quarta-feira, abril 27, 2016

Um século sem Mário de Sá Carneiro



Parece que ontem fazia cem anos que Mário de Sá Carneiro morreu, ou antes dizendo, se matou com estricnina num quarto de hotel em Paris, com premeditação e assistência.


Vão longe os tempos em que a sua poesia me cativava (e que me levou mesmo a declamar alguns dos seus poemas em momentos infaustos), embora nunca tenha sido um ávido leitor do género, e que me levou também a explorar a sua prosa, esse romance inclassificável e irreal que é A Confissão de Lúcio. 
Mas ontem, vendo as efemérides, lembrei-me de novo de Sá Carneiro e da sua obra (e da sua contribuição para a revista Orfeu, onde também colaborou Amadeo de Souza Cardozo, que por coincidência tem vindo a ser muito falado por estes dias pela exposição da sua obra em Paris). Creio que por não ser, como disse, um grande seguidor de poesia, nunca tinha deixado nenhuma aqui no blogue. Em honra de Sá Carneiro, da sua obra genial e dos seus tormentos, fica aqui uma ode à inacção e à vontade de desistência que todos nós desejamos num ou noutro momento da vida.


Caranguejola

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho– que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor –
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?...
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo –
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! levem-me prá enfermaria! –
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará..

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.



sábado, abril 23, 2016

Prince


O ano ainda não tem quatro meses completos e já viu partirem dois dos maiores gênios de sempre da música pop. Primeiro Bowie, agora Prince. É uma razia demasiado grande para tão pouco tempo.

Tal como o Camaleão, o Artista que durante algum tempo se fazia representar por aquele símbolo impronunciável não era das minhas grandes preferências musicais. Mas é impossível negar que era um geniozinho musical que conseguia misturar a pop, o soul, o funk, que mudava de rumo mesmo quando as coisas não pareciam correr bem, que estava constantemente a criar música, que serviu de inspiração a outros músicos, de Beck a Pedro Abrunhosa, passando por Sinead O´Connor e as Bangles (que lhe devem a escrita dos seus maiores êxitos), e que com Michael Jackson e Madonna, era uma das grandes estrelas pop legadas pela cultura norte-americana (na altura com suporte fundamental da MTV) dos anos oitenta, embora provavelmente mais talentoso do que os outros dois.
A prova do seu ecletismo e busca de outras formas musicais viu-se nos últimos anos, em que ainda experimentou o fado, na sua parceria com Ana Moura, o que o levou a tocar A Casa da Mariquinhas  acompanhando a fadista num festival em Portugal há não muito tempo.
Aí por 1993, na época dos grandes concertos de estádio, actuou em Alvalade, seguindo-se um concerto em Santiago de Compostela. Na altura estava de férias no Alto Minho, como sempre, e houve uma vaga ideia de gente mais graúda de ir vê-lo, no que teria sido o primeiro concerto pop a sério da minha vida. A coisa não se concretizou, mas lembro-me ainda de ver os cartazes a anunciar a vinda do músico de Mineappolis nas paredes de Vigo. Não o veria em concerto, mas fico com uma certa pena de não ter visto a sua actuação ao lado de Ana Moura.

quinta-feira, abril 21, 2016

A bola por essa Europa fora


O Benfica pode ter caído na Liga dos Campeões (de pé, como clube digno que é), mas a prova continua. Não tenho grandes favoritos, e acima de tudo queria que o Barcelona saísse, mas agora talvez dê o benefício da dúvida ao Atlético ou mesmo ao Bayern. Assim como assim, foram clubes com quem o Benfica se bateu, com algum equilíbrio (em Madrid até ganhou, ao contrário dos culés), o Real já tem muitas taças iguais e o City não tem dimensão para o troféu, ainda para mais subsidiado pelos árabes. já na UEFA, ou Liga Europa, como lhe chamam agora, pode ser qualquer um desde que não o insuportável e injustamente afortunado Sevilha. O meu favorito, o Athletic de Bilbao, caiu injustamente às mãos dos vis andaluzes; a melhor equipa era o Dortmund, mas uma vez que está fora, depois de um jogo fabuloso e de uma virada colossal do Liverpool, o clube de Meyerside pode perfeitamente ganhar. Se não, pode ser o Shaktar Donetsk, essa equipa quase apátrida, expulsa da sua cidade e do seu estádio. O Villareal também não me desperta grande entusiasmo.

Nas ligas nacionais, em França está tudo dito quanto ao vencedor do título principal (o infeliz Marselha vai à final da taça, mas tem feito um campeonato inenarrável), na Alemanha quase e em Itália idem, apesar de durante uns tempos ainda ter confiado no Nápoles. Depois temos a Espanha, numa corrida a três, que se repete noutros países menos mediáticos, como a Holanda, a Bélgica e a Rússia, com o improvável Rostov, ali do canto do Mar Negro, a comandar. E depois, claro, a Premier League, onde os habituais tubarões se têm devorado uns aos outros, sem que o Arsenal, apesar de tudo o mais bem classificado de entre os "grandes", se tenha conseguido aproveitar. O foco está todo concentrado no modesto Leicester, que incrivelmente se mantém à frente a poucas jornadas do fim, ainda por cima treinador por Claudio Ranieri, um treinador por quem ninguém dava nada há já uns bons anos. Toda a gente parece torcer pelo Leicester, mas o meu voto vai para o Tottenham, que está logo a seguir: é um clube tradicional que não ganha o campeonato há mais de 50 anos, fica normalmente atrás dos outros tradicionais e é alvo constante de zombaria dos rivais mais a sul do Arsenal, tem uma equipa jovem e que transborda talento (de custo muito inferior a outras) e pratica o jogo mais atractivo e vibrante do campeonato. O Leicester que me desculpe, mas o grande feito, para mim, seria os Spurs ficarem em primeiro.
E entretanto, o velho Rangers, clube mais titulado da Escócia, voltou à primeira divisão do seu país, para gaúdio dos fás, e não contente com isso, na mesma semana, voltou a jogar a Old Firm com o eterno rival Celtic, para a Taça, e conseguiu vencer nos penaltys. Uma antevisão para os próximos tempos, que serão menos fáceis para os "católicos" de Glasgow.
Ao mesmo tempo, o Parma, esse clássico tardio que tão grandes squadre apresentou nos anos noventa (sem contudo ganhar o scudetto), e que no ano passado tinha falido e caído para divisões obscuras, recomeçou a lenta caminhada para os níveis superiores, comandado pela mítico Nevio Scala e por Apolloni, ao subir para a 3ª divisão, num jogo em que teve 15 mil espectadores a apoiá-lo.
Razões para alguma esperança nos próximos anos, tão fartos que andamos de Barcelonas, Reais, Bayerns e clubes patrocinados por qataris e outros emirados.

terça-feira, abril 19, 2016

Brasil 2016, uma história que ainda acaba com um palhaço na presidência


Não sou lá grande fã de Dilma Roussef, do PT e da forma como esse partido se arroga a dono do estado. Mas olhando para a gente que pode substituir Dilma e para o incrível Carnaval político no congresso brasileiro, tenho de me socorrer de Tiririca: pior do que está, fica.




Já agora, o próprio Tiririca votou "sim" ao processo de destituição. Provavelmente porque está também na ordem de sucessão, podendo, em caso extremo (ou nem tanto, já que teoricamente todos os que estão à frente podem ser impedidos de exercer as suas funções por razões judiciais), e pelo facto de ter sido o deputado com mais votos nas últimas eleições, tornar-se Presidente do Brasil. Esta hipótese, aparentemente implausível e digna de um filme de Peter Sellers, vem apenas confirmar que a política brasileira é mesmo, na verdadeira acepção da palavra, um circo. 

domingo, abril 10, 2016

Uma complicada vitória em Coimbra


Duro, enervante de tirar a paciência a um santo, mas emotivo e compensador no fim. Eis o que se pode dizer do jogo de ontem do Benfica, em Coimbra, no antigo "Calhabé" agora com estatuto de século XXI. O jogo acabou por ser um desafio muito mais duro do que o que se previa, no meio de ma eliminatória com o Bayern de Munique, até porque os "estudantes" não só defendiam com tudo, estacionando o autocarro e cortando linhas de passe, como passavam o tempo no chã, a simular faltas e falsas lesões. Pelo meio, marcaram um golo não se sabe bem como, mas depois de autênticos desafios à paciência, Mitroglou e o decisivo Raul Jimenez marcaram os tentos que deram a vitória ao Benfica e o mantiveram à frente do campeonato, para euforia no estádio.

É aqui que reside um dos meus espantos: se era expectável que o Benfica levasse milhares de fãs ao jogo (entre os quais estava este vosso criado), já espanta mais que os adeptos da Académica fossem tão poucos. No meio de um mar de vermelho, viam-se algumas falanges de negro, com uns estudantes de capa, mas muito pouco para o que se espera de um clube tradicional e popular, a precisar de apoio, e cujos adeptos teriam supostamente bilhetes mais baratos. Resignação ou desinteresse? Se com este futebol o bilhete de ida da ex-Briosa para a segunda liga parece certo, a ausência dos adeptos devia dar que pensar para futuro. Porque sem adeptos como os do Benfica, aquele estádio, em jogos com adversários menos populares, deve ser uma desolação. Admite-se em Leiria, no Algarve (no Barrocal) e até em Aveiro, com aquele mono longe da Beira-mar. Em Coimbra, nunca.

sábado, abril 09, 2016

Revelações de um ex-Ministro da Cultura


A demissão de João Soares do Ministério da Cultura é daquelas notícias que não apanha ninguém desprevenido. O lamentável episódio das bofetadas dirigidas a Augusto M. Seabra e a Vasco Pulido Valente revelou mais uma vez, depois da demissão trauliteira de António Lamas do CCB, que Soares tem mesmo uma pulsão autoritária e usa-a se detiver um cargo que lhe permita tais abusos. Esteve menos de seis meses no governo, mas ficou mais conhecido pelas polémicas deste tipo do que por qualquer iniciativa que tivesse tomado. Ainda houve quem achasse muita gracinha à ameaça por causa dos "insultos" dos cronistas, não se lembrando que, para além de haver uma coisa chamada liberdade de expressão, um ministro está numa posição que não lhe permite tomar atitudes como se estivesse na tasca (e mesma "à mesa do café", como disse António Costa, tem de se lembrar quem é e do que deve ser o sentido de estado). Aparentemente, Soares pediu umas desculpas irónicas, o que parece revelar que não se conformou nem se arrependeu. Tanto pior para ele: podia ter feito um trabalho interessante na cultura, mas preferiu dar azo aos seus autoritarismos e birras pessoais. Já pode pôr no currículo que passou por uma cadeira ministerial, como magro consolo

De qualquer maneira, talvez Costa não fique seriamente aborrecido pela sua saída da Ajuda: é bom recordar que o mesmo João Soares apresentou, no próprio lançamento, e com rasgadíssimos elogios, o livro de Domingos Névoa, da Bragaparques, conhecido pela sua questão com José Sá Fernandes, que gravou as suas comprometedoras conversas sobre trocas de terrenos e que envolviam o Parque Mayer, de Lisboa. Como se sabe, o empresário seria condenado por corrupção activa, com sentença transitada em julgado. Apesar disso, João Soares apadrinhou um livro em que Sá Fernandes e outros são furiosamente atacados, ao passo que o ele próprio tem direito a entusiasmados elogios, aliás recíprocos, como se viu atrás. Para além de toda esta situação, já de si insólita pelo grau de amiguismo descarado, é impossível não ver nisto tudo uma afronta indirecta de Soares a António Costa e ao seu executivo camarário, corporizado por Sá Fernandes.
 
Mas já que está fora do governo, o filho do ex-presidente terá agora oportunidade de dar azo à sua faceta mais desconhecida e provavelmente mais burlesca: a da escrita de ficção erótica. Quando pela primeira vez ouvi no programa Governo-Sombra excertos de textos escritos por um certo John Sowinds, ou Hans Nurlufts, pensei que fosse uma brincadeira dos membros residentes, em especial de Ricardo Araújo Pereira. Mas depois confirmei no Observador e em artigo já de há alguns anos do CM que era mesmo verdade: após a sua saída da Câmara de Lisboa, João Soares dedicou-se à escrita, com especial propensão para o erotismo duvidoso (também conhecido como pornochachada), para o romance político com laivos de biografia ficcionada e pelo thriller de espionagem de denúncia a certos regimes, como o de Angola, do adversário do seu antigo amigo Savimbi. A fotografia do autor não deixa margem para dúvidas, e combinado com narrativa dos livros, revela-nos duas qualidades desconhecidas de João Soares: imaginação sentido de humor.
 
 

quinta-feira, abril 07, 2016

O rock como arauto do fim de ditaduras


A visita de Barack Obama a Cuba, em fins de Março, a primeira de um presidente norte-americano à ilha em 90 anos, foi um momento histórico assinalável, mas talvez não tanto como o concerto que Rolling Stones deram dias depois, na Havana. Os dinossauros do rock atrairam meio milhão de cubanos a uma extensa arena desportiva, num concerto gratuito em que actuaram sem cachet, ficando a organização e a logística a cargo de um conjunto de entidades voluntárias. Os cubanos puderam finalmente ver os monstros sagrados do rock, tão velhos como os barbudos que tomaram o poder em 1959, e cuja icónica língua rivaliza em popularidade com a imagem de Che Guevara imortalizada por Albert Korda. E ficaram provavelmente mais próximos do resto do mundo e da decadência e da "frivolidade burguesa" como Fidel Castro e Guevara não se cansavam de chamar ao então novo estilo de música que claramente os horrorizava.


Como alguém lembrou por estes dias, o rock é a antecipação da queda das ditaduras. Nem sempre, claro, mas arriscaria dizer que quando é proibido e depois lhe dão uma ligeira abertura, se transforma no arauto do fim próximo do regime opressivo. Aconteceu na Hungria, aproveitando-se das primeiras aberturas do regime, com o concerto dos Queen em Budapeste em 1986. Como se sabe, a Hungria haveria de abrir as suas fronteiras com a Áustria pouco depois e seria o primeiro membro do Pacto de Varsóvia a pôr o comunismo de lado. Também a URSS cedeu perante os Pink Floyd, em 1989 (pouco antes do discutível show em Veneza). Dois anos depois, o regime comunista e a própria federação caíam por terra. E outros exemplos haverá.

Mas nem só a queda de regimes comunistas teve a visita anterior do rock. Por cá tivemos um exemplo óbvio: Vilar de Mouros, 1971. Apesar das restrições do Estado Novo, António Barge, Victorino de Almeida e mais uns quantos conseguiram organizar o "Woodstock português" na bucólica aldeia entre Caminha e a serra D´Arga. Apareceram roqueiros, hippies, malta de barba e cabelo comprido, novas tribos nunca antes ali vistas, a fumar substâncias estranhas e a banhar-se despidos nas águas do Coura, e a espantar os habitantes locais. Os relatórios da época dão-nos conta do choque de impressões, ainda que os relatores os tenham exagerado. 
O que é certo é que menos de três anos depois caía o Estado Novo. Não que tenha sido directamente por causa de Vilar de Mouros, como é evidente. Mas o festival trouxe ecos de fora do país, revelou nova hábitos e novas tendências, e obviamente novas visões que tornavam o Estado Novo ainda mais anacrónico e que serviram para passar uma página pouco tempo depois.

Raul Castro que se cuide.

segunda-feira, abril 04, 2016

Vícios para se fingir que se "está ocupado"


A proliferação de smartphones e aparelhos semelhantes com acesso à net por grande parte da população é um desespero para quem observa atentamente e um acto normal e indiferente para quem os usa. Se num acto isolado, numa espera, numa viagem, o seu uso é justificável e normal, torna-se exasperante aos que estão próximos ver pessoas em grupo, numa qualquer actividade social, a usá-los maciçamente, como se não estivesse mais ninguém à volta. Ainda no outro dia reparei em dois indivíduos, à mesa do restaurante, virados um para o outro, e que em lugar de conversarem normalmente teclavam com fúria, num silêncio toldado pelo ruído dos teclados. E não é invulgar vermos grupos de pessoas com alguns elementos pelo meio, até a meio de uma conversa, ou até a meio de uma conversa, absorvidos pelo ecrã sem quase reparar nos interlocutores.

Esse vício dos tempos actuais é provavelmente o substituto de outros gestos utilizados para não se parecer que se estava sozinho ou sem fazer nada. Até à emergência dos telemóveis, disfarçava-se a inércia (ou fazia-se de conta que não se viam pessoas menos desejáveis) olhando-se para o relógio, por exemplo. Depois apareceram os primeiros aparelhos móveis, e começou-se a falar em toda a parte, a enviar mensagens, a praticar joguinhos. Isso até os aparelhos se tornarem mini-computadores com todo o tipo de acessórios e aplicações. Até agora, só não servem café nem protegem da chuva.

Talvez isso tenha ajudado, além das questões de saúde, a diminuir o consumo de tabaco. Dantes, puxar de um cigarro ou de uma cigarrilha era, apesar de tudo, "fazer alguma coisa". Dava sempre a impressão de se estar ocupado, além de dar ares de pensamento profundo ou de boémia, conforme os ambientes. De há uns anos para cá, com a vaga anti-tabágica vinda directamente dos Estados Unidos, o fumo passou a ser proibido em quase todos os espaços interiores e a ser bastante menos tolerado. Muitos ficaram desarmados, sem o cigarro na mão. Mas tal como muitos hábitos mudaram mais por razões práticas do que morais, também o tabaco deve em parte o seu afastamento aos novos suportes tecnológicos. Havendo estes aparelhos, já não se tinha de "fazer alguma coisa" através do fumo. E uma nova ocupação, muitas vezes camuflada, surgiu. É certo que os espaços ficaram mais respiráveis, mas em contrapartida, são incontáveis as vezes em que alguém está absorto pelo ecrã, e se for para aqueles jogos insuportáveis, pior ainda. É bem verdade que a natureza tem horror ao vácuo, e a um vício sucede sempre outro.


sexta-feira, abril 01, 2016

Brasil, oportunismos e soundbytes


A trapalhada institucional, judicial e político-partidária que se está a passar no Brasil mostra bem até que ponto se leva a hipocrisia ao extremo para se alcançar o poder. Ou para o defender. Cá e lá.

O PMBD, partido que sustentava a maioria no congresso, resolveu retirar o apoio ao governo de Dilma Roussef e abriu caminho para a aprovação de um eventual impedimento (vulgo impeachment), que destituiria a presidente do seu lugar e que colocaria no seu lugar o vice-presidente, Michael Temer...que é o próprio presidente do PMBD. Para a vice-presidência, iria o presidente da câmara de deputados, Eduardo Cunha, que seria substituído pelo presidente do Senado, Renan Calheiros. Todos membros da cúpula do PMBD e todos implicados nas investigações da operação Lava Jato e por diversos casos de corrupção. O PMBD é, aliás, o maior covil de baixa política e casos obscuros, num sistema partidário onde por si só isso já abunda. O herdeiro do antigo MBD - o movimento que agregava os opositores à ditadura militar que vigorou entre 1964 e o início dos anos 80 contra o partido do regime, a ARENA, no sistema bi-partidário então existente - já gozou de um mínimo de respeitabilidade e já teve figuras de relevo. Actualmente é a maior formação parlamentar, tanto no congresso dos deputados como no senado, e tem uma fortíssima implantação local, com inúmeras prefeituras e governos estaduais, assentes num vasto caciquismo. À imagem de outros congéneres sul-americanos é um partido "pega-tudo" do centrão, de fraca ideologia, com o objectivo único do poder, que nunca tem candidato próprio à presidência do Brasil e que se alia ora a um ora a outro para garantir a manutenção do seu próprio poder. Já esteve com Fernando Henrique Cardoso, depois com Lula e Dilma, e provavelmente apoiará quem estiver na calha para a presidência. Agora rompeu com o PT, alegando as suspeitas do caso Lava-Jato, quando os seus dirigentes são exactamente os mais implicados. Terão uma oportunidade de se guindar ao poder e assim obter a imunidade necessária para escapar às acusações. Tudo gente honesta e altruísta, como se vê.


Por cá temos os nosso velhos conhecidos PCP e Bloco de Esquerda a protestar contra o "golpe" supostamente urdido pela "direita". Se os bloquistas ainda criticam a nomeação de Lula para o seu novo cargo (de forma a protegê-lo de investidas judiciais) e as jogadas do PT, o PCP nem isto admite e reafirma mesmo que o "golpe" tem por trás a mão da CIA. O radicalismo ideológico leva a picos de ridículo como estes, mas do PC, que continua a viver numa qualquer dimensão temporal pré-1989, tudo se espera. O "impeachment" pode ser uma jogada política eticamente reprovável e obscura, combinada por movimento políticos sem a menor moral para o fazer, mas a sua legalidade só poderá ser observada pela comissão de deputados, e portanto, poderá ser um acto absolutamente legal. A teoria do "golpe", e ainda mais patético, as teorias de que a CIA estaria por trás ou que se prepararia um golpe a sério promovido pelas forças armadas, podem parecer delirantes, mas o soundbyte que fica no ouvido é das armas mais utilizadas pelas nossas sociedades altamente dependentes da tecnologia e da informação ao segundo. Vermos dois partidos que apoiam um governo constituído por um partido que perdeu as eleições e que volta e meia dizem que "a direita está raivosa e ressabiada" porque "o governo é constitucionalmente legítimo" estarem agora com a conversa do "golpe" mostra até que ponto este assunto os deixa ainda mais raivosos e ressabiados, como se as manobras políticas ao abrigo de regras formais só fossem admissíveis para um espectro político.

Eis a hipocrisia política no seu estado mais descarado com a mesma disputa como fundo. Cá e lá.

terça-feira, março 29, 2016

Páscoa tranquila para uns e sangrenta para outros


Carnaval na rua, Páscoa em casa (ou vice-versa), diz-se popularmente. Este ano passou-se tudo em casa. Se bem que para os meus lados o tempo até tenha ajudado no Domingo Pascal e permitiu que se fizesse um conjunto de visitas a familiares nas proximidades e que o Compasso (este ano constituído em maioritariamente por raparigas, sinais dos tempos) não tivesse ficado ensopado. Chuva à parte, tudo correu bem por terras vilarealenses.

                                                    Viaduto sobre o Corgo, Páscoa 2016
 
O mesmo não puderam dizer aqueles infelizes paquistaneses que sofreram um atentado horroroso que matou mais de setenta pessoas, em grande parte crianças. Se na Europa os últimos tempos têm sido o que se sabe, imagine-se o que será no Paquistão, esse país caótico, violentíssimo e em grande parte tribal, que já viu de tudo, incluindo chefes de estado e de governo assassinados, fosse por ordem judicial, por transportes armadilhados ou por tiroteios. A população, essa, é vítima inúmeras vezes de atentados como o desta Páscoa, com os Taliban a quererem mostrar que estão activos também fora do Afeganistão. Ser-se de uma minoria, e particularmente, ser-se cristão nesse país deve ser um risco diário. Já agora, e dado que se fala tanto de islamofobia na Europa e de outras fobias, quando é que começamos a ouvir falar de cristofobia na nossa comunicação social? Os números e os factos não o justificam? Ou a linguagem politicamente correcta não o permite no seu vocabulário taxativo? 

terça-feira, março 22, 2016

Bruxelas, agora


Quando ouvi de manhã na rádio a notícia dos atentados de Bruxelas fiquei preocupado, mas não espantado. Era quase certo que mais dia menos dia haveria algo do género na sede das instituições europeias e capital do país que mais jiadistas enviou percentualmente para o Médio Oriente. A ameaça era latente, há poucas semanas Bruxelas tinha passado por um quase estado de sítio, depois dos atentados em Paris, e a prisão do seu orquestrador fazia pensar que as diversas células não iriam quedar-se no marasmo.
Mas fiquei particularmente incomodado porque ainda ontem à noite tinha estado a rever curiosidades e obras da BD fraco-belga, há muito um dos meus interesses, e a pensar que se fosse a Bruxelas, que não conheço, não seria para ver a Comissão Europeia, o Manneken Piss ou o Atomium, nem por causa dos chocolates (de que também sou fã), das moules frites ou dos jogos do Anderlecht, mas para ir ao museu de BD e às livrarias especailizadas. Na senda de Hergé, E.P. Jacobs, Bob de Moor, Morris e de tantos outros, um universo que em Portugal pode-se quando muito encontrar em alfarrabistas e antigas coleccções particulares e que se tornou na maior exportação e num dos cartões de visita da Bélgica. De tal forma que hoje, para exprimir o "luto", muitos cartoons inspiram-se em Tintin, provavelmente e ainda o "belga" mais conhecido.



PS: já que fazemos campanhas de solidariedade em cada atentado na Europa, que tal pensar na Turquia? Em duas semanas sofreram dois nas principais cidades, Istambul e Ankara, fora os dos meses anteriores.

domingo, março 20, 2016

Lula, Getúlio, Marx


A confusão que se vive hoje no Brasil, com as prisões saídas do Lava Jato e do Mensalão, as manifestações anti e pró-PT, a justiça federal tentando a prisão preventiva de Lula, as ameaças deste aos magistrados, a pouca idoneidade dos mesmos, a chico-espertice da actual Presidente ao nomear o antecessor para ministro para lhe garantir a imunidade, a suspensão judicial da nomeação, parece não ter fim. A cada hora há um novo capítulo e um novo caso. O país está sob fortíssima tensão, há quem apele às forças armadas contra o poder executivo de Brasília, outros clamam pelo poder popular, e pelo meio um dos partidos que suportava a presidência de Dilma, o PRB, conotado com a IURD, resolveu oportunisticamente mudar de barricada.
A história brasileira dos últimos cem anos é rica em caudilhismos, tentativas de afastamento de presidentes (algumas com sucesso) e manifestações populares mais ou menos histéricas. A tentativa de empeachment a Dilma e de prender Lula recordam o que aconteceu a Collor de Mello, e muito mais atrás, a Getúlio Vargas, um presidente muito popular que ao pressentir que o podiam prender, no exercício do cargo, por estar supostamente implicado na tentativa de assassínio de um adversário político, se suicidou, "saindo da vida para entrar na história". Não me parece que Lula seja do tipo suicidário, ou pelo menos espero que não. Mas talvez fosse bom mostrar-se mais razoável numa altura tão quente, e logo num ano em que se realizam os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, outra daquelas manifestações de regime decididas pelo PT e que se arrisca a tornar-se num requiem aos anos de crescimento económico que já lá vão. Se a confusão não aumentar no Brasil, Lula ficará talvez impedido de exercer cargos políticos por uns anos, inviabilizando qualquer veleidade presidencial. Não terá certamente o destino de Getúlio. Aqui Marx tinha razão: a história repete-se, primeiro como tragédia, depois como farsa.

terça-feira, março 15, 2016

Nicolau Breyner 1940 - 2016


Nicolau Breyner era daquelas personalidades de que não nos lembramos de não conhecer. Para além da sua participação em novelas (protagonizou a primeira novela portuguesa, "Vila Faia", como o camionista João Godunha), teatro, programas de humor, concursos, talk-shows, sitcoms desengraçadas e séries de humor engraçadas ("Gente Fina é outra Coisa", em que dirigiu Amélia Rey Colaço) e até uma breve passagem pela política - quando se candidatou à câmara da sua terra, Serpa, cometendo a proeza de levar o CDS ao segundo lugar em pleno Alentejo dominado pelo PCP - fica-nos acima de tudo a sua passagem pelo cinema, terreno onde demonstrava todo o seu valor e a sua versatilidade como actor, tanto em comédia como em drama. E resta-nos também essa obra e a imagem de um homem de fé - tal como este blogue, benfiquista, monárquico e católico - que parecia estar sempre bem com a vida.


segunda-feira, março 14, 2016

O partido de Assunção Cristas

 
Ainda não sei muito bem o que será Assunção Cristas no CDS. A sucessão de Portas será sempre complicada, se bem que aqui, ao contrário da anterior saída, tenha o apoio do ex-líder, e por isso não passará pelas dificuldades por que passou Ribeiro e Castro. Lançou algumas propostas que devem ser estudadas, como a reforma de segurança social e as regras de nomeação do governador do Banco de Portugal, reiterou o apoio a Rui Moreira nas próximas autárquicas e declarou que o CDS se vai lançar sozinho à câmara de Lisboa. São pontos importantes. Mas ideologicamente falando, se é que isso ainda conta para alguma coisa, Cristas ainda deixa dúvidas. Sendo democrata-cristã, é muito duvidoso que queria voltar aos tempos do CDS original e "rigorosamente ao centro" de Freitas, Amaro da Costa e Basílio. Mas também não pode seguir a linha tão pragmática de Portas, nem voltar ao conservadorismo eurocéptico de Manuel Monteiro, até porque os "monteiristas" no partido se devem contar pelos dedos. E o facto de ter chamado para o núcleo duro alguns nomes tidos como mais liberais, como Adolfo Mesquita Nunes e João Rebelo, ainda complica mais qualquer previsão.
 
Será interessante seguir o percurso do CDS de Cristas, tanto na sua parte ideológica como na programática. Sem esquecer, apesar de tudo, que pretende fazer um caminho com mais autonomia do PSD, agora "social-democrata sempre", com intuitos de apanhar o centro, o que liberta espaços à direita.
 
 

domingo, março 13, 2016

Uma semana inesquecível


Concluiu-se uma semana de sonho para o Benfica como há muito não se via. Todos os vitupérios, gozos e faltas de respeito para com Rui Vitória caíram por terra. Não que o técnica do Benfica tenha passado a ser exepcional, mas já deu provas de ser mais do que um mero "professor de ginástica". Demonstrou que é mesmo um técnico a sério e que o Benfica tem cérebro, ao contrário do que mastigava o seu antecessor.
Nos últimos dias, vimos o Benfica vencer em Alvalade - com sorte, mas com esforço e inteligência - depois de todos nos prognosticarem a derrota, para mais com a lesão de Júlio César, e o Porto a afundar-se em Braga nos seus próprios erros, e ainda fomos buscar a passagem aos quartos de final da Liga dos Campeões a S. Petersburgo, nas barbas de André Villas Boas. Ou seja, passagem para o primeiro lugar isolado do campeonato, derrotas dos dois rivais e uma vitória preciosa e emocionante frente aos milionários da Gazprom e ao insuportável Hulk, o "incrível" jogador que nunca subiu além da Rússia. Se na Luz o triunfo arrancado a ferros era um bom tónico depois do desaire com o Porto, na cidade dos czares, o Benfica, depois de uma primeira parte equilibrada, e de na segunda ter sofrido um golo estúpido e consentido, soube ir atrás do empate, ser inteligente, desequilibrar o adversário e dar o golpe de misericórdia, com uma vitória que já nem era necessária para a passagem aos quartos de final da prova mas que moraliza ainda mais para os próximos dois meses (e que melhora a classificação das equipas portuguesas na UEFA). André Villas Boas, que já se sabe que vai deixar o clube russo no fim da temporada e que tantos desgostos deu ao Benfica em 2011, volta a ficar com a carreira tremida. Uma pequena vingança co  saudações da Luz.
 
A semana pode ser de sonho, mas convém voltar à terra. Os quartos de final serão extremamente difíceis de passar, venha quem vier. Ainda há uma meia final da Taça da Liga por disputar em Braga. e o campeonato já está aí, com o Tondela, esse modesto clube da Beira Interior que está em último mas que já roubou pontos em Alvalade. E continuam a faltar alguns jogadores importantes. Cautela, portanto.
 
Mas o gozo dessa semana inesquecível já ninguém nos tira.
 
 

sexta-feira, março 11, 2016

Marcelo presidente

 
É oficial: Marcelo Rebelo de Sousa é o novo chefe de estado, já começou a quebrar o protocolo e as medidas de segurança e tem taxas de popularidade gigantescas. Não haja dúvida, é mesmo o oposto de Cavaco Silva, que exigia medidas securitárias exageradas em todas as situações e em todos os momentos. Mas é impossível não exibir pelo menos um sorriso nestes dois dias de Presidente Marcelo. Quebra as expectativas ao chegar a pé pelo lado oposto ao previsto, organiza um concerto nas ruas, homenageia mais portugueses do que era habitual e ainda estende a tomada de posse à segunda cidade do país. Hoje, na sua vinda ao Porto, na saída da câmara, na sua passagem no automóvel (a dada altura queria fazer o percurso entre os Aliados e o Palácio de Cristal a pé) e na visita ao bairro do Cerco, ficou visível a empatia que tem com o público e a espontaneidade dos gestos (digo não só pelas imagens mas também pelo que me contou quem esteve na cerimónia). Resta saber como será o mandato propriamente dito e a sua relação com todos os problemas que previsivelmente aí virão. Mas é sempre salutar ver um chefe de estado com tal à vontade e com um discurso de esperança. Quase que me concilia com a república. Mas falta o quase.
 
 
 
E só mais uma nota: aquelas bancadas do BE, do PCP e apêndices podem não ter aplaudido (julgo que com a excepção de uns BEs cá do burgo) porque "compreenderam bem o discurso de Marcelo que os desarmou e se aplaudisse freneticamente isso não caía bem entre as suas bases", segundo Freitas do Amaral. Mas quem passa o tempo a defender a Constituição, a república, e quando lhes convém, a democracia, devia ter um mínimo de coerência e aplaudir alguém eleito por mais de metade dos eleitores, que representa a república e que jura perante a CRP. Ao não o fazer, desrespeitam tudo aquilo por que se dizem bater. Mas não espanta nada vinda de formações com base no marxismo-leninismo, no maoísmo e noutros -ismos pouco recomendáveis, e que nunca tiveram o mínimo de respeito pelos seus adversários e ignoram olimpicamente o que seja a educação democrática. E pensar que desde Outubro que dizem que "a direita está raivosa". Nesse caso, a extrema-esquerda está esquizofrénica. Que sirva de aviso ao PS.

terça-feira, março 08, 2016

Sobre a retirada de cena de Cavaco Silva

 
 
 
Agora que Cavaco Silva está a poucas horas de se reformar fazem-se os balanços da vida sob o político que mais anos dominou esta terceira república. Na maior parte dos casos bate-se no homem. Não sou cavaquista e nem nunca votei nele, até porque em parte das ocasiões nem sequer tinha idade para tal. Nunca fui grande devoto do cavaquismo, que marcou uma década em Portugal, do seu triunfalismo, do arrivismo e do novo-riquismo que espalhou, ainda por cima com a sensação de que apanhou o poder no regaço e o manteve com uma boa dose de sorte e com uma grande dívida para com o PRD e a CEE. E muito menos gostei da sua face mais ressabiada e manipuladora em Belém, que revelou uma suceptibilidade e uma incapacidade de perceber inúmeras situações que não são dignas de um chefe de estado.

Dito isto, é bom recordar que se Cavaco esteve tanto tempo em S. Bento e Belém é porque alguém o colocou nas respectivas cadeiras. Ganhar três eleições legislativas, duas delas com maioria absoluta (e com 50%), não é para todos. Junte-se a isso duas vitórias nas presidenciais à primeira volta. Nem Mário Soares, com a sua alardeada popularidade, chegou a tanto. Como disse, o PRD, em 1985, ao roubar votos ao PS, e em 1987, ao canalizá-los para a enorme maioria laranja, a entrada na Europa, com os seus dinheiros, e a política de austeridade do Bloco Central ajudaram em muito à edificação do cavaquismo. Hoje é de bom tom criticar-se aqueles tempos, as construções faraónicas, o desperdício de dinheiro, a "destruição da pesca e da agricultura", etc. O que é certo é que a partir de 1986 houve uma sensação de melhoria, de começo de prosperidade e de paz social muito bem gerida pelos governos PSD. Construiu-se muito? Verdade, mas as auto-estradas, que servem em conversas jocosas como símbolo da "betonização" desse tempo são hoje em dia essenciais na vida do país, até porque as que foram então construídas ligavam os principais pontos do país. Ou alguém imagina a fazer Porto-Lisboa na velha Nacional 1? Ou a ir às capitais de distrito do interior nas velhas estradas às curvas? Quanto à agricultura e pescas, bastava que se recusasse o dinheiro oferecido em troca do abandono dessas actividades. Ainda me lembro de aprender que os países que se dedicavam mais ao sector primário eram os mais subdesenvolvidos. Na altura, poucos foram os que protestaram. em suma, grande parte da população sentia-se bem com o cavaquismo, ainda que o criticasse. Talvez porque se reconhecesse no governo e no político de Boliqueime e até no seu modo de vida.

A esquerda nunca gostou nem um bocadinho dele, responsabilizando-o por tudo, desde as acusações de ter pertencido à PIDE (uma acusação falsa e rancorosa, embora Cavaco não tivesse ajudado com a concessão de reformas a antigos pides) até ao tal despesismo (como se a esquerda fosse poupada), ou, ultimamente, de ter feito uma presidência de apoio ao governo de Passos Coelho, não se quedando assim "abaixo dos partidos" (quando Jorge Sampaio nomeou Santana Lopes, Ferro Rodrigues demitiu-se do PS acusando-o do oposto: de não ter sido fiel ao eleitorado de esquerda). A direita, sobretudo a mais classista e particularmente a que rodeava O Independente, nunca lhe desculpou o suposto provincianismo, a vulgaridade, o desdém pelas letras e as origens sociais de muitos vultos do cavaquismo (como aliás pôde ser comprovado com maior amplitude no recente livro sobre o jornal).
 
Mas o que é incrível é que apesar de tanta oposição, tanto achincalhamento e tanto desprezo (temperados por muitos "adesivos" e apoiantes oportunistas, em especial autarcas de outros partidos e artistas), e muitos o terem dado como acabado politicamente quando perdeu as presidenciais de 1996 para Sampaio, Cavaco Silva acabou por ser o político com mais sucesso do actual regime. Talvez não tenha sido directamente o sucesso de um país, mas resultou directamente de uma vontade popular que se reviu em Cavaco e no que ele representava. Bom ou mão, Cavaco é um produto do Portugal democrático. Reforma-se amanhã, finalmente. Os estudiosos vindouros aclararão o que realmente constitui o cavaquismo mais nas décadas que se lhe seguiram do que nos anos em que dominou o país.

sábado, março 05, 2016

Discos intemporais recordados


Avisado pelo Facebook, por amigos que me recordaram as datas, dei-me conta que o disco Out of Time, dos REM, que contém a grandiosa Losing My Religion, está a fazer bodas de prata. Surgiu em Março de 1991 e catapultou ao banda de Athens para o grande público (embora desde os dois álbuns anteriores que a sua popularidade estava em crescendo) e para o circuito dos estádios, tornando-a numa das maiores dos anos noventa. Já tem 25 anos.
 
Pela mesma via reparei que o álbum dos GNR Psicopátria está perto dos trinta anos. O disco que nos deu Efectivamente, Bellevue e Ao Soldado Desconfiado e que marcou a despedida de Alexandre Soares, e que reduziu a banda ao trio Reininho-Toli-Romão, está quase na idade de formar família. A primeira minha memória desse disco data do Verão anterior ao lançamento, em que vi cartazes colados na parede a anunciá-lo. Na minha meninice não percebi do que se tratava, e a capa com uma rapariga suspensa no ar sobre o Douro (que eu julgava ter um cabo invisível a segurá-la, ou coisa parecida) sugeria-me o anúncio da chegada de um circo. Levaria alguns anos até perceber o equívoco e a apreciar o álbum como um dos melhores, senão o melhor, que a banda já lançou. Já a rapariga da capa era mesmo um exemplo da juventude da Ribeira que cresceu a mergulhar nas águas ribeirinhas do Douro, e que, segundo uma entrevista da banda no ano passado, casar-se-ia mais tarde com o famigerado Guarda Abel - o que revela que era mesmo adepta de modalidades radicais.
 
 
Como sempre, fica o desabafo ao constatar a passagem dos anos: estamos a ficar velhos. Felizmente que os discos em questão não acusam a idade e continuam tão válidos como quando foram lançados.


PS: e como falamos de efemérides de recordações da infância/adolescência, registe-se que por estes dias Paulo Futre, essa enorme figura do futebol português, chegou também aos 50 anos.
 

segunda-feira, fevereiro 29, 2016

Óscares 2016 (na perspectiva de quem só viu resumos e leu quem tinha ganho)


Escrevo só mesmo para picar o ponto, já que todos os anos falo dos "prémios da Academia". Acontece que de entre os filmes nomeados para os Óscares vi muito poucos, até porque me parece que a colheita não era nada do outro mundo - aliás, de ano para ano, fico com a ideia que os nomeados são cada vez mais banais. Não maus, mas banais.

O Spotlight ganhou o prémio de melhor filme. Muitos previam, o assunto estava na "ordem do dia", o tema (investigação jornalística de pedofilia por parte de padres católicos em Boston) é premente, os actores conhecidos, e filmes sobre jornalistas em investigação caem sempre bem.
O Iñarritu ganhou o de melhor realizador. É o segundo seguido. Um pouco estranho pensar que Hitchcock nunca ganhou nenhum e o mexicano conseguiu ser bi-oscarizado. Ao menos não vai haver pretextos para que os "hispânicos" façam um qualquer boicote à cerimónia com o pretexto de que há poucos representados.
 
Di Caprio ganhou finalmente um Óscar de melhor actor. Não vi e duvido que vá ver The Revenant, mas o prémio parece mais ser pelas provações durante a filmagem e pelas numerosas cerimónias em que ficou de mãos a abanar. Nada contra, já merecia e enterra definitivamente os pruridos de quando era o pretty boy de Hollyhood e o seu talento pouco considerado.
 
Nos secundários estavam lá alguns nomes de peso, como Sylvester Stallone, agora muito respeitosamente tratado pela crítica. Mas o triunfo de Mark Rylance, em A Ponte dos Espiões, é justíssimo. Falo com a autoridade de ter sido um dos poucos filmes que vi (também tinha visto The Big Short, pelo qual Christian Bale estava injustamente nomeado, num papel demasiado cabotino e inferior, no mesmo filme, ao de Steve Carell), interpretando um Rudolf Abel sóbrio, com ar de pacato cidadão, perfeitamente inofensivo, tentando esconder um espião soviético odiado pelo país que o encarcerou.
 
Das duas actrizes que ganharam os prémios de interpretação feminina não posso dizer nada: não conheço os filmes em que entraram nem tampouco as próprias, de quem nem nunca tinha ouvido falar. Não digo que seja um sacrilégio que tenham ganho a Cate Blanchett e a Jennifer Lawrence, porque elas já ganharam, mas caramba, estava lá Charlotte Rampling, que merecia mais respeito.
 
Nos filmes estrangeiros, categoria a que vale sempre a pena estar atento, ganhou o filme sobre os Sonderkomandos, que pelo tema, deve ser pungente.
 
O melhor e o pior encontraram-se nos prémios musicais. Pior: o Óscar para a música de Sam Smith, provavelmente o pior tema musical de um James Bond de sempre, além do seu discurso ridiculamente gay (depois queixem-se que os homossexuais são acusados de serem promíscuos e coisas parecidas).
 
O melhor: Ennio Morricone, um mito vivo da música e do cinema, compositor de bandas sonoras desde os Western Spaghetti de Sergio Leone até aos filmes mediterrânicos de Tornatore, passando por Brian de Palma, Roman Polansky, Barry Levinson, e claro, o inesquecível oboé de A Missão ganhou um Óscar a sério, pela banda sonora do último Tarantino. É sempre bom ver caras (e sobretudo sons) conhecidos a ganhar prémios destes, e sobretudo é bom ver que desta vez a "Academia" conseguiu atribuir um galardão a um veterano a tempo.
 
Resta agora esperar que o próximo ano traga filmes que qualidade mais do que mediana. Para já, temos aí o novo dos Cohen, que incide precisamente...sobre Hollywood.

domingo, fevereiro 28, 2016

Sol de pouca dura

 
Nestes dias gelados e chuvosos com que o Inverno teima em brindar-nos (no seu estertor de moribundo, espero eu), recordemos as breves tréguas que tivemos recentemente em que até parecia que a Primavera já  estava a chegar.
 
 
S. João Nepomuceno, Museu Arqueológico do Carmo, Fevereiro 2016