoje em dia essa língua por não vir acompanhada da desenvoltura fácil do bad english ou do espanhol atamancado, para não falar do "spanglish". À parte epifenómenos culturais como a FNAC, que não exigem qualquer fidelidade linguística, o francês dá-se mal com a massificação e permanece um esteio de selectividade cultural.

Ainda assim, não creio que o francês como língua, assim como referência cultural, esteja enterrado fora de França. Poderá ser a influência que tive desde tenra idade (e que me levou a falar francês antes do inglês) a ditar-me esta ideia, mas há pontas para se lhe pegar. Com a influência da Francofonia em África, será uma língua a tomar em conta a médio prazo. Da mesma forma, com um certo empobrecimento do inglês, tomará o seu lugar dominante na Europa, até pela importância que tem em países como a Roménia. Não será certamente uma língua universal, mas estará acima de toda a subestimação de que tem vindo a ser alvo de há umas décadas para cá, para gáudio sobretudo de anglo-saxónicos militantes, que fora da cultura dominante e do idioma aprendido em versão americana em frente à TV, pouco sabem.

segunda-feira, outubro 27, 2008

E a Vitória não fugiu
Tinha acabado de levantar o bilhete para o jogo que já ia começar e eis que senão vejo um conjunto de pessoas a apontar para um ponto acima das suas cabeças. Surpresa. a águia Vitória não fizera o voo do costume e tinha-se escapulido para fora do estádio. Pairava ao lado dos prédios vizinhos da Luz e por baixo de viadutos sob vias rápidas. Calculo o atarantamento da pobre ave. Mas vi logo um mau prenúncio naquela fuga da Vitória. Que na primeira parte do jogo parecia que se ia materializar.
Um SMS chegado ao intervalo afirmava que o bicho já tinha sido recolhido. Parecia um episódio insólito, uma águia voando perdida em plena cidade (mas não inédito: um tio meu, especialista em aves de rapina no Parque Nacional da Peneda Gerês, teve uma durante muito tempo, até que o passarão escapou pelos céus do Porto, e nunca mais ninguém o viu). Certo é que depois disso se completou o feliz desenlace: o Benfica ganhou mesmo à bem estruturada Naval, embora sofridamente, e chegou-se à frente da tabela classificativa, ultrapassando o Porto, vítima do Leixões de José Mota.
Adivinham-se os títulos dos jornais desportivos daqui a umas horas: "Benfica agarra Vitória", ou "Vitória afinal não escapou", ou também "Fuga da Vitória não tira os três pontos". Aposto que um destes pelo menos vai surgir nos escaparates.

sexta-feira, outubro 24, 2008

A leitura das regionais
As eleições regionais dos Açores não trouxeram grandes novidades de monta. Houve-as, mas a um plano insusceptível de mudar o rumo de governação do arquipélago, como a demissão de Costa Neves e novas entradas na Assembleia Regional. O que me deixa mais expectante são as previsões que daí resultaram. Disse Sócrates que estes resultados marcam "um novo ciclo eleitoral". É aí que residem as minhas dúvidas. Semelhantes interrogações passaram por aqui.
O PS renovou a maioria absoluta sem espinhas, mas caiu uns pontos e perdeu um deputado. O PSD é o grande derrotado: sem a máscara de uma coligação, teve o seu pior resultado de sempre, o que custou a cabeça ao seu líder. Longe vão os tempos em que Mota Amaral obtinha pujantes maiorias sem grande esforço.
Dessas descidas resultou uma polarização de votos e uma balcanização de mandatos que terá poucas consequências visto o PS possuir uma maioria suficiente. Mas os restantes partidos podem dar-se por satisfeitos: o CDS/PP cresceu inequivocamente e ficou perto dos 10%, o BE estreia-se em terras onde não goza de grande popularidade, a CDU regressa à Assembleia de onde tinha saído em 2004, e o PPM ficou em segundo lugar no corvo e ganhou também um mandato.
Se um novo ciclo eleitoral está lançado, isso pode ter diversas leituras. Uma delas, contrariamente à que o Primeiro Ministro pretende fazer passar, é que o PS perderá votos e provavelmente a maioria absoluta no próximo ano; que o PSD não recuperará do desaire de 2005; que o Bloco crescerá ou estabilizará, tal como a CDU; e que o PP, mais uma vez, resistirá à hecatombe anunciada. O PPM foge a estas ideias, não se sabendo ainda como concorrerá. Isto é o que se pode retirar da vitória de César e outros resultados, e que implicaria uma futura AR ingovernável. No entanto, é bom lembrar que os Açores não são o barómetro do país. E que o nome lançado para candidato do PSD à câmara de Lisboa, Santana Lopes (esse gato da política), era o chefe de governo onde se incluía...Costa Neves.
conclusões? Poucas. Estas eleições foram regionais e assim deveriam ser tomadas. Até porque quando César se retirar, todo este cenário se desconjuntará.

quinta-feira, outubro 23, 2008

A estreia num cenário mítico

Amanhã o Benfica terá o supremo privilégio de jogar no Olímpico de Berlim. Sim, o mesmo que albergou os Jogos de 1936, nos quais Hitler levantou-se furibundo para não premiar Jesse Owens, e onde setenta anos mais tarde, Zidane aplicou a Materazzi a mais famosa cabeçada de sempre dos Mundiais de Futebol, hipotecando o título do Mundo no último jogo da sua carreira. O mesmo que já lavou a face várias vezes, mas que nunca perdeu as suas características primordiais. De 1998, quando o visitei, até 2006, o mítico recinto levou uma cobertura e novas cadeiras, mas nem por isso perdeu a sua beleza nem a sua majestade.


É verdade que o SLB já esteve na maioria dos grandes estádios mundiais, mas há sempre novas visitas a registar. Este ano, depois do San Paolo, de Nápoles, seguiu-se o grandioso anfiteatro alemão, em confronto contra o Hertha local (outra estreia). Esperemos que o resultado seja a condizer e que haja algum decoro depois da paupérrima partida contra o Penafiel. Respeito, pede-se. E o recinto do jogo merece-o.

terça-feira, outubro 21, 2008

Jorg Haider



Pedem-me mais atrás para falar em Jorg Haider, desaparecido num acidente de automóvel há uns dias pouco tempo depois dos resultados de peso obtidos pelo seu partido nas legislativas austríacas. Seja.


Estive a poucos metros (e creio que o vi fugidiamente) do líder populista austríaco um ano e tal depois dos surpreendentes resultados que levaram o seu FPOe ao governo do país. Estava-se em véspera de eleições municipais e Haider deslocou-se da sua Caríntia até à imperial Viena para fazer um comício. Como por esses dias estava na capital austríaca, e movido pela curiosidade de ver tal ajuntamento, resolvi, com uns amigos, ir até ao evento, que se dava no Prater. Mal informados da sua localização, chegámos já no fim, quando a multidão começava a dispersar sob a chuva misturada com neve. Uma pouca sorte, mas deu para ver que não faltavam simpatizantes do movimento. Escusado será dizer que não havia muitas faces que não andassem pelo tipo germânico.
Nessa altura, o FPOe partilhava o governo como o OVP, conservador, depois da enorme votação nas legislativas de 1999. Como se sabe, o resultado provocou frisson na UE, na altura sob presidência portuguesa, que de imediato estabeleceu sanções à Áustria. De nada adiantaram, mas também nada digno de nota sucedeu em Viena. E em 2002, em novas eleições, o FPOe dava uma enorme queda eleitoral e saía do governo.

Haider, o rosto de toda essa história, não chegou a encabeçar o executivo. Já estava à frente do FPOe desde 1986 e tinha-o guindado de partido folclórico e pouco expressivo até à casa dos vinte por cento. Preferiu ficar como Governador da sua Caríntia, no sul do país, acima da eslovénia. Aliás, uma das polémicas em que Haider se viu envolvido foi exactamente a proibição do uso do esloveno a nível oficial, contrarinado as instâncias judiciais austríacas, que decidiram que a região tinha mesmo outra língua a par do alemão.
Outra polémica aconteceu quando visitou Saddam Hussein, no Iraque, mostrando-lhe a sua solidariedade quando já se antevia a invasão daquele país. A provocação não deixou os Estados Unidos indiferentes, mas Haider respondeu dizendo inclusivamente que Bush era um criminoso que devia ser julgado em tribunal internacional.
Depois, claro, as célebres alusões ao Nacional Socialismo em tom condescendente e até elogioso, e ainda as suas ideias anti-emigração e anti-Islão. As reuniões com velhos elementos ds SS, essas "pessoas decentes", como lhes chamou, foram o corolário disso mesmo.


Lutas internas fizeram com que abandonasse o seu partido de sempre e formasse outro movimento, o BZOe, com a mesmíssima ideologia. Assim, coexistiam dois partidos com as mesmas ideias populistas e xenófobas, separados apenas por questões pessoais.


A morte de Haider levou logo muitos a falar de "atentado" e "sabotagem". Mas quem se estampou a 14o à hora com 1,8 de álcool no sangue não precisaria certamente de intervenção de outrém para se matar. Este desaparecimento, como alguns dizem, poderá ter esbatido as más relações entre os dois movimentos idênticos desavindos e poderá juntá-los no futuro, sobretudo agora, quando em conjunto obtiveram 28% dos votos nas últimas legislativas, o que até poderá levar a uma coligação contra natura com os socialistas do SPO.


Apesar de todas as suas ideias duvidosas ou até execráveis, não me parece que Haider fosse o monstro que muitos diziam ser. Não expulsou emigrantes em massa, não formou pelotões de execução, nem construiu campos de concentração. A morte dele (que se diria um desastre nacional ao ver todo o aparato e as palavras de pesar da classe política austríaca) não me deixa particularmente trise nem aos saltos. Mas pode ter reunido de novo a direita mais radical da Áustria e servir de exemplo a outros países, passando a ser considerado quase um mártir (ou um aviso aos condutores para não beberem). Se assim for, não haja dúvida de que era preferível que estivesse vivo.
Um silêncio ensurdecedor
Ouve-se em blogues, revistas e cartas aos jornais que o escândalo da atribuição de casas por valores irrisórios, pela CM de Lisboa, a uma quantidade de gente da confiança dos seus responsáveis, está "envolvida em silêncio", ou "é um caso de que ninguém fala". Essas mesmas críticas encarregam-se de demonstrar precisamente o contrário. Aliás, não houve orgão de comunicação social ou blogue que não tivesse falado no assunto (este blogue é uma excepção, reconheço), exemplificando beneficiários, apontando o dedo a alguns "culpados" e bramindo contra o "estado das coisas". Só gostava de saber o que mais queriam. Os responsáveis atirados para as masmorras? Autos de Fé para quem ocupou aquelas casas? O caso merece atenção e diivulgação e revela bem o espírito de compadrio e o sistema de cunhas existente na nossa sociedade, mormente nas autarquias. Mas tenhamos um pouco mais de bom senso: não há aqui homicídios ou violações. Denunciemos o que há a denunciar sem fazer disto um caso de proporções inimagináveis. E acima de tudo, não se use o "ninguém fala" precisamente quando todos falam. Para que a indignção não ande sempre a par do ridículo.

quarta-feira, outubro 15, 2008

Sugestão

Quem estiver em Lisboa, tiver tempo e não lhe apetecer ver o Portugal-albânia desde o início pode sempre aproveitar para ir à Cinemateca, às 19.00 horas, para ver Absence of Malice/A Calúnia, no ciclo de homenagem ao recentemente desaparecido Sidney Pollack. Como o filme é protagonizado por Paul Newman, acaba por ser uma dupla homenagem.

O desvario Republicano


Já que estou numa de criticar Republicanos, aproveito para virar baterias para o outro lado do Atlântico. Ainda não tinha escrito nada acerca do acontecimento maior da estação, as eleições presidenciais americanas que se avizinham. A campanha está ao rubro, e só não se ouve falar mais por causa da crise financeira que nos assola (e que também está no centro do debate pré-eleitoral).

Se Barack Obama já era um candidato com quem simpatizava, desde a sua eleição para Senador do Ilinois, aliás, na fatídica noite de recondução de W. Bush ao poder, agora ainda desejo mais a sua escolha. Não só porque parece trazer um sopro de confiança aos EUA e ao mundo, porque é ambicioso e sabe bem o terreno que pisa (além de ter votado contra a invasão do Iraque), mas também por razões negativas. john McCain é um candidato respeitável, e pena é que os Republicanos não tenham apostado nele há oito anos. Mas a criatura que escolheu para sua-vice provoca calafrios. Não pelas suas posições morais ou conservadoras, totalmente legítimas e de acordo com os valores de grande parte dos americanos. Mas a impreparação, a avacuidade e a ignorÂncia da srª Sarah Palin, que precisa de cábulas e de "cursos intensivos" de relações internacionais em cavaqueira com alguns "líderes mundiais", jamais a recomendariam para semelhante cargo. Acresce que a senhora, que provocou uma orgia nacionalista na sua aparição na Convenção Republicana, surge agora com truques baixos, acusando Obama de ser "amigo de terroristas". Essa conversa de sarjeta tem barbas, mas como demonstra o Herdeiro de Aécio, terroristas podem ter diversas ideologias e motivações, e vir até de uma área política próxima da de Palin. Esperemos é que o tiro saia pela culatra da espingarda da calúnia desta louca, que como não podia deixar de ser promove entusiasticamente o excepcionalismo americano e quer que a Geórgia adira à NATO propositadamente para afrontar a Rússia.



O que admira é que alguns conservadores da nossa praça a elogiem e a defendam, ou porque é "mulher", "sabe caçar e pescar" (qualidades indispensáveis para o exercício do cargo), ou ainda por causa dos ataques dos "esquerdistas" e "progressistas". Ora até se admite que alguns desses ataques sejam injustos e despropositados; mas também me parece que quem a defende o faz mais para confrontar e aborrecer a esquerda e menos por realmente se reconhecer nela. É a tal boutade de direita" de que falava Pedro Mexia, tal como aconteceu em grande parte na discussão sobre a invasão do Iraque, e cujas consequências ainda se arrastam. Mais vontade de contrariar, em suma, do que real convicção. Um birra que se pegada aos americanos teria sérios efeitos. Mas acredito que o eleitorado não repita o erro de há quatro anos. Assim o espero, se a obtusidade não dominar. Definitivamente, Palin só mesmo Michael.



Ainda outra coisa: eu farto-me de ouvir dizer que a senhora é "uma brasa", ou "uma lasca" e outros epítetos mais adequados a Deusas do Olimpo. Tudo porque chegou a Dama de Honor num concurso dos anos oitenta para Miss Alasca. Ainda se tratasse de uma Timoshenko, ou de uma Segoléne, ainda concordaria. Está tudo doido, ou só eu é que a acho uma mulher absolutamente vulgar?

domingo, outubro 12, 2008

Dia chato

De manhã, carta a anunciar recusa de emprego. Depois, notícia de que os fundos de investimento retirados há dias para a conta à ordem desceram ainda mais do que se esperava (mais do que o dia da ordem de venda). À tarde, confusões bancárias e saldo negativo na conta, o que durante meia hora espalhou o desnorte no cérebro até o erro estar resolvido e conseguir enfim comprar o bilhete de comboio para o Porto (a uma Sexta à tarde e com 2 Euros no bolso, acreditem que é desagradável). Finalmente, no Intercidades a abarrotar, sentado num daqueles bancos virados para o de trás, sem mesa ou qualquer objecto a dividir os passageiros, ouço o anúncio de que o serviço de bar "está suspenso". Três horas com fome e sede sem sair do lugar custam, mas já agora, e tendo em conta outros problemas ferroviários, ouso perguntar aos senhores da CP: não se justifica uma ligeira descida dos preços como compensação à falta de serviços básicos? Ou andarão a poupar para a futura alta velocidade?

Toponímia republicana



Dizem as regras da toponímia que se devem conservar os nomes tradicionais dos arruamentos, mormente se consagram uma recordação importante, como a do nome do local que existia nesse espaço numa época passada. Não se deve mudar em prol de um acontecimento ou figura de existência recente, excepto se já houver outra artéria ao lado com o mesmo nome, uma travessa ou um beco, por exemplo.
Essas regras nem sempre foram seguidas em Portugal, como se sabe. Normalmente eram quebradas pelos vários regimes políticos que se quiseram perpetuar no tempo e na memória. Caso exemplificativo é o do amplo terreiro à frente do Mosteiro de Alcobaça, que se chamou Praça Oliveira Salazar no Estado Novo e se chama hoje Praça 25 de Abril. Antes disso, era simplesmente o Rossio. Aliás, o mais conhecido espaço com esse nome, em Lisboa, também mudou oficialmente nos anos setenta, passando a constar das missivas e mapas urbanos como Praça D. Pedro IV. Por sua vez, o Rei-Soldado, que dava nome à antiga Praça Nova do Porto, o largo central da cidade oitocentista, perdeu o nome para Praça da Liberdade, sendo que temos hoje o absurdo de não haver na cidade qualquer artéria com o nome de D. Pedro IV, que até deixou o seu coração na Igreja da Lapa, em agradecimento à cidade que o acolheu durante as Guerras Liberais.



No processo de modificação do nome das ruas, nenhum regime se mostrou tão activo como a 1ª República. Por toda a parte os nomes foram alterados ao saber dos novos donos do país, e velhas ruas e praças das principais localidades viram-se renomeadas com nomes outubristas. Surgiram assim as novas artérias da república, de cinco de Outubro, ou dos "heróis" e propagandistas republicanos. Quem se passear por Lisboa, sobretudo nas Avenidas Novas, encontrará fatalmente os habituais Elias Garcia, João Crisóstomo, António José de Almeida, etc. E isso também explica a razão de praças centenárias, como a de Viana do Castelo, terem ganho "República" no nome. Mas a maior marca do processo de lavagem foram os milhares de "Cândido dos Reis" e "Miguel Bombarda" que nasceram como cogumelos. Duas figuras que, tendo morrido nas vésperas de cinco de Outubro, um porque se matou, outro porque um doente do manicómio que dirigia o assassinou, foram guindados a "mártires" e serviram para dar nome de ruas e avenidas. Não há concelho no país que não tenha uma destas figuras, cuja importância na história portuguesa é residual e datada, a decorar o letreiro da rua. Em compensação, muitas figuras maiores estarão com certeza ausentes da toponímia local. É difícil explicar a quem não sabe porque razão é que os dois sobrevalorizados activistas ocupam espaços tão relevantes - muitas vezes os largos principais de algumas localidades - tendo uma relevância tão pequena. Quantos Padres António Vieira ou D. Diniz, por exemplo, haverá na mesma proporção?
Essa ocupação hiperbólica da República demonstra não somente o carácter quase "santificado" dessa empresa como também uma certa insegurança ao nível da sua própria justificação, o que obrigou a que o regime, quando tomou o poder, tivesse de fazer uma gigantesca lavagem histórica e toponímica para impor os novos "heróis". Sendo "mártires", os dois finados seriam como que os novos "santos" republicanos a que urgia prestar respeito, e que por isso tinham os seus nomes em locais visíveis ao cidadão comum. Assim encontrou a 1ª República uma forma duvidosa de marcar o seu domínio, refazendo a história portuguesa e instaurando novas personalidades, de forma a criar uma sociedade radicalmente diferente, à sua imagem. Assim também a alteração de alguns símbolos, como a bandeira, ou a introdução da figura feminina meia desnudada.
Não houve, como se disse no início, regime algum que não tivesse a tentação de marcar a sua própria toponímia. Mas a República, como em tudo o resto, mostrou-se radical e caiu no ridículo de consagrar duas figuras que as pessoas, hoje em dia, não reconhecem ou ouviram falar vagamente. Lembro-me de uma entrevista de Miguel Esteves Cardoso a Francisco Louçã, em que os dois confessavam não saber quem era o Almirante Reis que dá o nome à avenida lisboeta. Não sei se não sabiam mesmo ou se não lhes ocorreu, mas o certo é que deu uma amostra da pouca importância de dois vultos usados para que um regime que não tinha o apoio da maioria do povo se impusesse de forma mais dominadora.

quarta-feira, outubro 08, 2008

Os sapos da Diplomacia
Portugal reconheceu a "Grande Albânia". Algum dia tinha de acontecer. Mas aceita-se a decisão do governo em reconhecer a independência do Kosovo, muito embora esse processo seja um disparate pegado no seu todo. Face às circunstâncias e com um processo que parece irreverssível, Portugal pouco podia fazer para contrariar o absurdo da 2ª Albânia. As razões demonstradas reflectem o pragmatismo por vezes cínico, mas indispensável da Diplomacia, e não é à toa que a portuguesa sempre se mostrou eficaz. Mas repare-se que há um tom de cedência por causa de um faco consumado e porque pouco se ganharia em recusar, mas não uma aceitação de bom grado ou por causas morais. Ao mesmo tempo, pisca-se o olho à Sérvia, com compreensão, como quem diz "nós não queríamos, mas não tivemos alternativa". O difícil jogo da Diplomacia obriga por vezes a engolir sapos e à tomada de decisões como esta.

terça-feira, outubro 07, 2008

Centenário em marcha
Continuando com a data a que atrás se alude, o Centenário da República, blogue e plataforma, depois de um início algo parado, está definitivamente em marcha. Um grupo sólido de escribas, com cultura, argumentário eficaz e conhecimento de causa, e que vai da área do PS até ao miguelismo, demonstrará nos tempos próximos, como o tem vindo a fazer, a natureza negra e autoritária da 1ª República. O mesmo regime que a actual 3ª República pretende homenagear daqui a exactamente 2 anos, louvando-o como causa e produto de actos heróicos (dos quais o primeiro foi, como se sabe, o Regicídio). E a imprensa já começou a despertar para a sua actividade. Há que desejar-lhe a melhor sorte na sempre necessária desmistificação da história.

domingo, outubro 05, 2008

Inspiradoras


A cinco de Outubro, nunca é demais trautear as canções inspiradoras de Portugal, ou rever a legítima bandeira





E ainda:

http://www.imeem.com/hertzonline/music/aFwwlKiQ/vitorino_maria_da_fonte/

Bom Domingo

Dinis Machado 1930-2008



Depois de Paul Newman, outra morte de certa forma anunciada. Digo isto pela evidente debilidade física que Dinis Machado apresentava numa entrevista que deu há coisa de ano e meio ao Público.

Quando se fala neste escritor nado e crescido no Bairro Alto vem logo à memória o inclassificável O que Diz Molero, dos anos setenta. A obra ganhou algum fôlego anos mais tarde numa recriação teatral de José Pedro Gomes e António Feio (brilhantemente interpretada, aliás), a cuja última representação assisti, no Teatro S. João, e onde no fim chamaram ao palco o próprio Dinis Machado. Mas o autor não se ficou por aí. Trabalhou toda a vida como jornalista, desportivo e não só, e sabe-se como o microcosmos do Bairro Alto era em tempos idos o cenário ideal para essa actividade. Escreveu outros livros, entre os quais, por pressões editoriais e necessidades materiais, um punhado de romances policiais, com o pseudónimo Dennis McShade, dos quais se reeditou recentemente, via Público e agora Assírio e Alvim, A Mão Direita do Diabo. Estão já prometido que os outros dois sairão do prelo até ao fim do ano. Sem o saber, a editora estava já a preparar uma futura homenagem a Dinis Machado. Ler os seus policiais noirs será outra boa forma de recordarmos esta riquíssima autor que agora nos deixou.

sábado, outubro 04, 2008

Campânia fora da UEFA



Custou, cansou, mas valeu a pena e o bilhete. Já era tempo. Vinte e dois anos sem eliminar equipas italianas era demais, mas quebrou-se enfim a "maldição". Lembra-me 2005-06, em que exorcizamos consecutivamente Manchester United e Liverpool, outras bêtes noires. Se assim é, que venha o Milan, então.
Dez cidades de Espanha

...que gostava de conhecer e ainda não tive oportunidade:

-Cádis
-Toledo
-Granada
-Leon
-Córdova
-Zamora
-Ávila
-Alcalá de Henares
-Santander
-Segovia

Também nunca estive em Barcelona, ou Valência, mas dessas fala-se tanto que acaba por se perder toda a curiosidade.

segunda-feira, setembro 29, 2008

O trabalho e a família
Na semana passada entrevi as linhas de um artigo de Rui Ramos, no Público, já não sei em que dia, que ia ao encontro de uma coisa em que andava a pensar: O BE, e mais ainda, o PCP, reclamam continuamente contra as alterações ao Código do Trabalho, argumentando que irá tornar o emprego mais precário e pôr os trabalhadores mais à mercê da entidade patronal. Poderão até ter as suas razões. Mas não deixa de causar espanto toda esta preocupação ao mesmo tempo que apoiam uma norma que irá por sua vez causar mais precariedade no casamento (e na família). Se no contrato de trabalho há direitos e deveres para as partes (obediência, remuneração periódica, etc), também os há na instituição familiar, estabelecidos no Código Civil. Ao relativizar esses direitos/deveres, dá ideia de que consideram mais difícil encontrar trabalho do que formar uma família, ou então a estabilidade desta não tem grande importância. Será?

domingo, setembro 28, 2008

Paul Newman 1925 - 2008


Hollywood é madrasta, e frequentemente esquece-se de premiar os seus mais zelosos servidores. Outros são lembrados tarde e más horas, mas são lembrados. Scorcese é um deles, por exemplo. Outro era Paul Newman, que ganhou o Óscar de Melhor Actor à sétima nomeação, por sinal numa cerimónia em que nem se encontrava presente.

Sim, como todos conheço a figura semi-mítica (a partir de hora sem o prefixo) de Paul Newman, a sua dignidade, a sua integridade, o seu casamento de cinquenta anos, uma agulha no palheiro do mundo do cinema, sobretudo tratando-se de alguém com uma figura que certamente atrairia as atenções do sexo oposto. Era mais uma das raras personificações do Homem no cinema, na linha de um James Stewart, de um Peck ou de um Brando, de que hoje resta George Cloney e pouco mais.

Mas como tantos outros, desconheço a sua obra maior nas telas. Nunca vi o Veredicto, filme aconselhado por qualquer lente de Direito, nem Gato em Telhado de Zinco Quente, ou Butch Cassidy and the Sundance Kid, ou ainda Malice. Lembro-me de A Cor do Dinheiro, sequela com a qual ganhou a tal estatueta dourada, de Êxodo, dos recentes Message in a Bottle e Caminho da Perdição (com o qual ganhou ainda uma nomeação pelo seu papel de chefe de clã mafioso irlandês), e poucos mais. Não basta, claro, mas é o que se arranja até agora.
Ao contrário de outros, a morte de Newman era mais que anunciada. Morreu com a dignidade que sempre teve, rodeado dos seus, sem querer prolongar artificialmente a vida. Uma vida, diga-se, totalmente realizada, coisa que ainda ontem era discutida pelos especialistas cinéfilos. Uma estrela maior entre todas as que o cinema viu desaparecer este ano, que se já estava a ser particularmente sombrio nessa matéria, mais negro ficou.

terça-feira, setembro 23, 2008

Sic transit gloria urbi
Agora são Samora Correia, Borba e a Senhora da Hora que querem ser cidades. A vila ribatejana até pode ser populosa, ali em plena lezíria, com a já suburbana Vila Franca por perto, mas a alentejana tem pouco carácter citadino. Sobre a freguesia dominada pelo NorteShopping, não compreendo como é que tendo o Porto e Matosinhos à frente e do outro lado da estrada precisará de ser cidade. Sempre vi a Senhora da Hora como pacato subúrbio residencial, atravessado pelo comboio (agora metro), jamais como uma urbe em si.

Esta moda de ser tudo cidade pegou de há vinte anos para cá, como se pode verificar. Se até ao fim da Idade Média só um determinado grupo de burgos era cidade (mais concretamente, as dioceses), o seu conceito começou a alargar-se a partir do momento em que Bragança, importante referência defensiva no Nordeste e pertença da Casa com o mesmo nome, adquiriu esse estatuto. Depois vieram as algarvias Tavira, Lagos e Faro, que substituiu Silves como centro de diocese, as açorianas, o Funchal, e entre os Sécs. XVI e XVII surgiram mais algumas dioceses e respectivas cidades, normalmente por razões estratégicas ou políticas, tais como Miranda, Pinhel, Elvas ou Penafiel. Nos anos de oitocentos, algumas atingem dimensão para se elevarem a essa categoria, como Santarém, Guimarães, Tomar ou Setúbal. Com a República vêm mais algumas (Vila Real foi a última capital de distrito a tornar-se cidade, apenas em 1925!), mas o Estado Novo mostrou-se mais avaro e só Almada, Póvoa de Varzim e Espinho é que lá chegaram, e só nos anos setenta. A 3ª República começou por ser prudente, mas em meados dos anos 80 surgiu nova fornada de cidades, mais no interior. Nos anos 90 e 2000, perdeu-se todo e qualquer sentido de urbe, mesmo que a Lei só permita, salvo condições especiais, que as cidades necessitem no mínimo de 8000 habitantes e de um conjunto de equipamentos equivalente. Mas por razões que me escapam ou por qualquer excepção, vilas houve que foram elevadas a cidade sem se perceber porquê. Tarouca, por exemplo, construiu uns prédios, uns arruamentos e alcançou assim o mesmo estatuto que a sua vizinha, a antiquíssima e nobilíssima Lamego, na sombra da qual esteve durante séculos. Na Beira vamos ainda encontrar Meda, Sabugal, Santa Comba, etc: tudo cidades, mesmo que algumas nem no concelho inteiro comportem habitantes suficientes para um burgo minimamente aceitável. Temos além disso cidades no Algarve que muito me espantam (Quarteira, e Lagoa), ou na Madeira, em que até um sítio de que nunca tinha ouvido falar, chamado Caniço, foi elevado a cidade! À febre também não escaparam as pacatas Porto Santo e Santana, que com aquelas casinhas engraçadas lembra antes uma aldeia de conto de fadas.
Aveiro também é pródiga, e só Santa Maria da Feira tem 3 para amostra: além da própria Feira, há ainda Lourosa e Fiães. Na Bairrada, está feito o pleno, com Anadia, Mealhada e Oliveira do Bairro, e a Gafanha da Nazaré é uma imensa cidade-bairro de pescadores e marnotos.
O distrito do Porto, então, bate tudo: concelhos que não são cidade temos apenas Lousada e Baião, Deus assim as conserve. Há depois uma infinidade de freguesias-cidade, como Lixa ou Freamunde. O exemplo mais burlesco vem do concelho de Paredes (também cidade, claro está): quando quiseram elevar Lordelo à categoria superior, Rebordosa e Gandra, de tamanho semelhante, também quiseram. Salomonicamente, ficaram as três com a graça urbana. A Gandra, aliás, ganhou população depois da instalação de um pólo de faculdade de medicina dentária. Alguns estudantes começaram a ficar por ali, construíram-se casas, depois prédios para a população, vieram alguns bares para animar a estudantada, e agora bem se pode considerar um "cidade universitária". Pitoresco. Será que têm tradições académicas próprias?
Fora os casos em que pela dimensão e importância social o mereceriam, tudo isto revela um imenso sentimento de provincianismo: querer ser cidade a todo o custo mostra uma ansiedade em ser urbano, em dizer que se é da "cidade de tal" e "ser moderno", em distanciar-se do campo e de qualquer ligação à ruralidade. Essa ideia imbecil que "a cidade é que importante" é uma das causas da suburbanização e falta de sentido estético que hoje se vê em Portugal (e não só, sejamos justos). Além de ser perigosa: reduzir o mundo rural a quase nada, ou a uma mera atracção turística, terá consequências graves no futuro. A alimentação ainda não vem dos laboratórios. E as cidades arriscam-se a ficar sobrelotadas, não já no miolo mas nos seus arredores, e a tornar-se de novo centros infectos de doenças e epidemias várias.
Tivesse eu poder sobre estas categorias e umas cinquenta cidades passavam a ser vilas. Aliás, nem acho que freguesia alguma devesse ser cidade. A distinção entre esta, a vila e a aldeia deve estar correctamente feita, sem que isso represente qualquer sentimento de inferioridade para as duas últimas categorias. Que olhem para os exemplos de Ponte de Lima, Cascais e Oeiras: à questão de saber se queriam ser cidades, puxaram dos galardões e recusaram liminarmente. Bem hajam!

domingo, setembro 21, 2008

O Sol, esse jornal tão diferente

O Arquitecto Saraiva parece continuar no seu jogo de fazer das pessoas parvas. O Sol aparece agora com a oferta de um DVD de um filme infantil - exactamente o motivo por que verberavam o Expresso. Ao lado, para o lembrar, o já célebre princípio de que "este jornal vale por si" e "não dá brindes". Com os mesmos brindes escarrapachados ao lado. Ou então esqueceram-se de retirar o lema nesta edição, colocando ao lado o mais ternurento " o jornal que gosta de crianças".

quinta-feira, setembro 18, 2008

Os cultos de Nápoles

Pela primeira vez na sua história, o Benfica defronta o Nápoles, na primeira eliminatória da Taça UEFA. Um sorteio pouco feliz assim o determinou. O grande clube do Sul de Itália pode não estar na forma do fim dos anos 80, mas no seu S. Paolo, com uma turba fanática e uma equipa aguerrida e bem montada, é um adversário temível. Por alguma razão todos os grandes de Itália perderam lá no ano passado.


Antes do apogeu na década de oitenta, o clube já tinha ganho uma ou outra taça sob a direcção de Achille Lauro, poderoso armador, Sindaco de Nápoles durante alguns anos e líder dos monárquicos italianos a nível nacional (no referendo de 1946 que instituiu a República, a monarquia teve as suas maiores votações precisamente na Campânia: mais de 60%), mais conhecido também pelo assalto a um navio com o seu nome. Até que chegou o seu novo Deus Maradona, cuja idolatria repartem com os argentinos: o pequeno génio deu a ganhar ao clube dois scudettos e uma Taça UEFA, coisa só em sonhos imaginada pelos napolitanos. Depois da sua partida, o clube começou a decair. Teve mais uma ou outra participação nas competições europeias, e depois tombou nas divisões secundárias, vergado pelo passivo financeiro. Recuperado da falência pelo empresário Aurelio di Laurentiis (sobrinho de Dino De Laurentiis), voltou em 2007 à Serie A e à UEFA. Além de Diego Armando passaram por lá jogadores Careca, André Cruz, Jonas Thern, Ciro Ferrara ou Fabio Canavarro, e técnicos tais como Marcello Lipi.


Mas não é só a Maradona que os napolitanos, povo crente, veneram. O padroeiro da cidade, San Gennaro (ou São Januário), é alvo de um culto célebre, que inclui o milagre anual da liquefacção do seu sangue, durante a sua festa. Que ocorre precisamente...Sexta-Feira, 19, no dia a seguir ao jogo com o Benfica. Significa portanto que os napolitanos não poderão pedir pelo seu clube o bom milagre durante as comemorações do Santo, mas apenas antes, ou na melhor das hipóteses, pedir-lhe que o resultado da noite anterior possa ainda ser revertido. Espero eu, assim como espero que no dia de San Gennaro não haja grande festança e que o Santo não esteja virado para grandes benesses. Ele que atenda ao problema do lixo espalhado pela cidade, ou da Camorra, do desemprego atávico e da situação económica e social italiana que ali é particularmente severa. Agora quanto ao futebol, que esteja virado para outro lado que nós agradecemos.

segunda-feira, setembro 15, 2008

A ferrovia a saque

Interessante artigo de ontem, no Público, sobre a linha férrea em Trás-os-Montes e no Douro. Interessante mas inquietante, também. As perspectivas não eram nem são nada agradáveis. E o pouco que resta desse fantástico património ferroviário e do esforço de imensos trabalhadores e técnicos em ultrapassar as barreiras naturais da região pode vir a ser eliminado nos próximos anos.
Da linha mãe, a do Douro, que ia até Barca de Alva e seguia por Espanha (hoje acaba no Pocinho), saíam várias outras, correspondentes a alguns afluentes do rio. A do Tâmega desviava-se em Livração, no Marco, e ia até Arco de Baúlhe, depois de passar por Celorico e Amarante. Hoje para nesta última, e só tem poucos quilómetros. A do Corgo saía da Régua, trepava (e trepa) pelos socalcos do Douro acima, passava por Vila Real, Vila Pouca, Pedras Salgadas e Vidago, e acabava em Chaves. Tinha grande relevância no transporte para as termas. Depois da amputação, ficou-se pela capital de distrito. A do Tua, como se sabe, sobretudo pelos vários e suspeitos acidentes que tem sofrido nos últimos meses, parte da estação com o nome do rio, passa por fragas e depois por olivais até Mirandela (onde cessa actualmente a sua marcha), e seguia por Macedo, até Bragança. A do Sabor, porventura a mais entusiasmante em termos de paisagem, e a única integralmente abandonada, subia do Pocinho em direcção a Moncorvo, passava ao largo de Freixo e de Mogadouro e ia morrer em Duas Igrejas, a poucos quilómetros de Miranda. Ainda houve projectos para uma linha do Varosa, que seguiria para sul, atravessando do Douro, até Viseu, via Lamego. Ainda se construíram viadutos e até uma ponte metálica, que faz parte hoje em dia da paisagem reguense, nunca tendo servido realmente para nada. Caso o projecto da linha tivesse sido concretizado, o mais provável é que ela já estivesse encerrada.


Os erros de alguns projectos iniciais, como a interrupção abrupta das linhas em relação ao plano original ou o traçado que não aproveitava às povoações mais importantes, e a falta de visão de alguns dirigentes políticos e responsáveis ferroviários, levaram ao corte brutal destas vias. A concorrência rodoviária, apoiada em fortes lobis, e normalmente de qualidade inferior ao comboio, muito contribuíram para esse fim. Transformou o que delas restava numa mera atracção turística de Verão, ou num transporte para um ou outro lugar mais inacessível. Destruiu um património único, literalmente deixado às urtigas, e desperdiçou todo o trabalho de construção e manutenção efectuado antes.


Agora que parte do declínio das linhas é irreversível, convém salvar o que resta e aproveitar o que ainda pode ser utilizado. Há pressões das câmaras de toda a região para que se reactive a parte desactivada da Linha do Douro, a partir do Pocinho. Os espanhóis estão a fazer o mesmo no seu lado, e seria uma monumental asneira não aproveitar o ocasião de se levar de novo o comboio a Barca de Alva, evitando que tantos visitantes voltem para trás ou apanhem um autocarro, e ligar o Porto a Salamanca (duas cidades classificadas pela UNESCO como Património da Humanidade).


Por outro lado, a Linha do Tua, que tantas desditas tem sofrido nos últimos tempos, algumas bastante suspeitas, desde que se soube dos planos da construção de uma barragem no seu vale, que destruiria a velha e histórica linha férrea. Se se conseguir impedir tão inútil projecto(principalmente para as populações locais), tarefa que se afigura hercúlea tendo em conta a ganância da EDP, seria uma oportunidade de ouro para se requalificar a linha e restaurar a sua parte inactiva, levando-a a Bragança, e cumprindo o projecto original de atingir Puebla de Sanabria, já em Espanha. A ideia tem agora ainda mais cabimento já que na dita cidade haverá uma estação de paragem da linha de alta velocidade entre Madrid e a Galiza, equidistante de Zamora e Ourense. Ligava-se assim o douro ao TGV espanhol. Tal é o projecto da petição que andou aí a circular para a salvação da linha do Tua.




Quanto ao Corgo, ao menos que fique como está. a passagem pelas vinhas, quase a resvalar nos precipícios, é notável. O futuro da linha do Tâmega é mais incerto, até pela sua escassa distância. O fantástico percurso do Sabor, esse, já não tem qualquer remédio, mas ao menos que se aproveite o património que deixou disseminado, como algumas estações ao abandono (a do Freixo, a 14 quilómetros da vila, é paradigmática).


É sabido que o actual governo dá mais ênfase ao "tecnológico"e não prima muito pela defesa do património. Por isso mesmo há que falar mais deste imenso património ferroviário como há poucos na Europa. O Douro não seria o que é sem o comboio. E não só. Por isso, que mil artigos como este sejam editados, que mais petições, manifestações, debates e chamadas de atenção floresçam, para que os senhores da REFER e da CP não fiquem surdos e promovam o que lhes cabe salvaguardar.
Em San Diego
Livin´in California é um novo blogue que descreve a vida de um doutorando português de engenharia em San Diego, no sul da Califórnia. Está a dar os primeiros passos, e o seu administrador ainda se está a ambientar à terra onde vai passar os próximos anos (e à escrita bloguística). Haverá com certeza matéria de sobra para saber como é a vida de quem está a tirar o doutoramento nos EUA (esse termo mágico de tão prestigiado que é) e que é que pode fazer na Califórnia no intervalo das aulas e dos papers. A partir de agora, o blogue do José "in California" Maria Costa Pereira está na para a coluna dos links.

sábado, setembro 13, 2008

A frase de Salina

 
Esta noite revi o O Leopardo, o magnífico filme de Visconti inspirado no livro de Lampedusa. E tirei a limpo uma dúvida que já tinha há algum tempo. Quando se refere a obra - o livro ou o filme, tanto faz - costuma-se invocar uma frase proferida pelo Príncipe de Salina da seguinte forma: é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma. Parecia-me que a frase não era exactamente assim, e hoje confirmei-o: na realidade, o Príncipe/Burt Lancaster diz é preciso que uma ou duas coisas mudem para que tudo fique na mesma.
A prova mais evidente da sabedoria dessa máxima é que a correcção que serviu de propósito a este post não lhe retirou qualquer sentido.

quarta-feira, setembro 10, 2008

O PRI em Angola
Olhando para os esmagadores números da vitória do MPLA em Angola, não se pode deixar de pensar que terá havido mesmo fraude eleitoral. Mais de 80% é demais. Mesmo que não tenha havido o clássico golpe dos votos previamente enfiados na urna, ou outros semelhantes, as secções de voto que não abriram ou que não tinham pessoal habilitado levaram a uma elevada abstenção, que prejudicou a sobretudo a UNITA.
O MPLA não precisava deste mau funcionamento do processo eleitoral (que a delegação da UE chegou a considerar "um desastre", muito embora outros o tentassem disfarçar) para ganhar, mas a obsessão em conseguir os dois terços dos votos para alterar a constituição era tal que não olhou a quaisquer meios. A máquina estatal e a comunicação social cobriram massivamente as suas acções de campanha, imensos recursos foram utilizados em brindes, e num dos mais corruptos países do mundo, imagina-se os montantes de dinheiros públicos que não terão sido movimentados para financiarem a "campanha à americana" que se verificou, com comícios gigantes e meios publicitários pouco comuns em África.
A UNITA estava assim em desvantagem, mas só na imaginação de alguns é que ganharia estas eleições. Sem os recursos do partido do poder, com algumas deserções para as fileiras do MPLA que lhe retiraram muitas figuras carismáticas e com a impopularidade colhida na segunda guerra civil, jamais chegaria perto sequer. Quanto aos outros partidos, ficaram apenas com as migalhas, e o histórico FNLA, que desencadeou a Guerra Colonial em Angola, quase desapareceu, excepto alguns magros apoios na fronteira norte.
Se a paz regressou aquele país, e há algumas manifestações democráticas, a cleptocracia reinante vai certamente perdurar. E o MPLA, com a base de apoio alargada, tornar-se-à provavelmente o PRI angolano.

segunda-feira, setembro 08, 2008

O mundo de alguns

Porque é que quando leio um artigo de João Carlos Espada me dão ganas de votar no BE ou de ir à Festa do Avante? Talvez porque o eminente Professor e cronista do Expresso nunca aplique a si mesmo a máxima que proclama no seu último artigo de opinião: existe um mundo lá fora. Que não se resume a clubes privados, a salas de conferência de "liberty funds" e quejandos, à Católica de Lisboa ou ao Hotel Palace do Estoril. E por incrível que pareça, nem ao mundo anglo-saxónico, que não é a única fonte de virtudes no mundo. Alguém é capaz de lhe dizer isso?

sexta-feira, setembro 05, 2008

O Céu sobre Lisboa


Nos últimos dias apareceram em várias blogues condolências pela morte de Pedro Ornelas.

Não fazia a menor ideia de quem se tratava até finalmente uma leitura atenta me deixar esclarecido: era nem mais nem menos que o autor do blogue O Céu sobre Lisboa.

Houve uma certa época em que ia lá quase diariamente. Ainda cheguei a deixar uns comentários na respectiva caixa. Depois, no tempo que passei em Lisboa, ia lá de vez em quando para procurar sugestões e curiosidades sobre a cidade e arredores, dos quais Pedro era um incansável andarilho. Aqui, por exemplo, descobri coisas sobre o Jardim da Estrela que de outra forma não teria reparado. E ainda se viam imensos posts sobre a Margem Sul, o Porto, o Algarve, a Madeira, Madrid, questões linguísticas e ortográficas, etc.

Sabia que o blogue estava com fraca produção, e só por isso não o "linkei", mas não que o seu autor não estava mais entre nós.



Quanto a O Céu sobre Lisboa, continuará a vogar solto pela blogoesfera, como um fantasma. É uma excelente recordação e um bonito legado para todos, mesmo aqueles que, como eu, apenas conheciam Pedro Ornelas pelas memórias e as paixões que nos revelava com as suas fotografias e as suas palavras.

(Esta imagem pertencia ao seu blogue; era talvez a paisagem mais repetida, para assinalar sempre o tempo que fazia).

terça-feira, setembro 02, 2008

O site de Dragan Dabic

Mais de um mês após a detenção, o site pessoal do Doutor Dragan Dabic, aliás Radovan Karadzic, continua no ar. Não explica é se os utentes que quiserem recorrer à sua medicina alternativa têm de se deslocar à Haia. Os bósnios muçulmanos não terão certamente vontade nenhuma de recorrer aos seus serviços.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Guerras de Verão



Os Jogos Olímpicos de Pequim, que à partida seriam o assunto mais debatido do mês que agora acaba, tiveram de dividir o protagonismo com o conflito entre a Geórgia e a Rússia, por causa da Ossétia do Sul (e da Abcázia). Desde o início das hostilidades até à retirada das tropas russas do território georgiano propriamente dito, muito se escreveu sobre de quem seria a culpa, ou a nova ameaça que alguns vêem na Rússia, quando a criam quase por terra.


Desde logo, será bom verificar que a actual Geórgia está bem mais forte do que nas guerras civis dos anos noventa. Com um crescimento económico de perto de 10% e a modernização das forças armadas, o Presidente Saakashvili alimenta a sonho de entrar na NATO e na UE, coisa que seria uma lança no Cáucaso. A aproximação à Europa dos 27 e principalmente aos Estados Unidos, com os quais tem estreitas relações, e cuja ajuda para a Revolução Rosa de 2003 foi determinante, tornam a Geórgia num posto avançado ocidental encravado no flanco sul da Rússia. Precisamente o que os EUA pretendem, para cerca e domar a Rússia e aproximar-se da Ásia Central - e do Irão.


Em 1991, com a queda da URSS, inúmeros entusiastas da Pax Americana deleitavam-se com a humilhação do ex-inimigo, agora transformado apenas num urso de peluche, com o seu presidente beberrão, os seus governantes pró-yuppies e o seu exército decadente e a desfazer-se. Abriam McDonalds em Moscovo e aos poucos foram aparecendo novos oligarcas, donos agora das antigas empresas públicas soviéticas. Mas com a passagem do século surgiu também Vladimir Putin, que os havia de dominar e aproveitar da melhor maneira as necessidades energéticas do Ocidente de petróleo e gás natural.


Um dos maiores erros da história é humilhar povos e estados que já tiveram um passado bélico de respeito, sobretudo se tiverem um forte orgulho nacional, algum rancor e capacidade de se levantar. Basta pensar na Alemanha pós-1919.


Putin usou esse mesmo sentimento para reerguer a Rússia como potência a temer. Ainda por cima o orgulho estava ferido pela adesão do ex-Pacto de Varsóvia à NATO, pelo projecto do escudo anti-míssil nas suas antigas esferas de influência, pelas revoluções multicolores pró-ocidentais nessas mesmas esferas e pela afronta feita à sua aliada Sérvia, com o apoio à independência do Kosovo. Resolveu por isso actuar, coisa que aterrou os que a julgavam hibernada.


A aventura militar da Geórgia serviu às mil maravilhas para mostrar o seu poderio. Tem-se dito, e acho a expressão particularmente feliz, que Saakashvili deu um passo maior que o pé. Apesar das suas forças estarem bem equipadas, também ele devia estar ciente da impossibilidade militar, a menos que estivesse embriagado de megalomania. Provavelmente esperava a reacção russa, mas com a confiança de que a Europa e os EUA a apoiariam. Poderia assim restaurar a soberania georgiana no Ossétia e na Abcázia, aderir a curto prazo à NATO e recuperar o seu prestígio interno. Mas essa confiança era desmesurada, já que se sabe que conselheiros americanos e israelitas o tentaram dissuadir de semelhante empresa. ainda assim, avançou. Os seus planos saíram furados: não conseguiu recuperar a autoridade nas regiões insurgentes e viu os tanques russos a poucos quilómetros de Tbilissi. Talvez a Geórgia ainda possa aderir à NATO, daqui a alguns anos, se prometer não se envolver em semelhantes brincadeiras. O resultado desta curta guerra de Verão, a que mais episódios se deverão seguir, são algumas centenas de mortos, milhares de refugiados e desalojados (para os dois lados) e uma derrota militar e política humilhante. Além de que poderá ver ao seu lado dois futuros estados, antes sob sua autoridade, sem qualquer condição de viabilidade e que provavelmente se tornarão em províncias da Rússia. Moscovo conseguiu os seus intentos, apenas com inofensivas recriminações, e no fim ficou-se a rir.

Só se pode concluir que se tratou de uma aventura absurda e pretensiosa de um país pelo qual até tenho apreço e curiosidade. Mas a e a teimosia megalomania dos seus líderes teima em perdê-los. Gamsakurdia pagou com a vida. Shevardnaze com a destituição e o exílio. Saakashvili (que já mostrou laivos de prepotência) mantém-se no lugar, mas por quanto tempo?

Zoroastrismo
A não perder os posts sobre o Zoroastrismo no Herdeiro de Aécio. Fiquei a saber, por exemplo, que o culto se espalhou pela Índia, quando o julgava confinado a pequenas comunidades no Irão.

quinta-feira, agosto 28, 2008

A guerra chegou a Moledo
Através de um comentário, pude ver mais visões igualmente distorcidas sobre Moledo. Felizmente nem todos vão para o Algarve, ou fazem-no apenas por uns dias (imagine-se aquela sobrelotada região ainda com mais gente em Agosto). No meu caso, não me lembro da primeira vez que vim a Moledo porque tinha meses, e por poucos dias não tenho no meu BI uma naturalidade diferente. E felizmente nunca tive de pedir guarida a ninguém, excepto à minha família mais próxima. Quanto ao Clube, é engraçado nas tardes de ventania, para se tomar café e ler tranquilamente nos cadeirões de verga cá fora. Á noite não o frequento porque tenho mais de 17 anos e menos de 45, e entre essas idades não se encontra lá ninguém.
Era precisamente do Ínsua Clube que queria teclar: a ilustre instituição estival andou pelos noticiários e secções de crime de vários jornais por causa de uns embuçados que entraram pelo campo de futebol adentro, com canivetes e bastões, ao que consta por causa de um ajuste de contas. Devo dizer que poucas horas antes tinha estado lá a almoçar, para comemorar o meu aniversário com a família, na modorra pardacenta de Domingo; já na praia, ouviram-se logo umas exclamações sobre o "jogo de futebol interrompido", "pancadaria" e "ambulâncias". Dentro das instalações do Clube decorria a Assembleia Geral; nenhum dos sócios reunidos ouviu os desacatos.
Cenas de pancadaria, vandalismo e demais brincadeiras parvas, sobretudo à noite, não são novas pelo Alto Minho, particularmente em fins de Agosto, mas encapuçados é coisa que ainda não se tinha visto. A princípio tratar-se-iam de miúdos que passam férias lá, e que desgarrados da alçada dos pais, se metem a fazer tropelias. Fala-se agora também em malta mais local e em questões particulares entre eles, ou mesmo de gangues que viriam do Porto para ajustes de contas. Não sei se será tudo romanceado e se não se tratarão apenas de "veraneantes" com sobejo desrespeito e falta de chá, teenagers que não receberam puxões de orelhas suficientes e que se acham no supremo direito de fazer tudo o que lhes apetece. Uns redimem-se a tempo, outros não.
A conversa da "insegurança" não me costuma comover muito, mas confesso que com tiros quase diários, crescentes operações policiais e uma data de crimes a que já não estávamos habituados começo a ficar incomodado. Não estamos ao nível da Colômbia nem da África do Sul, mas pergunto-me se não estaremos realmente a passar por um período de aumento real da criminalidade. Não seria nada estranho nem inédito. Bem sei que os desacatos de Moledo estão a um nível mais baixo do que o recente assalto falhado a uma dependência bancária em Lisboa, mas fica aqui uma pequena contribuição para revelar alguma pequena criminalidade que não se verificava há uns anos, mesmo onde se pensava que ela não chegaria.
Só duas notas: voltando ao início do post e ao link que lá se encontra, acho estranho ouvir falar de "almoços no Palma" quando nesta altura só servem jantares. E segundo reparo: um dos agredidos pelo bando de encapuçados era um remador do Sporting Clube Caminhense. O menor fulgor actual desse clube talvez tenha sido o azar desse atleta, já que antigamente não era raro ver remadores de Caminha (e da referida agremiação) representar, e bem, Portugal nos Jogos Olímpicos. Estivesse o agredido em Pequim e nada lhe teria sucedido. Infelizmente para ele, os atletas do Minho foram substituídos pelos do Cávado.

terça-feira, agosto 26, 2008

Jogos Olímpicos: os Deuses

(Infelizmente não consegui encontrar nenhuma caricatura do Di Maria)

sábado, agosto 23, 2008

Entretanto, em Pequim


Esta imagem da força de vontade de Nelson Évora vale por muitas declarações e muitos agradecimentos de autoridades nacionais em nome do país. E demonstra que nem só de futebol vive o desporto português. Embora em boa verdade se deva recordar que o campeão olímpico do triplo salto é um atleta do Benfica.

sexta-feira, agosto 22, 2008

Benfica 2008-09: antecipações
Desde Maio, o mês em que acabou o frustrante último campeonato e em que Rui Costa trocou a camisola de jogador pela gravata de director, que acompanho a par e passo a pré-época no Benfica. A princípio, julgava que seria necessário, para além de alguém que compreendesse bem o futebol, um treinador jovem e ambicioso e algumas mudanças no plantel, para substituir algumas peças mais importantes e um ou outro jogador sem talento ou força mental para jogar no Benfica.
O técnico que eu mais gostava de ver no banco do Benfica era Laudrup, mas a vinda de Quique Flores também não me deixou nada insatisfeito. É bastante dotado tecnica e tacticamente e deixou bom trabalho em Valência. A inclusão de Diamantino Miranda e, acima de tudo, do preparador físico Pako Ayestaran, para resolver um dos mais bicudos problemas dos últimos anos, são também mais valias visíveis.

Quanto ao plantel, embora maioritariamente satisfeito, teve algumas mudanças quanto a mim discutíveis. Era a favor das saídas de Butt, porque desnecessário (embora ache incrível que nem 1 milhão de €uros tivéssemos recebido), de Luis Filipe, e eventualmente de Edcarlos. Deveriam apenas entrar jogadores que colmatassem estas saídas e a de Rui Costa, além de uma ou outra que pudesse suceder, como a de Rodriguez, ou uma venda mais rentável.
Começando lá atrás, Quim e Moreira dão mais que garantias, mas tenho pena que não tenhamos conseguido vender o passe de Moretto para pôr no lugar do regressado estrangeiro um "produto" da formação, como Bruno Costa.
Na defesa, talvez não fosse má altura para vender Luisão, mas se ele se mantiver sem lesões talvez faça uma época superior ás últimas duas. David Luiz, essa incrível descoberta, é para ficar, claro. Gostei também do retorno do promissor Miguel Vítor. Sidnei é uma incógnita, até pode ser muito bom, mas os milhões oferecidos por metade do passe foram caso para torcer o nariz. Não se sabe se Zoro fica ou sai, mas quanto a mim é uma mais valia que ainda não teve oportunidade de se mostrar, até pela sua polivalência. Se não é para ficar, então que se ganhe algo com a sua saída (além de se poupar no elevado salário). Laterais: óptima a renovação com Leo, acertado o recuo de Maxi para a defesa, esperança na próxima época de Nelson e sérias dúvidas na troca de Sepsi para a vinda de Jorge Ribeiro,, um jogador mediano que saiu há uns anos a mal da Luz.

O meio-campo sofreu uma profunda remodelação. A saída inesperada de Petit para o Colónia (outro jogador oferecido!) abre o caminho para os prometedores Ruben Amorim e Yebda. O Maestro dá o lugar a Carlos Martins, o rebelde ex-sportinguista, esperando que finalmente solte o seu talento, e ao conceituado Pablo Aimar, um jogador que há uns tempos jamais acreditaria poder vir para o Benfica mas que tem jogado mais à frente. Dará azo a todo o seu talento? Em breve se saberá. Ainda temos para o meio do terreno o impetuoso Bynia e o polivalente Maxi. E Zoro, se não sair.
À frente há alguma fartura para o lado esquerdo. O quase medalhado olímpico Di Maria pode explodir se continuar na forma que tem mostrado em Pequim, mas terá aí de competir com Reyes, um daqueles jogadores de grande talento mas que prometem sempre muito mais, sem nunca chegarem ao patamar dos génios; e o jovem uruguaio Jonhatan Urretaviscaya, uma flecha com raça e sentido de golo, um jogador que promete vir a ser um caso sério e que já é um fenómeno de popularidade entre os benfiquistas.
No centro, Cardozo está em boa forma e pretende continuar os feitos do seu bombástico pé esquerdo; será também aconselhável a melhorar o pé direito e o jogo de cabeça. Makukula é um torre, mas é igualmente uma das piores contratações dos últimos anos, na sua relação preço/qualidade, e bom seria se fosse vendido. O tal "avançado móvel" que Flores tanto deseja tarda a chegar; não sendo Luis Garcia, quem virá até fins de Agosto?
Uma das maiores dúvidas para mim está na direita. Francamente, preferia ficar com Adu a comprar Balboa (4 milhões de €uros!); é certo que o americano não se chega à linha e cruza como o jogador da Guiné Equatorial, preferindo a finta e o passe curto, mas o seu talento é muito maior e pode ainda provar todo o seu valor se lhe derem oportunidade. Que o Mónaco seja inspirador...
Se nos primeiros jogos houve desconexões compreensíveis, os embates contra o Feyeenord e o Inter de Mourinho já deram uma melhor imagem da nova turma de Quique. Golos foram poucos, mas a baliza manteve-se intacta, e viu-se bom futebol. Veremos o que sai de Vila do Conde, no Domingo (ainda por cima o meu dia de anos), e sobretudo o que fará este Benfica 2008/09. Melhor do que no ano passado será de certeza, e confiança - com paciência - é que não falta. Assim como as razões para esperar algo de positivo.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Links

Uma inovação que já tardava neste espaço: um conjunto de ligações a outros blogues. Com as alterações no template do Blogger, colmatou-se finalmente uma grave falha. Para já, estão alguns incontornáveis, mas ao longo do tempo outros serão acrescentados. A blogoesfera é grande, e há boas surpresas sempre ao virar de um link.

sexta-feira, agosto 15, 2008

Visões parciais de Moledo

O Público anda a publicar uma série de reportagens sobre "praias tradicionais" a Norte do Tejo. O "dossier" começou por Moledo, provavelmente por razões geográficas. E o que escreveu sobre a mais nortenha das praias portuguesas deixou-me de pé atrás sobre as restantes. A reportagem tem algumas curiosidades com a sua piada, focando-se principalmente no Moledo antigo. Mas comete alguns erros, até porque se baseia na visão de apenas duas pessoas, de um meio muito próprio.


Tratar alguém pela sua alcunha (que aliás detestava), como fizeram a "Trifaldino" Aguilar (que se chamava na realidade Manuel) é qualquer coisa de bradar aos céus. Ou presumir que as vendedeiras de bolos vendessem os frágeis caminhenses na praia, coisa que jamais aconteceu, até porque se estragariam com a maior das facilidades. Ou ainda considerar que pessoas que por lá passaram uma ou outra vez, como João José Cochofel, eram habituées normais.

Depois, há olhares demasiado parciais e datados nas divisões políticas. Não sabia que os monárquicos se reuniam em casa do Visconde de Sousa Rego, que ainda existe. Mas acho muito duvidoso que o Ínsua Clube tenha sido fundado para servir de pouso aos republicanos. Sei de vários monárquicos que não só o frequentaram desde então como até presidiram aos seus órgãos sociais. Além do mais, como é possível falar de republicanos em Moledo sem referir que Bernardino Machado, duas vezes presidente da República, era um assíduo frequentador da praia, assim como os seus descendentes, conhecidos como "os Bernardinos" (ainda há uns 15 anos me lembro de ver um senhor extremamente idoso, filho do próprio Bernardino)?


A própria divisão da praia está errada, ou não já corresponde à realidade. Se a esquerda continua a ser uma zona popular, a direita da praia, a do Clube, está reservada a um sector mais "social", e o meio é para quem quer fugir à maralha. Divisões políticas são coisas que já não têm lugar no areal.


O que se pode dizer do artigo em geral? Revela um pouco do Moledo de antigamente, com as suas famílias numerosas que se conheciam todas umas ás outras, a importância de António Pedro, o Ínsua Clube como único local de encontro, a par da praia, ou o tempo em que o Pica-Pau era o único bar disponível da praia, durante todo o ano (hoje já não existe). Apreciável também, a lembrança da saudosa Pensão Ideal, hoje demolida, em cujo café bebi as minhas primeiras cervejas. Mas se tivessem interrogado outros assíduos moledenses a reportagem por certo que seria menos hermética e daria outra visão de conjunto. Não faltam personalidades conhecidas que pudessem falar, como Vitorino de Almeida, Jorge Miranda, Mariano Gago. E quem não conhece Moledo poderia não só conhecer melhor o passado, como os ardentes torneios de canasta, a célebre visita de Zeca Afonso ao Clube, e os passeios de burro pela trela do Maestro Vitorino. Quanto ao presente, em que a segunda quinzena vê chegar uma onda de gente, não há só zaragatas na Avenida de Santana no regresso das noites da Alfândega e da Indústria (embora haja os seus problemas, como já tive oportunidade de fazer notar), mas também alguns bons dias de praia, longas conversas nocturnas no Palma, passeios pelo pinhal do Camarido e incursões a Espanha ou a outras localidades minhotas em dias de mau tempo.


É assim o Moledo actual. De imutável só mesmo os montes circundantes - Facho, Santo Antão e o imponente Santa Tecla - o vento, a Insua e o mar.

Moledo, Agosto de 2008 (com um tempo excelente)

terça-feira, agosto 12, 2008

Os custos da superpotência

















Os Jogos Olímpicos de Pequim, sumptuosa e megalomanamente inaugurados há poucos dias, recordam-me outros eventos desportivos realizados na Alemanha, em períodos e contextos bastante distintos. Pela blogoesfera fora nota-se a mesma ideia.
A superpotência ascendente chinesa pretende "cumprir o seu destino" e redimir-se dos anos em que teve a oportunidade se expandir para o exterior e preferiu dedicar-se ao seu domínio regional. Depois de se vergar perante ocidentais e japoneses, servindo de objecto aos sentimentos expansionistas de outros, ultrapassado o equívoco maoísta, hoje mero objecto de decoração, e as sinistras memórias da Revolução Cultural, a China levantou-se. Tornou-se um centro industrial e financeiro, deu às suas cidades uma imagem vertical, invadiu os mercados - e as universidades - ocidentais com os seus produtos e tem levado as suas ambições a África e à América do Sul. A mistura da influência de Confúcio, Marx e Adam Smith tornou o velho Império do Meio numa potência global. Que como todas que emergem, quer demonstrar o seu poderio com uma grande celebração de abundantes doses de espectáculo e riqueza.

Mas entre as demonstrações de grandeza (ou de tamanho?) de uma potência autoritária há sempre os engulhos e as pedras no sapato. Os protestos contra a situação no Tibete, que duram há vários meses, são o exemplo mais conhecido. Para lá de todo o show-off, recordam que estamos perante um país que executa centenas de presos por ano, que continua a limitar e perseguir cultos, como a Católica, e a exercer o controle sobre territórios que controlou pela força. São a "chatice" mediática que incomoda a China e os seus poderes, e que de certa maneira lembra Berlim em 1936. A aposta na conquista da maioria das medalhas, sobretudo sobre os EUA, mostram bem esse desesperado desejo de afirmação. E as declarações de chineses anónimos, do seu orgulho pela "demonstração de poder", é o eco desse desejo, arranhado pelos manifestantes pró-Tibete.

O outro aborrecimento são os atentados contra forças policiais que se têm verificado nos confins do sudoeste chinês, nas regiões maioritariamente muçulmanas, que pretendem impôr a Sharia nesses territórios. São um ténue beliscão no grande evento desportivo, mas o seu eventual agravamento pode ser incomodativo. Atentados nos Jogos, como os que aconteceram em Munique em 1972, é a última coisa que as autoridades chinesas pretendem ver. Mas há preços a pagar para se ser uma superpotência. A ameaça do terrorismo global, mormente o islâmico, e a sua concretização, é um desses custos modernos que há que suportar em troca da visibilidade do seu poderio.

domingo, agosto 10, 2008

Silly season a Norte
Dez dias depois, volto a teclar no blogue. Depois de um tour pelas falésias do Sul, pela aridez vicentina e pela capital, eis-me de volta às nortadas, às águas frias, aos nevoeiros e ao habitual convívio que caracteriza este extremo norte da costa portuguesa. De volta aos jornais que não li nos últimos dias, e às novidades e efemérides em que tardiamente reparei, como os 430 anos de Alcácer Quibir, os 40 da queda de Salazar e a morte de Soljenitsin. Ou os assaltos frustrados a bancos e a abertura colossal dos Jogos da polémica. Entretanto, começei logo por comprar os habituais Cadernos de A Bola, para ficar munido para a época futebolística que se avizinha, como faço todos os anos. E como todos os anos, pergunto-me sempre a mesma coisa: se se sabe que o mercado está longe de fechar, e que há contratações latentes e na calha, porque é que insistem em editar os Cadernos tão cedo? Não poderiam esperar ao menos uma semana, caros Dr. Vítor Serpa e restante redacção? Sempre era um favor que faziam aos vossos leitores. Ao menos para a edição do próximo ano podiam pensar nisso.

sexta-feira, agosto 01, 2008

A partir de hoje, e durante a próxima semana, este blog ficará parado. Posts só mesmo no outro fim de semana. A blogoesfera também precisa de férias, e o mundo não se resume à net e aos blogs, embora às vezes pareça.
Deixo-os com a nova coqueluche da "Cena de Queluz", os Pontos Negros - inspirados a contrario no nome das suas referências White Stripes - e a magnífica Conto de Fadas de Sintra a Lisboa. Vale bem a pena. Ouçam e divirtam-se.