quinta-feira, outubro 27, 2016

A batalha por Lisboa


A 29 de Setembro passaram 3 anos desde as últimas autárquicas e da noite chuvosa mas emocionante em que Rui Moreira chegou à presidência da Câmara do Porto. Falta portanto menos de um ano para a próxima contenda municipal, e as máquinas partidárias já pensam nos seus candidatos.

Ao contrário do que sucedeu em 2013, ninguém espera uma grande batalha eleitoral no Porto. Moreira reúne uma enorme taxa de aprovação e o apoio é mais que muito, de tal forma que o PS, chamado a partilhar a governação municipal, e ainda que com algumas resistências no aparelho, desistiu de apresentar candidato próprio e apoiará o actual presidente. O CDS, único partido na altura a apoiá-lo, continuará naturalmente na coligação municipal. O PSD, opositor à maioria, anda às voltas para arranjar um candidato que não perca por muitos. Provavelmente será o actual provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, António Tavares, que anda com o típico discurso do "não estou disponível" até surgir com um "candidato-me com grande sacrifício movido por uma vaga de fundo...". Vai uma aposta? O resto deverá ser o habitual candidato da CDU a vereador e uma candidatura inócua do Bloco.

Em 2017 as situações nas principais cidades estarão invertidas em relação em 2013: uma eleição sem grande história no Porto e uma batalha trepidante em Lisboa. Fernando Medina parte com uns quantos espinhos no caminho por causa das obras intermináveis (e a "obra feita" já não atrai assim tantos votos), mas com a confiança de que não surgirá nenhuma candidatura forte o suficiente para a atrapalhar a sua eleição.
Até agora, só Assunção Cristas se chegou à frente oficialmente como candidata ao município. É duvidoso que ganhe ou mesmo que fique em segundo, coisa que não sucede desde os anos setenta, o que a acontecer seria uma humilhação para o PSD. Mas pode vir a complicar as contas, tanto para um lado como para o outro. Até porque não se esperam grandes maiorias. E depois, há a hipótese improvável do PSD vir mesmo a apoiar Cristas, tal como apoiou Abecassis, com sucesso, no anos oitenta (se bem que aí as condições fossem diferentes, até porque, como atrás se disse, nas primeiras autárquicas o CDS ficou em segundo, em parte talvez porque o PSD tenha perdido eleitorado ao apresentar uma mulher, coisa rara na altura, ainda para mais jovem, de seu nome Helena Roseta). Se assim fosse, Cristas poderia mesmo vir a governar Lisboa. Para o PSD, a tarefa de encontrar um candidato vencedor não parece nada fácil, e mesmo a hipótese Santana, nada certa, pode já não causar grande impacto. Veremos se prevalece o sentido de vitória ou se a trincheira com o CDS se cava, ou quem ganha entre o aparelhismo e sectarismo

Há também a hipótese do BE, que não tem tido resultados muito honrosos na capital, e numa lógica de "geringonça", apoiar Medina. E como muitos se lembrarão, também o PCP se juntou ao PS, em coligações de sucesso que duraram até ao desgaste com João Soares. Mas isso ficará para um próxima post.
 
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sexta-feira, outubro 21, 2016

Imagens da Caledónia


A Escócia é um bom destino de viagem de inícios de Outono, até porque as temperaturas parecem as de Dezembro em Portugal. Mas se se tiver a sorte de não apanhar chuva - difícil mas perfeitamente possível - vale bem a pena. As paisagens das Highlands são imponentes e belíssimas, principalmente a que rodeiam os lochs. Edimburgo é uma cidade ao mesmo tempo monumental e dinâmica. E as velhas tradições coexistem com a modernidade. Ninguém se admire se vir à noite, nos pubs ou restaurantes,  homens de kilt sem serem empregados ou guias turísticos.


Edimburgo ao pôr do sol, vista de um dos clássicos miradouros, a Carlton Hill.


O ex-líbris da capital escocesa, o imponente Castelo de Edimburgo, onde entre outras estão guardadas as jóias da coroa da Escócia, que em 300 anos, só de lá saíram uma vez para a abertura do parlamento, em fins dos anos noventa.

Urquhart Castle, sentinela do Loch Ness. Por ele passaram diversos defensores, invasores, como o clá MacDonald, e reis escoceses. Em fins do século XVII, em plena guerra civil, uma explosão provocada pela própria guarnição em fuga para impedir a tomada pelos Jacobitas retirou-lhe muita da imponência de outrora.


O Loch Ness, visto do Norte, perto de Dores.Uma combinação de cores única, com o famoso lago e os seus 35 quilómetros de comprimento em e evidência.


Inverness, principal burgo das Highlands, atravessada pelo rio Ness, que nasce no loch com o mesmo nome. Uma igreja por cada denominação. À esquerda, a igreja católica local, com um serviço de missa especial em polaco.

Uma curiosidade: como disse um amigo meu, encontra-se uma Union Jack nas Highlands é tão difícil como avistar a Nessie. E no entanto, no referendo de 2014 sobre a independência da Escócia, a maioria dos locais votaram pela permanência no Reino Unido.

sexta-feira, outubro 14, 2016

The Times they are Changing, ou uma nomeação justa


A nomeação de Bob Dylan para o Nobel da Literatura deste ano apanhou a maioria de surpresa. A mim também, em parte, porque já noutros anos tinha ouvido falar na possibilidade de escritores de canções, com Dylan e Leonard Cohen à cabeça, poderem ganhar o galardão, mas era sempre uma hipótese remota. Mas houve algum choque pelo meio, mesmo nos membros da Academia. Percebe-se agora melhor a demora e os sucessivos adiamentos na atribuição do prémio.

Os jornais de hoje noticiavam largamente a decisão e interrogavam escritores, músicos e especialistas na matéria. As opiniões e as razões mais que se dividiam. Se uns se regozijavam, outros não escondiam a indignação, o desprezo e até algum sentimento de ultraje. E não faltaram as piadinhas da praxe nas sempre activas "redes sociais".Se alguma qualidade este prémio tem é o de pôr as pessoas novamente a discuti-lo. Até agora, era a relevância e a notoriedade do galardoado o maior motivo de discussão. Duas características que não faltam a Dylan, pelo que o que se debate agora é a própria natureza da literatura, ou, quando muito, o seu conceito. Para os mais críticos, a escrita de canções é algo de inteiramente diferente da literatura. Pertence ao domínio de outra arte, a música, e logo nas suas vertentes menos "nobres", nomeadamente a pop. A literatura "a sério" serão pois a poesia e a ficção em prosa. E vá lá, a dramaturgia, senão Beckett e outros teriam de ser desnobelizados.

Por muita estranheza que este prémio possa causar, não me parece que se afaste do essencial. Falamos de música, evidentemente, mas acima de tudo da poesia que se emaranha nos sons para firmar as suas letras. Bob Dylan é um letrista exímio, um poeta da música, uma inspiração para os seus contemporâneos e para as gerações seguintes, um activista social através da poesia e dos sons que a sua guitarra emana. Mudará talvez a forma como é exprimida, mas como escreveu o agora nobelizado, The Times They are Changing . as premissas para ganhar o prémio estão lá. E depois, se só se aceita o puro trinómio poesia/ ficção/dramaturgia, como é que Churchill, com as suas memórias de guerra, ou Bertrand Russell, podem ter ganho o respectivo Nobel da Literatura, já que as suas obras não se encaixam nessas premissas?

Não sou um fã de primeira água de Bob Dylan nem conheço a fundo a sua obra. Mas pelo que apesar de tudo sei, tanto do que criou como da sua vida, e não sendo uma absoluta surpresa, compreendo a opção. Antes isso do que uma escolha politicamente correcta por um qualquer obscuro autor da Suazilândia ou do Laos. Só tenho mesmo pena que os de língua portuguesa continuem a ser olimpicamente ignorados desde Saramago.
 E claro, posso mesmo dizer que já assisti ao vivo a uma actuação do agora galardoado, no cenário espantoso de Vilar de Mouros.

A atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 2016 ao homem que nasceu Robert Allen Zimmerman é inteiramente justa.

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quarta-feira, outubro 12, 2016

O discurso de Unamuno


No Delito de Opinião, Pedro Correia recorda que passam oitenta anos do corajoso e tonitruante, se não no tom de voz pelo menos na sua carga moral e emocional, discurso de Miguel de Unamuno na Universidade de Salamanca, em frente a Millan Astray, Carmen Polo e José Maria Péman. Aconteceu em 12 de Outubro de 1936, e seria a última aparição pública do velho filósofo da Geração de 98, numa altura em que Espanha mergulhava na mais horrível e dramática das guerras.

 

terça-feira, outubro 11, 2016

Uma reunião no telhado (com provas fotográficas)

 
E se numa viagem de lazer subir a um ponto alto no centro de uma cidade histórica, tirar uma fotografia a um edifício nobre numa cota um pouco mais baixa, e ao vê-la reparar que estão pessoas a discutir com ar tenso no telhado desse edifício? E publicar essa mesma fotografia nas redes sociais, e nas horas seguintes os jornais locais e nacionais a reproduzirem incessantemente?

Aconteceu isso, sem tirar nem pôr, ao Frederico Duarte de Carvalho. Numa fotografia tirada ao acaso do Monumento a Victor Emanuel (também conhecido como o "bolo de noiva"), que apanhou a parte de cima do palácio da Piazza do Campidoglio que serve de sede ao município de Roma, surge a "sindaca" da capital romana, Virginia Raggi, numa discussão com o seu assessor, no telhado do edifício. Nesse mesmo dia soube-se que a Cidade Eterna desistira de organizar os Jogos Olímpicos de 2024, além de outras mudanças da estrutura interna do município. Publicada no Facebook e no Twitter, a foto, com a legenda "supresas nos telhados de Roma", espalhou-se nas redes sociais italianas (ou tornou-se "viral", se preferirem"), e no próprio dia já era difundida pela imprensa transalpina. Alguns jornais citaram o nome do Frederico, outros não, mas o certo é que a foto tirada por "um jornalista português de férias" tornou-se a mais comentada em Itália por aqueles dias.







Se alguns, como o mítico Unitá, antigo órgão do Partido Comunista Italiano, citado nos livros de Don Camillo e hoje despojado de boa parte do seu conteúdo ideológico (mas ainda alinhado à esquerda), a fotografia enche a capa, noutros, como o La Repubblica, também é motivo de notícia, mesmo que não tenha honras de primeira página. E ainda houve caricaturas a satirizar a estranha reunião.



O que é certo é que depois das redes sociais e das capas de jornais houve várias reacções políticas, a começar pela própria Raggi, que tentou ironizar com a situação, coisa que o primeiro-ministro, Mateo Renzi, de que o movimento a que autarca pertence é adversário, não se coibiu de fazer, tentando ridicularizá-la um pouco mais.
Resta saber se depois de se apropriarem da foto, os jornais pagarão os direitos de autor ao Frederico Carvalho. Ou as imagens de Facebook são de livre disposição?

sexta-feira, outubro 07, 2016

Guterres na ONU (e uma previsão)

 
Fiquei particularmente contente com a nomeação de Guterres para Secretário-Geral da ONU por: 1- ser o mais elevado cargo exercido por um português desde o Papa João XXI; 2- por ser Guterres, um dos políticos mais qualificados e com mais carácter que já vi, e que apesar de nalguns momentos importantes ter tido falta de pulso, nomeadamente dentro do seu próprio partido, outros houve em que demonstrou uma fibra incrível (caso de Timor); e acima de tudo porque se tratou da escolha mais transparente e meritocrática possível (descontando todas as cedências, discussões e jogos de bastidores que necessariamente há nestes casos), resultando na escolha de um português excepcionalmente bem preparado, o que mostra que os portugueses podem mesmo ir longe com a sua competência. 
                                                                                 
Demonstra também o quão eficaz continua a ser a nossa velha e experiente diplomacia, que mantém o "pequeno milagre permanente" chamado Portugal há mais de oito séculos. todo um trabalho do corpo diplomático português, incansável, imperturbável e muitíssimo competente.

 Curioso é que há precisamente vinte anos Guterres era o chefe do governo e Marcelo Rebelo de Sousa o líder da oposição. E exactamente no mesmo ano de 2016 os dois velhos amigos, antigos adversários políticos e veteranos da vida pública portuguesa atingem o topo das suas carreiras, um à frente da ONU, o outro como chefe de estado de Portugal.
 
Quem havia de adivinhar? Ora, o major Valentim Loureiro. Ele é que já estava a prever isto e começou a "aclamação" de Guterres vinte e um anos antes do Conselho de Segurança o fazer.
 
 

sexta-feira, setembro 30, 2016

Porque é que os "Mirós" não são temporários?


Os célebres "Mirós" que pertenciam ao espólio do BPN e que tanta celeuma levantaram quando os tentaram vender vão mesmo ficar em Portugal e serão expostos amanhã em Serralves. Em príncipio ficarão no Porto, ainda não se sabe onde, mas já chamaram Siza para providenciar uma solução. Há que dar palmas mais uma vez ao empenho da CM do Porto em manter a colecção por cá. Mas nalguma coisa eu estaria em desacordo com Rui Moreira. Percebo perfeitamente que sejam expostos para todos os admirarem, e até que vão em exposição itinerante a outros pontos do país. Mas depois disso, reiniciaria o processo de avaliação do seu valor, sem pressas, para a sua posterior venda. Sim, preferia que fossem vendidos. Afinal de contas pertenciam a um banco no qual o estado depositou um valor incalculável, com repercussão nas contas públicas, de que todos se queixam. O mais lógico seria mesmo vendê-los para ir amortizando as perdas. Deveria ser o destino lógico dos bens dessa escabrosa aventura que deu pelo nome de BPN. Até porque Miró, ao contrário de Domingos Sequeira, nem era português, nem estes quadros, dizem os entendidos, correspondem ao período de maior fulgor artístico. O risco de obras nacionais saírem do país não se coloca. Por isso, podiam expô-los e daqui a uns tempos procediam ao seu leilão, podendo até o dinheiro obtido ser aplicado noutras áreas da cultura, que bem precisam. Mas ao que parece já ninguém se rala muito com o BPN a tentativa de minimizar o seu buraco. Depois não se queixem quando houver cortes ou aumentos de impostos. É o que dá um país pobre e endividado querer passar por rico.

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quinta-feira, setembro 29, 2016

Shimon Peres 1923 - 2016



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Morreu Shimon Peres. Era o último grande sobrevivente da geração nascida na Europa que fundou o Estado de Israel, que o construiu e defendeu desde o início (teve logo responsabilidades na guerra de 1948), e que ainda estava ligada à imagem romântica da terra prometida de refugiados e sobreviventes que resistiam a todos os seus invasores. Exerceu os mais altos cargos da nação, e tendo dedicado uma vida inteira ao seu país, sendo um homem de combate, também o soube ser da paz. Negociou arduamente a pacificação com os palestinianos, tendo recebido o Nobel da Paz pelo seu trabalho nos Acordos de Oslo. Só saiu da presidência do país com mais de 90 anos. A última imagem que me recordo dele é a de plantar uma oliveira em Roma com o Papa Francisco, o líder da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, e o Patriarca de Constantinopla. Poderá ficar como um símbolo dos seus esforços para a paz. No seu lugar ficaram os Netanyahu, os fanáticos nacionalistas ou ortodoxos e uma classe política incapaz sequer de lhe chegar aos calcanhares. 

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quarta-feira, setembro 28, 2016

Totti aos 40


Um dia destes, quando me decidir a dar uma arrumação séria na minha infindável tralha, hei de encontrar o autógrafo que Francesco Totti me deu há uns 15 anos, depois de uma inglória recepção do Boavista à AS Roma (uma boa exibição, uma derrota pela margem mínima e a arbitragem menos caseira que me lembro de ver), sobranceiro como um semi-deus romano. Já na altura era o capitão e máxima referência daquele clube da Cidade Eterna, onde dera os primeiros toques como profissional aos 17 anos.


Agora chegou aos 40, sem nunca ter conhecido outra camisola, excepto a da Squadra Azzurra, com a qual aliás se sagrou campeão do Mundo. Continua a ser o capitão e a referência, ainda maior, da Roma e até DE Roma. Aos 40. E uma Cidade Eterna dificilmente arranjaria melhor personificação do que por um jogador que parece eterno.


sábado, setembro 24, 2016

Benfica 2016-20...


Não sei ainda muito bem o que pensar do Benfica nesta época. Ao contrário do que aconteceu no ano passado, a pré-temporada decorreu com calma e a supertaça conra o Braga pendeu a nosso favor, o que se agradece, porque é um troféu de que não temos muitos exemplares. Mas ficaram casos mal resolvidos, aquisições discutíveis e o flagelo das lesões começou logo no início.

Renato Sanches e Gaitán saíram, é certo, mas isso era mais que anunciado. O primeiro já tinha assinado com o Bayern ainda decorria o campeonato. O segundo não passava deste ano, e já merecia um contrato mais oneroso. E renderam uma boa maquia. A saída de Carcela, um jogador com talento e velocidade que cumpriu, é talvez mais precipitada, mas responde à quantidade de jogadores para as alas que o Benfica adquiriu.

Se há excesso nas alas, em parte por necessidade de alternativas, e noutras partes para agarrar jogadores promissores enquanto é tempo (caso de Zivkovic) ou para enfraquecer rivais (casos de Carrillo e Rafa), o meio-campo parece descompensado, já que Fejsa não chega para tudo e é vulnerável a lesões, Horta é ainda muito novo e não sabe defender, Samaris está também no estaleiro por umas semanas e parece contar meramente como suplente (aliás quiseram vendê-lo), Danilo e Celis são incógnitas - e o colombiano, quando entrou, contribuiu mas para o adversário. E sim, as lesões são um problema inesperado e demasiado extenso neste início de época. Se parecia haver relativa abundância na frente, as mazelas físicas encarregam-se de o desmentir. Na defesa, os centrais satisfazem mas os laterais são irregulares: Grimaldo agrada e vai certamente melhorar, Semedo tarda a voltar ao espantoso início de época do ano passado, mas se Almeida é um bom suplente, há as maiores dúvidas sobre se o veterano e pesado Eliseu estará à altura quando for chamado. A baliza está bem entregue à veterania de Júlio César e à juventude de Ederson, sob o olhar atento do "velho" Paulo Lopes.
 
A equipa parece ainda não ter encontrado o seu caminho, sobretudo no que ao meio-campo diz respeito. Houve jogos que correram bem, os do início, outros em que o resultado ficou aquém da exibição, como em Arouca, e outros q.b., como a da última vitória frente ao Braga. O Chaves, a jogar em casa (previsivelmente vai encher, ou não fosse o SLB muito popular em Trás-os-Montes), uma equipa complicada e com boa defesa e que tal como o Benfica ainda não perdeu, vai ser um osso duro de roer, em que o ataque terá mais responsabilidades que a defesa. E na próxima semana será a difícil deslocação a Nápoles. O jogo no San Paolo será o teste mais complicado numa equipa que tem sido morna no meio-campo e que terá de corrigir esse aspecto se não quiser ficar com as contas da Liga dos Campeões comprometidas. Depois do infeliz empate caseiro com o Besiktas, qualquer ponto fora vale ouro.

E valerá também a pena observar os novos talentos a ser lançados por Rui vitória. Terá José Gomes mais oportunidades ou mais vale crescer na equipa B?

domingo, setembro 18, 2016

Saraivadas e coelhices

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Ao longo dos anos fui antipatizando mais e mais com José António Saraiva e o seu narcisismo patético, a achar-se o cronista mais influente da sua era, com as suas pequenas estupidezes (como chamar "portistas" aos portuenses), a sua pretensa superioridade em relação a qualquer crítica ("a coluna mais influente e mais atacada da imprensa portuguesa") e o seu cinismo entediante. Mas nunca pensei que o homem que afirmou estar certo de que um dia ganharia o Nobel da Literatura descesse tão baixo, publicando um livro sobre a vida íntima dos políticos que conheceu, ou seja, revelando conversas privadas e devassando a vida alheia, nalguns casos de pessoas que já morreram.
 
Pior só mesmo um líder da oposição, ex-Primeiro Ministro e candidato a voltar ao cargo, que se dispõe a apresentar uma pasquinada semelhante. Passos Coelho terá ficado louco? Os seus assessores são mentecaptos ou prepararam um golpe partidário interno? Ou já viu que não vai lá e arranjou um pretexto para sair da liderança do PSD? É que se apresentar mesmo tal "obra", a credibilidade de Passos cai por terra. Contabilizados os estragos, mais vale desistir a tempo.

PS: e desistiu, tarde mas ainda a tempo. a imagem não ficou lá muito bem cuidada, o seu discernimento menos ainda, mas antes isso do que a imagem constrangedora do que seria se se dispusesse a apadrinhar o livro.

segunda-feira, setembro 12, 2016

Dois meses depois do Euro


Já lá vão dois meses desde que Portugal ganhou o Euro 2016. Quem hibernasse em Junho e Julho e nada soubesse jamais o adivinharia. Afinal de contas, as proezas desportivas dos portugueses depois disso foram escassas: os Jogos Olímpicos saldaram-se por uma magra medalha de bronze (vá lá que não repetimos o vergonhoso feito de zero medalhas de Barcelona e, 1992), um pecúlio muito pobre, digam o que disserem os defensores dos atletas, com mais ou menos razão. E a Seleccção voltou aos campos com uma derrota bisonha por 2-0 na Suíça, depois de uma falsa partida contra Gibraltar. Ou seja, a onda de euforia não se estendeu aos campos desportivos.
 
Mas não, não é motivo para perder o entusiasmo. A vitória nos campos de França é bem real, a taça é nossa e deve servir de exemplo, não de memória desgarrada. Por isso, e embora só acreditar não chegue, é bem possível que com mais algumas condições, num futuro próximo os jogos Olímpicos corram melhor. Quanto à classificação para o Mundial, este era em teoria o jogo mais difícil. além de que a caminhada que só acabou em Saint-Denis começou, como muitos se recordam, com uma inimaginável derrota caseira com a Albânia.
 
E não hão de ser esses percalços a fazer-nos esquecer uma prova que começou sem despertar grande entusiasmo, mas que cativou pelos seus participantes menos usuais, pela performance dos galeses, pela coreografia guerreira dos islandeses (e pela histeria dos seus locutores), pela quebra de tabus e de habituais bêtes noires (França vs Alemanha, Alemanha vs Itália, Portugal vs França), pelos golos de Griezmann, Modric e Shakiri, e claro, pelo ímpeto de Renato Sanches, pelos voos e pela lesão de Cristiano Ronaldo e pelo improbabilíssimo golo de Éder e pela maneira como os portugueses, nessa noite inesquecível de Julho e nos dias que se seguiram, saíram à rua, em verdadeira alegria, comemorando o fim definitivo das "vitórias morais" e do eterno triste fado.
 
Está tudo condensado neste magnífico resumo da BBC, com uma versão francesa de Heroes, de Davd Bowie, como banda sonora, e que só por si quase podia ser um pretexto para este post. "Quase" porque momentos assim merecem ser lembrados enquanto estão frescos.
 
Vive le Portugal, como anuncia orgulhosamente a coluna na imagem final.
 

sábado, setembro 10, 2016

Madre Teresa e os seus detractores


Madre Teresa é oficialmente santa. Popularmente já o era. a canonização limitou-se a dar o devido reconhecimento, confirmadas as condições, a alguém cujo halo de santidade já há muito era reconhecido, até em vida. No fundo, juntar as palavras "Madre Teresa" e "santa" acabam por ser uma redundância.

Reparei no entanto que não houve reportagem sobre esta canonização que não trouxesse o "outro lado" de Madre Teresa, ou seja, os aspectos supostamente mais negativos da fundadora da congregação das Missionárias da Caridade. Alguns fariam sentido, outros eram puro preconceito, ou pior, pura birra ideológica. A principal fonte destas críticas é um livro, já com uns vinte anos, da autoria do célebre Christopher Hitchens, intitulado brilhante e provocatoriamente The Missionary Position, citado e exemplificado de forma acrítica e veladamente laudatória. O cronista anglo-americano aparece como um analista imparcial, fidedigno, obrigatório.

Sintomático como a crítica a Madre Teresa contrasta tão flagrantemente com a ausência de críticas a Hitchens, desaparecido em 2011. Mas a resposta não é muito complicada. Hitchens era um jornalista e colunista provocador, que escrevia bem e com verve. As críticas a Madre Teresa a que me refiro acima surgem em órgãos de comunicação social, que, como é óbvio, tenderão a valorizar um "deles", um elemento da classe jornalística, para mais mediático e apreciado pela forma como escrevia. Mesmo muitos daqueles que estão longe das suas ideias o apreciam, como é o caso de Pedro Lomba, que até o guiou num périplo aquando da última vinda do polemista a Portugal. Convém lembrar que Hitchens era um ateísta fanático até à medula (no que era reprovado até pelo seu grande amigo Martin Amis), que considerava que a religião "envenenava tudo" e que o ateísmo e o secularismo "eram urgentes". Por isso mesmo apoiou a invasão ao Iraque em 2003, reiterou essa ideia anos mais tarde mesmo quando o desastre era visível e afirmou mesmo que por ele poderiam fazer o mesmo ao Irão. A razão? Para "espalhar o secularismo" (mas não refere a Coreia do Norte, por exemplo). Aqueles que invocam as cruzadas como exemplo dos males das religiões ficariam certamente confundidos. Daí este ataque cerrado a Madre Teresa e à generalidade das religiões.
 
Apesar disso, ou até devido a isso, Hitchens continuou a ser muito apreciado pelas redacções do mundo fora. A sua verve, mesmo que por vezes fosse inspirada no esvaziamento de uma garrafa de Whisky, como o próprio confessou, a sua condição de enfant terrible, tornavam-no popular, e era considerado "corajoso" (sabe-se lá porquê, já que se fosse despedido de uma qualquer coluna de opinião, o máximo que lhe poderia acontecer, viria logo outra contratá-lo). E para os media, o que é que é mais atractivo? Um tipo talentoso e provocador que escreve para a Vanity Fair e para a The Atlantic, ou uma freira idosa que vive nos bairros miseráveis de Calcutá entre moribundos, doentes e velhos, rodeados de miséria e imundície? Não é preciso ir muito longe para ser perceber qual é o principal objecto de estima.
 
Mas como li num qualquer artigo há não muito tempo, o bem raramente tem uma boa imagem, um cheiro agradável e mais raro ainda é que a sua prática seja algo susceptível de dar um qualquer prazer imediato. Ou seja, contraria grandemente as modas contemporâneas e não é passível de ser atractivo. Não que o ser humano tenha de ser intrinsecamente abjecto, mas praticar o bem é realmente difícil. Por isso, Madre Teresa, mesmo com as suas falhas, dúvidas e pensamentos, merece a canonização: é a imagem da prática do bem de forma gratuita, nas situações e locais mais desaconselháveis. Sim, é tão mais fácil ser-se fashion, lido e estimado na opinião mediática. Mas o caminho do bem é certamente mais pedregoso. Por isso, e por mais fora de moda que o seu exemplo possa estar, Madre Teresa merece infinitamente mais respeito e consideração do que qualquer dos seus detractores.
 
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domingo, setembro 04, 2016

Memórias de um Agosto que passou

 
Moledo - faina do sargaço, 2016

Agosto acabou. A muito custo, há que passar à nova época e deixar os lugares sinónimos. Desde que me conheço que a imagem de Agosto é coada pelo Alto Minho. E no meu dia de anos é ali que devo estar, que me sinto em paz e onde o mundo inteiro se concentra. É verdade que já por muitas vezes pensei em viajar nesse dia, e que certamente o farei no futuro, mas por norma é ali que estou em casa, entre os meus. Não nasci aqui, mas quase. Salvo qualquer excepção, os meus anos serão em princípio sempre ali.

Como já não tenho 18 anos, fica sempre a sensação de que algo ficou por fazer. não é de espantar, porque as férias servem para preguiçar e para o dolce fare niente. Este ano, ao contrário do que reza o mito, o tempo foi condescendente, tanto que o Alto Minho se viu assolado por incêndios (eu próprio vi alguns entre os Arcos e Cerveira). A praia esteve convidativa, mas para além disso o tempo dividia-se entre as comemorações dos 50 anos da morte de António Pedro, as festas de Caminha, Viana e Ponte da Barca, que nunca perdem o encanto, e outras festas mais mundanas, os bares de Caminha e a redescoberta da velha Alfândega, os jantares com amigos em novas descobertas gastronómicas - o que não falta são restaurantes, inclusive do outro lado do rio Minho - passeios mais para o interior (finalmente conheci Sistelo e a Brejoeira), os cafés em Caminha, etc. Não houve oportunidade de voltar à Ínsua nem de arranjar uma bicicleta, nem quase de ir a Espanha, mas há sempre coisas que faltam, e por isso não há razão para queixas.

Entre as poucas coisas que tive pena de perder (em parte por uma alternativa, em parte por decisões de última hora) conta-se o festival de Vilar de Mouros. Não que fosse uma estreia - passei por lá duas vezes, com gratas memórias, além de que o local, à beira-Coura, vale bem um passeio - mas tinha alguma curiosidade em ver preciosas relíquias dos anos 80, em especial Peter Murphy, os OMD, os Happy Mondays ou Peter Hook (o que resta dos Joy Division, e tendo em conta que estes dois últimos actuaram na mesma noite, bem se podia dizer que os objectos do filme 24 Hours Party People se reuniram numa pequena freguesia do Minho), com a energia dos inclassificáveis Blasted Mechanism e a melancolia dos Tindersticks e o rock tuaregue de Bombino pelo meio. Outros planos, igualmente agradáveis se interpuseram pelo meio. Mas já depois do festival, soube que Peter Murphy, um dos pais do rock gótico, a cara dos Bauhaus (a banda, não a escola de arquitectura) e senhor de uma imagem e de uma voz poderosas e icónicas, andava a ensaiar no teatro Valadares, a renovada sala de espectáculos de Caminha, ali entre a matriz, a Alfândega e a movida da Rua Direita, em cujos bares me lembro aliás de ouvir algumas das suas músicas. E segundo conta, a apreciar a gastronomia local. Pena que não tenha visto o semi-mito a andar pela Rua Direita ou pela praça do chafariz, a experimentar um sidónio ou um cabrito à Serra d´Arga (apesar de saber que é muçulmano sufi, influência da sua estadia na Turquia). Provavelmente um criador do estilo gótico gostaria de saber que ao lado do local de ensaios existe uma ruela chamada Rua do Lobisomem. Noutros tempos, quem sabe, poderia servir de inspiração para uma canção. Paciência. Mas vou pensar que tenha acabado por saber de uma outra forma.
 
Sem a magia de Agosto, Setembro também é um mês que merece ser bem aproveitado.
 

quinta-feira, setembro 01, 2016

Burkinis e comparações impossíveis


A polémica internacional da silly season é inevitavelmente a do "burkini". A dada altura, a polícia francesa começou a multar e a repreender as mulheres que andam de fato de banho integral adaptado à moral islâmica. A proibição acabou por ser revertida por decisão administrativa do Conselho de Estado, mas não impediu que a polémica continue, sobretudo nas inevitáveis "redes sociais". Ainda agora um qualquer autarca dizia que as mulheres que se queriam vestir assim podiam ir "para a Arábia Saudita".
 
Este tipo de declarações mais ou menos parvas não ajuda muito a qualquer debate. A verdade é que, ao contrário do que o ilustre autarca defende, uma qualquer comparação entre a França e a Arábia Saudita seria sempre perversa, porque poria o país da "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" no mesmo plano que a terra dos wahabitas integristas. E um país de real liberdade não condiciona, à partida, o traje que as pessoas envergam. Claro que haverá excepções, no que toca à segurança (e em muitos casos a proibição de niqab integral é perfeitamente recomendável) ou ao pudor - embora haja quem exija o "direito" de andar pela rua como Deus a pôs ao mundo, como se fosse assim tão simples. Mas pôr polícia a condicionar o traje que se usa na praia lembra precisamente as brigadas contra o vício que existem em certos países islâmicos, obrigando as mulheres a "vestirem-se decentemente". Neste caso, será mais aconselhável a andarem "indecentemente", como defendia o atarantado Manuel Valls, ao fazer referência aos seios da Marianne como "símbolo da liberdade".
 
Como já se tinha visto anteriormente, para alguns a liberdade é a imposta por eles, e não a determinação individual de cada um. Poder-se-á perguntar legitimamente se as mulheres usam o "burkini" porque foram a isso obrigadas ou porque o querem. Se se tratar do segundo caso, uma situação de assunção de um dever ou de uma consciência, há que respeitá-lo. Os tão apressados defensores da liberdade que multam e repreendem as mulheres tornam-se homólogos das brigadas islâmicas da virtude.
 
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Na realidade, é mais um exemplo do jacobinismo francês, em que a tão afamada "laicidade" é na realidade uma atitude anti-religiosa disfarçada. A França é um país soberbo, a que devo boa parte da minha educação e uma língua admirável, mas tem destas grandiloquências incoerentes, em que se proclama campeã da liberdade sendo na realidade profundamente restritiva e impositiva. A imposição da um jacobinismo mal disfarçado de laicidade é um desses exemplos. De há muito que os poderes públicos convivem mal com a religião e as suas demonstrações, substituindo-as por um culto laico com o seu quê de religioso. As restrições aos "burkini" e as explicações moralistas são disso o melhor exemplo.
Preocupações estéticas? Todos as temos, mas a mim incomoda-me tanto o "burkini" como uma mulher disforme em bikini, ou a malta de tanga pele de leopardo. Claro que todos nós puxamos à memória o ditador que há em nós, e se pudéssemos apagávamos certas figuras. Mas tanto quanto sei, em países pluralistas, não é o estado que determina a estética. A solução é simples: desviar os olhos.
 
E depois, pergunto-me quantas destas mulheres serão realmente árabes de nascimento. O mais provável, respondendo ao boçal e populista "se queres usar isso vai para a tua terra", como se não houvesse mais do que uma geração de emigrantes,será "eu estou na minha terra". Valha-nos o Conselho de Estado e a sua sensatez, que anulou esta estúpida proibição. Até à próxima polémica.
 
 

quarta-feira, agosto 31, 2016

Ainda António Pedro


Voltando a António Pedro e ao cinquentenário da sua morte, aqui está a reposição de um programa de 1992, que passou o então Canal 2, apresentado por Castro Guedes, e onde se revisita a vida e a obra de António Pedro, centrada em Moledo, e aqueles que com ele conviveram, com diversos testemunhos (como Ruy de Carvalho e Júlio Cardoso, de resto também presente na exibição desta peça). Note-se, aos 19:09, nas imagens do seu enterro, em 1966, Eunice Muñoz, em primeiro plano, cuja carreira António Pedro ajudara a incrementar.
 
A imagem e o som não são famosos, mas tratou-se de uma gravação directa da exibição pela Companhia de Dança de Lisboa.
 
 

quarta-feira, agosto 17, 2016

António Pedro, cinquenta anos depois da sua partida


Há exactamente 50 anos, a 17 de Agosto de 1966, morria aos 56 anos o artista António Pedro da Costa na sua casa de Moledo do Minho, vítima de asma. António Pedro, como era simplesmente conhecido, nasceu em Cabo Verde, veio para a metrópole aos 4 anos, onde estudou no colégio jesuíta de La Guardia, e depois nas universidades de Coimbra e Lisboa. Nunca concluiu os seus cursos. Era um autodidacta tremendo que não podia ficar agarrado somente a uma área. Esteve ligado ao Nacional Sindicalismo, de Rolão Preto, dirigindo o jornal do movimento, o Revolução, mas rapidamente deixou a política e dedicou-se mais às artes. A todas as artes.

Passou por Paris, Brasil e Londres, privando com figuras gradas das artes e ligando-se a movimentos vanguardistas. Em Portugal criou a primeira galeria de arte, a U.P., e mais tarde envolver-se-ia com o grupo surrealista, com o qual é mais conotado, embora não possa ser colocado apenas nas redomas oníricas do surrealismo. Era pintor, caricaturista, ceramista, encenador, dramaturgo, poeta, contista, ensaísta, etc. Um artista total, um pouco como Almada, com quem também se deu. Incrementou o Teatro Experimental do Porto, e as carreiras de actores que ganhariam nome no palco, como Eunice Muñós e José Viana, ou de pintores, como Vieira da Silva. Por toda a parte, mas sobretudo na região Norte, e em particular no Minho, deixou a sua marca, fosse em programas das RTP (muitos dos quais desapareceram, com o reaproveitamento das suas bobines), em guiões para cinema e curtas-metragens, nos seus contos e poemas, nas casas que projectou, nos azulejos que desenhou (como os que podem ser vistos na garrafeira Baco, em Caminha), no símbolo do Ínsua Clube, que fundou, e que se assemelha ao peixe paleocristão, e nos vestígios do teatro que tentou construir em Moledo, que ficou a meio, popularmente conhecido como "as ruínas", e que hoje em dia alberga um conhecido bar e um auditório com o seu nome. Seria em Moledo que morreria, há 50 anos. E é em Moledo, em Caminha e Viana que a sua memória é recordada por estes dias, em inúmeras e diversificadas iniciativas. Para recordar este talentoso multi-artista e re-divulgar a sua figura, que bem o merece.





Neste pequeno trecho podemos ouvir António Pedro e acompanhar um pouco do seu trajecto, incluindo o testemunho de Joaquim Guardão, ainda vivo, e que tive a honra de conhecer. Há mais, no site da Companha de Dança de Lisboa.

terça-feira, agosto 16, 2016

Abolir o IMI


Com os Jogos Olímpicos, os fogos e as viagens de membros do Governo patrocinadas pela Galp, ficou esquecida a primeira polémica de Agosto: os critérios para o valor do IMI de cada casa, como a exposição solar, a vista para cemitérios e ETARs, etc. Não é muito justo que uma casa modesta tenha de pagar mais por apanhar mais luz do sol (pode ser pela escassez de arvoredo, por exemplo), mas para se acabar com essa questão havia uma solução definitiva: abolia-se o IMI. Ainda por cima, baixaria muita da especulação financeira e incrementaria antes a reabilitação. Mas depois de que viveriam as nossas autarquias? Arranjar um sucedâneo sensato nunca seria fácil.

Os olímpicos no Brasil



Não sei se é pelo facto de se estar debruçado no que é essencial (ou seja, as provas), mas esperava uns Jogos Olímpicos mais acidentados. E os prenúncios não eram nada bons: instalações com deficiências, furtos, poluição extrema das águas, obras atrasadas, falta de recursos, problemas infindos no Rio, tudo sob uma grave crise económica e política que levou à substituição da presidente do Brasil a poucos meses dos jogos por um vice pouco conhecido e ainda menos popular. O certo é que apesar de alguns problemas que provavelmente têm sido camuflados, as atenções viraram-se para a competição. Os enormes desportistas Phelps e Bolt (sobretudo o jamaicano) subiram ainda mais no panteão dos atletas, surgiram novos nomes, como Simone Biles e Van Niekerk, e até dia 21 ainda há muito para ver. Entre os portugueses, Telma Monteiro conseguiu a tão almejada medalha, depois de duas edições de jogos desoladoras, mas o resto tem sido frustrante, apesar dos esforços dos jogadores. Ainda hoje, Nelson Évora e Fernando Pimenta ficaram perto do pódio, sem hipóteses de o pisar. A selecção C de futebol conseguiu a proeza - mais uma de Rui Jorge - de ficar em primeiro lugar no seu grupo, antes de ser derrotada sem apelo nem agravo pela Alemanha. Veremos o que faz o limiano daqui a dias, assim como a cavaleira Luciana Diniz mas as esperanças de medalhas vão-se eclipsando.

Apesar de tudo, as coisas vão correndo satisfatoriamente e a cerimónia de abertura, de que só vi partes e em diferido, agradou, embora duvide que tenha ultrapassado o excelente espectáculo inicial de Londres em 2012. Não houve grandes referências aos portugueses nestes primeiros jogos num país lusófono, mas a correcção política das "causas indígenas" falou mais alto. Enfim, houve Gisele Bundchen.

Sem querer ser chato, há uma questão que surgirá inevitavelmente: acabada a festa, que Brasil teremos no pós-jogos? Dilma deve ser definitivamente exonerada no fim do mês, os problemas com as expropriações por causa dos jogos voltarão, e a herança do evento vai pesar. Aliás não compreendo como é que se pode organizar um Mundial de Futebol e uns Jogos Olímpicos com apenas dois anos de intervalo, o que revela que os brasileiros, na senda de se tornarem uma superpotência, tiveram mais olhos que barriga. Agora, em plena crise e desaceleração económica, caiu-lhes tudo em cima. O futuro próximo não vai ser fácil.

quinta-feira, agosto 11, 2016

A tragédia do Verão e a discussão costumeira



Ao fim da tarde lá consegui ver um esboço de céu azul por entre este manto de fumo pesado e sufocante e as microcinzas que caem. Não sei se a causa vem de Gondomar, de Águeda, de Arouca ou dos Arcos, mas o mais provável é que seja uma conjugação de tudo.
Com todos estes fogos horrorosos, sobressaem duas características bem portuguesas: a solidariedade, evidente entre todos os que vão ajudar os que têm as suas casas em perigo, e a maledicência, que se espalha em milhares de milhares de comentários das redes sociais, sempre com um culpado em mira: o governo (tanto o actual como os anteriores), as autarquias, os bombeiros, os "interesses instalados", os madeireiros, as celuloses, os turistas, etc. E inevitavelmente fala-se sempre na prevenção. Certíssimo, a prevenção, mas seria bom que se falasse disso não apenas em Agosto, à vista das chamas, mas em Janeiro ou Fevereiro (falo da discussão entre a sociedade civil, porque ignoro os planos do MAE e restantes organismos responsáveis). E mesmo uma pessoa como eu, que não percebe grande coisa do assunto, já conseguia prever que com uma vegetação enorme devido a uma Primavera chuvosa, temperaturas anormalmente altos, ventos fortíssimos e a nossa "bela" floresta constituída por esse grande combustível chamado eucalipto, só mesmo por muita sorte é que não haveria fogos. Mas a sorte não aparece sempre.
Todos os anos se repete a mesma discussão sobre fogos. E estes variam devido a um e só um factor: o clima. Há dois anos, choveu nos primeiros dias de Agosto e quase não se falou do assunto. A diferença entre haver ou não incêndios parece resumir-se à maior ou menor pluviosidade de verão. É disso mesmo que estamos a precisar: de uma boa chuvada. 

A meteorologia anuncia chuva para a semana. Oxalá acerte.

quinta-feira, agosto 04, 2016

Agosto


Chegou Agosto. O meu mês, o mês que simboliza o Verão, aquela altura mítica e tão aguardada durante o resto do ano pela esmagadora maioria da população que vive no hemisfério Norte. Cada dia de Agosto, mais do que qualquer outro, seja em férias ou em trabalho, é precioso e tem de ser aproveitado até à última gota.
 
É verdade que para além de ser um nativo deste mês, também pode contribuir para essa minha mitificação o facto de no último 31 de Julho ter feito "bodas de prata" que parti uma perna, levando a que passasse um Agosto de pré-adolescência imobilizado. Não é experiência que recomende. E assim, enquanto alguns acham que 31 de Julho é o melhor para, por exemplo, casar, eu espero sempre que esse dia aziago passe rapidamente. Para entrar no oásis de Agosto.