quarta-feira, agosto 11, 2021

As bolhas geracionais

 

Na época de confrontos e polarizações a que temos vindo a assistir, só nos faltava o confronto geracional. Mas é o que está a acontecer. Além dos problemas directos, a pandemia parece estar a criar um crescente azedume entre as gerações mais velhas e as mais novas.

Não que seja apenas do último ano. É possível que com diferentes educações e uma comunicação demasiado virtual as fracturas já durassem há mais tempo. Vimo-lo com as referências, aqui há uns anos, da "peste grisalha". E vimos também a insuportável e birrenta frase de uma Greta Thunberg transfigurada pela raiva, o inesquecível How dare you, ao acusar os políticos de lhe terem "roubado a infância".

Há pouco tempo, por ocasião do dia dos avós, vi uma data de desabafos na net, incluindo uma daquelas coisas que algumas pessoas passam numa cadeia de mensagens, em que o neto perguntava ao avô como tinham vivido sem internet, telemóvel, etc, ao que o avô respondia que em compensação antigamente viviam com "dignidade, compaixão, bondade, humildade", etc, dando a ideia de que a geração do neto não tem quaisquer qualidades (reparo que ao afirmar que a sua geração tem todas as qualidades não é bem um sinal de humildade). Ao mesmo tempo, vêem-se nas redes sociais imensas recriminações às gerações mais novas por, em tempo de covid, juntarem-se, encontrarem-se, beberem em conjunto e outas malfeitorias. Alguns chegam a dizer que deviam era estar trancados em casa ou ajudar às tarefas da mesma, embora ignore se quem escreve tais coisas tenha algum estudo aprofundado sobre os trabalhos domésticas dos mais novos.

Todas estas recriminações geracionais, dos que desprezam os mais velhos e os tratam como trapos por aparentemente não terem "utilidade" aos que se estão nas tintas para os mais novos e acham que eles têm as mesmíssimas necessidades dos mais idosos podiam provocar mero desprezo ou até algum sarcasmo, mas causam-me apenas tristeza. Parece que são exactamente os extremos geracionais que são mais postos de lado pelos que estão a meio, que também terão as suas queixas (Sérgio Sousa Pinto falava há pouco com imensa graça da nossa geração dos anos noventa como estando entre "gerontes donos disto tudo e unicórnios imberbes"). Os velhos porque não são úteis, numa classificação utilitarista e hiper-materialista, e porque "ficam com as reformas todas", e os mais novos porque são "irresponsáveis" e "florzinhas de estufa". 

Contra mim falo, porque também isso já me passou pela cabeça em momentos egoístas e menos felizes. Mas a verdade é que esta incompreensão mútua, a existir, e se não for uma miragem do que se vê na net, é tóxica e não ajuda nem a uns nem a outros. Quando se começa a falar dos mais novos como "gente irresponsável", amiúde acompanhada dos auxiliares "no meu tempo" e "esta juventude de hoje", é sinal claro de envelhecimento, numa clara imprepração para o futuro. E quando vemos as acusações às gerações anteriores de terem deixado "uma herança pesada" às que se seguem, como a menina Thunberg, à qual, entre outras coisas, deixaram um sistema escolar que ao que parece ela não quis aproveitar, ignoramos tudo o que de bom deixaram, quando tantas vezes mesmo as má herança tiveram origem em intenções nobres. 

Sim, os mais velhos não pensaram só neles. E sim, os mais novos têm percepções diferentes, como em todas as gerações, e não são piores por isso. Os velho têm direito ao conforto, à compreensão e ao respeito. Os jovens a igual compreensão e a fazerem disparates e "irresponsabilidades" próprias do crescimento e da formação de carácter. Não compreendê-las é ficar-se na sua própria bolha geracional, sem perceber o passado de uns nem relembrar o seu próprio. Não é preciso que se compreenda e aceite tudo. Mas ao menos não julguemos que a nossa geração é que é bestial.

PS: a minha geração "rasca" não é definitivamente melhor, mas olhem que os tais anos noventa em que crescemos deixam saudades. Porque havia esperança e optimismo para todas as gerações. 

sábado, julho 17, 2021

A redenção pela bola

 Se as história de superação são apelativas, mais ainda se tornam se lhes forem acrescentadas certas concidências e acasos. O Euro 2020 que acabou há dias é disso exemplo.

Julgava que a superação seria a de um homem, Gareth Southgate, o actual treinador de selecção inglesa. Até agora, nunca a Inglaterra tinha ganho um jogo nos 90 minutos na fase a eliminar dos Europeus. Normalmente ficava-se pelo primeiro jogo (o guarda-redes Ricardo que o diga), tirando em 1996, quando a competição teve lugar precisamente em em solo inglês e ultrapassaram a Espanha nos penaltys. Só que nas meias finais jogaram contra a velha rival Alemanha, em Wembley, empataram a um golo e nas grandes penalidades um jogador inglês falhou, impedindo a sua seleção de chegar à final perante o seu público. O seu nome? Gareth Southgate.

Um quarto de século depois, Southgate levou a seleção inglesa pela primeira vez à final de um Europeu, tendo deixado pelo caminho a Alemanha, com um emotivo 2-0. Passadas as meias, de forma algo duvidosa contra uma aguerrida Dianamarca, a Inglaterra lá chegou a uma final, ainda por cima (e como quase todos os jogos que disputou) em Wembley, quase como em 1996 - quase porque se demoliu e reconstruiu o mítico estádio. E o povo enchia o estádio, ignorava os casos crescentes de covid e cantava, em fervilhante entusiasmo, It´s Coming Home, do célebre hino dos Ligthing Seeds Three Lions (A partir dos vinte segundos do video abaixo vê-se Southgate a falhar o penalty; noutra versão, a original, de 1996, aos 30 segundos a seleção inglesa marca um golo à portuguesa, defendida pelo malogrado Neno).


Não estava propriamente a apoiar os Three Lions, mas confesso que me interessava a ideia da redenção de um homem, que, 25 anos depois, naquele mesmo espaço, poderia conduzir a sua seleção à vitória na competição como treinador, depois de o impedir como jogador. Mas como sabemos, a história não acabou assim, e mesmo tendo chegado à final, a Inglaterra perdeu em Wembley com a Itália, de novo nos penaltys - e aqui sim, Southgate falhou pela escolha dos marcadores.

Mas se não houve redenção por um lado, ela veio de outro. A equipa técnica da Itália é constituída quase em exclusivo por velhas glórias da Sampdória de Génova, como Roberto Mancini, Gianluca Vialli, Lombardo ou Evani. E precisamente em Wembley, em 1992, na final da Taça dos Campeões perdida para o Barcelona de Cruyff, Mancini e Vialli, a dupla de ataque, os "gemelli del gol", jogaram juntos uma última partida. Vialli prossseguiu uma carreira  de sucesso na Juventus, Mancini na Lazio e ambos foram mais tarde técnicos de sucesso em Inglaterra. Até se reencontrarem na equipa técnica da selecção, um pedido expresso de Mancini, e que como se viu no Domingo, até pelo ambiente da equipa, voltou a dar resultado. 29 anos depois de perderem o título europeu de clubes em Wembley, ganharam o de selecções. É só isto, a redenção? Apenas o pretexto. Porque Vialli, já com funções na Azzurra, sofreu um canco no pâncreas, um dos mais difíceis de debelar, recuperou, teve uma recaída, e finalmente venceu-o completamente, sem mais vestígios. Chegou a dizer numa entrevista que "tinha vergonha de estar tão feliz", quando Itália sofria a primeira e mortífera vaga da pandemia. Um ano depois da sua recuperação, GianlucaVialli, que protagonizou uma destas superstições em que o futebol é fértil, no mesmo lugar onde não tinha sido feliz anos antes, voltou a festejar, em lágrimas, com todas as razões do mundo para o fazer, ou no mínimo com muito mais razões do que apenas um penalty falhado.



sexta-feira, julho 09, 2021

O florentino do Benfica

 

Há uns anos, apostava-se que Rui Costa seria um dia presidente do Benfica, e que o seu benfiquismo e o seu enorme conhecimento do mundo do futebol e dos jogadores seriam trunfos para o clube.

Hoje chegou o dia em que ele assumiu a presidência, ainda que "interina", mas é tudo menos entusiasmante, pelas circunstâncias da detenção de Vieira e indícios de trafulhice, pelo momento do clube, que já não era bom, e sobretudo porque o próprio Rui Costa era vice-presidente e há a sensação de queno mínimo não ignorava o que se passava.
Também há a hipótese de estar à espera que Vieira caísse para assim assumir as rédeas do clube, o seu grande objectivo. Talvez ainda possa surpreender. Mas isso seria demasiado maquiavélico.
E de repente lembramo-nos de que Rui Costa viveu vários anos e boa parte da sua carreira em Florença, a cidade de Maquiavel, e que até era conhecido pelos adeptos da Fiorentina como "il principe". Queres ver que ele é mesmo um"florentino" (e não o do Real Madrid)?

quinta-feira, junho 17, 2021

Importações da Hungria

 

Portugal pode ser campeão europeu em título, possuir um punhado de jogadores de imensa qualidade e ser comandada por um homem sedento de quebrar novos recordes. Mas a verdade é que bateu uma selecção húngara que, embora aguerrida e puxada por um estádio inteiro (um luxo único nos dias que correm), não é lá muito talentosa.
Não sei o que aconteceu ao futebol húngaro nas últimas décadas (há uns vinte anos era ainda pior), mas na primeira metade do séc. XX, e ainda mais nos anos 50, os magiares eram do melhor que havia a tratar a bola e o grande expoente deu nome ao estádio do jogo: Ferenc Puskas, um autêntico bombardeiro da área. Os húngaros esmagavam quem lhes aparecesse na frente e causaram grande surpresa ao perder a final do mundial de 1954 com a Alemanha (já tinham perdido outra, com a Itália), um daqueles jogos que quebra a regra do "só os vencedores são recordados".
Um dos sintomas da decadência húngara é ver que o treinador da sua selecção é...italiano. Noutros tempos, os técnicos húngaros deviam ser a maior exportação do país e nos anos 30/40 boa parte dos treinadores dos clubes portugueses provinham da Hungria. O mais famoso de todos era Bela Guttmann, de quem tenho aqui a biografia para ler, mas houve muitos que se naturalizaram portugueses, por aqui ficaram e até se naturalizaram, mudando o dome próprio, casos de Janos Biri (dos técnicos mais longevos do Benfica) e Mihail Siska, que passaram a chamar-se João Biri e Miguel Siska. Um caso curioso é o de Lipo Herczka: primeiro treinador campeão pelo Real Madrid, vem para Portugal, ganha vários títulos pelo Benfica e depois corre o país treinando Porto, Académica, Estoril, Vila Real (será que o meu avô o conheceu?) até acabar em Montemor o Novo, no Alentejo. Literalmente, porque lá morreu e está enterrado, como nos recordou Rui Tovar. E no Alentejo houve mais, talvez porque a paisagem lhes fizesse recordar a grande planície da Panónia.

segunda-feira, junho 14, 2021

Um imortal do 6-3

 

Bem sei que o já saudoso Neno esteve em jogos marcantes, como o 2-0 de César Brito ao Porto, os 3-1 ao Arsenal em Highbury, o 4-4 em Leverkusen ou quando o Vitória de Guimarães bateu o Parma (onde como homólogo tinha um jovem Buffon) por igual resultado. Foram dois jogos em que o "Júlio Iglesias português" não sofreu qualquer golo.

Mas prefiro lembrá-lo num jogo em que nem esteve particularmente bem e até sofreu 3 golos, mas que terá sido, possivelmente, o mais grandioso da sua carreira: o 6-3 ao Sporting. Basta dizer que era um dos homens do 6-3 para ficar desde logo imortalizado. Isso para além de ter nascido na primeira cidade erigida pelos portugueses em África e de ter morrido na cidade-berço de Guimra~es, num triste 10 de junho. Um abraço, Neno.

sexta-feira, junho 11, 2021

Tarzan como comentador

 Há uma epidemia nacional há muito espalhada e que contamina sobretudo comentadores de tv e treinadores de futebol. Não vejo medidas profilácticas, alertas para o contágio, barreiras para impedir a progressão e muito menos curas. O Dez de Junho também devia servir para se falar deste flagelo.


Refiro-me obviamente à mania de começar as frases no infinitivo. Todos os dedos de todas as mãos do país seriam poucos para contar a quantidade de vezes que ouvimos frases começadas por "dizer que...", "afirmar que...", "realçar que...", "assinalar que...", "lembrar que..." e tantos outros verbos no infinitivo seguidos de "que".

Tal como a escrita rápida de sms, o acordo ortográfico e a linguagem neutra para "não ofender", esta forma de falar é mais uma causa de empobrecimento da língua. Há imensas maneiras de se aplicar um verbo no início de uma frase, mas usar o infinitivo é preguiçoso, além de errado, e é mais digno da fala do Tarzan. Ninguém se admire se lá chegarmos.

quarta-feira, junho 02, 2021

Festivais, polémicas e coincidências

 

Regressou na semana passada o Eurofestival da Canção. Pela primeira vez, julgo eu, Portugal apresentou-se com uma canção em inglês. Não percebo porque é que numa prova musicial em que se colocam a julgamento representantes de países não se exige que cantem nos idiomas respectivos, ou se houver mais do que um, nalgum deles. A verdade é que os suecos Abba já ganharam por cantar em inglês, e depois de ter visto alguns concorrentes, os representantes portugueses deste ano, comandados por um senhor com pinta e nome artístico de índio norte-americano, estavam longe de envergonhar. 

O que me pergunto é se em tempos de políticas identitárias, culturas de cancelamento e revisões da História, os representante portugueses poderiam ser os Da Vinci, que há cerca de 30 anos, e com assinalável notoriedade, puseram um país a cantar "já fui ao Brasil, Praia e Bissau..." no tema "Conquistador", em cujo videoclip surgiam em destaque o Padrão dos Descobrimentos, o navio Sagres, a Cruz de Cristo e outros elementos capazes de espalhar o horror na convenção do Bloco de Esquerda e em boa parte do festival (não digo todo porque as diferentes sensibilidades surpreendem-nos). Tenho sérias dúvidas que começasse por passar no crivo do festival nacional, antes de ir ao internacional. A verdade é que os Da Vinci, que até aí eram um grupo pop-electrónico-futurista, seguiam o caminho traçado pelos Heróis do Mar, e tal como a banda de Pedro Ayres de Magalhães e Pregal da Cunha, tiveram amplo sucesso, embora mais efémero.


A música e respectivo video recordaram-me a polémica de há poucos meses, lançada por Ascenso Simões e as suas diatribes violentas sobre o Padrão dos Descobrimentos e outros monumentos com o cunho do Estado Novo (numa, particularmente infeliz e que ele se apressou a corrigir, dizia que no 25 de Abril "devia ter havido mortos"). 

E recordaram-me outra coisa, não sei se por coincidência ou não: os primeiros padrões, possivelmente os mais conhecidos, foram erguidos por ordem de Diogo Cão, na exploração à foz do Zaire e à costa do que é actualmente Angola. O próprio Diogo Cão (e um padrão) estão entre as personagens do Padrão dos Descobrimentos. E de onde é que Diogo Cão era originário? De Vila Real, onde tem justamente uma estátua erguida em pleno Estado Novo, com estética própria da época. Mais abaixo, na principal praça da cidade, fica a casa onde se supõe que terá nascido o navegador, mesmo ao lado da câmara municipal. Câmara essa que foi nos anos noventa disputada duas vezes por...Ascenso Simões, ele mesmo, no arranque da sua carreira política. Diga-se que as duas tentativas, aliás contra o mesmo candidato vencedor do PSD, redundaram em insucesso, se bem que da primeira tivesse ficado perto, fruto da troca de autarcas, mas só vinte anos depois é que o PS conseguiria finalmente ganhar na capital transmontana. 




Mas fica-se a pensar se estas ideias recentes de Ascenso terão sido uma forma de chamar protagonismo - não seria a primeira ocasião - ou se já as teria antes. Podemos então imaginar que, caso tivesse chegado à presidência da câmara, teria tentado derrubar a estátua de Diogo Cão, legado do Estado Novo que era, e  no mínimo disfarçado a casal natal do explorador. E por arrasto, imbuído de ideias revolucionárias radicais, podia-lhe ter dado para mandar abaixo a casa vizinha: é que mesmo ao lado do imponente difício onde nasceu o navegador, uma placa, numa habitação bastante mais modesta, avisa-nos que ali nasceu o capitão de Abril e chefe operacional do 25 de Novembro Jaime Neves, embora a sua família vivesse numa aldeia a uns quilómetros, Anta (vizinha da mais "urbana"S. Martinho de Anta, de Torga). Sabe-se lá se Ascenso Simões, para quem o 25 de Abril pecou por defeito e por excessiva complacência, ao qual o 25 de Novembro não teria trazido nada de bom, não se lembraria de arrasar também esta. Mas a democracia (municipal) não o permitiu. Lá está, a democracia, outra consequência funesta dessa revolução tão festivazinha sem sangue nem justiça popular.


PS: a reboque de Vila Real e dos acontecimentos em Ceuta, ia dizer que aquele território precisava era que voltassem os Menezes, condes e depois marqueses de Vila Real e governadores daquela praça no Norte de África. Diz a lenda que D. Pedro de Menezes estava a jogar um jogo de bola com um taco chamado aleu, quando o Rei lhe perguntou se defenderia Ceuta, ao que o Menezes respondeu que com aquele aleu defenderia a cidade. Hoje o aleu figura no brasão de Vila Real. Mas dizem-me que o Embaixador Seixas da Costa já se lembrou disto há dias, nas redes sociais, e de qualquer maneira, a (antiga) Casa dos Marqueses de Vila Real já se extinguiu há muito, a mando da Casa de Bragança quando ascendeu ao trono.


sábado, maio 29, 2021

Para uma final britânica perfeita

Uma pena que estejamos na situação em que estamos, com o distanciamento, as máscaras e etc, senão, como aperitivo para final da Liga dos Campeões, podíamos ter uns cantares ao desafio entre Mr. Damon Albarn, dos Blur e do Chelsea, e Mr. Noel Gallagher, ex metade dos Oasis e do Manchester City. Não sendo possível, Go citizens.



(Isto é mesmo ficção, porque se não fosse a pandemia a final seria em Istambul).

quarta-feira, maio 19, 2021

Gente sem condições

 

Hoje, depois de se saber que Rui Moreira ia a julgamento por causa do caso Selminho (oportuníssimo ser a cinco meses das eleições, mas adiante), dizia que não faltariam os oportunistas a tentar tirar proveito da situação.
Eles aí estão: Catarina Martins veio logo afirmar que "Rui Moreira não tem condições para continuar na câmara". Isto dito pela líder (ou "coordenadora") de uma formação que em cinco eleições possíveis NUNCA conseguiu elegeu um único vereador para a CM do Porto - talvez pelo Bloco portuense ser exclusivamente composto por sociólogos ou actores, como a própria Catarina - e que noutras autárquicas já apresentou candidatos que estiveram nas FP-25. Um deles apareceu mesmo no outro dia a escrever (entre outros textos com imensos erros) que não se arrependia de nada e que os assassínios cometidos "tinham mesmo de ser", antes de apagar a mensagem
Quem é que não tem condições mesmo?

terça-feira, maio 11, 2021

O Sporting de Amorim e Varandas

 

E confirmado o titúlo de campeão, resta dar os parabéns ao Sporting. São justíssimos vencedores, com uma equipa de miúdos e um ou outro jogador experiente, treinados por um também novíssimo Rubén Amorim (é só a parte que me custa, um confesso benfiquista levar o Sporting ao título) que, com mais ou menos dificuldades conseguiram fazer dos lagartos novamente campeões ao fim da maior seca de sempre - 19 anos.

É também uma bofetada desportiva nos Pintos, nos Vieiras e nos Salvadores, nos Conceições e Jesus e em todos os que se achavam donos do futebol, e last but not least, nos Brunos de Carvalho e nos seguidores que ainda tem, os mesmos que agora andam a comemorar despoletando confrontos e pancadaria, a ralé brunista da invasão ao centro de estágios. É bom não esquecer que Bruno de Carvalho é que era o modelo de "líder", o "vencedor", o que ia fazer do Sporting campeão...E afinal de contas o seu sucessor e opositor, Frederico Varandas (o Dr. Watson português, já que como o fiel assistente de Sherlock Holmes também tem o posto de capitão e esteve em missão no Afeganistão como médico do exército) recolheu os cacos, teve de montar nova equipa, apostou com grande risco em Amorim e agora colhe os louros. Uma grande lição de como se pode ser vencedor sem andar com discursos incendiários, bravatas ou truques baixos, e, espero eu, com seguidores no futebol português.

PS: só tive pena que o Sporting se tenha sagrado campeão vencendo o Boavista, que ganhou o seu único título de campeão há exactamente vinte anos, em 2001 (isto da passagem do tempo...) e que agora está numa situação periclitante no campeonato. Espero que os do Bessa se aguentem.

quarta-feira, março 10, 2021

A costela portuguesa dos Daft Punk

 

Os Daft Punk, talvez o grupo (ou duo) de música electrónica mais famoso do globo, resolveu encerrar actividades, anuncionado-o numa mensagem lacónica a fazer justiça à imagem silenciosa dos seus elementos. Além de silencisos, eram discretos, tanto que nem mostravam os seus verdadeiros rostos em público, coisa que nos tempos actuais até parece visionária. No entanto, têm algumas curiosidades, com a origem de um dos elementos do dueto, que recordo aqui na adaptação de um post já com uns anos (podem vê-lo aqui, se quiserem).

Nas cerimónias de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Sochi, destacou-se o conhecidíssimo Coro do Exército Vermelho, a cantar uma divertida versão de Get Lucky, dos Daft Punk, uma das músicas mais tocadas dos últimos anos nas pistas de dança de todo o Mundo. Um espectáculo com piada, e que é um hino à globalização: um grupo de rapazes russos a cantar, numa cerimónia internacional no litoral do Cáucaso, uma música em inglês da autoria de um duo francês, um dos quais com apelido português.

Ora o elemento de origem lusitana é Guy-Manuel de Homem-Christo, francês de terceiro geração, trineto do jornalista e polemista republicano Homem-Cristo (pai), reconhecido na toponímia aveirense, e bisneto de Francisco Homem Cristo (filho), que se destacou por ter sido o primeiro grande intelectual e propagandista do fascismo em Portugal, e cuja biografia política, Do Anarquismo ao Fascismo, é da autoria de Miguel Castelo Branco. De tal maneira ganhou a confiança de Mussolini que se tornou logo um dos principais "embaixadores" do Duce para espalhar a nova doutrina pela Europa e até mesmo para organizar um congresso do fascismo em Itália. Morreu em 1928, em Roma, num desastre de automóvel, no decurso dessas actividades políticas, quando já vivia e tinha família em França. O início da carreira dos Daft Punk, e em certa medida o seu progresso, pode ser visto no filme Eden, de Mia Hansen-Løve, baseado na percurso do seu irmão na música electrónica, onde conviveu de perto com os Daft Punk, sem nunca alcançar o enorme sucesso destes

O irónico disto tudo é que provavelmente o Coro do Exército Vermelho, surgido, como o próprio nome indica, no tempo da União Soviética, não imaginaria sem dúvida estar a cantar uma música da autoria do bisneto de um notório propagandista do fascismo, inimigo mortal (ou outra cara da moeda?) da URSS. E com toda a certeza Homem Cristo Filho, admirador e defensor do fascismo italiano, jamais pensou que um seu descendente directo comporia músicas em inglês que seriam cantadas pelo coro do Exército Vermelho. Não seria essa, com certeza, a divulgação que pretenderia, mas o certo é que um seu descendente com o seu nome acabou por se tornar mundialmente conhecido pela sua música, e não certamente pela sua ideologia política (nem pela sua cara, já que o duo há anos que só aparece em público mascarado).



Relembre-se ainda que tanto o Homem Christo pai como o filho são referidos no Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros, de uma forma pouco elogiosa, como não podia deixar        de ser naquele texto verrinoso onde ninguém escapa.



terça-feira, março 09, 2021

A visita pastoral ao Iraque

 

Chegou ao fim uma das mais delicadas e perigosas, mas também uma das mais significativas, viagens pastorais do Papa. Entre a pandemia e as bombas que o infeliz país tem sofrido há vários anos, a viagem ao Iraque parece ter corrido muito bem e permitiu cumprir vários objectivos, como o encontro com o Ayatollah Sistani, a grande autoridade xiita do Iraque, as vítimas do Daesh e as celebrações com as tão massacradas (e antiquíssimas) igrejas da Mesopotâmia, e são tantas, apesar dos fiéis mingarem por causa das perseguições e da violência.


O Papa conseguiu ainda ir a Mosul, a vizinha da antiga Nínive, no coração da Mesopotâmia, a cidade ocupada e devastada pelo Daesh, há poucos anos. Tinha sido precisamente na principal mesquita de Mosul que o "emir" al Baghadi proclamara o Estado Islâmico, em 2014, e anunciou que conquistaria Roma. Aconteceu precisamente o contrário: o Bispo de Roma é que entrou em Mosul, mas sem armas. Lembra um pouco a pergunta de Estaline, entre risos: "quantas divisões armadas tem o Vaticano?". A verdade é que o regime de Estaline já não existe, mas o Papa continua a saudar as multidões na Praça de S. Pedro ou em qualquer outro local. Até no Iraque, em 2021.






quinta-feira, fevereiro 11, 2021

O caminho incerto das ideologias ( à boleia com as da direita portuguesa)

 

Com as presidenciais lá veio a eterna discussão da "reconfiguração da direita", esse assunto cornucópia da política portuguesa. Primeiro com os resultados de André Ventura (e do Tiago Mayan) nas presidenciais. Depois, quando Adolfo Mesquita Nunes desafiou Francisco Rodrigues dos Santos para um congresso, vendo o CDS mirrar e perder peso. Uns levantaram-se em seu apoio, a começar pelo grupo parlamentar, outros cerraram fileiras em volta de "Chicão", invocando uma "tentativa de golpe" e outros deixaram os órgãos partidários aos quais pertenciam sem contudo se juntar às hostes rebeldes. O presidente da formação manteve-se, embora enfraquecido. Não é propriamente um facto inédito: se há partido português com historial de lutas fratricidas é exactamente o CDS. Freitas sempre teve de enfrentar dissenssões e afastou-se com a ascensão de Monteiro, que protagonizou mais tarde uma luta feroz com o seu antigo amigo, Paulo Portas. Os apoiantes deste nunca se conformaram com a chefia de Ribeiro e Castro e não descansaram enquanto não repuseram na lidernça o seu inspirador. Cristas teve de enfrentar críticas duríssimas e agora Rodrigues dos Santos sofreu um levantamento de rancho. Aquele partido leva as lutas tão a sério que até já teve estalo a valer nos seus congressos - pelo menos num Avelino Ferreira Torres andou à pancada com outro confrade. E neste caso não seria mal maior se não tivesse a Iniciativa Liberal e o Chega a limitar-lhe o espaço, problema que antes não havia.

A ajudar  à dita "reconfiguração" Pedro Santana Lopes saiu do seu Aliança, que tinha criado há pouco mais de dois anos, e anda por aí à procura uma câmara municipal disponível que lhe sirva de poiso.

Faits divers à parte, e deixando um pouco de lado a interminável discussão da direita portuguesa (à qual vou voltar em breve), a situação do CDS não deixa de ser intrigante. O partido sempre se gabou de ter três componentes: a democrata-cristã, a liberal e a conservadora. A liberal pode estar a mudar-se para a mais enérgica e definida IL; a conservadora dará a sua preferência ao Chega, muito embora este seja um emaranhado de coisas que pouco tem a ver com o conservadorismo clássico, o que daria razão aos que desconfiavam que o CDS albergava alguns reaccionários sem outro pouso e que muito do seu eleitorado estava à direita dos dirigentes. Mas e o democrata-cristão? Aquele que não se revê na face libertária da IL nem nos vitupérios de Ventura ou aproximações a LePen? A julgar pelas sondagens é minoritário, embora até conheça vários que estariam numa situação de orfandade caso o partido desaparecesse. O assunto é também objecto de análise de um artigo recente de André Lamas Leite


Não é para menos: a democracia-cristã, cujo berço será a Itália nos inícios do séc. XX e o Partido Popular de Sturzo e De Gasperi (é em sua homenagem que o PPE e restantes partidos populares se chamam assim), está em acelerado declínio, mesmo que parcial e nominalmente ainda pareça dominar em alguns países, como a Alemanha e a Áustria. Mas definitivamente parece estar longe da força e da influência de outros tempos, talvez por vivermos em sociedades que se têm vindo a tornar mais seculares, e o CDS é a prova nacional disso. 

Mas não é caso único. O comunismo, que, para voltar a um exemplo anterior, durante décadas dividiu eleições em Itália com a mesma democracia-cristã, teve uma queda abrupta desde os anos oitenta e ninguém minimamente lúcido aposta nos amanhãs que cantam como força dominante. Mesmo nos países de regime comunista, como a China e o Vietname, já é algo bem diferente do maoísmo original (muito embora permaneça o controlo ditatorial da sociedade), e Cuba é de uma decadência inimitável. Da social-democracia também há anos que se ouve falar do seu esmorecimento, e tirando alguns países onde o poder a mantém, como Espanha e Portugal, tem caído a olhos vistos, como em França, Grécia e Alemanha. O conservadorismo encontra-se numa cruzamento de dúvidas, entre versões descafeinadas e apelos reaccionários. O liberalismo, embora tenha alguns seguidores entusiastas, não parece ser capaz de formar governos, talvez vítima do seu próprio sucesso, já que as suas principais premissas foram cumpridas na maior parte dos regimes democráticos. A extrema-direita teve de abandonar, ao menos à superfície, quaisquer inspirações fascistas, sob pena de ficar absolutamente marginalizada. E as querelas entre monárquicos e republicanos não têm nem um naco da relevância de outrora.

Parece que as ideologias que nos habituámos a seguir no séc. XX já viram dias mais pujantes. Os partidos portugueses também as seguem, e por ora ainda resistem, embora se vejam sinais de erosão no CDS, como se disse, e no PCP. Dir-se-ia que o que realmente está em ascensão são os partidos ecologistas e "verdes" (e mais modestamente os animalistas), o nacional-populismo, ou seja, direitas radicais ou extremas convertidas à democracia (outra influência italiana?) e em certa medida o liberalismo. Serão estas as futuras ideologias predominantes? Veremos confrontos entre estes blocos políticos, reduzindo os restantes -ismos a discussões bizantinas ou a memórias históricas? Terão a companhia de novos movimentos - os federalistas, por exemplo? Ou juntar-se-ão a outras atrás descritas que irão novamente reerguer-se e ocupar o seu velho papel de hegemonia?




segunda-feira, fevereiro 08, 2021

As ajudas mútuas entre Portugal e a Áustria

A Áutria vai receber doentes portugueses com covid em cuidados intensivos. Confirma-se É uma ajuda preciosa e um bom exemplo de como pode funcionar a cooperação europeia. Até porque não é a primeira vez nesta crise pandémica que doentes de um país são acolhidos noutro.

Não só não é inédito entre os dois países como até teve exemplos pré-UE. Deve haver quem se lembre de ouvir os pais ou os avós falar de crianças austríacas que vieram para Portugal no fim da II Guerra, para serem acolhidas quando o seu país estava num estado lastimável, e precisava de ser reconstruído. Houve-as em toda a parte, num trabalho organizado pela Cáritas portuguesa, e dinamizado por uma princesa do Liechtenstein. Conheço vários exemplos de acolhimento dos meus familiares de Vila Real. Alguns mantiveram contacto, outros não e outros reapareceram ao fim de décadas, visitando inclusivamente as antigas famílias de acolhimento (em alguns casos nas mesmas casas). Muitas destas crianças vinham ainda com traumas, como o de fugir quando ouviam um simples foguete, pensando que era um bombardeamento, ou olhar pasmadas para as cascas de batatas a ser deitadas fora, como se servissem de alimento. Certamente que deveram muito do seu crescimento ao facto de terem vindo para cá nesse período de reconstrução da Áustria - e de outros, porque ao que me dizem também as houve de França e da Finlândia. Esperemos agora que bem menos portugueses tenham de ser acolhidos pelo chanceler Kurz.



sexta-feira, janeiro 29, 2021

Salvar vidas. Ou ajudar a acabar com elas


Tudo tem um tempo próprio para ser discutido. E eis o tipo de discussão de que não precisávamos mesmo. Debater e aprovar a eutanásia em tempos tão sombrios, em que estamos com as maiores taxas de mortalidade em muitas décadas, para além de um indiscutível mau gosto, é mórbido, inoportuno, insensível e perverso. Agora sim, pode-se usar o argumento que por vezes é lançado para desviar o assunto: o país tem coisas muito mais graves com que se preocupar.

Entretanto há quem se preocupe realmente em salvar vidas. É muito grato saber que em tempos tão difíceis temos a velar por nós gente comprovadamente competente, exigente, empenhada, que acredita naquilo que faz - e essa crença ajuda-os ainda mais - e que não se limita a falar com um jargão técnico como quem se limita a debitar números e dados científicos. Imprimem excelência à sua actividade, isto é, salvar vidas, sem nunca se tornarem em robots terapêuticos.

terça-feira, janeiro 26, 2021

Depois das presidenciais

Notas:

Marcelo ganhou. Esmagou. Não tem o melhor resultado de sempre em presidenciais mas é o primeiro a vencer em todos os concelhos. Tudo isto praticamente sem campanha. O seu mandato sai reforçado. Na noite eleitoral revelou enfim o seu programa, coisa que não tinha feito nas semanas anteriores, e teve o único verdadeiro discurso presidencial. Resta saber se vai actuar como noutras coabitações com um partido diferente no segundo mandato - em competição hostil com o governo, como vimos sobretudo com Soares e Cavaco.

Ana Gomes consegue o segundo lugar mas não a segunda volta. Difícil colocá-la entre vencedores ou perdedores. Em teoria é vencedora, porque alcança o segundo lugar apenas com os apoios oficiais de PAN e Livre, e é talvez responsável por impedir que Ventura fique em segundo. Mas teve uma campanha pouco substantiva, nunca conseguiu ter um assunto-âncora, triando talvez a justiça, e sem aspirações dentro do PS ou a lugares de relevo, não se sabe o que ganhará realmente depois disto.

André Ventura tem um resultado agridoce (mais doce do que acre, é verdade). Obtém um resultado excelente em números, cilindra a esquerda nalguns dos seus feudos, particularmente no Alentejo, fica em segundo em quase todo o interior, queda-se a pouca distância de Ana Gomes. E no entanto esta diferença para a diplomata tem peso, já que esse era o objectivo primordial declarado, a ponto de o obrigar a demitir-se. Claro que na prática o dano será nulo, porque voltará à liderança já a seguir por aclamação. Mas ao ouvir aquele discurso alucinado, a colocar a Iniciativa Liberal na extrema-esquerda e a afirmar-se como "enviado de Deus", fica-se na dúvida se está demasiado deslumbrado ou se é conversa para galvanizar a assistência. Convém lembrar que os votos das presidenciais não são deles nem duradouros, como aprendeu Manuel Alegre ("o meu milhão de votos") e Basílio Horta, que em circunstâncias parecidas teve 14% dos votos, para meses depois o CDS alcançar pouco mais de 4%. E que o desafio das autárquicas, completamente diferentes de eleições nacionais, penaliza agudamente os novos ou pequenos partidos. O Bloco que o diga.

Apostei que João Ferreira teria um resultado superior ao de Marisa. Acertei por pouco. Teve também mais do que Edgar Silva, há cinco anos, o que não é consolo nenhum. O resultado de Ferreira é menos que medíocre, incipiente (e inferior a Ventura) no Alentejo, coloca em causa o futuro do seu partido junto de populações que lhe eram tradicionalmente fieis e mais até, coloca em risco a sua ascensão a futuro secretário geral do PCP, quando era o mais bem colocado para isso. A rever: teve a campanha com maior orçamento de todas, o que demonstra que, principalmente em tempos de pandemia, não vale a pena andar com grandes gastos.

Marisa Matias é a outra grande derrotada da noite. Não só tem um resultado substancialmente inferior às candidaturas que encabeçou, há cinco anos e nas últimas europeias, como perde aquele particular  combatezinho com o PCP para ver quem tem mais votos. É possível que tenha perdido um pouco para Ana Gomes, mas pareceu sempre estar a cumprir um papel que lhe tinham pedido. Perdeu o efeito novidade e também o de ser mais simpática que Catarina Martins e as manas Mortágua. Talvez não influencie assim tanto o futuro do Bloco, que já caiu e já se reinventou, mas a avaliar pelo discurso da "coordenadora", causou alguma preocupação entre a esquerda radical.

Tiago Mayan. Sou suspeito, mas acho quase impossível não o considerar um dos vencedores da noite. Partiu para a corrida como um elemento apoiado pela Iniciativa Liberal desconhecido do grande público, entrou nas entrevistas tímido e a calcular as palavras, mas aos poucos ganhou confiança, não teve receio de afrontar quem quer que fosse (até houve quem o considerasse demasiado ríspido), explanou as suas ideias e a sua ideologia e ganhou muito com isso. Não sendo uma votação fabulosa, é superior ao que as sondagens lhe davam (as primeiras atribuíam-lhe 1%), sem dispôr de grandes gastos nem figuras de primeira água a apoiá-lo. Ganhou o seu próprio espaço e o seu partido, mais estruturado e menos fulanizado que o Chega e com mais aura de novidade que o Bloco, ganhará certamente com isso. 

Vitorino de Rans - fica em último mas consegue novamente um resultado honroso, não muito abaixo do de 2016, salvo que agora não ganhou em Rans. É sem dúvida uma personagem que consegue atrair a atenção, a simpatia - e alguns votos. Resta saber se vai fazer alguma coisa com esta popularidade. É bom lembrar que tem o seu próprio partido, o RIR, que tem estabelecido ligações a outras pequenas formações. Desconfio que as suas candidaturas não vão ficar por aqui.

Abstenção: muito grande, mas não extrema. Um obrigado a todos os delegados às mesas e a todos os que trabalharam no processo eleitoral.



domingo, janeiro 24, 2021

Presidenciais 2021


A CNE que diga o que quiser. Desde que a Net espalhou a palavra o dia de reflexão perdeu a sua utilidade.

Como deixei claro no post anterior, estas eleições não podiam calhar em pior altura. No pico do Inverno e nos dias mais negros de uma pandemia fatigante e galopante, numa eleição presidencial em que o incumbente concorre a um segundo mandato (e praticamente nem teve campanha eleitoral nem ao menos um programa presidencial), a abstenção prevê-se elevadíssima. Ao menos que não haja filas extensas.

Marcelo, em condições normais, estaria reeleito. Sendo tudo menos normais, e mesmo que seja de todo improvável que não fique em primeiro, uma segunda volta não é de descartar, o que tornaria mais interessante a luta pelo segundo lugar, que está em aberto. Ana Gomes quer consolidar o seu lugar de "justiceira" actual do regime, com a sua oposição implícita a António Costa e mais ainda a Marcelo. Não sei o que tem exactamente a ganhar nesta altura da sua vida, mas a resposta pode ser algo entre o sentido do dever e o chamamento do protagonismo.

Já André Ventura não quer de forma alguma ir para Belém, mas tenta aqui a prova das sondagens e a consolidação do seu movimento para tentar no futuro influenciar uma maioria de direita. Fá-lo com uma campanha de declarações estrondosas, como a dos "portugueses de bem", de vitimizações constantes e de tentativas de se fazer notar, facilitada com os manifestantes que protestam à sua passagem. 

À esquerda, as habituais candidaturas do PCP (quase nunca falha) e Bloco. Condições diferentes em relação a 2015: Marisa não traz nada de novo, parece conformada, e nem o seu ar "genuíno" e mais simpático do que Catarina Martins e as manas Mortágua a sustenta. Ainda é nova, e talvez precise de novos desafios. Por outro lado, João Ferreira, já não exactamente um desconhecido, tenta segurar e medir o eleitorado PCP numa candidatura que tresanda a futuro secretário geral do PCP. Note-se o percurso exactamente igual ao de Carlos Carvalhas, que também foi candidato à câmara de Lisboa (ficou em segundo), cabeça de lista às europeias e candidato à presidência da república, antes da tarefa digna dos sete trabalhos de Hércules de substituir Cunhal na chefia do "Partido". No geral, teve uma campanha competente, apesar de ter sido o candidato que mais gastou (para quê?). Ficarei surpreendido se Ferreira não ficar à frente de Marisa, até porque o eleitorado desta que não seja tão fiel ao Bloco tenderá a votar em Ana Gomes.

E por falar em Carvalhas, a grande novidade da campanha chama-se Tiago Mayan Gonçalves. Ao contrário da generalidade das pessoas, não era para mim o candidato mais desconhecido, antes pelo contrário. Conheço o Tiago Mayan há mais de vinte anos, já lhe chamei presidente numa associação estudantil internacional à qual pertencemos e aliás estive com ele em situações que já partilhei neste blogue (como esta). A alusão a Carvalhas reporta à parecença física com o antigo SG do PCP, e a uma situação, há já vários anos, em que alguém apontando para um cartaz comunista com a fotografia do seu líder, exclamou: "olha, o Tiago no cartaz", para desespero do agora candidato liberal. A verdade é que sem notoriedade anterior e sem ser uma figura pública (confessou a Miguel Sousa Tavares que aquela era a primeira vez que era entrevistado para a televisão), revelando algum nervosismo inicial e a inexperiência natural, conseguiu passar a sua mensagem de candidato liberal, dirigindo-se sem punhos de renda a Marcelo, traçando um fosso com Ventura e fazendo contrastar as suas ideias com as da esquerda. Para primeira experiência política em nome próprio, sem ser a fazer campanha por outros, leva nota positiva.

Por fim Vitorino Silva, como agora é chamado pelo nome próprio o "Tino de Rans". Sem ofensa, acho que podia ser o modelo do Zé Povinho para os nossos dias, em versão mais educada, e palpito que ele até nem desdenharia. A sua candidatura parece não fazer lá grande sentido, até por ser repetida, e terá previsivelmente menos votos do que há cinco anos. Mas é possível que arrebanhe alguns eleitores fartos da partidocracia e convencidos por um candidato com aura genuína, que não sendo um génio está longe de ser parvo e que é o "que se dane" possível para quem se dá ao trabalho de ir votar não se reconhecendo no candidato incumbente e nos candidatos partidários.

Pode desde já dizer, sem surpresa, que o meu voto, não me reconhecendo em tdoas as suas ideias, vai para Tiago Mayan. Não fosse ele e não saberia em quem votar: no presidente actual que nem programa tem, na candidata justicialista que tudo põe em causa, nos candidatos da esquerda mais dogmática, que o fazem pelos seus partidos, na candidato da direita populista que apregoa a ideia aberrante de que não seria presidente "de todos os portugueses", no candidato "do povo" de que poucas ideias concretas se conhecem...?

Três desejos mais, votem em quem votarem: que a abstenção não seja tão grande como alguns prevêm; que não piore o estado caótico da pandemia; e que não haja segunda volta. 

terça-feira, janeiro 19, 2021

Porquê em Janeiro?

Admito que fosse difícil, ou mesmo legal e constitucionalmente impossível, alterar as datas das eleições presidenciais para mais tarde. A questão é: porquê em Janeiro? Por causa do prazo da tomada de posse do Presidente? Isso não é alterável? Recordo que as primeiras eleições presidenciais tiveram lugar em Junho (de 1976). E que há uns anos, as autárquicas, que eram tradicionalmente em Dezembro, passaram a ser em Outubro também com o argumento, se não estou em erro, do frio. Então porquê essa obstinação em manter estas eleições no mês mais gélido? Decididamente, a república e os seus actos de afirmação não ajudam nada.

domingo, janeiro 17, 2021

Dezassete

Só para avisar que já blogo há dezassete anos, e que consequentemente este blogue, se sobreviver, atingirá a maioridade daqui a um ano. Esperemos que sim.




sexta-feira, janeiro 08, 2021

Assaltar parlamentos


Ao ver as imagens do "índio" a encabeçar a invasão do Capitólio, só posso pensar que o slogan de Trump era afinal de contas "make America indian again" (desculpem não usar "first nations", como agora se usa em correctopolitiquês, mas realmente não ficava bem).

Aquelas imagens devem ter deixado todas as repúblicas das bananas a rir-se, ou pelo menos a sentir-se vingadas. Aliás isso já se viu através de comunicados da Venezuela. São imagens que esperaríamos que viessem de países assim.

Isto choca mais por ser numa das maiores, mais antigas e mais sólidas democracias liberais, com todos os seus defeitos. Mas já aconteceu antes, sim.

Em França, em 1934, uma massa de antigos combatentes, grupos nacionalistas, tradicionalistas (como na altura pujante Action Française) e fascistas tentou marchar sobre o parlamento, no que resultaram dezenas de mortos e feridos. Anos depois iriam na sua maioria colaborar com a ocupação alemã.

Em 1981, um grupo de militares espanhóis, comandados pelo pitoresco Tejero Molina e o seu chapéu da Guardia Civil, ocupou as Cortes de Espanha, com o intuito de instalar um novo regime militar-franquista, impedindo a tomada de posse do novo governo, e só se renderam quando o Rei Juan Carlos a isso os obrigou.
 
E mesmo em Portugal, em 1975, recorde-se o celebre episódio em que as "forças populares", isto é, alguns milhares de trabalhadores da construção civil, cercaram o parlamento por 36 horas, não deixando os deputados sair nem sequer para comer, excepto os das suas cores políticas. Depois disso, o então primeiro-ministro, Almirante Pinheiro de Azevedo, diria aquele icónico "fui sequestrado, não gosto de ser sequestrado, é uma coisa que me chateia".
 
Escusado será dizer que todas estas tentativas não pretendiam instalar nada de bom e acabaram por ser vencidas pela força das instituições e pela vontade popular, a autêntica, expressa nos votos.



quinta-feira, dezembro 31, 2020

A sorte da Torre Bela

Há coincidências que se entrelaçam quase de propósito. Quando se voltou a falar na herdade da Torre Bela, por causa daquela matança de gamos e javalis disfarçada de caça, e se recordou a ocupação da propriedade em 1975 e o célebre vídeo da "enxada da comprativa", eis que morre o protagonista de ambas, da ocupação e do filme, Wilson Filipe. 

A tentativa de criar uma cooperativa popular naquela terra, à altura propriedade dos Duques de Lafões, uma das últimas famílias aristocráticas pré-liberalismo, é um bom resumo do PREC. Embora fosse uma expropriação selvagem, a verdade é que esteve longe das barbaridades dos sovietes. Olhando os numerosos testemunhos audiovisuais de tudo aquilo, há momentos de evidente comicidade, e nota-se também bastante ingenuidade da parte dos ocupantes, à mistura com o oportunismo de uns tantos aventureiros e revolucionários de ocasião. 

A história da propriedade acompanha desde então o percurso recente de Portugal. De imensa herdade de caça de uma das principais casas ducais, passou a "cooperativa popular", fruto da revolução, durando uns anos, até ser encerrada pela Lei Barreto e o fim do PREC; entretanto, os antigos proprietários receberam a correspondente indemnização, e a agora propriedade, crê-se, de testas de ferro de uma família angolana, preparava-se para ver parte do seu terreno transformado numa central fotovoltaica, pelo que tinha de se transformar a antiga coutada através de uma "montaria" cirúrgica, que também daria para ganhar uns euros extras, e que tão mal caiu nas notícias e nas redes sociais. Coutada de caça, cooperativa popular, central fotovoltaica: as vidas da Torre Bela ao longo das décadas.



Paralela a essas metamorfoses ao sabor dos tempos, temos também duas opções ambientais que se excluem: a reserva florestal de vida selvagem e a central de produção de energia solar. Para se obter energia limpa que não a dos combustíveis fósseis e não renováveis, há que sacrificar um raro habitat de fauna livre. Nada de espantar: as barragens também armazenam água e produzem electricidade, ao mesmo tempo que mudam o clima local, os ecossistemas e retêm sedimentos levando à redução as praias. As ventoinhas eólicas enxameiam as nossas serras. Para não falar das opções da energia nuclear. Valores ecológicos que se excluem mutuamente e que dependem de um sem número de outros factores. 

Por fim, outra história, mais distante e de outro país, mais indirecta mas ainda assim ligada. A saga da Torre Bela foi contada por Thomas Harlan, um realizador alemão de "cinema activista", entusiasta da esquerda radical, talvez para fugir da sombra do pai, Veit Harlan, um dos cineastas mais notórios do Terceiro Reich. Harlam pai dirigiu O Judeu Suss, provavelmente o mais conhecido filme propagandístico anti-semita da época, que no fundo também correspondem a duas gerações alemãs: à que aderiu (ou se adesivou oportunisticamente) ao nazismo e à seguinte, com simpatias pela esquerda radical e até pela extrema-esquerda, que levou à criação de grupos terroristas como os Baader-Meinhof, para se afastar da precedente, numa tentativa de expiar os seus crimes. Escrevi sobre isso quando morreu Thomas Harlan, há uns anos, pelo que não vale a pena repetir-me.

Resta saber se a Torre Bela se tornará uma central fotovoltaica, voltará a ser um terreno de (autêntica) caça, ou o que mais for. Certo é que é um manacial imensos de histórias e de episódios dos quais podemos tirar inúmeras comparações.


Um ano melhor para todos.

terça-feira, dezembro 22, 2020

Os méritos da comunicação social

Tenho lido por aí que só agora é que a comunicação social tem dado atenção ao caso Homenyuk, que durante nove meses não se ouviu nada, etc, etc. Lê-se isso nas redes sociais mas também de outras paragens inesperadas, como alguns jornalistas em guerra autofágica contra a própria classe. Nada mais injusto, nesta ocasião.


Pegando nas palavras de um dos responsáveis do que sucedeu, houve quem não ouvisse nada. Porque desde fins de Março que se conhecia o casos e os seus contornos, que se sabia que algo de muito errado se tinha passado com o ucraniano e os agentes do SEF, e tudo isto porque a comunicação social o divulgou. Se o caso não teve mais repercussões é porque as pessoas até agora tinham ligado pouco.

Em lugar de bater sempre na imprensa, que tantas vezes e ao contrário do que se passou agora não cumpre as suas funções, seria bom pensar que talvez as redes sociais não sejam assim tão informativas ou eficazes. Afinal de contas, soube-se disto em fins de Março, quando a pandemia tinha repentinamente surgido e estava tudo em casa. Lembro-me aliás de ter sido o primeiro caso que não o covid-19 a abrir os noticiários em muitos dias. E não foram com certeza os "jornalistas" de smartphone que divulgaram a situação. Algumas pessoas ligaram mais, de certa forma para se libertar do totalitarismo informativo covidiano, mas outras pouco terão ligado. Até agora, quando a viúva do pobre Homenyuk disse "odiar Portugal"(e poderemos nós censurá-la, por muito que nos custe?). Através da comunicação social, claro.

Por isso, culpe-se o SEF, a ANA, o governo que só agora é que resolveu dar uma compensação à família, o ministro Cabrita, o presidente ou outros, mas deixem de se atirar à comunicação social. Há imensas razões e oportunidades para criticá-la. Eu próprio já o fiz, aqui no Delito. Mas ao menos, e ao contrário do que acontece com inumeras páginas manhosas da net, que atraem sempre alguns discípulos hipnotizados, os artigos vêm sempre assinados e podemos saber quem foram os seus autores. Aqui é manifestamente injusto que assaquem as culpas à CS, porque é graças a esta que sabemos os contornos do caso.

PS: E já agora, um exercício de "achismo": sabendo-se que as máfias de países como a Ucrânia controlam amplamente o percurso dos emigrantes, extorquindo-lhes o que podem, não poderá ter havido uma qualquer infiltração no SEF por parte do crime organizado e a sessão de tortura sido uma acção punitiva ou para o obrigar a pagar algo?

terça-feira, novembro 24, 2020

Uma época para pôr filmes em dia

Este fim de semana, graças ao "recolher obrigatório", consegui cumprir uma proeza há já muito desejada: ver o Lawrence da Arábia até ao fim. Um filme de quase quatro horas, com uma espectacular fotografia, daqueles que se vêem melhor no grande ecrã, coisa que implicaria também aí uns três intervalos no cinema (hoje já raramente há um).

Já não vou a uma sala de cinema desde Fevereiro, mas acho que nunca vi tantos filmes como este ano. Vida mais caseira oblige. De obras clássicas como a citada, ou o "Dr Jivago", também realizado por David Lean, ou ainda "A Janela Indiscreta", "Blade Runner" e "Os Três Dias do Condor", até ao "The Hangover" - parte 3, "Dumb and Dumber", ou às últimas Missões Impossíveis, passando por algum cinema português de décadas passadas, como a exibição dos filmes de José Fonseca e Costa que a RTP tem vindo a fazer, e "clássicos modernos" que me faltavam, ("Forest Gump", Signs", "A Noiva Cadáver", etc), tenho visto de tudo e ainda me faltarão algumas fitas que queria ver este ano. A TV por cabo, a possibilidade de gravação, a Netflix e os DVDs é que têm permitido esta saciedade cinematográfica sem sair do sofá.

Com esta bagagem variada, daqui a uns tempos ainda me dá para fazer crítica de cinema. Tendo em conta que a maior parte dos críticos parecem estar sempre a escrever uns para os outros, com um vocabulário muito deles, tratando os filmes como se fossem ensaios filosóficos e não narrativas, e aquele mau hábito de descrever o desfecho ("e na última cena do filme, quando, antes de morrer..."), acho sinceramente que não faria pior figura.



quarta-feira, novembro 18, 2020

Ribeiro Telles e Esteves Cardoso

Ainda voltando a Ribeiro Telles, recorde-se também que era ele ainda o líder do PPM quando Miguel Esteves Cardoso surgiu como cabeça de lista pelo partido nas eleições europeias de Julho de 1987, que se realizaram em paralelo às legislativas (as mesmas que deram uma enorme maioria absoluta a Cavaco Silva, reduzriam o CDS ao "táxi" e esvaziaram o balão PRD). Depois de uma campanha imaginativa e irreverente, que fariam escola no PSR e mais recentemente na Iniciativa Liberal, conseguiram cerca de 2,8% dos votos, a melhor marca do PPM, e ficaram a escassos milhares de conseguir colocar MEC no Parlamento Europeu. Em 1989 Esteves Cardoso voltou a apresentar-se, mas com menos percentagem e, sobretudo, devido à abstenção, que começava aí a ser tradição nestas eleições, com menos votos. Se tivesse aguentado o mesmo número de eleitores de 1987 teria sido eleito sem grandes problemas. Mas nesse ano já Gonçalo Ribeiro Telles deixara o seu lugar a Augusto Ferreira do Amaral

Num dos Arquivos da RTP Memória, onde se encontram autênticos tesouros esquecidos e muito interessantes testemunhos, pode ver-se uma festa do PPM numa discoteca, com Ribeiro Telles à conversa na pista e Esteves Cardoso combinando um casaco de ganga com o inseparável laço. Anos oitenta...



quarta-feira, novembro 11, 2020

Gonçalo Ribeiro Telles 1922 - 2020

Uma notícia não inesperada mas muito triste. Deixou-nos Gonçalo Ribeiro Telles. Já tinham anunciado estupida e apressadamente a sua morte, há uns tempos, mas como aconteceu com Mark Twain, a notícia era manifestamente exagerada. Falamos de uma figura maior do nosso país, com quem infelizmente estive vezes de menos. Do arquitecto paisagista que ganhou o prémio internacional mais importante da área (o Sir Geoffrey Jellicoe). Do homem que reorganizou o movimento monárquico e ecologista depois do 25 de Abril, fundando o PPM - partido monárquico, ruralista e verdadeiramente o primeiro partido ecologista português, muito antes do PAN e bem mais substantivo que os Verdes - e na continuidade o MPT, com alguns ex-PPM e do Movimento Alfacinha. que foram precisamente os partidos em que votei quando finalmente ganhei esse direito.

 
Ribeiro Telles era o último líder vivo da AD e curiosamente o mais velho. Exerceu o cargo de Ministro da Qualidade de Vida no segundo governo da coligação e criou a RAN, a REN e os PDMs. Concorreu à câmara de Lisboa pelo PPM, no meio de inúmeras candidaturas, e conseguiu ser eleito vereador. Lisboa deve-lhe o corredor verde de Monsanto, os jardins da Gulbenkian e o jardim Amália Rodrigues, atrás do parque Eduardo VII, entre outros. Defendia conceitos recebidos no início com estranheza pelos puramente citadinos, como as hortas municipais e a necessidade absoluta das cidades combinarem zonas de cultivo e zonas verdes com o emaranhado urbano. Defendia também uma regionalização natural, seguindo as muitas regiões naturais de Portugal, desconhecidas da esmagadora maioria, para além do traçado político e burocrático. As suas ideias levaram muito tempo a ser adoptadas, mas aos poucos começaram a ser implementadas.
 
É esse legado que, embora tarde e a más horas, lhe fará justiça e que o seu nome e projectos sejam preservados. Cabe-nos construir um Portugal seguindo as boas e urgentes ideias que Gonçalo Ribeiro Telles generosamente lhe deixou. O país perdeu hoje um dos mais ilustres portugueses. Eu perdi uma das minhas maiores referências cívicas e políticas.



Reacções ao cordo regional e falta de memória

O acordo para viabilizar o novo executivo açoriano trouxe à memória a constituição da "geringonça" e o precedente que causou. Ou antes, devia ter trazido.

Por um lado, temos o nosso PM, arquitecto da geringonça, o homem que permitiu todo este novo desenho parlamentar, que tirou sentido ao voto útil ao fazer acordos com os que até aí eram inimigos de longa data e de natureza completamente diferente, a criticar o PSD e a referir-se a "linhas vermelhas". Mas a questão em 2015 não era a de que se não houvesse geringonça "a direita ficaria no poder"? E isso implicava atravessar inhas literalmente vermelhas para fazer tratados com os seus velhos inimigos (por vezes mais do que advesários)? Então...
 
Por outro, temos um abaixo assinado de um conjunto de pessoas de alguma forma ligadas ao centro direita que critica os acordos com direitas "iliberais". Os subscritores já foram mimoseados nas redes sociais com os habituais insultos do cardápio - "direita fofinha", "direita de que a esquerda gosta", "cobardes", "pusilânimes", etc. Ora isso lembra muito o tipo de remoques que socialistas como Francisco Assis ou Sérgio Sousa Pinto ouviram por se oporem à geringonça e avisarem com que esquerdas estavam a assinar. Lembram-se dos "traidores", "neoliberais do PS" e "vendidos à direita" que lhes atiravam? É que alguns dos que então os aplaudiam (até havia o jargão "Assis, salva o país") viraram-se agora indignados contra a "direita de que a esquerda gosta".
 
Francisco Assis demite-se de cargo europeu após ser impedido de falar pelo  PS - Política - Jornal de Negócios
 
É fantástico ver como a falta de memória gera os oportunismos mais descarados. E também tem o seu quê de divertido.

sábado, outubro 31, 2020

Travar os turcos


A avaliar por algumas leituras rápidas, o culpado destes casos de terrorismo que ocorreram em França nos últimos dias é de Emmanuel Macron e das suas declarações. Só que Macron não incitou ninguém à violência; limitou se a dizer o que devia ser dito: que aquele país tem regras, que não podem ceder à violência de fanáticos e que quem não gostar de viver naquela sociedade não pode impôr regras e tem de se sujeitar às vigentes, dentro do sistema democrático e da liberdade de expressão que este concede.

 Se há alguém que tem de ser condenado é em primeiro lugar Recep Erdogan, um dos maiores incendiários do nosso tempo. Só este ano já enviou tropas para a Líbia para proteger a sua facção, reconverteu a Santa Sofia, outrora maior igreja da cristandade e nas últimas décadas um museu, em mesquita, apoiou o Azerbaijão na guerra contra a Arménia na questão do Nagorno-Karabakh nvectivando os arménios de forma inaceitável (um chefe de estado turco a dizer coisas semelhantes aos arménios equivale à chanceler alemã a insultar judeus) e agora diz que Macron tem "problemas mentais" e apela ao boicote à França; ou seja, a França é atacada no seu território por extremistas gritando "Alá Akhbar"e ainda recebe ameaças deste fulano. Relembre-se que nos anos anteriors já tinha um extenso currículo com a repressão aos curdos, a participação na guerra da Síria (onde atacou mais os curdos que o Daesh, por vezes até favorecendo este último nos ataques que realizava às YPG), a reacção à tentativa de golpe de estado de 2016 com a prisão de milhares de pessoas, tentou fazer comícios às populações emigrantes turcófonas em países europeus a quem, perante a evidente recusa, acusou de serem "nazis", etc, etc. Por importantes que sejam as relações comerciais com a Turquia, já é tempo de pôr essa sinistra criatura no seu lugar e de chamar os bois pelos nomes. Se assim não for, o sultão de opereta vai continuar a insultar e a incendiar impunemente, aproveitando-se de qualquer fraqueza para estender a sua influência neo-otomana. Agora talvez se perceba porque é que a Grécia tem uma fatia tão grande do PIB reservada à defesa.

Nenhuma descrição de foto disponível.

terça-feira, outubro 13, 2020

As Bodas de Prata da Britpop

 

Ah, os anos noventa. Depois da nostalgia dos oitenta, eis que a última década do século também desperta saudades, até porque invoca um tempo de paz, prosperidade e optimismo (coisa com que nem todos concordarão, sobretudo na Sérvia, Rússia ou Ruanda). E olhando para os tempos sombrios que atravessamos, essa sensação nostálgica ainda se acentua mais.

Como todas as décadas do último meio século, a cultura pop teve uma influência tremenda. O surgimento dos cinemas em multiplex, a TV por cabo, a entrada em cena, ainda que lenta, da internet (e dos telemóveis), e claro, a música, com os concertos de estádio e os festivais a replicar-se em cada Verão. A música pop, em especial, assistiu a uma melhoria visível em relação aos anos oitenta. Se ainda havia vestígios fortes do hard-rock orelhudo (de que os Gun´s Roses, com hercúlea popularidade, que aliás ainda se mantém, foram demonstrativos), surgiam outras correntes, mais despojadas e substantivas, como o Grunge, da região de Seattle, tendo os Nirvana, Pearl Jam e Soungarden como embaixadores itinerantes, grandemente influenciados pelo indie-rock dos Pixies e dos Sonic Youth.

No país que tinha inventado a pop-rock moderna, o Reino Unido, dominava o desânimo nos primeiros anos, passada que estava a época dos Queen, Pink Floyd, e também de Thatcher e dos Smiths, aliás (algo malevolamente) influenciados pela Dama de Ferro. Mas aí a chegar aos idos da década, e com um primeiro travão do Grunge, os britânicos começaram a ver uma luz. E ela tornou-se especialmente ofuscante no Verão-Outono de 1995, há precisos 25 anos, quando irrompeu a que ficou conhecida como a Batalha do Britpop, essa nova corrente que resgatava os Beatles e outros artista dos Swinging Sixties.

A imprensa musical britânica, bastante pujante à época mas desejosa de uma boa novela épica, aproveitou os novos lançamentos de dois grupos emergentes para criar uma guerra pop. Os Blur consolidavam a sua obra depois do excelente Parklife e os novatos Oasis lançavam-se ao "difícil segundo disco" após o prometedor Definitely Maybe, ambos de 1994. Antes do lançamento dos discos propriamente ditos vieram os singles, ainda em Agosto de 1995, com propaganda à altura, qual combate no ringue. Assim se cunhou a "Batalha da Britpop" e começou a rivalidade. Para mais, as próprias características sociológicas dos dois grupos prestavam-se a isso: de um lado os londrinos Blur, de Damon Albarn, de classe média e pólos Ralph Lauren; do outro, a classe operária pós-industrial de Manchester dos Oasis dos irascíveis irmãos Gallagher . O single dos Blur, Country House, venceu o primeiro assalto a Roll With It. Mas com os álbuns seria diferente. 


The Great Escape, dos londrinos, saiu logo em Setembro e teve enorme sucesso da crítica e do público, no Reino Unido (e vendas medianas na Europa). Em Outubro saiu (What´s the Story) Morning Glory, dos mancunianos, bem considerado pela crítica e um estrondoso sucesso comercial tanto no Reino Unido (onde ainda hoje é dos álbuns mais vendidos de sempre) como na Europa e nos Estados Unidos. A ajudar à festa, trocas de provocações e de críticas azedas, em especial vindas dos Gallagher, que nem entre si se entendiam. De qualquer das formas, a rivalidade teve tal impacto que os britânicos discutiam qual das duas era a maior banda pop-rock do Mundo, e consta que os nomes dos manos Gallagher, Liam e Noel, foram dos mais atribuídos às crianças do país em 1996, ano em que a Inglaterra recebeu também o europeu de Futebol, que curiosamente marcou o regresso da Selecção Portuguesa às grandes competições oficiais.


Mas nem só à rivalidade Blur-Oasis se limitava a Britpop. Na altura surgia a Terceira Via, protagonizada pelo emergente, sorridente e europeísta Tony Blair e o seu New Labour, prestes a abocanhar os despojos do imenso desgaste dos Conservadores. A Britpop também tinha a sua Terceira Via, com os Pulp, que por aqueles dias lançavam o fabuloso Different Class, com Jarvis Cocker dançando enquanto entoava Disco 2000 e Common People (diz-se que directamente inspirada pela mulher de Varoufakis). E embora não tivessem discos novos em 1995, os Suede também tinham direito ao seu galardão de pioneiros do gênero musical da moda. Outros aproveitaram a onda, como os Elastica, James, Ocean Colour Scene, Kula Shaker, The Verve, etc. E diga-se que esses meses nem foram propriamente destituídos de qualidade no que toca à pop-rock. Também em Outubro de 1995, igualmente há um quarto de século, os Smashing Pumpkins revelavam o superlativo Mellon Collie and the Infinite Sadness, e os Radiohead, a quem também tentaram erroneamente ligar à Britpop, tinham lançado The Bends.



Cavalgando a onda do estilo em voga e da Cool Britannia, Tony Blair chegou ao poder em 1997. Precisamente a altura em que a Britpop começava a esmorecer, sendo progressivamente substituída por outras correntes. Os grupos continuariam as suas carreiras, nalguns casos separando-se e voltando a
juntar-se (menos os Oasis, à espera da reconciliação dos irmãos), mas o êxito de meados dos anos noventa tinha ficado para trás, embora artisticamente tornassem a apresentar projectos válidos. De qualquer maneira permaneceu a memória desses saudosos meados dos anos noventa, protagonizada por personagens carismáticas, antes da música desmaterializada. Os protagonistas da Britpop estão vivos e activos, ao contrário da maior parte da brigada do Grunge, e comemorar as suas Bodas de Prata impõe-se numa altura mais sombria. Teremos com certeza mais novidades deles. Hurrah pela Britpop!